Guerreiras G

Bolo de mandioca.com coco ralado

Bolo de mandioca com coco ralado (Dona Maria José, 86)

 

@1

Em categorias e tags o melhor é usar aqui uma única palavra: delícia. Dizem que mães e avós nos acostumam mal, de maneira que, volta e meia, mesmo já marmanjo, casado ou não, a gente está sempre fazendo uma visita àquelas mesas que estão sempre abertas.

@2

Ficar numa estação de viagem (Pedro pedreiro, penseiro, esperando o trem)*, alta ou baixa madrugada, ouvindo o silêncio interior, o vento, os passos de algum passageiro afobado, ouvindo um grito recém solto lá no Iraque. Mala na mão, vais partir…

@3

Tens saudades, rapaz, do tempo mochileiro ? Ainda é tempo, garoto, guarda no baú estas lembranças, ajeita o fluxo sanguíneo na cabeça (É a cabeça, irmão)*, toma o pulso do dia e da noite, e vá para onde o nariz apontar. Ainda há tempo, menina. Conhecer é mais.

***

Foto e texto: Darlan M Cunha

 

Anúncios

Guerreiras D

DSC05582.JPG

Bar do BIGODE – bairro Prado, BH

 

     Eis a couve, retalho da terra que sobre o balcão se debruça, à espera dos toques de amor de uma faca guerreira. Eis o ambiente no qual os odores se mesclam e atiçam as criaturas: couve, alho, cebola, coentro, salsa, azeite, vinagre, pimentas, maionese, ovos, bifes, a enorme panela onde o arroz flutua ou dança sua dança do cisne, eis a conversa, o riso, café com pastel e pão de queijo, pão com salame, a cachacinha sagrada para ir à luta, operário começar o dia, o vinho para a bela executiva executar o que tenha que ser feito, e assim os dias e os trabalhos. Eis o norte de cada um, o sul, o leste e o oeste; eis as latitudes e as longitudes, lua cheia e morna, sol a pino, solstícios de verão e de inverno, eis o Homem no afã de melhorar, custe o que custar. Ecce Homo, Nietzsche escreveu.

 

Foto e texto: Darlan M Cunha

milmolhos

Paraíso das pimentas - Mercado Central, BHte, MG, Brasil

Paraíso das pimentas – Mercado Central, BELO HORIZONTE

(HOJE, 22 de Abril de 2018, completo 11 anos no Portal WORDPRESS, que me felicitou e agradeceu.)

*****

     @1.

     Mal dava para imaginar que em pouco tempo a mesa do mundo mudaria, isso porque pimentas diversas, pimenta do reino, chá, café, cravo da Índia, canela, açafrão, louro e outros temperos e ervas aromáticas e medicinais valeriam mais do que o ouro. Europeus ferviam com tantos sabores e odores, e eis a cana de açúcar que mudaria hábitos alimen-tares no mundo. Na Europa ainda se come açúcar de beterraba. Sempre que vou a uma banca como esta aí acima eu me lembro disso, dos caminhos da História.

     @2.

     Durante décadas o país não produziu quem se destacasse, a não ser no torpor, sempre zanzando por aí feito zumbis, escravos da indolência e da lascívia, da morte em vida, atitude capaz de causar estupor, inveja e ira desmesuradas na vizinhança próxima e nas distantes. “Filhos (ouvi no mercado) são como os bilros das rendeiras, são fios, depois são tecidos que precisam ser bem trançados, ou a obra vai desfiar.”

     @3.

     O escritor busca incógnitas, é um demente com um teclado à frente e a sociedade no pensamento. Vive assim, de olho no imponderável, alquebrado, à espera do imprevisível, de vez em quando salta dele uma lágrima, um sorriso cheio de palavras não percebidas.

     @4.

     Dos amigos e amigas a gente deve querer saber o máximo – pendências, tendências e carências, pois assim vigora uma verdadeira amizade, e vigora também mesmo se não se sabe nada ou quase nada do Outro.

 

*****

Foto e texto: Darlan M Cunha

Surubim

Surubim

Surubim= pintado, moleque, loango, brutelo e cachara

***

 

     Quando estou nervoso, vou espraiar na cozinha, romper correntes sociais, matar saudades seja lá de que tipo forem – de amigos e amigas que se foram, alguma cidade, algum livro, uma canção, um rio ou um riacho, alguma viagem imprevista que tenha se tornado marcante, enfim, sempre há uma lembrança dentro da gente.

    Quando estou nervoso, abro o verbo, digo que estou com a macaca, que odeio gente em geral, que desprezo qualquer tipo de religião, filosofia barata, sonho comigo batendo bolsas e carteiras, rindo de velhos e jovens, colocando pregos debaixo de pneus, pondo escorpiões nos sapatos alheios, mexendo com a mulher do próximo, enfim, o cão.

     Mas sou bom garoto. Perguntem à minha mãe – que comeu comigo este surubim que preparei nesta linda panela de pedra, uma peixada com azeite, cebola, pimentão, batatas, coentro, salsa, tomate e azeitonas.

***

 

Foto, peixada e texto: DARLAN M CUNHA

 

tapioca

DSC01957

à esquerda, com pesunto; à direita, com banana

*****

     – Vamos viver de brisa, Anarina.* Viver de brisa, foi como o poeta Bandeira escreveu. Enquanto a brisa não vem, deixemos de lado as casas com suas normas, armas, karmas, bravatas e gravatas, e vamos comer tapioca, pastel, pavê, pitomba, peru, peixe e o que mais houver. A brisa talvez venha. Talvez, porque o caráter do vento é duvidoso.

*****

cozinha, foto e texto: Darlan M Cunha

teclado

teclado

     Seja pisando em ovos, nas nuvens, no barro, em cacos de vidro, em brasas nas festas de são joão ou de são pedro ou do diabo, em cédulas falsas ou originais, nas palavras e nos atos da oposição, nas memórias pessoais e gerais, nas oportunidades (dizem que não voltam as boas oportunidades perdidas, das quais muitas vezes só mil tempos depois a pessoa se dá conta do que deixou escapar, por soberba, ignorância, apatia), o caminho se dá a ver, entre favos e favas, alguma trilha mostra as pernas, põe luz verde no indicador, grita por trás de um rochedo, cabendo a cada um/uma ir de vez, de ponta-cabeça, de xuá, seja lá, fazendo razia como um falcão ou um jato de guerra (já titubeei tantas vezes, que estou desacreditado até mesmo entre as pedras, pedras que tantos versos me ocuparam). Melhor mesmo é meter-se no teclado do piano, entrar no domingo, no feriado, nas férias, na aposentadoria, na morte em vida severina.

*****

foto e texto: Darlan M Cunha

hóstias sem glúten

MÃE, ME AJUDA A COMER

quando as bocas perdem o juízo

***

     O papa Chico acaba de anunciar uma medida insólita, que é a de se proibir hóstias que contenham glúten. Sim, o glúten, de uns tempos para cá, parece que é o responsável por quase todos os males do mundo. Fico por aqui, preparando pasteizinhos, bicando um moca, o que pode dar a falsa impressão de estirpe folgada. Comparada com a vida das crianças refugiadas e suas mães já mortas, mesmo semivivas (aqui, sem nenhuma sombra de humorismo rasteiro), estou/estamos bem. Viva o glúten, eu e você. Vamos nessa.

***

pastéis, texto e foto: Darlan M Cunha

rota do peixe e do riso

ace-1807511_960_720

o riso e o peixe

***

     Já faz muito tempo que o riso sumiu nas brumas do Homem, os peixes correm grande perigo, insetos antigos veem com pasmo as pancadas em suas portas e janelas, bichos de todo tipo em seus túneis, locas, tocas, grutas, cavernas, labirintos térreos e aquáticos – as cobras do deserto, os castores – veem com apreensão o momento humano, sentindo que os mares e as terras não estão nem pra peixe e nem para formigas, que as ruas do mundo estão cheias de indecisões, de falsas alegrias pelas altas tecnologias, etc. Já faz um bom tempo que o riso das hienas domina o cenário, que suas garras seguram tudo. Entenda.

***

imagem: INTERNET     >>>>>     texto: Darlan M Cunha

feira

DSC01918

tempera-te

***

     Ontem na feira de rua ouvi que “o mundo é melhor para homens solitários e mulheres desbravadoras”, e fiquei matutando sobre este conceito engraçado, mas levado a sério pelos circunstantes, inclusive eu. Mal dormi, pensando nas mulheres solitárias e nos homens desbravadores espalhados pelas aldeias do mundo. Voltei para casa, pronto para tecer conversa com a panela, medir forças com o imponderável, e urgir demências, das quais já sou proprietário diversificado.

***

Cozinha, foto e texto: Darlan M Cunha

(Tenha um bom segundo semestre. A vida é minuto)

filho da água

DSC01916

piramutaba

***

     Sempre se diz que peixe morre é pela boca. Pensando nisso, acho que Brasília deve ser um mercado de peixe maior do que o de Tóquio – TSUKIJI, o maior do mundo. Há tantos mortos pela boca na terra do lago Paranoá, que deve ser uma fedentina inenarrável., da qual, apavorado, fujo. Na Grande Capital, o mar nunca está pra peixe. Só para tubarões.

***

cozinha, foto e texto: Darlan M Cunha