Darlan visita Ai Wei Wei, nº 3

instável

apreensão

Acordar com o Nada. Apenas acordar, sem lenço e sem documento. Nadas. Por cima uma laje, embaixo a escuridão,* nenhum ovo à vista, nada de aves ou de algas, só o fermento do medo por companhia, mas outro sabor ali está porque se mantém firme o tempero da esperança que é a última que morre segundo o dito popular. Nada além de uma cor que não é de atrair nenhum olhar, devido à circunstância pavorosa daqueles homens e mulheres espremidos entre os dois grandes azuis, querendo outra situação que está muito distante de onde estão. Longe dali, daquele corredor aquático, amanheci macambúzio e álacre, sem saber se sorrio ou se me descabelo de vez, por ninharias, se comparado aos tantos náufragos, é que sinto que o coração precisa de norteio, de um ofício, um emprego que o leve ao caminho da crença que não a de fé em deus, isso não, quero saber onde se esconde a redenção que, segundo todos, ou quase todos, o amor dá a quem consegue escalar tal perdição. Remando neste sentido, aflito, espero arranjar tal emprego – e que seja eterno enquanto dure – nas palavras do Vinícius.

Darlan M Cunha

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Darlan visita Ai Wei Wei, nº 2

Observação flutuando

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Baixa o olhar. Mais fácil te será a caminhada, se atentares para o sol onde pisam teus pés. Dante Alighieri. Divina Comédia. Purgatório, cap. XII, 13.

A isto já replico, ou completo: Levanta o olhar, o dorso e os pés sobre os destrossos da História, que assim te será menos penosa a jornada. DMC

*

Desta exposição de algumas obras do chinês Ai Wei Wei, já disse ser difícil continuar cedendo ao hábito falido de não pensar, pois o sensato é lutar consigo mesmo/a quando algo for proposto nas vinte e cinco horas de cada dia, sim, o mundo vai depressa demais, e há muito tempo precisa de uma hora, ou mais, a mais.

Foto e texto: Darlan M Cunha

Música chinesa (instrumentos: erhu, cítara, flauta de bambu, banjo): https://www.youtube.com/watch?v=uiOgOQcWGsc

Darlan visita Ai Wei Wei

Darlan visita Ai Wei Wei (quebrando uma porcelana da Dinastia Han – 206 a.C.- 220 d. C.)
Clique na foto e leia o poema por trás dela.


Fugindo da fome, do ódio, vão ao mar, rumo à Europa ou… ao fundo.
Montagem com caixotes tipo guarda-roupa: uma ilusão sensacional

No domingo, 14, fui visitar Ai Wei Wei no CCBB – Centro Cultural Banco do Brasil, no complexo de museus modernos, na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte. É uma exposição que dá uma ideia geral da atividade deste artista tão controvertido (a China devolveu-lhe o passaporte em 2015, se bem me lembro, mudou-se para a Alemanha, indo depois meter-se de carne e osso na rota de fuga para tanta gente no cansado mar Mediterrâneo, etc). Muito lúcido, ele diz que os artistas não precisam se tornar mais políticos; os artistas precisam se tornar mais humanos.

Darlan M Cunha

Choro Loco. YAMANDU COSTA: https://www.youtube.com/watch?v=pUgSr2-ifnY

A leveza pede passagem

Enredo de gala


Ao contrário do que se possa fazer crer, não sou caçador de ti e de mim, nem do Nada escondido no Nunca. Pois bem, mudando de catavento, ou de assunto, eu nunca fui convidado a um baile de máscaras. Pensando bem, para quê, se o mundo todo, se a showciedade vive travestida ? O que eu imagino sobre tais festas, sempre apresentadas com ar de muita classe, e nem digo etiqueta, nem é preciso dizer glamour, é que nelas devem acontecer situações como a de perguntas assim: – Bela máscara. Olá, você é a Cláudia ? Não ? Ah, já sei, essa é a voz da Ângela. Engano seu, cavalheiro. Divirta-se. Hahaha… só rindo.

Celso Renato

Enganos acontecem até no escritório. É, em frente, porque talvez um dia eu seja um dos convivas, mas preciso pensar que máscara preparar, que ideias desejo que ela transmita ou não transmita às belas e aos idiotas de plantão. Pois é, por mais alguns dias de sol no quintal eu iria a pé ao interior de Minas, principalmente na região das cidades históricas, onde há muita jabuticaba e muitas igrejas – mas estas últimas eu dispenso.

Darlan M Cunha – UMMA (romance)

Bom, preciso deixar livros de lado, isso não dá bom caminho, enquanto isso, espero com febre o convite às nuvens, aos degraus perigosos, escorregadios são os lábios do perigo. Mas toda hora é hora de permanecer na realidade, e assim o condomínio está pago. Fiz quinze anos há pouco, e nem percebi, nem tive tempo de contar quantos dedos tenho e quantas vontades de fazer algo, conseguir isso e aquilo, e de me aprimorar numa área, em duas ou três, mas sem me esquecer de ir à praça, de vez em quando, de rir e gritar numa cachoeira, de visitar as avós. Espero com febre o baile de máscaras.

Fotos e texto: Darlan M Cunha

O pequeno mentecapto*

Universidade UNI-BH — um dos laboratórios >>> [clique na foto e leia o poema no anverso]

SONHO e DELÍRIO: OLHAI OS DELÍRIOS DA ALDEIA

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@1

Quando eu nasci, ouvi: Vixe, qui minino feio, Santa Filomena ! Puro drama rindo-se à custa do novato, mas após eu beber colostro, a mãe disse: – Não liga, filhinho, são as invejosas de plantão, sabem que você é lindinho. Pois bem, mãe é mãe, é pão sovado, salgado, é doce de não haver doce igual (assim, carrega água na peneira para ela, sem desperdiçar uma gota, ou te haverás comigo, o Diabo em pessoa). E depois do que ela falou eu caí na real, e botei para quebrar, tudo fucei com a maldade na bile, investi em mim, que já era líndio, e hoje sou um espanto imune a quebranto. Mas eu ficava ainda mais solar era quando minha mãe me vestia de marinheiro, com direito a um gorro e a palavrões (estes, por conta própria), iguais aos que se ouve num convés, lá onde tudo acontece, o convés é a rua dos navios, e é por isso que se diz que roupa suja se lava é na rua. Voltando à minha efígie, já cunhada para uma coleção de moedas de ouro, para colecionadoras e colecionadores, lembro-me da canção cubana, alfinetando: Soy feliz // soy un hombre feliz // y quiero que me perdonen por ese día // los muertos de mi felicidad.*

@2

Reli trechos dos dois primeiros livros – A Mãe e o Filho da Mãe (1966), e O Menino e o Pinto do Menino (1967) – do mineiro Wander Pirolli (1931-2006), um dos fundadores do jornal Hoje em Dia. Raramente releio, com exceção a meus livros, de Lavoura Arcaica (Raduan Nassar) e do Dom Quixote (Miguel de Cervantes Saavedra, 1547-1616). Na semana anterior, relera umas páginas de O Grande Mentecapto, rindo de cair, é de fazer a pessoa querer mudar-se para Ouro Preto, Mariana e adjacências, para talvez sentir no todo este livro maluco e engraçado, imaginando o personagem principal, o parvo Geraldo Viramundo, e o temível Montalvão, o manda-chuva nos bordéis sobre aquelas pedras inconfidentes. Então, ficamos assim: enquanto e onde houver gargalhadas, estaremos lá, todos salvos. Ave, Darlan, os que vão gargalhar te saúdam !

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Darlan M Cunha

OLHA, MARIA (Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Chico Buarque). Milton Nascimento canta, Tom Jobim, ao piano: https://www.youtube.com/watch?v=oJ3gLQFarig

3 em 1

sabor penumbra

@1 NO ESCURO

A escuridão é, para as corujas, algo assim como um pacto com a própria sobrevivência, já que é caçadora noturna; mas há criminosos especialistas em sombras, nas quais se movimentam como que pisando em ovos, há também a veia romântica no breu de um beco, um quarto, praia, barco – e mais não direi quanto a isso.

@2 PICUINHA

Aquela fuligem acumulada na cozinha da roça chama-se picuinha, palavra que também significa algo de menor importância: Ah, isto é só picuinha de fulano. O idioma é mesmo engraçado e também complexo, embora muitos não lhe deem a mínima, porque palavras e vento são parentes, e assim, parece que as únicas palavras que valem algo são as que estão nos cartórios, todas elas carimbadas e assinadas, pagas, porque o tempo de aperto de mãos, de olhos nos olhos, de palavra dada se foi.

@3 MAR

Eis o mar bem à frente, ele não é eterno, mas apossar-se dele é grátis, mas por ele ser predominante, seu balanço de saia rodada e de anágua branca pode fazer uma pessoa perder o pouco juízo, ou esclarecer-se como nunca antes ela pudera, porque o mar é mãe, é severo e ao mesmo tempo cheio de mimos, dá descanso e eleva o psiquismo, o sal é ótimo antisséptico, enfim, estás em casa, estando no mar.

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DARLAN M CUNHA

tempo-riso

MÚSICA & RISOS – NOVA LIMA, MG >>> [Clique na foto, em comentário, e leia o poema]


Circo PING O MIN, direto de BEIJING , com o palhaço ZU (Circo vedado a adultos)

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@1

A foto com crianças de uma escolinha em Nova Lima foi feita pela minha amiga Maria, de Lisboa, que esteve uns dias no Brasil. Poucas vezes ri tanto quanto naquele dia, mesmo já acostumado a fazer shows e palestras para a molecada nalguns lugares, um sucesso garantido, sob mil perguntas por minuto, risos sem conta, boa merenda, professoras a mil de contentamento. Foi um papo alto astral, como diz o povão, ali na rua, para começar o dia.

@2

O vira-latas toma banho no córrego aqui atrás do barraco e se escova nas árvores esse tipo impaciente e inconstante nem sempre fiel às minhas falas na maioria das vezes é infiel como gente grande o bastardo e órfão dispensa toda ilusão e comigo baba e urina nos ícones desse tempo infeliz incapaz de ver a própria sombra. Seu nome é UK, e se pronuncia Uquí, sem nada a ver com o tal united kingdom. Melhor atentar aos nomes dele, todos no cartório numa ordem igual à dos dias da semana, iniciando na segunda-feira: Uquí, Gemebundo [ou Bundo], Iranito [ou Nito], Tuím, Satã-Rei, Ku Ming [ou simplesmente Ku], e o nome dominical é Gúgôu [neste dia ele fareja tudo e vai a toda intimidade da aldeia, come bebe deita e rola]. Mas a característica dele que mais chama as atenções é o fato dele ser um cão albino de fina estampa fantasmagórica vagando na aldeia de um modo que o querem matar porque temem seu olhar furtivo, os olhos de rubi com altas doses de perversidade embutida neles, também não se furtariam em danar o dono e amigo do bicho caso tivessem alguma chance nesta aldeia de tipos superticiosos enfiados numa luxúria sexual no meio do mato, comem com as mãos em concha, riem e segregam todo infortúnio alheio, ignorando por completo quem por lá aparecer cansado perdido descarnado ferido. Nada como um cão desobediente e um homem demente para salvar o mundo. Vinde a nós as criancinhas.

@3

Vejo bons amigos sentados no adro da igreja do Pilar, em Sabará / conservando o pó da infância / os seixos da juventude / e a educação pela pedrada/ de quando adultos em primeira instância. Hoje, cheios de cãs [segunda instância] / voltam à infância e riem de não se caberem nas calças curtas / no som imaginário de um horizonte aceso e desconhecido / mas iluminante como um circo.

*: Para o violonista e guitarrista Toninho Horta, pelo disco Diamond Land, por todos, música Pilar.

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Fotos e textos: DARLAN M CUNHA

rio e risos

Garotas no Rio Jequitinhonha, MG >>> [clique na foto]

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“Ensaboa, mulata, ensaboa, ensaboa / tô ensaboando” (CARTOLA)

Tocar e cantar canções do Angenor de Oliveira – Cartola – para mim é um prazer de primeira grandeza. Ele, praticamente analfabeto, suas letras são impecáveis, dignas de Machado de Assis, do Clube da Esquina, do Chico Buarque, do Elomar Figueira Mello, Guinga, João Cabral de Melo Neto, etc, tanto que quando ele faleceu, Carlos Drummond – que era farmacêutico – escreveu uma crônica dizendo algo mais ou menos assim sobre um trecho de uma canção, sim, disse que este é o verso que ele gostaria de ter escrito: queixo-me às rosas / mas que bobagem as rosas não falam / simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti. Outro som que nos faz viajar é o deste aí acima: som de rio fluindo, e de risos e mais risos seguindo-o até o mar.

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DARLAN M CUNHA
CARTOLA. As rosas não falam: https://www.youtube.com/watch?v=PpE-lAfqR1gJ