do lampião ao hoje

NO TEMPO DO LAMPIÃO (2)

Lampião do filósofo grego DIÓGENES – O CÍNICO (412-323 a.C.), que arrematei, e depois, para comemorar, fui colocar querosene na cachola, no famoso BARTOLO.

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     Ninguém sabe como ele chegou até aqui, quem o descobriu, se foi roubado de algum Museu; mas isso não é possível, pois não há registro em nenhum lugar, em nenhum livro científico. O vendedor, analfabeto completo, como, de resto, a enorme maioria da nação, colou no bojo da preciosidade uns decalques para valorizá-la, sem saber o que tinha em mãos, disse ter feito um escambo, uma troca no interior de Minas, lá pelas bandas de Tiradentes, e coisa e tal, e eu acreditei, sem acreditar, porque eu logo detectei a origem exata dessa bela peça que vi com meus Olhos De Cão Azul (Garcia Marques), esta que o filósofo carregou pelas ruas de Atenas, pleno dia, dizendo que estava “à procura de um homem honesto em Atenas“. Atenas, a mãe da democracia.

     Como se vê, parece que não há mães como antigamente ( – Herege, exigimos as tuas desculpas às mães !).

     Como se vê, quanto à honestidade, à proteção do patrimônio público e a muitas outras coisas mais, autoridades de todas as latitudes e longitudes continuam as mesmas (salvo as famosas honrosas exceções).

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foto e texto e risos: Darlan M Cunha

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Mercado 1

Mercado Central de Belo Horizonte (1929), MG, Brasil

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     Um dos livros através dos quais iniciei o aprendizado do idioma russo (33 letras) foi o da professora Nina Potapova, isso há décadas, numa representação cultural da Rússia, em BH, que ficava no edifício Rembrandt, na Rua São Paulo, região central. Lembro-me de ter ganho um relógio, num concurso feito pela modesta mas diligente instituição, e de tê-lo dado de presente à minha irmã Telma. O tempo fez o que sabe fazer, condenado a si mesmo, o espaço contraiu-se, para uns tantos, expandiu-se para o quase nenhum, mas eu continuo, o idioma russo continua (cinco ou seis idiomas sobreviverão), tu continuas, e enquanto não se descasca de todo a trama mundial, vamos ao mercado, ao lugar onde, segundo o poema do Bertolt Brecht:

Para ganhar o pão, cada manhã

vou ao mercado onde se compram mentiras.

Cheio de esperança

ponho-me na fila dos vendedores.

(BERTOLT BRECHT. Antologia Poética. Poema “Hollywood”)

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foto e crônica: Darlan M Cunha

acrobata (todos nós)

acrobata

os nós das ruas

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     Hoje é aniversário do quem e do que não existe, e parece-me que sou o único conviva, pelo menos o único até agora a comparecer ao ato; talvez haja bufê caprichado, com as últimas da novela das oito, ou alguma frase da novela das nove, um conto sobre futebol talvez seja lido, alguém dirá algo sobre estrela de cinco pontas e candelabros de sete e de nove pontas, senão de mais; outro entusiasta dirá que a barragem destruída já está de pé, redesenhada revista reprocessada regulamentada em papel cuchê e coisas e tais. Quero é outro tipo de vinho com estricnina, cansado de lesmas, bagaços de leis, alusões ao bom e ao melhor, liquidações a granel, no varejo e no atacado (vendo mãe e pai, mulher, filhas imprestáveis, filhos e enteados parasitas, a bandeja de prata de minha avó materna, e o chicote de couro cru com cabo de prata e marfim, muito usado pelo meu avô paterno (“Vais ter com mulheres ? Não esqueças o chicote” – Nietzsche escreveu no Assim Falava Zaratustra. Mas não se vejam com esse mesmo tipo de pensamento, nem com aquele tipo de atuação).

     Todo dia é aniversário do Diabo, e ele sou eu, em muitas medidas – foi o que disse  teresa batista, cansada de guerras e de outras inclemências.

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Foto e sátira: Darlan M Cunha

imaginário

Teatro Francisco Nunes. Parque Municipal, BHte. Já me apresentei aí.

Teatro Francisco Nunes. Belo Horizonte, MG, Brasil (algumas vezes estive neste palco)

debates conferências teatro música reuniões de classes – há de tudo nesse tipo de casa

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No teatro se morre de morte prematura, violenta, idealizada

e a trupe pensa que é no palco que as coisas acontecem,

mas é na rua, a rua que o proscênio desconhece, onde o todo

se apresenta, é lá que se lava a roupa suja, que se aprende hábitos

que se manieta ou se impulsiona a usura, o pão do ódio, o ócio.

Foi lá que a foice e o martelo enferrujaram, outras normas

agora mamam e desmamam, prontas para te darem nova senha.

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foto e poema: Darlan M Cunha

da sega às bancas

Mercado Central, BHte, MG, Brasil Mercado Central (1929). BHte, MG, Brasil (uma das oito entradas)

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Sete entradas tem o mercado diário

nove buracos o inferno dantesco

mil e uma bocas a sede e a fome

ene braços a insônia que come

o homem sem nome e sobrenome.

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foto e poema: Darlan M Cunha

Um lugar para todos: histriônicos, felinos, paus-mandados, frenéticos do sexo pro agressivo, artífices das flores do mal, de solstícios e equinócios repintados à mão [falsos]; sinônimo de perigeu, há porcos-espinho, víboras e salamandras, salários sem crédito, motoristas a soldo da firma A Inenarrável Algazarra da Morte, enfim, eis um lugar para além do bem e do mal – pois é na rua que as coisas acontecem

Minha Neguinha 1

uma das “namoradeiras” de Sabará, MG, Brasil

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LETRAS DE MÚSICAS

Eu faço samba e amor até mais tarde, não tenho a quem prestar satisfação. Escuto a correria da cidade, que alarde, será que é tão difícil amanhecer ? (Samba e amor. Chico Buarque)

Era um homem que vivia lá com seus botões. Sempre dizia que ser homem não é só ter colhões – tem-se que viver, enfrentar a corrente, desde cedo (Um homem, por dentro. Darlan M Cunha)

Desilusão, desilusão, danço eu, dança você, na dança da solidão (Dança da Solidão. Paulinho da Viola)

Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor (Nelson Cavaquinho // Guilherme de Brito  // Alcides Caminha

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foto: Darlan M Cunha

soberbas letras – 3

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Escrevendo e desenhando com os pés

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ÚLTIMA FORMA

(Paulo César Pinheiro – Baden Powell)


É como eu falei: não ia durar
Eu bem que avisei, vai desmoronar
Hoje ou amanhã, um vai se curvar
E graças a Deus não vai ser eu quem vai mudar                                                                                Você perdeu

E sabendo com quem eu lidei
Não vou me prejudicar, nem sofrer, nem chorar
Nem vou voltar atrás, estou no meu lugar
Não há razão pra se ter paz
Com quem só quis rasgar o meu cartaz                                                                                            Agora pra mim você não é nada mais

E qualquer um pode se enganar
Você foi comum, você foi vulgar
E o que é que eu fui fazer
Quando me dispus te acompanhar                                                                                                   Porém pra mim você morreu
Você foi castigo que Deus me deu

Não saberei jamais
Se você mereceu perdão
Porque eu não sou capaz
De esquecer uma ingratidão
E você foi uma a mais

E qualquer um pode se enganar
Você foi comum, você foi vulgar
E o que é que eu fui fazer
Quando me dispus te acompanhar                                                                                                   Porém pra mim você morreu
Você foi castigo que Deus me deu

E como sempre se faz
Aquele abraço, adeus, e até nunca mais.

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foto: Darlan M Cunha   ///   visite: PALIAVANA 4    ///   Ouça AQUI, com MPB-4 e CAUBY PEIXOTO: https://www.youtube.com/watch?v=xvZ80CKsvzM

tapioca

tapioca

 

 

     Sabe-se que o que o povo diz, ou repete à exaustão, nem sempre se deve levar a sério, mas lembrei-me de algo que não vejo como discordar: recordar é viver. Não, não sonhei com ninguém. No entanto, é bem conhecida de todos a sensação repentina de se querer comer ou beber algo que não se prova já faz muito tempo, e então a pessoa fica fissurada, não descansará enquanto não satisfizer tal desejo. Nestes últimos dias veio-me a vontade de beber suco de jenipapo e de comer tapioca. Fui ao Mercado Central de BH, e lá consegui as duas delícias, ambas parecendo rir da minha cara de esfomeado, de tarado e de sei lá mais o quê. A palavra arado também significa estar faminto. Pois é, eu estava arado.

     Tapioca é um alimento de origem indígena, totalmente brasileiro, comum no norte e no nordeste brasileiro, feito da fécula da mandioca, e não há hora para ser preparado. Beiju é sinônimo de tapioca. Espalha-se a farinha de mandioca na frigideira durante uns minutos, temperada com pouco sal, virando-a de vez em quando. Ainda na frigideira, coloca-se coco ralado, ou queijo de coalho – são os dois ingredientes mais usados, um ou outro, de forma a preparar tapiocas com sabores diferentes. Para fechá-la, de modo a que se pareça com um pastel, é bom untar-lhe as bordas, sempre em fogo brando. Mas, pode-se colocar vários recheios, entre eles, carne moída. Há tapiocas doces e salgadas.

     Tenho alguns livros sobre o folclore brasileiro, costumes alimentares, enfim, os muitos assuntos relacionados ao cotidiano das várias populações e áreas do país. Às vezes, volto a eles, para beber e comer algo diferente de coca-cola e hambúrguer.

     A Carta de Pero Vaz de Caminha. Viva o povo brasileiro (João Ubaldo Ribeiro). Dicionário das plantas úteis do Brasil (Gastão L. Cruz). Viagem pelo Brasil (von Martius, von Spix). Folclore Nacional (Alceu Maynard Araújo), Duas Viagens (Hans Staden), A História da Alimentação no Brasil (Luís da Câmara Cascudo), Dicionário Folclórico da Cachaça (Mário Souto Maior), etc.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

MPB

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Cartola, Noel & Cia

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Para BILOKA, para CHRONOSFER, para FALANDO EM LITERATURA, para TODOS E TODAS

     Eu sempre desejei aprender a tocar algum instrumento musical, se não vários, e tentei, mas não levo jeito para a coisa, não tenho mesmo o dom, embora saiba ouvir quem toca bem e quem toca mal, quem canta de modo infernalmente divino e quem desafina feito gato com uma lata amarrada no rabo, desesperado ruas afora, sim, ó maldade juvenil e adulta, já na infância manifestada de várias formas sutis.

     Mas voltemos às cordas, sopros, teclados e couros. Como é notório em todo o mundo, ou seja, não somos nós quem dizemos isto, a música brasileira tem uma variedade estonteante de ritmos, de modos: xaxado, samba, choro, xote, samba-canção, bossa nova, vanerão, forró, frevo, baião, maxixe, maracatu, carimbó, e até o que considero como sendo um “ritmo” indefinido (Clube da Esquina, como um exemplo, com seu som próprio, clássico).

    Por ser teimoso, um dia aprenderei a tocar Caymmi, Cartola, Gismonti, Elomar, Billy Blanco, Skank, Gonzagão, Guinga, Bosco, Jobim, Baden, Marlui Miranda, Nelson Cavaquinho, Nilson Chaves, Chiquinha Gonzaga, Chico, Zé Coco do Riachão, Renato Borghetti e muitos outros e outras.

Foto e texto: Darlan M Cunha

o mundo da rua

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     Consta que o imperador Claudio tanto detestava apotegmas quanto tecia assassinatos, e não era dado a aforismos, sempre trançando num girassol a sua atenção às camas e aos campos de batalha. Consta que ao poeta João Cabral a música não lhe dizia absolutamente nada, a música que, de acordo com da Vinci, era la figurazione dell’invisibile. Assim é que por essas e outras se diz que cada torto com sua trilha, cada qual com seus endossos, enfim, cada osso com seu cão. Mas eu tenho comigo que gosto se discute, de acordo com o que a minha avó materna dizia, quebrando as louças da subserviência, as sandálias da mesmice, os falsos estupores. Gosto se discute, sim. Minha avó materna sabia que é na rua que as coisas acontecem, e que por isso mesmo sabia que roupa suja se deve lavar é na rua – pelo menos certas roupas.

Texto e foto: Darlan M Cunha