sabor a mi

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panela de pedra-sabão ainda por ser “curada” para o uso cotidiário

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     Insetos no piano, o tabuleiro de damas soltando vivas à incoerência, formigas no polo sul e beija-flores no polo norte, um pé virado para trás, vigiando as pegadas. Foi assim que ele ficou depois de algum tempo consigo mesmo – aloucado, como se tivesse sofrido uma trepanação mal sucedida, ou se a conta bancária tivesse sido invadida, via homebanking, mas sem clarear nada sobre o assunto. Afinal, em se tratando da própria via crucis, nem sempre a melhor atitude pode ser a de pôr a boca na orquestra, em especial, no trombone ou no baixo-tuba.

     O primo Haroldo Dente Azul sabe disso (a Dinamarca teve monarca com esse nome e essa alcunha), uzeiro e vezeiro em transgredir o novo e o arcaico, inventa todo tipo de instrumento musical, pás para desovar a terra, sentindo seus impulsos, cava e escava feito dentista na lida. E assim ele põe boca de trompete nos bandolins, perna de violoncelo nos violões, réstias de alho e de cebola nos címbalos, bolas de algodão no interior de bumbos e taróis, além de dar nó nas flautas transversas, de modo que o ré bemol e o sol sustenido ficam alterados, enfim, uma rareza. Leio com ele Memórias Não Ditas de Brás Cubas, e de outros que o mundo certamente tem e esconde. Memórias sem futuro, mas é preciso ir a elas, ou nunca saberemos um pouco de nada.

     Nada como uma segunda-feira radiosa, jubilante, com dois pesos e três medidas.

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foto e texto: Darlan M Cunha

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tapioca

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à esquerda, com pesunto; à direita, com banana

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     – Vamos viver de brisa, Anarina.* Viver de brisa, foi como o poeta Bandeira escreveu. Enquanto a brisa não vem, deixemos de lado as casas com suas normas, armas, karmas, bravatas e gravatas, e vamos comer tapioca, pastel, pavê, pitomba, peru, peixe e o que mais houver. A brisa talvez venha. Talvez, porque o caráter do vento é duvidoso.

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cozinha, foto e texto: Darlan M Cunha

hóstias sem glúten

MÃE, ME AJUDA A COMER

quando as bocas perdem o juízo

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     O papa Chico acaba de anunciar uma medida insólita, que é a de se proibir hóstias que contenham glúten. Sim, o glúten, de uns tempos para cá, parece que é o responsável por quase todos os males do mundo. Fico por aqui, preparando pasteizinhos, bicando um moca, o que pode dar a falsa impressão de estirpe folgada. Comparada com a vida das crianças refugiadas e suas mães já mortas, mesmo semivivas (aqui, sem nenhuma sombra de humorismo rasteiro), estou/estamos bem. Viva o glúten, eu e você. Vamos nessa.

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pastéis, texto e foto: Darlan M Cunha

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Mercado 1

Mercado Central de Belo Horizonte (1929), MG, Brasil

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     Um dos livros através dos quais iniciei o aprendizado do idioma russo (33 letras) foi o da professora Nina Potapova, isso há décadas, numa representação cultural da Rússia, em BH, que ficava no edifício Rembrandt, na Rua São Paulo, região central. Lembro-me de ter ganho um relógio, num concurso feito pela modesta mas diligente instituição, e de tê-lo dado de presente à minha irmã Telma. O tempo fez o que sabe fazer, condenado a si mesmo, o espaço contraiu-se, para uns tantos, expandiu-se para o quase nenhum, mas eu continuo, o idioma russo continua (cinco ou seis idiomas sobreviverão), tu continuas, e enquanto não se descasca de todo a trama mundial, vamos ao mercado, ao lugar onde, segundo o poema do Bertolt Brecht:

Para ganhar o pão, cada manhã

vou ao mercado onde se compram mentiras.

Cheio de esperança

ponho-me na fila dos vendedores.

(BERTOLT BRECHT. Antologia Poética. Poema “Hollywood”)

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foto e crônica: Darlan M Cunha

Deus salve o cacau, o Diabo salve o ladrão

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Cacau – a bebida dos deuses

Vamos conseguir  //  Wir schaffen das  //  We can do it!  // Hay que hacerlo

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     Segundo a mitologia asteca, o Deus da Lua roubou uma árvore de cacau, da terra dos filhos do Sol, para ofertar aos  homens, com chocolate* (ou seja, ladroeira geral, bem antes dos Astecas e dos Maias, antes que o sol e a lua nos dissessem a que vieram. Creia, não ria. Ria, de vez em quando, ou enlouquecerás).

     É impressionante o poder que o chocolate exerce sobre o centro do prazer (“neurônios em polvorosa”, como diz um amigo, rindo), a assim chamada área tegmentar ventral, ou seja, lugar de recompensa. De fato, é muito difícil comer só um bombom, se o gatilho foi disparado, e não há criança ou adulto que sejam capazes de resisitir a este imã.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

O trecho em itálico foi trazido daqui: http://www.esmeraldazul.com/pt/blog/cacau-a-bebida-dos-deuses/