acrobata (todos nós)

acrobata

os nós das ruas

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     Hoje é aniversário do quem e do que não existe, e parece-me que sou o único conviva, pelo menos o único até agora a comparecer ao ato; talvez haja bufê caprichado, com as últimas da novela das oito, ou alguma frase da novela das nove, um conto sobre futebol talvez seja lido, alguém dirá algo sobre estrela de cinco pontas e candelabros de sete e de nove pontas, senão de mais; outro entusiasta dirá que a barragem destruída já está de pé, redesenhada revista reprocessada regulamentada em papel cuchê e coisas e tais. Quero é outro tipo de vinho com estricnina, cansado de lesmas, bagaços de leis, alusões ao bom e ao melhor, liquidações a granel, no varejo e no atacado (vendo mãe e pai, mulher, filhas imprestáveis, filhos e enteados parasitas, a bandeja de prata de minha avó materna, e o chicote de couro cru com cabo de prata e marfim, muito usado pelo meu avô paterno (“Vais ter com mulheres ? Não esqueças o chicote” – Nietzsche escreveu no Assim Falava Zaratustra. Mas não se vejam com esse mesmo tipo de pensamento, nem com aquele tipo de atuação).

     Todo dia é aniversário do Diabo, e ele sou eu, em muitas medidas – foi o que disse  teresa batista, cansada de guerras e de outras inclemências.

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Foto e sátira: Darlan M Cunha

da sega às bancas

Mercado Central, BHte, MG, Brasil Mercado Central (1929). BHte, MG, Brasil (uma das oito entradas)

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Sete entradas tem o mercado diário

nove buracos o inferno dantesco

mil e uma bocas a sede e a fome

ene braços a insônia que come

o homem sem nome e sobrenome.

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foto e poema: Darlan M Cunha

Um lugar para todos: histriônicos, felinos, paus-mandados, frenéticos do sexo pro- agressivo, artífices das flores do mal, de solstícios e equinócios repintados à mão [falsos]; sinônimo de perigeu, há porcos-espinho, víboras e salamandras, salários sem crédito, motoristas a soldo da firma A Inenarrável Algazarra da Morte, enfim, eis um lugar para além do bem e do mal – pois é na rua que as coisas acontecem

Minha Neguinha 1

uma das “namoradeiras” de Sabará, MG, Brasil

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LETRAS DE MÚSICAS

Eu faço samba e amor até mais tarde, não tenho a quem prestar satisfação. Escuto a correria da cidade, que alarde, será que é tão difícil amanhecer ? (Samba e amor. Chico Buarque)

Era um homem que vivia lá com seus botões. Sempre dizia que ser homem não é só ter colhões – tem-se que viver, enfrentar a corrente, desde cedo (Um homem, por dentro. Darlan M Cunha)

Desilusão, desilusão, danço eu, dança você, na dança da solidão (Dança da Solidão. Paulinho da Viola)

Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor (Nelson Cavaquinho // Guilherme de Brito  // Alcides Caminha

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foto: Darlan M Cunha

uma casa de pernetas, daltônicos, gagos, lábios leporinos, fans de rock proagres- sivo, estudiosos de minhocas e do bicho-da-seda, duetos do globo da morte – a rua

a luta

Ó vida, margarida !

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Eu quero é botar meu bloco na rua
gingar, pra dar e vender*

     Numa das muitas vezes em que passei pela avenida Nossa Senhora do Carmo, BH, um pouco desviado da minha rota mais comum para casa, deparei-me com esta cena, nem digo espetáculo. Todos já viram este cenário, palco, luta de gente botando seu bloco, seu oco nas ruas, até porque é preciso estar atento e forte. É a cabeça, irmão.

     Assim como a rua é uma casa muito engraçada, também é memória de panos negros, de painéis de cabeça para baixo, um grito parado no ar, e logo ali num bar as conjecturas, as filosofias de mal casados, descasadas, separadas, amaziados, desquitados, roedores de unhas (onicofagia), e por aí vai este longo rosário de sapatos cheios de pedrinhas que a suicidade comporta.

     Eu também quero botar meu ovo na rua.

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foto e texto: Darlan M Cunha

VISITE: https://www.poemhunter.com/darlan-m-cunha/

ir

carrinho de mão

gerenciar a própria vida

     Estou de mudança, mas não para Pasárgada, ou NYC. Talvez eu reveja o convite para Brasília, pois, se quero mudar de ar, todas as possibilidades devem ser avaliadas. Dizem que na terra brasiliense ainda há sombra e água fresca suficientes para novos peregrinos e aventureiros, e até para gente de bem, embora que para entrar no redemoinho seja preciso muito jogo de cintura – sambra frevo maxixe xaxado bolero guarânia chamamé carimbó xote bugio bossa-nova galope-a-beira-mar chorinho…

    Mas o melhor é esquecer a cidade da catedral dos dedos de concreto, ir em surdina pela madrugada, inciente de tudo=ciente de nada, ou seja, às cidades invisíveis, montado num cavalinho de platiplanto, platero e eu, mas é certo que não irei para compostela, fátima ou para a canudos atual, e nem para aparecida.

     Enfim, aonde ir, nesse tempo de arritmias ? Nunca li Une saison en enfer. Para quê, se atuam junto a mim e a ti os braços do inferno social de hoje e de sempre ? Ontem, achei moeda de cinquenta centavos na Rua Bonfim, ao lado do cemistério de mesmo nome. Bons auspícios para a mudança. Irei.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Os tempos não mudam de todo… fingem.

pelourinho

doce chibata, amado pelourinho, santo capitão-do-mato, gentil patrão

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     Até mesmo em Belo Horizonte, cidade quase pacata, se comparada a muitas outras, usar os coletivos tornou-se uma fonte de apreensão e de desprazer, principalmente se você não tem paciência larga, se tem o estopim curto, daqueles que ficam bem perto do barril de pólvora. É o meu caso essa tipologia pessoal e intranferível, mas não intransferível como um cartão de banco, uma URL, uma senha, ou o RG – embora cada vez mais tudo esteja tornando-se vulnerável. Eu disse “quase”. Hackers e piolhos.

     A quantidade de caronas nos ônibus, ou seja, aqueles ônibus que carregam as pessoas através das veias da cidade, é simplesmente de pasmar. Entram, ficam de pé ao lado do motorista, ou assentam-se no lugar onde os idosos põem os pés, quando não se sentam nas poltronas a estes dedicadas, não perdem tempo em cumprimentar ninguém, vários deles com roupas de “grife”, feitas no Paraguai, e seguem conversando, como se tivessem nas mãos o futuro da cidade e do mundo. Talvez até já estejam neste patamar, ou quase. Eu disse “quase”. Não se dignam a olhar para os parvos que estejam ao lado, à frente ou na parte de trás do comboio, certamente porque se sabem distantes,  alijados das benesses do establishment. Assim, parece que cabe a nós trazê-los para a luz, mas não contem comigo, tenho repolhos e tomates para cuidar, lagartas feitoras de seda, totens e tabus, fantasmas, etc. Além disso, preciso ler psicanálise, neurologia, sociologia, música, prosa e poesia, enfim, continuar a aprender a ler e escrever. Êpa !, a panela de pressão está apitando (e este “apitando” serve também como alusão aos fatos sociais).

     Essa postagem me fez lembrar de um poema que é, com justiça, tão famoso: um texto do poeta Eduardo Alves da Costa, de nome No caminho com Maiakóvski, um texto que vai fundo, décadas após escrito, ele ainda bate contra o marasmo, a vontade bamba, o que dá espaço para tipos como os caronas acima citados.

Foto e crônica: Darlan M Cunha

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     Trecho do poema de Eduardo Alves da Costa (1936 – ), escrito na década de 60. Pseudônimo: Diana Gonçalves. Trazido do RECANTO DAS LETRAS: http://www.recantodasletras.com.br/poesias/5655034

NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

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Tiques da minha gente – 5

aldeotas

infinity: ∞∞∞ //  terra de homens ocos  //  city of hollow men

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     Na minha terra tudo se pode: cantar de galo, cantares de amor, descartar pai e mãe, padrasto e madrasta, avós e consorte, e se pode atolar o indicador no bolo, abrir e fechar enterros com frevo ou pagode, e não há feriado de espécie alguma, mas é desejável que cada um se aplique ao ofício do outro, bem como é altamente recomendável que ninguém se feche em casa, sob pena de moção de censura geral, porque deve-se mostrar a cara, a que veio ao mundo: jogar, beber, fornicar, viajar e, se possível, trabalhar (competindo cada vez mais com robôs), é isso, na minha aldeia a música grita, não há padres nem delegados e os impostos prediais e de automóveis foram banidos, não há automóveis, a não ser os ônibus escolares, e todos têm o Triste Fim de Policarpo Quaresma e o Dom Quixote nas estantes e na cabeça.

     Para se unir, os pares não têm dificuldade, pois é só reunir qualquer número de cidadãos ou cidadãs – a partir de duas pessoas – que a união estará legitimada pela aldeia, nos três sentidos: masculino-feminino, masculino-masculino, feminino-feminino. Mas ainda nos resta dizer que nunca mandaremos ninguém daqui para a lua ou para marte. Quem tomaria conta do rio que aqui nasce, das árvores cheias de si, pássaros sem fim ?

     Em tempo: todos se lembram de quando os refrigerantes foram expulsos, de quando os jornais fecharam, a tevê é piada ruim, mas os carrinhos de bebês fazem a ronda nas praças ruas avenidas becos pinguelas pontes pontilhões e rampas, farra de decibéis. Bicicletas e parapentes. O jejum é bem visto, que o mundo precisa de faquires. Aqui se dorme pouco, como diz a música, é preciso estar atento e forte.

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Fotos e texto: Darlan M Cunha

Montagem feita online com PHOTOFUNIA: https://photofunia.com

véu

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Praça Rui Barbosa (Estação Ferroviária) – Belo Horizonte, MG, Brasil

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      Na introdução do livro As Cidades Invisíveis, ítalo Calvino diz:: “Não se sabe se Kublai Khan acredita em tudo o que diz Marco Polo, quando este lhe descreve as cidades visitadas em suas missões diplomáticas.”

     Como se vê, cada aldeia, cada cidade é cheia de nuances próprias, cheia de truques que só ela, ou nem ela conhece totalmente. E assim cada cidade caminha, tropeça, cai, levanta-se, faz ou não faz negócio com esta ou aquela, faz guerras, morre de sede ou de fome, embrenha-se no sexo desvairado (Sodoma e Gomorra, as cidades esquecidas por Deus), mata Deus, e por aí vai.

     Belo Horizonte só tem 119 anos, tem poucos truques, mas já pressente seu destino, poderio, até porque, como eu disse, cada cidade tem suas águas e suas pedras.

Foto e texto: Darlan M Cunha