palato

BRASIL rapadura
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CASA – 11

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Não tenhas medo do prazer, lado a lado

com ele. Antes, dê o que pensar a quem

te viu e a quem te vê contando nos dedos

trevos e trevas, rios, montanhas, várzeas

descampados, geleiras, arames farpados

sanga, salinas, planaltos, planícies, cavernas

metrôs, restingas, desertos e campos minados.

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Não recear o amanhã, a poã do caranguejo

e nem outra rusga entre o bem e o mal.

Receie Das Kapital, e os perigos da capital,

o que diz e o que não diz o telejornal,

vá para casa, ao pão na mesa contumaz

lembra que é em casa que se repõe o gás

(tens heterônimo ? ouro anônimo ?)

é lá que se pode livrar da febre terçã

e se reaprumar para o dia de amanhã.

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Foto e poema: Darlan M Cunha

TADEU FRANCO. Onde eu nasci passa um rio (Autor CAETANO VELOSO): https://www.youtube.com/watch?v=ofAMOYWpd14

quase em casa

Sépalas, pétalas de Sibipiruna (Caesalpinia pluviosa)
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CASA – 10

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O azul e o branco são as cores

do barroco, e também o vermelho,

sempre junto ao branco,

além do dourado das mil igrejas.

Portais e batentes, beirais e pisos,

piso de tijolos dentro das casas,

o chão sempre frio, sensação boa,

numa parede, idealizados, pinturas

mostram Jesus e Maria – a cabeleira dele

e o olhar lânguido de sua mãe.

A casa é o que vale, música de câmera e de cama,

pronta para convalescença. Universo.

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Foto e poema: Darlan M Cunha

THE BEATLES. Across the Universe.: https://www.youtube.com/results?search_query=the+beatles%2C+across+the+universe

História do Tempo, o Tempo antes da História, de ter Memória, de nos condenar a todos. Aoristo.

alho, ajo, garlic (duas postagens)
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CASA – 8

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Os cabelos estão cor de cinza. O que isto significa ? É preciso saber o que nos afeta de um lado e dos outros lados, no fundo e na superfície, ó, se durante toda a vida se tem de escalar ângulos negativos , é preciso saber o que acinzenta os cabelos: Algo a ver com as várias poeiras das monstrópoles ? Algum creme falsificado ? Tensões em excesso ? A família em coma ? O que mais importa: o ramo familiar ou as dívidas que à porta batem ?

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Ao longe, o mar (MADREDEUS)
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CASA – 7

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Conversando com gente amiga, veio o tema O futuro da moradia no planeta em geral, e ninguém estranhou que ficasse assente que com o esgotamento da área terrena, será natural nos voltarmos para o mar, e todos os nossos trinetos e trinetas irão morar no mar, sendo que na Holanda, por extrema necessidade, muitas famílias têm casas no mar – se não o matarmos de vez, 71% é água. Na Amazônia, milhares de casas têm pernas compridas para se livrarem das cheias, vivendo sobre palafitas.

Pense numa casa sobre a água, vantagens e desvantagens, mas viemos de lá, e as gerações futuras se adaptarão a este volume. Estamos construindo o perigo, o irreversível, e em breve já não será possível fingir que se ignora o que está por vir. É possível que frases assim se tornem comuns: Vejo-te logo mais na correnteza #DX67, na flutuante (casa) do Uç.

Nenhum nome terá mais de cinco letras três números um símbolo. Lembra que a Internet // WEB é um amontoado de 1 e 0, 0 e 1, 0 e 0, 1 e 1. Nonilhões, ene 1 e 0. Eu disse nome, não senha. O automóvel e os celulares estão todos condenados ao cemitério.

Em breve, o hábito de nomear e enviar vítimas sorridentes para registros em cartórios e igrejas será extinto (embora as igrejas precisem faturar, já nos batismos). Casamentos serão crime severo, al paredón. Nomes próprios, ou patronímicos materno e paterno sumirão, serão lenda, piada, e também a casa, tal como a conhecemos hoje em sua velha organização: sua etiqueta, sua hierarquia, tudo ficará no pretérito perfeito. Aoristo.

Resta aproveitar o dia, a casa, o que há por trás das cascas. O mar espera.

Foto e texto: Darlan M Cunha

MADREDEUS. Ao longe o mar. : https://www.youtube.com/watch?v=sCQpycvSF24

Largo

Morei neste casarão à direita, uns 200 anos ele tem, é a maior casa da cidade, em frente ao Grupo Escolar. Centro Histórico de SANTA BÁRBARA, MG. Ao fundo, a Igreja de N. S. do Rosário dos Pretos.
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CASA – 6

Há dias a aldeia está debaixo d’água, água jogando muros, pontilhão, postes, paredes no chão, carros como se fossem miniaturas. A casa flutua no medo, e a bebê mamando, alheia à cortina de água, ao rosnar dos raios.

A casa é fadiga, alguém abre choro no sofá, o mundo toma banho. Há quem se pergunte qual o peso de tanta tempestade caindo sobre um passarinho, e ele sobrevive.

Aqui e noutras casas, quando chove é preciso distribuir baldes e panelas pela casa, ou o chão vira mar, mas é a tua casa, deves então ir com tudo para salvá-la da ira das nuvens.

Passada a tempestade, a bonança com chocolate quente, chá, panos e rodo, música. Abrir toda a casa, para evitar mofo. Depois de tudo, cuidar-se para o amanhã, pois a casa é onde te preparas para matar um leão um abutre um hipopótamo um porco-espinho por dia.

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Foto e texto Darlan M Cunha

Drão. GILBERTO GIL. :https://www.youtube.com/watch?v=Z3PTekF31bc

paralelas tentando encontrar-se pela primeira vez (um mito cai)

São Pedro jurou que as cordas não são do céu

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CASA – 5

Olhos nos olhos, a casa treme, janelas e portas abertas, filtra aquilo que lhe falta, herdou a vontade consciente de ser, às vezes sai do eixo, sofre acosso, acusma, picadas da insônia, apetência, ou seja, sem apetite, até que, quando a divisão parece inevitável, a construção se ergue e vagueia para fortalecer os membros, o que estivera perdido.

A casa é “o cara”, todo cuidado é pouco com ela, sentir a saúde desta velha louca, de riso farto, que vai para o dia como quem vai a uma festa, vai para a feira de rua, vestida ou nua, vida é festa, mesmo se uma louça se quebra, se algum melindre surge, ó, essa velha maluca que às vezes ela parece ser

e é. Voltemos para casa, urge. Depois de tudo, planejar o dia imediato, entre o café e o bolo de cenoura.

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Foto e Texto: Darlan M Cunha

Alta noite. MARISA MONTE: https://www.youtube.com/watch?v=dQGJw8rVgSM

a gravidade encordoada

meu prédio sob reforma
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CASA – 4

O café à mesa, lamentos urbanos, mas lá fora o belo advérbio nunca quer sair dessa dança cotidiária, os de casa já decidiram por onde começarem esta reforma: remover as barras e os senões ainda não assinalados, acertar o terreno para uma discussão mais objetiva.

A estrutura da casa/lar exigia urgência, em grande parte já está feito, faltam pequenos detalhes: uma pintura interna nos quatro andares, apenas sobre o risco do encanamento, distribuir as novas chaves eletrônicas, e conhecer a nova garagem, rever a despensa, pois há sempre algum furtivo rondando a cozinha nas madrugadas, com insônia, fome e sede. Mas o que é mais que importante “é a cabeça, irmão”* (Walter Franco), mudar atitudes.

A casa é o lugar onde se prepara a aula para o amanhã.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Encontros e Despedidas. MILTON: https://www.youtube.com/watch?v=FiLYn6Xkn8U

PSICOTRAMA

Cadeira ou miragem ?
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CASA – 2

Não é raro que de vez em quando a casa ameace retardar algum propósito dos moradores, cair sobre os ombros cansados de guerra, mas não há de ser nada, pois o ser humano e todas as outras criaturas animais e vegetais são mestres consumados em adaptarem-se às circunstâncias, ora, se a casa cair, ponha-se outra sobre suas bases, e tudo bem. Vamos lá. Se já nem sei o seu nome, se já não sei nem mais parar (Toninho Horta // Fernando Brant).*

Vejo daqui a casa vizinha com uma curiosidade extrema, é irresistível, assim me dou de imaginar o que acontece nesta, naquela, naqueloutra e na casa na ponta da rua – ora, sem que isto seja uma deselegância, não se trata disso, o nível é outro, florido como a cidade das flores no estado de São Paulo – Holambra

só flor e mais flor: tulipas, papoulas, rosas enxertadas com mil cores, cravos, mil e uma orquídeas, enfim, um desfile para tontear, tapetes de se perdê-los de vista, você volta para casa pensando que o mundo todo é uma casa cheia de flores. É e não é. Na nossa casa sempre houve muita planta, influência direta dos pais, e também na casa dos meus irmãos e irmãs, sobrinhas e sobrinhos casados. Ponha terapia nisso. A molecada mete os dedinhos na terra, rindo.

A casa é “o cara”, porque nela você é ou pode se aproximar ao máximo de ser você, ao segurar um pedaço de bolo, ao regar um pequeno vaso, ao ler algum texto, ver um telejornal, vestir uma velha bermuda e uma camiseta colorida, a casa é o sucesso, o espelho, garantia de um sono bom (assim se espera), ó, aquela sopa no inverno – não no Brasil, não logo abaixo do equador. Vamos então às saladas e sucos tropicais. A casa agradece. O diabo sobre a colina // Il diavolo sulle coline (Cesare Pavese)* – o Diabo com água na boca.

A casa é onde a gente planeja o dia seguinte.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

A mente expandida num cavalete

tintas, cavaletes, pincéis, molduras, espátulas… MOLDUMINAS, bairro Buritis, BH
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CASA – 1

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Casa de espelhos é uma casa de medos infantis regressados, ou não, pois há crianças que não se intimidam – eu mesmo tenho sobrinhas que riem do medo, riem do absurdo, da cegueira, riem porque são leves, pisando em algodão, não propriamente em nuvens. “Era uma casa muito engraçada / não tinha teto, não tinha nada” – segundo o que diz a música do Vinícius e Toquinho.

Uma casa pode ser verde, não pela pintura, mas devido à hera que a engoliu de todo, sim, maravilha, tenho um exemplo aqui do outro lado da rua. Já outra casa pode parecer que tem o sol dentro dela, que ele nasce lá dentro, devido à força da tinta amarela, e aí me vem o poema Impressionista, de Adélia Prado.

A casa é o refúgio, deve estar sempre pronta, a cama esticada, a louça lavada, isso porque quando se chega em casa, se quer logo banhar-se, comer e beber algo, esquecer o telefone, descansar no sofá, enfim, jeitos assim do cotidiano, porque a casa é onde repousas, comes, bebes, amas, sofres a disritmia do mundo, e planejas o dia seguinte.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

A CASA. VINÍCIUS e TOQUINHO: https://www.youtube.com/watch?v=JY_EDV86jew