outro incerto entardecer: o Homem no chão

E LÁ SE VAI MAIS UM DIA

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Dos roedores e insetos, dos galináceos e batráquios ao Homo sapiens sapiens

A frase terrível de Dostoiévski cabe aqui: Todos nós somos culpados de tudo. Essa outra também tem uma estirpe nada engraçada: Sou o mesmo de ontem: mas diferente. (DMC). Pois bem, todos e todas com máscara e gel, sob o pavor constante do invisível, embora seja bem visível sua presença, cuja origem ainda é de fato desconhecida. Quebrou a espinha dorsal do mundo vasto mundo gasto mundo.

Enquanto isso, o povo perambula, deambula e vira bula, mas o mundo arcará com sequelas por duas décadas, ou mais, bem perceptíveis a olho nu e cru, outras tantas percepções serão sutis, mas o fato é que aqui e ali e acolá e além-lá todo mundo está sonso, o desânimo em cada poro, a gente toda toda raivosa, fora de si, de um modo ou de outro, insones, cuja vigília dá em êmese e pirexia, sim, vômito e febre, e eis que o céu da boca tornou-se deserto, mas os e as farristas continuam de vento em popa, e por isso ouvi ontem no Mercado Central de BH a pergunta erudita: Torquemada (foi Inquisidor-Mor da Inquisição Espanhola), o que foi feito do garrote vil da Idade Média, e de antes, de depois, contra estes necrófagos, estas zinhas ?

Onde uma cama ou maca com pregos e selos para o fim deste Terror ? Não há cama para o drama que assola senhores e damas, reis e rainhas e suas ladainhas ? este que fustiga reis do rock progressivo, tanto quanto atrizes do mundo lascivo; que desarma da vida jovens e até crianças, que suga as notas musicais que tu e eu ainda temos que tocar, e que se abate sobre nós feito um cardume de piranhas, feito o veneno do baiacu, as pinças da jararaca e o veneno letal, este, sim, dos preços nas bancas ?

Darlan M Cunha

MPB-4 canta SIDNEY MILLER.Pois é, pra quê. : Pois é, pra que – MPB 4 – YouTube

MPB-4 canta MAGRO e PAULO CÉSAR PINHEIRO. Canto dos Homens – MPB4. – YouTube

comportamento(s)

o pão nosso de nem sempre

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@1

Vamos zelar pela fresca sobre a feira geral: verduras legumes carnes queijos quitutes e tachos, imagine uma peixada ou feijoada ou sopa de legumes nestas panelas de pedra-sabão, doces nos tachos de cobre, o mercado abre às seis, vamos descarregar a alegria, esvaziar caminhões e arrumar as bancas, porque o povão, os bárbaros vêm aí.

@2

Assisti na RAI Italia uma longa e delicada entrevista com Pelé, algo adoentado, o mestre, sempre solícito, concedeu uma longa entrevista à televisão italiana, ele respondendo às perguntas a partir da casa dele, com tradução simultânea do italiano para ele. Vieram à tona a Suécia, os mais de 1200 gols documentados, foi eleito por milhares de jornalistas do mundo todo como sendo O Atleta do Século 20, o único jogador com 3 Copas do Mundo, sendo que a primeira delas, um feito nunca igualado, foi aos 17 anos, e por aí foi a conversa bem humorada com os italianos mostrando o grande mestre sendo recebido por papas, rainhas, reis, crianças, mostrou-o recebendo uma dose da anti-covid 19, e então eis a foto incrível com a Rainha Elizabeth II, a qual fez questão de ir ao vestiário do Santos no dia do gol número 1000: Pelé estava todo ensaboado na foto magistral, modesto e encabulado, mas sorridente pelo grande feito, foi cumprimentado pela Rainha da Inglaterra, imagens mostrando-o com diplomatas, atrizes e atores, presidentes de várias nações, ele com outros grandes atletas do mundo, enfim, uma lenda verdadeira de ossos e carne. Muito embora esteja adoentado, retirado da vida tão atribulada, mantém o carisma, o respeito para com o Outro, o que sempre o caracterizou. Vi e ouvi essa entrevista de grande gabarito ontem à noite, por acaso, enquanto rodava pelos poucos canais que assisto.

@3

Amanhã, terei um compromisso inarredável: minha Mãe Maria José completará 89 anos. Um sonho, algo que extrapola qualquer nível de emoção. Lúcida, anda pra lá e pra cá, faz tricô e crochê, faz doces e biscoitos para os netos netas bisnetas bisnetos e vizinhos, não sossega. Tô rindo à toa. Bobão e babão é isso.

Darlan M Cunha

ELZA SOARES canta GONZAGUINHA (VÍDEO OFICIAL): Comportamento geral: https://www.youtube.com/watch?v=Ttn6V_r3D9Y

bichos

Pesadelo >>> Nightmare

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De pesadelo em pesadelo

Os bichos estavam arredios, agitados e desconfiados do que se aproximava, grande demais para que fosse notado de onde vinha ou o que era, mas os bichos têm dentro de si uma percepção extra a que chamamos de sexto sentido que parece avariado nos humanos. Foi o que se deu com o Grande Tsunami: dias antes, a terra tremia bem de leve, e os bichos começaram a ir-se de seus lugares, trilhas, tocas, nichos e ninhos, e ninguém atentou a isso, nenhum dos 250 mil mortos em minutos. Dias antes, os elefantes, amarrados a correntes, estavam indóceis, e se foram arrebentando tudo. Nenhum elefante morreu. É um fato constatado pelos sobreviventes. Ao longe o mar – repetindo aqui este famoso e delicado verso. Há 14 meses temos algo que a todos sufoca (sufocar significa falta de ar, digamos aos esquecidos), mas muitos ainda teimam em convidá-lo à casa, à mesa, à cama, à maca. Bom, o café está esfriando.

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From nightmare to nightmare

The animals were restless, agitated, and suspicious of what was approaching, too big to notice where it was coming from or what it was, but animals have within themselves an extra perception that we call a sixth sense that seems broken in humans. This is what happened with the Great Tsunami: days before, the earth shook very lightly, and the animals started to leave their places, trails, burrows, nests, and nests, and nobody paid attention to it, none of the 250,000 dead in minutes. Days before, the elephants, tied up in chains, were unmoved, and they went about tearing everything apart. No elephant died. This is a fact verified by the survivors. In the distance the sea – repeating here this famous and delicate verse. For 14 months we have had something that suffocates everyone (suffocating means shortness of breath, let’s tell the forgetful), but many still insist on inviting it to the house, to the table, to the bed, to the stretcher. Well, the coffee is getting cold.

Darlan M Cunha

tempo não é de rir, 4

As Amigas

Tenho aqui, sobre a bancada onde escrevo, leio e estudo, alguma coisa: uma e outra rara ideia (miolo mole). Sei que pensar fundo e alto, um horizonte de 360º, é o que há de mais alto. Pois é. Pensando nisso, vejo à minha frente o bambuzinho que está há uns trinta anos com a família, de uma beleza incrível, alguns dizem que é renda portuguesa, há de várias espécies, mas para mim é um bambuzinho com espinhos nas hastes, sempre viçoso, está a três palmos do meu rosto, viu bisnetos e bisnetas nascerem, assim como a maioria absoluta das muitas netas e netos de meus pais. Bem teimoso esse cara é, recusa-se a murchar – ao contrário do rumo de atitudes cotidianas que vemos por aí, mundo afora, nesse tempo sem igual. Saiba o que aconteceu em Londres, 1666. Tente imaginar a Peste Bubônica numa época na qual os cadáveres eram levados em carroças diariamente, às centenas, nenhuma tecnologia (só 350 anos depois), superstições aos montes, esgotos pelas ruas, frio, comedores de beterrabas, mulheres tidas como feiticeiras, hereges, o clero e a realeza cuidando de suas bundas gordas, as mulheres principalmente elas jogadas nas fogueiras como sendo as pretensas causadoras do Mal que quase matou a Europa inteira. Pois é, os ratos de quatro patas dando conta dos ratos e ratas de duas patas. Pois é, HOJE, temos isto no quintal, no jardim, no quarto de todo mundo no mundo inteiro. Durma com este barulho. Ou deve-se dizer: durma com este silêncio, caso possa, com tanta desfeita pela vida ?

Fico por aqui, regando meu jardim de dúvidas, algumas se foram, outras nasceram enquanto eu fingia dormir. Preciso de um café, um gole, um rapé, e soprar meu fole.

Bambuzinho

@2.

Para não dizer que não falei de flores, e de doces, posto essa delícia – doce de abacaxi, desfiado – numa foto que uma de minhas irmãs, dos EUA, enviou para mim. Ela mesma preparou, e me enviou essa falta de respeito, essa loucura.

Doce de abacaxi, do tipo “puxa-puxa”. (By ICC)

Darlan M Cunha

Geraldo Vandré. Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores. https://www.youtube.com/watch?v=TKnbL5mMztw

não é hora de rir, 3

E agora, Paciente ?

Quem com ferro fere, com ferro será ferido – antigo ditado popular, do qual me lembrei, ontem, ao ouvir a muito respeitada Dra. cardiologista Ludhmila Abrahão Ajjar, que disse esta frase amargamente real, sutil, a qual eu vi escrita na tela de um canal de televisão: “O cenário é bastante sombrio… O Brasil vai chegar em 500, 600 mil mortes...” //

He who wounds with iron will be wounded with iron – an old popular saying, which I remembered yesterday, listening to the well-respected cardiologist Dr. Ludhmila Abrahão Ajjar, who said this bitterly real, subtle sentence, which I saw written on the screen of a television channel: “The scenario is quite gloomy… Brazil will reach 500, 600 thousand deaths

Faz tempo que digo a mesma coisa desta mesma amargura que parece uma tragédia sem fim, uma patologia mais do que gigantesca, um assombro que, por incrível que pareça, para muitas pessoas quase não existe, é um cisco ou mesmo uma lenda. Mas digo também que é o único democrata que de fato existe, e ele está aqui à porta, esse tormento não respeita profissões, hierarquias, contas bancárias e nem idades. É democrático. Ele é o Cara. Neste jogo temos que ser desleais para com o adversário: temos de jogar com 12 em campo, contra os 11 regulamentares do adversário. Nada de dormir. Meu falecido pai, funcionário do IBGE durante quase 40 anos, dizia que a partir de certa idade a gente não faz aniversário, e sim adversário. Nada de dormir, iremos bem.

For a long time I have been saying the same thing about this same bitterness that seems like an endless tragedy, a pathology more than gigantic, a haunting that, incredible as it may seem, for many people almost doesn’t exist, it is a speck or even a legend. But I also say that it is the only democrat that actually exists, and it is here at the door, this tormentor is no respecter of professions, hierarchies, bank accounts or even ages. He is democratic. He is the Guy. In this game we have to be disloyal to the opponent: we have to play with 12 on the field, against the opponent’s regulation 11. No sleeping. My late father, an IBGE employee for almost 40 years, used to say that after a certain age we don’t have a birthday, but an adversary. No sleeping, we will be fine.

DeepL.com/Translator

@1.

Bom, vamos à leveza, porque ela está chamando, chorando. Vamos ao pão de cada dia, fatia por fatia. // Well, let’s go to lightness, because it is calling, crying. Let’s go to our daily bread, slice by slice.

As roscas foram feitas aqui em casa. Minha mãe, Dona MARIA JOSÉ, cuidou disso, com uma pequena ajuda do aprendiz.

Darlan M Cunha

não é tempo de rir, 2

Centro de Saúde TEIXEIRA DIAS, Belo Horizonte, MG

@1.

Chegou o tempo em se vende mais materiais de higiene pessoal e caseira do que leite. Ontem, na TVE Espanha, vi no centro da capital: Las colas del hambre aumentan en Madrid – filas cada vez maiores, pessoas bem vestidas, estudadas, sem agressões, esperando sua vez de levarem alimentos. Vi também a entrevista do médico/cientista e ex ministro da Saúde, Nelson Teich, à CNN Brasil, na qual ele faz avaliações claras e, portanto, pesadas, mas elegantes, a respeito de medidas tomadas pelas autoridades brasileiras diante das várias facetas do corona vírus.

@2.

Todos nós temos de vez em quando alguma lembrança que nos reaparece em hora e lugar os mais inesperados, sim, alguma lembrança de fato agradável – uma viagem, por exemplo. No fim da madrugada desta segunda, 15, enquanto passava o café, acompanhado pelo silêncio habitual, lembrei-me de uma das viagens do meu tempo de mochileiro, a qual me levou, através de algumas caronas nada programadas, até São Paulo (capital, São J. dos Campos, Campinas); Paraná (Curitiba, Ponta Grossa e seu Parque Estadual de Vila Velha, Foz do Iguaçu); Argentina, Paraguai, e depois um retorno algo atribulado, passando por uma república de jovens estudantes que fizeram votação para que eu pudesse ou não pernoitar na casa. Fui aceito, e eu me admiro até hoje daquela sensatez. Isto se deu em Florianópolis, uma cidade que os “manezinhos” (assim eles se chamam e são chamados) guardam com carinho, e chamam-na de Floripa, assim como nós aqui chamamos e escrevemos Belo Horizonte assim: BÊAGÁ, BH, Belô.

Darlan M Cunha