cotidiano 2

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       O verbo murar está na moda, muito embora sempre tenha deixado suas pegadas na história, como os fossos e as pontes levadiças dos castelos medievais, a suicidade de três risíveis donos, a muralha da China, a muralha de Trajano e muitas outras barreiras ainda mais antigas, bem como as fortalezas japonesas da era dos samurais, nas quais, mesmo se o inimigo conseguisse entrar, após ene peripécias, dificilmente sairiam vivos dos labirintos e seus truques contra invasores. No tempo do homem das cavernas, é de se pensar que os morcegos tenham sido treinados para cuidar do sono dos inquilinos do momento, abrindo seu sonar ainda primitivo, gritando feito malucos, caso alguma tribo tentasse invadir a toca de seus amos, e assim por diante (depois o som dos morcegos tornar-se-ia inaudível a nós). Sabemos que os muros sempre tiveram simpatizantes, por esta ou por aquela razão. Pensando nisso, cada qual constrói para si e, muitas vezes, contra si, verdadeiros baluartes, dos quais nunca mais escapam. Beco sem saída é coisa de gente, é um ovo muito antigo. Ah: os castores, entre outros prevenidos, constroem fortalezas ou barragens, modificando rios, pelo que não estamos sozinhos no afã de construir muralhas muros paredes grades cercas redes labirintos becos abismos e túneis de fuga. Muro, no melhor dicionário de um idioma inexistente, significa ilusão de segurança. Tanto é que todos os dias muitos veem cair o grande muro que os separa da demência total: o emprego. E agora, José ? Há muitas obras sobre tal assunto, mas essa crônica me basta. Entre les Murs. Border Walls. Murs, voyage le long des barricades. Os Muros que nos Dividem. The Wall. Wall Street. Father and Son... De uma forma ou de outra, todo conceito tem germe mural.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Duas imagens trazidas da INTERNET:  mundo geografia  //  pre.univesp.br

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elementos

Lagoa da Pampulha 1

Lagoa da Pampulha, BELO HORIZONTE, MG

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       Em agosto, o vento dá as caras por aqui, e ainda que não mate, cresta os rostos e dá asas aos anúncios, às placas de trânsito e às saias. As mãos, por terem pouca irrigação, sofrem suas picadas. Mas o que é o vento natural diante dos ventos sociais, quase nunca de bem com a saúde do cotidiano ? Lembro-me do poema Congresso dos Ventos:

 

Na várzea extensa do Capibaribe, em pleno mês de agosto

Reuniram-se em congresso todos os ventos do mundo;

Àquela planície clara, feita de luz aberta na luz e de amplidão cingida,

Onde o grande céu se encurva sobre verdes e verdes, sobre lentos telhados, […]*

 

       Em agosto, que a vida seja leve, que as vítimas não saibam de nada, comentários se abram (como é difícil deixar umas palavras, talvez porque falar cansa, escrever dói – é o que parece). Em agosto, não se ouça a palavra julho, talvez seja melhor citar setembro, o amanhã, mas um sambista diz que meu tempo é hoje.*

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foto e texto: Darlan M Cunha

dia sadio

The King, The Balistic Missil, WindMan

Quenianos e etíopes, com todo o respeito que lhes é devido, que se cuidem.

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     O que aqui se faz aqui se paga, diz o povo, em sua sabedoria, deixando de fora deus e o diabo, que o acerto seja feito aqui, que aqui se pague o faroeste, a lei de Talião, de Salomão, do Rubicão, do Chicão e de quem mais, ou não, pois há tantos erros e crimes não pagos que o melhor é levar em conta que desvios conscientes de conduta tomaram conta dos lares (ainda existem ?), das ruas, das casas públicas.

     O mar é museu de cuspo branco, de jogar suas anáguas na praia, de vomitar um caldo negro muito antigo de enome poder & discórdia, com prazo marcado para acabar. O que se faz aqui, aqui se paga, diz o povo; e se há pragas de gafanhotos e de formigas, se há virologias renovadas nas esquinas, o homem não desanima, que o instinto não permite baixar a guarda, e até mesmo as pedras reagem ao fim, escondendo-se no próprio pó, pelo que ninguém mais dirá que uma pedra no meio do caminho. Sem pedras não há como construir uma educação pela pedra, e nem pela pedrada.

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foto e poema: Darlan M Cunha

https://paliavana4.blogspot.com

infância

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Restaurante Rancho Fundo (entrada falsa) – Buritis, BH – MG, Brasil

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     Tempo de assombrações, espantalhos nos quintais e nas plantações, missais, a língua das camaleoas e dos lagartos da aldeia, o afogado, a demente das ruas, pipas, sanhaços e urubus, marmelada e macarronada domingueiras, pelada na rua, na praça, no campo, no adro, um bilhete raspou a felicidade, o prefeito amputado, a prefeitura idem – há ruas descalças mas prontas para a chuva quanto para alguma festa. Pensei nisso ao fazer de novo uma foto deste restaurante vizinho a mim- quase um pequeno sítio.

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foto e texto: Darlan M Cunha

clave de sol

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o cafofo para fins-de-semana e feriadões

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     Uma vizinha de uma de minhas avós dizia que mulher de músico ou de médico não tarda a descobrir o desânimo. Até hoje, tanto tempo após ouvir isso, isso me recorda o espanto, o hilário, o asco entre paredes, a bile, o silêncio, o trágico. E eis que o programa espanhol sobre literatura – Página Dos (TVE, 205) – entrevistou o escritor David Trueba, autor de Tierra de Campos, no qual o músico personagem diz que “No conozco a ninguna mujer que no se arrepienta de haberse enamorado de un músico.” Mas vamos devagar, sem generalizar, pois há muitos músicos com os dedos e a cabeça bem equilibrados. Decerto que seus itinerários, jornadas, noitadas, ensaios e viagens podem interferir na vida em comum, além de que por outros detalhes uma casa possa desandar. Há música quando nascemos, nos aniversários, nas formaturas, quando ganhamos na loteria, no fim das guerras, quando nos casamos, quando os filhos chegam, quando nos aposentamos e quando falecemos.

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foto e texto: Darlan M Cunha

hóstias sem glúten

MÃE, ME AJUDA A COMER

quando as bocas perdem o juízo

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     O papa Chico acaba de anunciar uma medida insólita, que é a de se proibir hóstias que contenham glúten. Sim, o glúten, de uns tempos para cá, parece que é o responsável por quase todos os males do mundo. Fico por aqui, preparando pasteizinhos, bicando um moca, o que pode dar a falsa impressão de estirpe folgada. Comparada com a vida das crianças refugiadas e suas mães já mortas, mesmo semivivas (aqui, sem nenhuma sombra de humorismo rasteiro), estou/estamos bem. Viva o glúten, eu e você. Vamos nessa.

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pastéis, texto e foto: Darlan M Cunha

rota do peixe e do riso

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o riso e o peixe

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     Já faz muito tempo que o riso sumiu nas brumas do Homem, os peixes correm grande perigo, insetos antigos veem com pasmo as pancadas em suas portas e janelas, bichos de todo tipo em seus túneis, locas, tocas, grutas, cavernas, labirintos térreos e aquáticos – as cobras do deserto, os castores – veem com apreensão o momento humano, sentindo que os mares e as terras não estão nem pra peixe e nem para formigas, que as ruas do mundo estão cheias de indecisões, de falsas alegrias pelas altas tecnologias, etc. Já faz um bom tempo que o riso das hienas domina o cenário, que suas garras seguram tudo. Entenda.

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imagem: INTERNET     >>>>>     texto: Darlan M Cunha

do lampião ao hoje

NO TEMPO DO LAMPIÃO (2)

Lampião do filósofo grego DIÓGENES – O CÍNICO (412-323 a.C.), que arrematei, e depois, para comemorar, fui colocar querosene na cachola, no famoso BARTOLO.

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     Ninguém sabe como ele chegou até aqui, quem o descobriu, se foi roubado de algum Museu; mas isso não é possível, pois não há registro em nenhum lugar, em nenhum livro científico. O vendedor, analfabeto completo, como, de resto, a enorme maioria da nação, colou no bojo da preciosidade uns decalques para valorizá-la, sem saber o que tinha em mãos, disse ter feito um escambo, uma troca no interior de Minas, lá pelas bandas de Tiradentes, e coisa e tal, e eu acreditei, sem acreditar, porque eu logo detectei a origem exata dessa bela peça que vi com meus Olhos De Cão Azul (Garcia Marques), esta que o filósofo carregou pelas ruas de Atenas, pleno dia, dizendo que estava “à procura de um homem honesto em Atenas“. Atenas, a mãe da democracia.

     Como se vê, parece que não há mães como antigamente ( – Herege, exigimos as tuas desculpas às mães !).

     Como se vê, quanto à honestidade, à proteção do patrimônio público e a muitas outras coisas mais, autoridades de todas as latitudes e longitudes continuam as mesmas (salvo as famosas honrosas exceções).

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foto e texto e risos: Darlan M Cunha

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Mercado 1

Mercado Central de Belo Horizonte (1929), MG, Brasil

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     Um dos livros através dos quais iniciei o aprendizado do idioma russo (33 letras) foi o da professora Nina Potapova, isso há décadas, numa representação cultural da Rússia, em BH, que ficava no edifício Rembrandt, na Rua São Paulo, região central. Lembro-me de ter ganho um relógio, num concurso feito pela modesta mas diligente instituição, e de tê-lo dado de presente à minha irmã Telma. O tempo fez o que sabe fazer, condenado a si mesmo, o espaço contraiu-se, para uns tantos, expandiu-se para o quase nenhum, mas eu continuo, o idioma russo continua (cinco ou seis idiomas sobreviverão), tu continuas, e enquanto não se descasca de todo a trama mundial, vamos ao mercado, ao lugar onde, segundo o poema do Bertolt Brecht:

Para ganhar o pão, cada manhã

vou ao mercado onde se compram mentiras.

Cheio de esperança

ponho-me na fila dos vendedores.

(BERTOLT BRECHT. Antologia Poética. Poema “Hollywood”)

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foto e crônica: Darlan M Cunha

uma casa de pernetas, daltônicos, gagos, lábios leporinos, fans de rock proagres- sivo, estudiosos de minhocas e do bicho-da-seda, duetos do globo da morte – a rua

a luta

Ó vida, margarida !

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Eu quero é botar meu bloco na rua
gingar, pra dar e vender*

     Numa das muitas vezes em que passei pela avenida Nossa Senhora do Carmo, BH, um pouco desviado da minha rota mais comum para casa, deparei-me com esta cena, nem digo espetáculo. Todos já viram este cenário, palco, luta de gente botando seu bloco, seu oco nas ruas, até porque é preciso estar atento e forte. É a cabeça, irmão.

     Assim como a rua é uma casa muito engraçada, também é memória de panos negros, de painéis de cabeça para baixo, um grito parado no ar, e logo ali num bar as conjecturas, as filosofias de mal casados, descasadas, separadas, amaziados, desquitados, roedores de unhas (onicofagia), e por aí vai este longo rosário de sapatos cheios de pedrinhas que a suicidade comporta.

     Eu também quero botar meu ovo na rua.

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foto e texto: Darlan M Cunha

VISITE: https://www.poemhunter.com/darlan-m-cunha/