arco-íris / rainbow

esmero caseiro

Dizem que na época de frio as pessoas se tornam um pouco benevolentes, só um pouco, pois isso, parece, não faz parte de sua índole, do seu psiquismo, sua retórica, sua moralidade – o Homem é solitário por natureza, e bruto. Mas há exceções, há momentos outros. Hoje vai ter sopa ? de que: macarrão com carne moída, com chuchu, batatas, salsa, coentro, manjericão, ovos cozidos, cebolinha verde, alho, cebola, fios de azeite, belas folhas de repolho (rasgadas com as mãos), toda esta sopa acompanhada de pão ? Mal se pode esperar, aguente firme, vá ralar, à noite terás a recompensa.

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They say that in the cold season people become a little benevolent, just a little, because that, it seems, is not part of their nature, their psyche, their rhetoric, their morality – Man is solitary by nature, and brutish. But there are exceptions, there are other moments. Today there will be soup ? of what: noodles with ground beef, with chayote, potatoes, parsley, coriander, basil, hard boiled eggs, green onion, garlic, onion, strings of olive oil, beautiful cabbage leaves (torn with the hands), all this soup accompanied by bread ? You can’t wait, hang in there, go grate, in the evening you will have your reward.

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  • Darlan M Cunha: foto e texto

Brasiliana

ou Brasiliense – dia a dia

Chove pouco em Brasília, mas o lago Paranoá salva aquela suicidade única, o lago também foi projetado, ou a bela monstrópole não existiria. O ar é seco de tal forma que em determinada época do ano [agora], as pessoas são afeitas aos seus instrumentos musicais, em especial o piano, que colocam recipientes cheios de água em vários cantos da casa ou do apartamento, para minimizar os efeitos da sequidão, e poupar a madeira dos instrumentos, porque a evaporação ajuda instrumentos e moradores. É verdade, é real.

Por falar naquela aldeia nacional e internacional, mãe querida dos brasileiros e brasileiras – bom, isso é quanto ao que diz respeito à história maravilhosa de sua construção, porque depois as nuvens negras começaram a chegar e ficar, ou chegar e partir, com algum pedaço ou naco ou migas do bolo. Lembrei-me da bela música do Toninho Horta: Céu de Brasília, e também do mesmo querido autor a canção Beijo Partido.

Como não poderia deixar de ser, a palavra “pasta” é muito pronunciada em Brasília, bem mais do que a palavra Mãe, é, eu sei do que falo, às vezes, mas, de Brasília sou mais do que mentecapto, sou EXPERT, aliás, como todo mundo deste rio de risos e abraços que é o país do qual o dramaturgo Dias Gomes disse: “O Brasil é um país que desmoraliza o Absurdo.” Uma beleza, na mosca. Por falar em absurdo, meu vizinho Aprígio Nonato Villa-Real, disse que já comprou a caneta com a qual medirá forças com os papéis que lhe derem quando da implantação do NOVO//VELHO método de se ir à urna, e ficar matutando diante do grande estigma, do grande enigma, esgrimando diante destoutra herança bolsonarista, bolsonarina, bolsoruego, bolsopata, bolsorepto, bolsotático, bolsoraro. Irei, com fervor de patriota, votar numa gloriosa invenção brasileira que é a URNA ELETRÔNICA. E fim de papo.

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Darlan M Cunha: foto e texto

mesas

aprender

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Os dados soltos na mesa verde, o vertedouro

está aberto: façam jogo, suas apostas estarão

garantidas e serão ressarcidas de acordo

com o protocolo da Casa, pondo no claro os dedos

escondidos nas mangas, pois há sempre uma carta

um extra deve haver na retaguarda de alguém prevenido

ciente de que a vida é cheia de muros e névoas.

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Darlan M Cunha: foto e poema

equilíbrios

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Casa de artistas em geral é doce balbúrdia, mas os ódios e as rachaduras morais, os trevos mais perigosos e o sangue mais sujo do mundo em geral não moram com eles e com elas, isso porque um artista de verdade luta para estar somente em sol sustenido maior, nada de mínima e semínima em ré, ré menor, viver preso entre colchetes, não, chega de canção fúnebre no cotidiano de tanta gente, todos os dias, e então o artista sente que suas pedras não são as únicas, e vai à luta.

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An artist’s house in general is sweet tumult, but the hatreds and moral cracks, the most dangerous clovers and the dirtiest blood in the world in general do not live with them and with them, because a real artist fights to be only in G major, no minim and quarter notes in D, D minor, to live stuck between brackets, no, no more funeral songs in the daily life of so many people, every day, and then the artist feels that his stones are not the only ones, and goes to fight.

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La casa de un artista en general es un dulce tumulto, pero los odios y las grietas morales, los tréboles más peligrosos y la sangre más sucia del mundo en general no conviven con ellos, porque un artista de verdad lucha por estar solamente en sol mayor, nada de mínimos y cuantas notas en re, re menor, por vivir metido entre paréntesis, no, no más canciones fúnebres en la vida cotidiana de tanta gente, todos los días, y entonces el artista siente que sus piedras no son las únicas, y va a luchar.

Darlan M Cunha: foto e texto

solar

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O que mais dizer da luz que a água absorve, e com os seres reparte, eles próprios já com a sua cota diária, algo assim tão natural que já não fazem caso dessa condição ? Sabe-se que quando o Sol morrer ainda haverá oito minutos e meio de luz – de vida. Depois, o frio benfazejo que nos livrará uns dos outros.

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What more can be said about the light that water absorbs and shares with beings, themselves already with their daily quota, something so natural that they no longer take notice of this condition ? It is known that when the sun dies there will still be eight and a half minutes of light – of life. Then, the benign cold that will rid us of each other.

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Cos’altro si può dire della luce che l’acqua assorbe e condivide con gli esseri, essi stessi già con la loro quota quotidiana, qualcosa di così naturale che non fanno più caso a questa condizione? Sappiamo che quando il sole muore ci saranno ancora otto minuti e mezzo di luce – di vita. Poi, il freddo benefico che ci libererà l’uno dall’altro.

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¿Qué más se puede decir de la luz que el agua absorbe y comparte con los seres, ellos mismos ya con su cuota diaria, algo tan natural que ya no reparan en esta condición? Sabemos que cuando el sol muera todavía habrá ocho minutos y medio de luz, de vida. Entonces, el frío benéfico que nos librará de los demás.

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Was kann man noch über das Licht sagen, das das Wasser aufnimmt und mit den Wesen teilt, die selbst schon ihr tägliches Pensum haben, etwas so Natürliches, dass sie diesen Zustand gar nicht mehr wahrnehmen? Wir wissen, wenn die Sonne stirbt, gibt es noch achteinhalb Minuten Licht – von Leben. Dann, die wohltuende Kälte, die uns von einander befreien wird.

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Что еще можно сказать о свете, который вода поглощает и разделяет с существами, которые сами уже имеют свою ежедневную норму, нечто настолько естественное, что они больше не обращают внимания на это состояние? Мы знаем, что когда Солнце умрет, все еще будет восемь с половиной минут света – жизни. Затем – благотворный холод, который избавит нас друг от друга.

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Darlan M Cunha: foto e texto

clima

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Logo que aconteceu a tremenda enchente na Alemanha e na Bélgica fiquei ciente, através de contatos de gente amiga. Minha falecida companheira era alemã, Antje, química, tinha apreço pelo país físico Brasil, mais do que propriamente por certas atitudes de quantas pessoas. Naturalmente, lembrei-me dela, de grande correção moral, aberta ao sorriso. Vendo imagens do tipo das quais estamos acostumados por aqui, e em muitos outros lugares do planeta, não me deixei prostrar, não que me tenha tornado insensível, como tanta gente mundo afora, cada qual sofrendo de modo diferente sua carga, o que se deduz é que a anestesia social que construímos gota a gota não será revertida facilmente – se é que se poderá. Em qualquer lugar.

Darlan M Cunha: foto e texto