desaparecidos

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Região BH / Nova Lima, vista do bairro Belvedere, BH

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     Entra num ônibus municipal e senta-se na parte da frente reservada às pessoas com deficiência, idosos, etc. À sua frente, um cartaz de notícias da prefeitura, logo atrás do motorista, dando conta de alguns eventos culturais pela cidade, outras notas ensinando bons modos ao povo, como se comportar nos ônibus – mensagem sempre dizendo que gentileza é, e por aí vai. Mas o que mais chama a atenção, e comove, é o espaço dedicado às pessoas desaparecidas: crianças, adolescentes, adultos, idosos, senis, todos e todas com a data do sumiço, alguns e algumas já com anos sem notícias, mas as famílias não desistem, e assim, enquanto o ônibus cumpre o trajeto, fica pensando no peso da angústia que invade a mesa, o sofá, a cama, enfim, o que abala todo o psiquismo da família e das pessoas de fato amigas, quase toda a aldeia, quase toda, isso porque há os cegos e os egoístas.     

     Alguns podem ter sido raptados, outras também, mas com intuito inconfessável, assim também com as crianças, alguns jovens já estavam fartos de desentendimentos gerais em casa, e se foram, sem aviso, para nunca mais; os idosos podem estar acometidos, por exemplo, pelo mal de Alzheimer, uma patologia na qual a pessoa está viva, mas está morta, porque o cérebro já não existe, tudo o que há é o esquecimento, a amnésia constante, irreversível. Mais devastador do que o mal de Parkinson e o câncer é este sofrer, já que a rede neurológica ruiu.

     Sempre salta do ônibus com uma estranha sensação que fica entre a insustentável leveza de ser o que se é, e a sensação de ser personagem da história da beleza* quanto da história da feiura.* Outras vezes, acha que está no Inferno, de Dante.*

 

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Texto e foto: DARLAN M CUNHA

Alusões a livros:

A Insustentável Leveza do Ser   >>>   Milan Kundera

História da Beleza   >>>   Umberto Eco

História da Feiura   >>> Umberto Eco

A Divina Comédia   >>> Dante Alighieri

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cotidiano 4

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     Rabiscar os rostos da aldeia, de sua santíssima trindade, pode parecer heresia – porém, como é que algo ou atitude pode se parecer com aquilo que já não existe ? Salvo engano, nada mais, em lugar nenhum do mundo vasto mundo é heresia. Degolar caules frescos é corriqueiro (imagino-me de joelhos, sem garganta com que validar quem a mãe cingiu de desvelos). Não, nada aqui escrito é para desfile de tropas. Tudo. Ir às ruas é abandonar o medo ou repintar de nervos as esquinas, tornando-as cordas esticadas como uma linha untada com cerol ? É a cabeça, irmão. Tudo é teu, credor de tudo, as ovelhas no cercado, dizem os textos sagrados. Enquanto esperas, reler o Decamerão, o Dicionário do Diabo.

     Rabiscar os pilares da santíssima trindade da aldeia – amor amor amor – não dá fim a ela, só o fogo nos pastos urbanos, o rural trespassado pelas queimaduras do cotidiano, ó, neves da caatinga e águas do Atacama, o ministro fará cair véus, assombros que o Nunca nunca imaginou, ó, a realidade trocará a tua pele tantas vezes quanto o fazem as cobras, e o grito que contivestes será enfim julgado apto por ele que porá de vez sobre os ombros teus a cátedra ministerial belzebuana. Tudo será teu que sou o teu credor invisível.

     As cidades invisíveis existem, de fato e de direito, mas até elas começam a cercar-se de todos os meios, cientes dos gases em ebulição, frases de efeito, palavras sem palavra, as suicidades e monstrópoles de carne e ossos serviram de noção às cidades invisíveis, mas foi em vão, que o invisível já está em debandada. Carona para onde, se não há onde, se nenhuma alusão vai até onde queres ir, se nenhum caminho tem força centrípeta forte o bastante para jogar-nos para fora do curtume ?

Viver, e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e cantar…

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Música: Gonzaguinha. O que é, o que é ? – https://www.youtube.com/watch?v=2iMOXqKTh34

cotidiano 3

TEM DOIDO PRA TUDO

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     Se não me falha a memória, parece-me ter lido uma entevista com Egberto Gismonti, na qual ele cita ter visto um homem levitar-se, na Índia, nas viagens mundo afora feitas pelo grande músico. Isso já faz tempo. Pensando nisso no fim da madrugada, imagino ter visto o meu rosto no café, mas foi imaginação; porém, o que vemos no cotidiano tem tudo de sons imaginários, de colores y dolores fictícias, tudo nos convence de vivermos numa realidade cheia de delírios, e deliramos cada vez mais, voamos, flanamos, enfim, nos livramos de ficar com os pés e a mente no chão, de maneira que um solo de clarineta nos mantém no alto. Ontem, para assombro meu, melhor dizendo, já de todo indiferente para certas coisas, vi um automóvel voador, e o desaforado jogou-me uma piadinha do tipo Ei, garoto, um programinha ?, e foi por aí o atrevimento ao qual não respondi, pelo que ele urinou gasolina e graxa sobre mim. Devolvi o acinte, e botei fogo nele, ou seja, como leio muito, a lei de Talião ajudou-me num compasso delicado, um mal-entendido. Sem dúvida, ir à rua é ir pro ar, de lá se vê, como um motor de busca ou mecanismo de pesquisa, o lar o bar o mar a passeata o atentado ao pudor os cartazes o templo o bordel o estádio lixo sobre lixo a cadeia e o cemitério, enfim, a infinita algazarra da aldeia em cujo mercado vamos comprar e trocar e vender histórias e estórias.

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Para subir na vida, um cajado por empréstimo, sim, pergunte ao Dr. Fausto, o Diabo é solícito

Buritis

Buritis, Belo Horizonte, MG

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       Crer ou descrer passa por não saber, lá onde a dúvida ainda é soberana, algo normal fluindo seu magma, de leve, até que a pressão seja maior do que a boca, e então a boca explode palavras como pedras em chamas sobre as camas os asfaltos os consultórios os estádios, enfim, a boca toma juízo, e se cumpre, botando verbos pelo avesso, degolando  sintaxes, pobres adjetivos – ele é bom, ela é má -, seccionando colhões de advérbios e pronomes, é isso: crer ou descer e ficar na apatia, enquanto o mundo vasto mundo inventa moda atrás de moda.

 

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foto e texto: Darlan M Cunha

Leia-me no Poem Hunter: https://www.poemhunter.com/poem/mimesis-and-symbiosis/

Não precisa da solidão, todo dia é dia de viver*

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Heliporto, bairro São Bento e região. BELO HORIZONTE, MG

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       A cidade faz suas partilhas, atende de segunda a segunda, sem descanso, não imita Deus, que descansou no sétimo dia, de acordo com a lenda, ora, a suicidade é lépida, tem o que fazer, inventando e desinventando entradas e saídas, ela é totem e tabu, lugar por excelência de encontros e despedidas, arena de encontros fortuitos e camaradagens rápidas, na conta de uma dúzia de cervejas e mil opiniões e recomendações, verdade, a monstrópole tem boca roaz, mas é nela que vive a felicidade ambulante, cheia de dedos e psicologias ocas, perneta e zarolha, carente de muito, cheia de vazões, crimes para dar e vender, a aldeia é o máximo divisor comum, fedendo a peixe, ferve de gente nas feiras e mercados, filas para isso e aquilo, é uma beleza de sorrisos no canto da boca, do outro lado da boca o cigarro e o desdém, o pigarro e um amém de todos, mal raia o dia, diz o poema, “entanto lutamos”. “Todos se acham mortais, dividem a noite, a lua e até solidão.”

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foto e crônica: Darlan M Cunha

Carlos Drummond de Andrade: poema O Lutador. Fernando Brant, Márcio Borges e Lô Borges >>> Para Lennon e McCartney.  Milton Nascimento, Márcio Borges e Lô Borges >>> Clube da Esquina nº 1

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Minas Gerais – by Múcio Matos Cunha. Pintor, desenhista de moda. BH, MG (1957-87)

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       Essa tela está completando 40 anos, pintada por um dos meus irmãos, falecido no mar em Nova Almeida, ES. Ela dá uma boa ideia das cidades históricas não só de Minas, como também da Bahia, do Rio de Janeiro, de Goiás, etc. Mudei móveis, telas e livros de lugar, e ontem eu a estava observando, quando me dei conta do ano em que foi pintada, e lá está, no canto inferior direito: Múcio – 77. A vida é minuto. De novo, repito Niemeyer. Ele tinha cerca de vinte anos ao pintá-la. E de novo a arte ficou.

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foto e texto: Darlan M Cunha

luz

parque, 3

Parque Municipal de BELO HORIZONTE, MG

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     O tempo faz o que sabe fazer: construir e desconstruir tudo, mas a luz, os caminhos da luz permanecem, como que alheios às destruições, mutações. O tempo, sim, é que é “o” livro, o cara, o cântico dos cânticos.

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foto e texto: Darlan M Cunha

acrobata (todos nós)

acrobata

os nós das ruas

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     Hoje é aniversário do quem e do que não existe, e parece-me que sou o único conviva, pelo menos o único até agora a comparecer ao ato; talvez haja bufê caprichado, com as últimas da novela das oito, ou alguma frase da novela das nove, um conto sobre futebol talvez seja lido, alguém dirá algo sobre estrela de cinco pontas e candelabros de sete e de nove pontas, senão de mais; outro entusiasta dirá que a barragem destruída já está de pé, redesenhada revista reprocessada regulamentada em papel cuchê e coisas e tais. Quero é outro tipo de vinho com estricnina, cansado de lesmas, bagaços de leis, alusões ao bom e ao melhor, liquidações a granel, no varejo e no atacado (vendo mãe e pai, mulher, filhas imprestáveis, filhos e enteados parasitas, a bandeja de prata de minha avó materna, e o chicote de couro cru com cabo de prata e marfim, muito usado pelo meu avô paterno (“Vais ter com mulheres ? Não esqueças o chicote” – Nietzsche escreveu no Assim Falava Zaratustra. Mas não se vejam com esse mesmo tipo de pensamento, nem com aquele tipo de atuação).

     Todo dia é aniversário do Diabo, e ele sou eu, em muitas medidas – foi o que disse  teresa batista, cansada de guerras e de outras inclemências.

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Foto e sátira: Darlan M Cunha

da sega às bancas

Mercado Central, BHte, MG, Brasil Mercado Central (1929). BHte, MG, Brasil (uma das oito entradas)

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Sete entradas tem o mercado diário

nove buracos o inferno dantesco

mil e uma bocas a sede e a fome

ene braços a insônia que come

o homem sem nome e sobrenome.

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foto e poema: Darlan M Cunha

Um lugar para todos: histriônicos, felinos, paus-mandados, frenéticos do sexo pro agressivo, artífices das flores do mal, de solstícios e equinócios repintados à mão [falsos]; sinônimo de perigeu, há porcos-espinho, víboras e salamandras, salários sem crédito, motoristas a soldo da firma A Inenarrável Algazarra da Morte, enfim, eis um lugar para além do bem e do mal – pois é na rua que as coisas acontecem

Minha Neguinha 1

uma das “namoradeiras” de Sabará, MG, Brasil

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LETRAS DE MÚSICAS

Eu faço samba e amor até mais tarde, não tenho a quem prestar satisfação. Escuto a correria da cidade, que alarde, será que é tão difícil amanhecer ? (Samba e amor. Chico Buarque)

Era um homem que vivia lá com seus botões. Sempre dizia que ser homem não é só ter colhões – tem-se que viver, enfrentar a corrente, desde cedo (Um homem, por dentro. Darlan M Cunha)

Desilusão, desilusão, danço eu, dança você, na dança da solidão (Dança da Solidão. Paulinho da Viola)

Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor (Nelson Cavaquinho // Guilherme de Brito  // Alcides Caminha

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foto: Darlan M Cunha