refletir

refletir

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@1.

Ontem, sexta 23, achei uma nota de dois reais no passeio par da Avenida Sinfrônio Brochado, bairro Barreiro de Baixo, BH, e me senti lembrado pelos deuses, rindo que nem garoto ou garota com a boca cheia de biscoitos. Meu dia foi muito bom, no meio de tanta carnificina generalizada mundo afora. Não, não pode haver dia bom para ninguém, foi ilusão minha, uma tentativa de fuga, catarse…

@2.

Uma canção do ilustrador e compositor baiano Assis Valente (suicidou-se, 1958), gravada por Carmem Miranda, diz Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar / Por causa disso a minha gente lá em casa começou a rezar. Pois é, o título dessa música com uma letra falando de algo muito bem imaginado a respeito do comportamento de cada um/uma diante da iminência do fim do mundo é Mas o mundo não se acabou, pelo que os espertos deitaram e rolaram, outros rezando e se martirizando como prova de amor a uma vida pia, outros sem comer e sem beber, muitos viraram zumbis – insones ou sonâmbulos -, mas como ainda não acabamos de vez com o mundo, todos voltam à sua vidinha desgraçada de atazanar a vida do outro, todo mundo à espera da Luz.

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Darlan M Cunha: foto e texto

numeral

cotidiano mundial // world daily life

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@1.

As sociedades em transe, a Terra em transe, vales e montanhas tristes porque fracos em seu potencial de alimento e de beleza, e nos rios e nos mares os poucos peixes foram vencidos no jogo desleal contra os monômeros & os polímeros, ou seja, o plástico nosso de todo dia – novo salmo, nova ladainha, a morte por asfixia.

@2.

Ontem, num mercado aqui do bairro, ouvi que “tudo vai dar certo.”, o que me deixou encantado por tal leveza na fala, leveza e certeza inabalável. Não mudei meu conceito a respeito disso ou daquilo, mas ainda agora, horas depois, lembro-me do sal e do açúcar contidos numa concepção alheia de bem quanto à vida, uma opinião bem clara e resoluta – coisa rara. Sim, tudo vai dar certo.

@3.

No dia da criança, anteontem, uma turma de alegres impenitentes aqui da região, saímos com cartazes, sem alarde, sem intrigas, brigas, isso é para desqualificados, e a bandeira foi o cartaz onde se lia NÃO SEJA CRIANÇA, É PERIGOSO, PODE SER PREJUDICIAL À SAÚDE. Num mundo cheio de iscas venenosas, virtuais e (a)normais, todo cuidado é pouco.

Alguém perguntou se neste ritmo o milhão de mortos de cada um destes gigantes, via pandemia, chegará: do Brasil, da China, da índia e dos EUA. Uma pergunta terrível, nua e crua, sem contemplação, porque o Pavor Geral não dorme.

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Darlan M Cunha: foto e texto

nuvens // clouds

bairro Buritis, BELO HORIZONTE-MG, visto da minha sala

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Janela é televisão, pode ser aprendizado, mas a tevê, nem tanto. Da janela se pode rir de um tropeção, rir com quem está rindo do outro lado da rua, podes pensar em descer depressa e ajudar a moça com três sacolas, eis um mendigo do bairro, sirena de bombeiros passando a mil, a janela ouve a suicidade, escuta a monstrópole arder, ela estala durante 24 horas, e você na janela, um cafezinho na janela, os transeuntes indo e vindo, sempre apressados, o infarto não dorme, o perigo ronda, para que tanta pressa ? Cuidado com os bêbados e drogados ao volante, pneus carecas, e o maldito celular na mão, na outra, o volante: tarde demais, eis a batida ou o atropelamento. Você, da janela, vê tudo – quase tudo.

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Window is television, it may be learning, but television, not so much. From the window you can laugh at a stumble, laugh with someone laughing on the other side of the street, you can think of hurrying down and help the girl with three bags, here is a beggar in the neighborhood, the firemen sirens are going a thousand miles, the window hears the city, listens to the metropolis burn, it burns for 24 hours, and you at the window, a cup of coffee at the window, the passers-by coming and going, always in a hurry, heart attacks don’t sleep, danger surrounds, what’s the rush? Beware of drunks and junkies at the wheel, bald tires, and the accursed cell phone in one hand, and the steering wheel in the other: it’s too late, and you are hit by a car or run over. You, from the window, see everything – almost everything.

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Darlan M Cunha: foto e texto

PAULO DINIZ. E agora, José ? (Poema de CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, musicado). https://www.youtube.com/watch?v=1L9mZIxgaq0

repouso

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Eis a cama cotidiária, o rosto da sobrevivência, parte da anatomia do Sistema, solvente, soluto e solução digna, Ecce homo // Eis o Homem na sua masmorra, o carnaval sadio de todo santo dia, de todo dia pagão, via de volta, lépido ou febril, eis o leite das crianças, a história da beleza & outras estórias, é com essa que eu vou andar até cair no chão, é com essa que eu vou desabafar com a minha mão, sim, parodiando a bela canção, eis o inigualável senso de humor do povo brasileiro, qualidade que eu tenho na mais alta estima, pois é de fato nossa marca registrada e intransferível, eis o pão à mesa, dez entre dez brasileiros preferem feijão, é o que nos diz outra canção.

Eis a cama, sua madeira, seus ferros e o elástico de suas rodas sobre as quais as viagens cotidiávidas são feitas, eis os dentes cariados, a cabeça em dia com o fósforo apto a incêndio, se necessário for. O amor é lindo, o Povo diz.

Consta que nos tempos antigos, antigos assim de nem precisar voltarmos à Idade Média, ao Renascimento, ao tempo Barroco, ou durante a Grande Peste que arrasou Londres e a Europa,1665/66, Peste Bubônica, os mortos eram carregados aos milhares nas mesmas carroças das feiras, chiqueiros, construções. Pouco tem mudado, parece, muito embora a bela e necessária Techno. Eis O COMA PLANETÁRIO nas ruas.

Não, nada de desrespeito, aqui não, violão. Vamos que vamos. Eis a carroça CACILDINHA levando sempre sacas de verduras e legumes, sacos de cimento ou de areia, tijolos, ferros, aparelhos elétricos já vencidos em seu tempo de serviço, e no quintal está o burrinho ARGÍLIO II, bem deitado debaixo da mangueira, está de folga, mastigou seu capim e sua ração, está arraçoado, e agora está filosofando, arguto e satírico que ele é, damo-nos muito bem, melhor do que muito casal, embora o amor seja lindo… hehe, rir é humano, mas é das hienas também.

Nesse tipo de trabalho a pessoa não pode nem pensar em gripe, sim, uma humilde gripe com cefaleia, dores musculares, da apatia, perda de apetite e até de sono, e não uma pneumonia, uma febre terçã ou quartã, ou uma tuberculose, não, isso porque é Você de um lado (para a sua família), e deus e o diabo do outro lado, ambos contra Você – mais Aquele do que Este -, é algo assim como no belo jogo de tênis: o Diabo de um lado, e Satanás do outro.

Darlan M Cunha: foto e texto

circular

Oriente Médio – Jordânia, Israel, Emirados…

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Duas vezes ao dia os pastores e seu sustento colinas acima e morros abaixo, que a vida é isso, simples de se levar, mas é engano, pois onde tem gente tem ebulição, caudal de venenos, é do homem saquear o homem, e aqui não vai nenhuma apologia, e sim constatação simples até para alguém pouco de juízo, de letras, de percepção maior, que é o caso deste incréu. Uma vez por dia vai-se para a turbulência necessária das hastes espinhosas, também conhecidas como ruas praças becos alamedas e avenidas, uma vez por dia o formigueiro acende seu facho no metrô, nas passarelas, viadutos, túneis, teleféricos, nos mil e um olhos vermelhos e nas rotatórias, filas e mais desenganos, enfim, é de se notar que nem todos sorriem quando voltam, se voltam.

Darlan M Cunha: foto e texto

avessos

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@.1

No entorno da aldeia as árvores viraram suas copas, raízes no alto, buscando mais ar, todas as árvores das ruas com as raízes para cima, e assim os ninhos dos pássaros no rés do chão – tudo para estarem conforme os homens e as mulheres, o cemitério na beira do rio abriu-se, e os nadadores antigos voltaram às suas areias e pedras, águas com muitos recados das lavadeiras, pescadores e afogados, tudo pelo avesso, nada se tornou fábula, e sim o cotidiano. Estátuas desceram dos pedestais, e foram à luta diária pelo pão, cansadas de serem pouso de pássaros, de espelho para pichações, de mictório, os monumentos foram derretidos, a água foi racionada, a nudez não será castigada, e nem outros conceitos sociais gerais não vigentes por lá – e nem é preciso votá-los. Cansaram-se de filmes, seriados, novelas, propagandas falsas, já se cansaram da fé em fumaças ou igrejas e templos e terreiros e fútilbol, pelo que, hoje, quase nada preocupa a aldeia, pois não há nenhuma doença rondando, a não ser o que restou do próprio antigo Homem. E assim, quase nada molesta a aldeia, quase nada preocupa. Quase nada.

@2.

Dias de transtornos difíceis, brumosos dias sem cavalo sobre o qual montar e ir a alguma trilha amena, se é que existe por aí, num entorno próximo ou no fim do mundo, só há dias com calos e espinhos, as rotundas e as praças da aldeia interditadas pela inépcia de todos (“todos nós somos culpados de tudo”, Dostoiévski), assim a aldeia e seus dias, os trabalhos sempre em conflito, os dias pessoais são uma área de conflitos ainda maiores, nenhuma luz, e não há sequer um túnel para que se meta a cara lá dentro, pois até mesmo o breu seria melhor do que o que aqui e agora existe no modo pessoal e também no sentimento geral. Sofrer, irar-se até adoecer é a sina por aqui. Onde não mais ? Existe tal lugar ? nos Polos ? no Himalaia ? na Gruta de Maquiné ? na Fossa de Mindanao ? no Labirinto do Minotauro ? nalgum miolo Humano ? debaixo da saia da Madame Min ? na Divina Comédia ? talvez na Casa Caliente de Belzebu. Há dias e dias, lugares e lugares, iras medos insônias desistências, mas a luta continua. Como diz o Carlos: “entanto lutamos” (CDA).

Darlan M Cunha: foto e texto