Dom Quixote e os moinhos (gigantes contra os quais lutou)

Roda-gigante na Pampulha

“Ahora venga lo que viniere, que aquí estoy con ánimo de tomarme con el mismo Satanás en persona.” (Capítulo XVII, página 571)

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     Fiz essa foto na Pampulha, BH, no dia da 7ª Corrida da Cooperação, e imediatamente lembrei-me do glorioso e maluco fidalgo Dom Quixote e do seu fiel escudeiro o sempre resmungão Sancho Pança. Ri um bocado, até mesmo enquanto corria os quilômetros necessários, pela famosa cena em que Dom Quixote, delirante, entra em combate mortal contra os moinhos de vento. Só rindo da “coça” que ele levou das pás dos moinhos.

     Acho que o Dom Quixote, entre várias outras razões, 400 anos depois, se continua tão famoso e querido é porque quebrou qualquer vínculo com a Razão, de um modo único. E para completar, vai com ele o resmungão e esperto Sancho Pança, sempre tirando seu amo de encrencas, e assim é que se pode dizer que um não existiria sem o outro.

     Às vezes, quando certo desânimo quer sentar-se ao lado meu, olho para ele e penso que não posso consentir que tome conta de mim, porque para mandá-lo embora, depois de instalado, seria outra história. E aí me lembro dos mil e um percalços de Sancho e Quixote, lá pelas brenhas da Espanha – enfim, se o sossego nunca me deu a mão, é bom ter em conta que ele também fez, faz e fará o mesmo com bilhões de criaturas.

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

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Galeeria MPB

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     A gente não escapa do passado, pelo menos não de todo. Pensando bem, tudo vai com a gente, às vezes, olho por olho, dente por dente. O amor é antigo, o medo é antigo, licores são antigos, de casa em casa, de boca em boca, de mão em mão, paciência e imaginação, algum tipo de fé sempre quer morar com a gente, o riso está por um fio, morrerá ainda este ano, este mês, esta semana, amanhã, hoje – talvez não, isso porque milagres acontecem, diz o povo. A música, parece, inventou o tempo e o espaço, embora certos cientistas digam que nem um e nem outro existam de fato, mas o canhoto Leonardo da Vinci, que também era músico, disse que la música è la figurazione dell’invisibile. Para Platão, a música é uma lei moral, e por aí vão certas variações quanto à importância dela. Um dia, minha modesta mãe, muito religiosa, que adora música e gosta de cantar, me disse algo que irá sempre comigo: “Filho, tudo é sagrado, mas se tem três coisas sagradas são: mãe, água e música.” Nunca me esqueci.

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Foto e Texto: Darlan M Cunha

Hoje: Dia Mundial da ALZHEIMER

Carta à Mãe – nº 96

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Postagem dedicada à minha Mãe, e à amiga Cristileine Leão

VEJA e OUÇA: https://www.youtube.com/watch?v=ZRI8ExXzkjc

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Dona MARIA,

irei visitar a a Senhora, hoje ainda. Como prometi, ontem, estarei levando as compras, e assim como diz o povão: “vamo qui vamo”.

Eu não perco tempo com nada, ora, um dia só tem 1440 minutos, ou seja, é um vu, sim, a palavra vu. Só gasto preocupação com Você e, às vezes, também com todo mundo.

Só fico cem por cento quando abraço a Senhora, e assim dizendo me despeço, querida Mãe Maria José.

Seu filho analfabeto, meio desmiolado, mas bom garoto.

DARLAN

 

 

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Pampulha – BELO HORIZONTE, MG – BRAZIL

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Eu queria fazer muitas coisas – e fiz. Muitas outras também fiz; e milhares de outras ainda nem deu tempo. Mas como eu (e vocês) estamos na flor da idade, então, será possível.

É como diz uma das minhas sobrinhas – uma pestinha: “Tiô, nóis vai botá pá quebá.” Pois é, só rindo. Bom domingo, boa semana.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Guerreiros – 14

3 elmos

3 elmos

 

     De repente ocorreu-me que a Palavra é moeda de troca, atitude de políticos, filósofos, malucos, religiosos, escritores e leitores, papagaios e ventrílocos, ela é fardo e alívio, vai à guerra (às vezes, assobiando), mas foge dela quando as coisas ficam pretas, pede arrego, a palavra é casa-da-mãe-joana, de pedro-mete-o-dedo, e o mais estranho é que ela insiste em existir mesmo nos mudos, ou quando proibida por decreto, sim, isso me ocorreu neste fim de madrugada, ri, tornei a rir da pobre articulação de nome palavra – muitos músculos e tendões são acionados para que se fale um simples palavrão tal como aluguel, ou uma palavrinha inocente de deus, como pecado. Pois é, o mundo já foi Babel, se piorou ou melhorou, isso depende do senso de cada pessoa. Hoje, economizarei palavras, amanhã também, depois de amanhã, ou nunca. O futuro à palavra pertence ? Quem viver verá. Palavras ? Vá para a cama sem elas.

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

vãos

Escultura em aço, av. Raja Gabáglia, BH

Av. Raja Gabáglia, 2280 – Cidade Jardim, BêAgá

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     Até ontem eu não sabia nada de nada, mas sempre me renovo, mesmo no vazio, crio coragem para melhorar para mim mesmo a minha imagem (isso até dá samba & poesia, parece que sim, parece que não), queria ser escultura que muitos, não todos, parassem para perguntar algo a si mesmos, ou a mim (isso faz muita diferença), de platina, de aço, de alumínio ou de estrume, queria ser escultura na qual jogassem pedras e até fezes (não te lembras da Geni ?), porque a aldeia é o nosso lar – nele estão os instrumentos da minha e da tua percepção geral, os unguentos cotidiários contra a tortura de um sapato apertado, das ruas apinhadas, do metrô às escuras, puro terror, é isso, hoje é um novo dia, dizer que é um dia a mais está certo, mas dizer que é um dia a menos na conta geral também está correto. Escolher.

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Visite AQUI-Ó: https://www.flickr.com/photos/aqui-o/

meditação dominical: aldeia

bandeirolas

– Salve ! – Como é que vai ?

 

Vivo numa aldeia fechada, suas ruas no mais duro esquecimento, seus habitantes pouco saem, pouco falam, pouca sombra na praça, igrejas às moscas, somente fantasmas, o sol é devagar – dia sim, dia não –, gritos de origens não identificáveis bombeiam a vida, o rio vem e vai, igual a todos, de fora para dentro, de dentro para fora dos limites da aldeia, no dia em que o padre morreu, somente a mulher foi ao enterro, mais alguns abnegados subalternos do céu, sim, nesta aldeia o resumo do mundo não faz sentido, o tamanho do mundo é desconhecido, eu vivo como posso, mas vou às aldeias vizinhas, tento respirar, levo garrafas e bombas para enchê-las de oxigênio que eu vendo aqui, a procura é boa, espero que não descubram onde e nem como arranjo vida nova, ar novo para vender, tentando prolongar a vida na região. Aqui ninguém canta “minha terra tem palmeiras.”

Minha aldeia é um soluço atrás do outro, a música parece que foi abolida, no entanto, a maternidade está sempre com novos bebês nas mãos, ó mistério, eu preciso ir-me daqui, ninguém compra casa nesta vila tão feia. Sonho com outras paredes, rios e mares, outros timbres de voz, não morrerei onde nada acontece, a não ser queda de muro, pensando bem, só porque os cabelos e as unhas crescem, não que dizer que se esteja vivo. Pensar dói, mas é preciso, devo calcular bem o próximo passo, lembrar-me de que uma perna não vai sozinha. Será que a aldeia poderá transformar esse túnel num final feliz ? Mas o que é a felicidade, quantas mil faces tem, se o que é bom para um é tolice ou impossível para o outro ? Ser ou ser, eis a única questão.

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Foto: Maria José M Cunha     >>>>>     Texto: Darlan M Cunha

MOCHILEIRO

Tio DARLAN Motoqueiro

viejos tiempos  //  old times  //  alte Zeiten  

para TODAS e TODOS  //  para Divagações & Pensamentos  //  para Chronosfer2  //  para Cristileine Leão  //  para HangFerrero

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     Eu não fazia ideia que aqui em casa ainda existia baú – pois é, encontrei um ao abrir uma parede para fazer passagem para outro cômodo, e na qual penduraria uma cortina de sisal. Não, nada de cortina.

     Dentro da relíquia encontrei relíquias, ri, chorei, babei, bati cabeça nas paredes e botei a mão no fogo para sentir que não estava delirando, o baú é verídico, do século vinte ou talvez da época de Pedro II – já não me lembro, mas as fotos que lá estão dizem muito, e também as bandanas, correntes para o pescoço, pulseiras, decalques, cartas, uma carteira de couro de jacaré (em muito bom estado, mas o jacaré morreu), óculos de sol, um cubo de Kubik, uma garrafinha de bolso, uma camisa do Santos F. C.  e uma do Villa Nova Atlético Clube (Nova Lima, meia hora de BH), cartões postais, cartões de apresentação profissional (ora, queria eu saber de serviço ? não, mas os guardei em respeito ao Outro), anel de prata do Peru, cordas para charango, lágrimas bem guardadas num vidrinho, sim, lágrimas de uma bela adormecida, ou foi da própria Xerazade ? Não me lembro, embora me lembre, mas vamos em frente, aos chaveiros de vários lugares, UAI, Ó XENTE, BARBARIDADE CHÊ, o Brasil é grande, o mundo também, revirei uma parte da minha vida e, darlanianamente, sacudi a poeira, deitei-me na esteira, bela bebedeira para me lembrar com calma de gentes e assombrações, estradas, vilas, aldeias, cidades, rios, mares, cheiro de estrume, a barraca, escalavrões, gente má humorada, gente bem humorada, eis que na Argentina tem uma estátua dedicada à mulher grávida (acho que em Córdoba), ó vida, cadê o violão e a estação de trem, cadê a rodoviária, irei a pé, como fiz mais de uma vez, comendo banana debaixo de um sol mais caliente do que a casa do Demo, feliz da vida, bebendo garapa, topando com goiabeiras e mangueiras no meio das estradas poeirentas, sanduíches dormidos, pastéis de anteontem e de trasanteontem, cheios de vento, nada de SIDA//AIDS, bons tempos de bandeira e saúde na mochila, crianças seguindo a gente, curiosas por aqueles malucos mais sujos do que um gambá, felizes…

 

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Foto: Nem Sei Mais     >>>>>     Texto DARLAN M CUNHA

Caminhos do Mundo – 1

Caminhos do Mundo - 1

ir e vir

 

       Se a alegria vive fantasiada, perdida numa sombra maior do que ela, crianças notam o rumo das coisas, os fatos, as rugas no rosto do dia, ainda que esteja vestido de palhaço, noel ou disfarçado de coelho saindo da cartola. Dentes ao sol, há o que ler, ver e fazer.

 

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Foto: Vó Maria José M C     >>>>>     Texto: Darlan M Cunha

Visite: http://www.gargantadaserpente.com/toca/poetas/darlan_cunha.php

Grãos Especiais // Special Grains

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FONTE  //  SOURCE: https://g1.globo.com/mundo/noticia/jovens-e-treinador-presos-em-caverna-na-tailandia-sao-encontrados-com-sinais-de-vida-diz-governo-local.ghtml

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Voluntárias celebram  //  Volunteers celebrate

FONTE  //  SOURCE: https://g1.globo.com/mundo/noticia/meninos-deixam-caverna-na-tailandia-no-terceiro-dia-de-resgate.ghtml

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     E porque hoje não é sábado e nem segunda-feira, hoje é dia nenhum, sem data, 1440 minutos propícios à meditação bem pessoal, profunda, para talvez ver algo para além do túnel que cavamos insistentemente e nele entramos, e do qual, parece, ainda incapazes de sair. Mas há esperança de colocarmos uma terceira face na moeda, até porque, como escreveu CDA, entanto lutamos,* e o que aconteceu no país dos thai reforça essa crença de que se pode quebrar os ranços antigos da humanidade, os métodos de desconstrução inventados por nós contra nós e contra tudo que compartilha conosco o planeta.

     Cerca de mil pessoas participaram in loco, in vivo, in situ do resgate dos garotos que passaram dias sem comida, tendo por cama o desafio de não fechar ao mesmo tempo os olhos sobre a cova úmida e escorregadia. Ao longe, mães. Comentário de uma amiga: nenhum deles tem diabetes, não se salvaria. Alguém lembrou-se dos mineiros chilenos. Das mil pessoas, entre tailandesas e de vários países, uma faleceu na caverna.

     A respeito deste episódio que terminou (talvez ainda não) em grande estilo, elevando um pouco o moral da humanidade, ontem, no mercado, ouvi dizer que a FIFA convidara os garotos a irem a Moscou, para a final da copa do mundo – respeitada a decisão das muitas equipes médicas. Sei não. Hoje, como ninguém confia em ninguém, ninguém crê em bondade, ninguém abre a mão ou um sorriso sequer para um vizinho, é esperar para ver. De qualquer forma, ficarão pelo menos dez dias de quarentena, o que não é nada para quem, de certa forma, esteve mais do outro lado. Segundo consta, dois diretores de uma empresa de filmes, cristã, de Hollywood (cristãos em Hollywood ?), já estão na Tailândia, em busca de acordo para rodarem um filme sobre os Wild Boars.

     Daqui, desejamos uma longa e sadia vida aos garotos da equipe tailandesa de futebol Javalis Selvagens.

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Miniatura em grande estilo

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Choro de mãe, Wagner,* sabemos que é pausado

não é igual ao da maneira de ser

de gente afeita ao puro espetáculo, amigo

sabemos que choro de mãe não é por capricho

e sim que ele tanto vem de muito perto

quanto de muito longe para fluir suas lágrimas

ou a breve arquitetura do choro**

segundo escreveu um poeta ciente das cores

e da afeição por teclados, cordas e madeiras,

cientes todos nós do fluxo suave de um regaço que, por ser

de mãe, adormece aberto em leque – ela bem ali

esquecida de si, do que lhe seja cansaço.

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Textos: Darlan M Cunha

  • * asterisco: Do poema O Lutador, de Carlos Drummond de Andrade.
  • ** asteriscos: Alusão à linda canção do maestro Wagner Tiso – Choro de mãe -, com o violonista Nelson Faria.
  • *** asteriscos: Do poema do português Eugênio de Andrade. Prêmio Camões.