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Mercado 1

Mercado Central de Belo Horizonte (1929), MG, Brasil

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     Um dos livros através dos quais iniciei o aprendizado do idioma russo (33 letras) foi o da professora Nina Potapova, isso há décadas, numa representação cultural da Rússia, em BH, que ficava no edifício Rembrandt, na Rua São Paulo, região central. Lembro-me de ter ganho um relógio, num concurso feito pela modesta mas diligente instituição, e de tê-lo dado de presente à minha irmã Telma. O tempo fez o que sabe fazer, condenado a si mesmo, o espaço contraiu-se, para uns tantos, expandiu-se para o quase nenhum, mas eu continuo, o idioma russo continua (cinco ou seis idiomas sobreviverão), tu continuas, e enquanto não se descasca de todo a trama mundial, vamos ao mercado, ao lugar onde, segundo o poema do Bertolt Brecht:

Para ganhar o pão, cada manhã

vou ao mercado onde se compram mentiras.

Cheio de esperança

ponho-me na fila dos vendedores.

(BERTOLT BRECHT. Antologia Poética. Poema “Hollywood”)

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foto e crônica: Darlan M Cunha

Onde os queijos não marcam ponto

Mercado 4

Mercado Central de Belo Horizonte

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     Fui ao mercado comprar geléia de mocotó, pimentas variadas (tem até indianas, mais quentes do que a mansão de Belzebu), farinha de rosca, cachaça, queijo canastra de São Roque de Minas (compro também de outras cidades), e camisetas com motivos mineiros.

     Feito isso, fui ao Bar do Mané Doido – quase tão famoso quanto o próprio mercado no qual atende – e, entre umas e outras, petiscos preparados na hora, ouvi uma palavra que havia muito tempo eu não a ouvia. Sururucar tanto significa peneirar grãos, quanto rebolar, menear, saracotear, gingar. Pois é. Imediatamente, lembrei-me de uma palavra semelhante, que não consta do dicionário (não encontrei), mas ela está no livro Maíra, de Darcy Ribeiro, e a palavra é sururucucar, se não me falha a memória.

    Aí, entre outras e umas, risos, petiscos & lambiscos, palavras amontoaram-se em torno da mesa e, sem pedirem licença, entoaram sua voz, e ouvimos abisntestado mocorongo gusano nédio absconso carraspana edil bacabal estróina tinhoso cerúleo abespinhado abio sacripanta sastre sacarrão poltrão estrupício e estropício miasma ningres-ningres nênia calipígia… até que um alarido ecoou e me alertaram quanto à esposa-que-não-tenho me chamando em altos brados pelos corredores cheios de sons, cores e odores, e ela (presumo) com vestido de chita, rodado, rolinhos na cabeça, olhos injetados, varizes e sabe lá o diabo o que mais. Escapei de boa, por pouco, como se diz em latim: Paucas sed bonas.

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foto e crônica: Darlan M Cunha

O Diabo no meio do redemoinho (JGR)

O capcioso

O Cara – ícone, totem, tabu, libido, ator, pastor, ídolo das multidões

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     Lembrei-me de um dito popular que eu ouvia, quando criança: “O capeta atenta, e a faca entra”. Pois é, de cansaço em cansaço a despensa se enche, é preciso usar o acervo, os ingredientes, antes que nos esqueçamos deles de modo total, ou que tomem conta de nós, por tê-los inalado durante tanto tempo, visto suas formas, sentido suas nuanças, é verdade, a gente acumula um sem-fim de experiências, umas se sobrepõem a outras, e moldam de maneira mais incisiva o nosso caráter, junto com as outras – as perdedoras, por assim dizer, mas que ficam atuando em segundo plano.

II

PENSAR, DIZER:

– “Como eu poderia comer, se não cantasse ?”

Uma senhora centenária, de Zanzibar (Somewhere on Earth // Algum lugar na Terra, documentário no canal Mais, 44)

– “A poesia é uma coisa sensorial, compreende ?

João Cabral de Melo Neto, numa entrevista.

– “Sou um homem realizado: tenho certeza de que vou morrer.”

Esperidião Abílio de Souza Melo (vizinho)

 

Imagem> internet     >>>>>     Texto: Darlan M Cunha

enteus & ateus – 2

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Fluxos orientais, gerais (desde quando aprendemos a domesticar ?)

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     Meu nome é Kaldi, sou homem modesto, que a nada mais aspira do que ver meu rebanho bem sadio, e a bem servir ao senhor, melhor digo, senhora – a água, tão escassa neste areal imenso. Água é lei severa, é trunfo, butim de guerra.

     Meu nome é Kaldi, e já faz um bom tempo, mais de mil anos, que o mundo diz que fui o primeiro a me espantar, no século nove D.C., com a vivacidade do meu rebanho de cabras, aqui na Abissínia, que hoje se chama Etiópia, ao perceber seu gosto por uma planta de nome café, cujo origem está na localidade de Kaffa – mas o nome café foi espalhado pelos da Arábia (Coffee arabica), e vem do nome árabe para o vinho: kahwa.

     Bons goles, ó filhos e filhas dos computadores. Vocês foram mais longe, ao aprender a domesticar, selvagizar, escravizar homens. Pensando bem, isto é antigo, muito antigo, é de antes do meu tempo, de todos os tempos – genético. Mas, se mudarem este GENE, o da posse, tudo estará acabado, fadado ao mesmismo. Será ? Tudo é antigo, apenas ‘reciclado e renomeado’, de modo que os bites sempre estiveram por aí, zanzando.

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Texto: Darlan M Cunha

Foto: MJMC  //  Nancy

Domingo pede cachimbo ?

Pés calejados, Nova Canaã, BA, 1998.

by EVANDRO TEIXEIRA (Brasil)

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     O que mais se pode dizer que representa de modo mais claro o que entendemos como o lado mau do mundo ? Deve-se levar em consideração os altos e baixos passados pelo céu da boca, como os verbos fingir e atingir, o adjetivo feioso, todas as aféreses e as apócopes implícitas no substantivo Tempo, sempre te encurtando, o pântano social analisado sobre a mesa com gráficos não raro indecentes (der Grüne Tisch) ? Quando clicas, és desviado, manejado, inserido sutilmente noutro contexto de compra e venda, sim, quando clicas, és fichado ou fixado e perseguido por uma polícia muito especial – só tua. Compreenda.

     Os pés doem mais do que se pode suportar, é preciso ir, porque ir é o melhor remédio, a (r)evolução depende de outras realidades. Já agora mesmo veio-me o que diz uma música: é um estrepe, é um prego, ou o que diz um poema: que se morre de velhice antes dos trinta, ou o que nos diz a escritora: sem o outro não temos como ser egoístas.

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Texto: Darlan M Cunha

Trechos extraídos de Tom Jobim, João Cabral de Melo Neto, Viviane de Santana Paulo

aparências

LIYUAN Library - China

A moderna biblioteca da aldeia de Liyuan, CHINA

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     Dizem que quem fala sozinho está abraçado por doença, e que o que sai deste conversar consigo mesmo, deste monólogo, é alguma reclamação contra algo ou alguém, frustração transferida, a parte final do funil.

     Às vezes, acho que sou do tempo em que se roubava as botas dos soldados moribundos ou mortos, tempo de, até mesmo quando adultos e casados, de se pedir a benção à mãe, de se escovar os dentes com o dedo indicador, de amarrar guizos no rabo de cães e gatos (nos gatos era temerrário fazê-lo, pois os danados são ferozes, felinos), tempo de mãos dadas pelo caminho, de se encantar com os pirilampos, e tentar pegar uma daquelas lanternas.

     Hoje é sexta ? Dia de feira, de eira sem beira, de nascer e morrer, de passar no concurso, de ler ao mesmo tempo dois livros – um livro com cada olho; dia de ouvir aquela música, de se lembrar dos amigos e amigas que se foram, nada demais, tudo igual, mas o domingo pedirá cachimbo, e massa.

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foto e texto: Darlan M Cunha

Biblioteca de LIYUAN – CHINA: http://www.notesontheroad.com/Li-Xiaodong-Atelier-Liyuan-Library.html

Coisas da minha terra – 4

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     Na minha terra, usos e costumes não se perdem assim assim, não, por aqui o critério de perda não se resume na perda em si, vai mais além do fato de, por exemplo, de alguém esquecer um livro, uma sacola, a carteira, algum presente sobre um balcão qualquer, nos tantos lugares aos quais se vai todos os dias (perdi a conta dessas perdas), portanto, o pensamento em geral é de que perdeu-se o vazio da carteira, identidade e tudo lá dentro, mas não se perdeu a identidade que nos faz únicos, conhecidos ou desconhecidos da massa, enterrados num anonimato aceitável, ou pendurado numa potente lâmpada de led.

     Minha terra não tem palmeiras, muito poucas, que o mar é longe (nunca vi o mar, dizem que é bonito, dizem também que é bicho grande e mau, e que há quem nada pelado, no mar aparecem baleias adoidado, calipígias gingando nas marés alta e baixa, e tubarões famintos por uma aventura, piranhas não há no sal do mar). Pois é, aqui, nessa terra de minérios sem fim, o que se vê é um mar ou oceano de esculturas e pinturas ditas do Barroco, mas sou homem oco, só fico assim sentado, pasmado, mau olhado, ilhado, cercado de saudades por todos os lados, quase de todo largado por aí, asfixiado debaixo de tanta igreja. Mas vou ao BarTolo, pois nem mineiro é de ferro. Um ditado bem mineiro diz Tem isso aí ?” “Tem, mas acabou.”

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foto e texto: Darlan M Cunha

Sestros da minha terra (1): Bichinho, Felicina, Moeda, São Bento…

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     Há um lugarejo, uma aldeia – simpática palavra é aldeia – em Minas Gerais, de nome Felicina; outro que é um sonho, com restaurantes caseiros, comidas no fogão a lenha, doces variados, até cristalizados, é extensão de Tiradentes, chama-se Bichinho; outro, entre a cidade histórica de Santa Bárbara e Barão de Cocais, de nome São Bento, que cresceu mais do que devia; e ainda uma cidadezinha com direito a linha de trem, de nome Moeda, próxima de BH. E outros sonhos que poderia citar, mas fico por aqui. Viajar é mais.

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foto e texto: Darlan M Cunha

das levezas

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       O leque é muito antigo, oriental, assim como, por exemplo, a pipa, ela também é de origem oriental, mais precisamente, outro legado chinês. Fico pensando em como, numa sociedade tão maquinizada, certos objetos ainda têm vida, e até prevalência. Vejamos o caso do martelo: como se pode aposentar o humilde martelo, sim, aquele mesmo que de vez em quando acerta teu dedo de descuidado ou de levemente embriagado ? Então, viva o martelo, a pipa, a pólvora, a flauta de bambu, a enxada, o leque, o alaúde – pai do violão -, viva o CARNEVAL, viva tudo, viva eu, viva você.

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foto e texto: Darlan M Cunha

à mesa – 3

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tormento gratuito

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     Há quem come depressa, esbaforido, num vu, ao passo que outras pessoas comem pouco e devagar, avaliam os ventos do dia, o peso e o avesso do anonimato, a pesca rumo ao conhecimento, as vestes do desãnimo, e coisas e tais, mas os contrastes à mesa não acabam aí, não, porque há os ovívaros e os pantagruéis, ou seja, comem absolutamente de tudo; e há aqueles e aquelas, com melindres de “ah, não como isso e nem aquilo, não gosto de jiló, pimenta, pequi e abacaxi; ovo me faz mal, não consigo ver a cara de pepino, carne de porco me dá pipocos na cara, espinhas, e assim por diante, além de que a balança me dá nos nervos da barriga, mesmo que seja só vaidade masculina”. Pois eu também – alguém à mesa pode dizer –, não suporto coentro e peixe frito, não me dou com quiabo, não posso com a coqueluche de caranguejos marinhos, ostras e mexilhões, embora que em muitos países, se não em todos do extremo oriente, tais como a Indonésia, a Tailândia, o Vietnam, a China, etc, se come absolutamente de tudo, é só ir aos milhôes de feiras e mercadinhos e restaurantes em plena rua, para provar grelo de bambu, rãs, escorpiões fritos ou torrados, marimbondos, cobras e enguias vivas, aptas a serem esfoladas e preparadas ali mesmo, peixes nadando tranquilamente, os quais logo estarão tanto na boca do populacho quanto na mesa dos bacanas locais e dos turistas (devagar com o andor do entusiasmo).

     Mas há quem não come nada de nada, porque doentes; e há quem não come nada de nada, porque a guerra come todo o dinheiro da nação, come a merenda escolar, atua sobre a vontade de reagir; a guerra é insônia, é falta de menstruação, mesmo que não se esteja grávida, yes, la guerre c’est un oiseaux de fer, un oiseaux sans plumes, e isso me lembra as telas Os comedores de batatas, de van Gogh, e Os retirantes, de Portinari. No entanto, nada é para sempre, diz o povão, pelo que resta a vontade de seguir, e assim vamos aos novos endereços. Hora é, com fome qualquer coisa serve, no auge do delírio da fome, até a sola da botina se transforma num suculento bife de búfala da ilha de marajó. Num dos filmes de Charlie Chaplin há uma cena assim.  Rir é o segundo melhor remédio, porque ir é o que há de mais sensato. Pé na estrada, porque viajar é mais. Ir.

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Foto e texto: Darlan M Cunha