cotidiano 1

parada pro café

parada pro café

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       Mudar-se é, às vezes, cair em esquecimento. As mudanças agem sobre nós de modos diversos, por exemplo: nos deixam ansiosos, tristes, alegres, apreensivos quanto ao novo tempo, aos novos tipos de vizinhos, à substãncia prática ou não da região ou do bairro, apesar das pesquisas feitas antes do contrato, e por aí vai. E são ainda mais fortes estas sensações se a mudança se dá para outra cidade, estado ou mesmo para outro país, o que demonstra a nossa necessidade natural de estarmos juntos a alguém, embora sejamos andarilhos, somos também animais gregários, andamos em grupos. Pedro é o excelente pedreiro que cuida deste barraco, faz raspagem, emassamento e pintura num cômodo ou em dois ou três, troca esguicho de lavabo, chuveiro, quando não conserta algum temido vazamento no piso, rachaduras ou manchas no teto abaixo, e tome despesa inadiável, enfim, os muitos problemas que surgem numa casa. De vez em quando, um café, água e, depois do expediente, um aperitivo, o que não é o caso deste excelente Pedro Pedreiro.

 

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foto e texto: Darlan M Cunha

o visível e o invisível

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Pampulha, BH

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       Da cidade de Zirma, os viajantes retornam com memórias bastante diferentes: um negro cego que grita na multidão, um louco debruçado na cornija de um arranha-céu, uma moça que passeia com um puma na coleira. Na realidade, muitos dos cegos que batem as bengalas nas calçadas de Zirma são negros, em cada arranha-céu há alguém que enlouquece, todos os loucos passam horas nas cornijas, não há puma que não seja criado pelo capricho de uma moça. A cidade é redundante: repete-se para fixar alguma imagem na mente.

 

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Texto: Ítalo Calvino. As cidades invisíveis

Foto: Darlan M Cunha

Para subir na vida, um cajado por empréstimo, sim, pergunte ao Dr. Fausto, o Diabo é solícito

Buritis

Buritis, Belo Horizonte, MG

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       Crer ou descrer passa por não saber, lá onde a dúvida ainda é soberana, algo normal fluindo seu magma, de leve, até que a pressão seja maior do que a boca, e então a boca explode palavras como pedras em chamas sobre as camas os asfaltos os consultórios os estádios, enfim, a boca toma juízo, e se cumpre, botando verbos pelo avesso, degolando  sintaxes, pobres adjetivos – ele é bom, ela é má -, seccionando colhões de advérbios e pronomes, é isso: crer ou descer e ficar na apatia, enquanto o mundo vasto mundo inventa moda atrás de moda.

 

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foto e texto: Darlan M Cunha

Leia-me no Poem Hunter: https://www.poemhunter.com/poem/mimesis-and-symbiosis/

estrados e estradas

RECOLOCANDO 3

 

     Todos os dias nós mudamos algo, sintonizamos de outra forma algum objetivo, muito embora continuemos básicamente os mesmos, com as mesmas nuanças, a mesma índole selvática ou apaziguadora. É de se rever a trajetória da humanidade, a qual nos dá muito bem a medida, nos mostra que muitas vezes muitos caminhos foram retornados, muitas opiniões ou conceitos bem fundamentados, mas errôneos em sua base, foram deixados de lado, ou não; enfim, muitos retornos foram e ainda são o prato do dia, e não sei por que cargas d’água pensei agora em calça boca de sino, topete pega rapaz, nas anquinhas, nos pés enfaixados à força das japonesas, durante centenas de anos, para agradar amos, mas pensei sobretudo no ainda moderno Código de Hamurabi, escrito pelo rei Hamurabi, da Mesopotâmia, nos idos de 1772 a.C.

     Uma epígrafe minha está nos meus livros e numa página minha na internet: O mesmo de ontem: mas, diferente. Assim, já que ir é o melhor remédio, vamos então de estrados e estradas.

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

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preto no branco

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água, não mágoa

(Fotos das torneiras: Darlan M Cunha. Arte do photoshop: Photofunia.com)

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Um dia na vida de Ivan Denisovich é o título de um livro do escritor russo, prêmio Nobel, Alexander Solzhenitsin, que li há muito tempo, e que, não sei por qual razão, me ocorreu agora. A mente ou a memória nos prega poucas e boas. Essa foi boa.

Às seis da manhã, apoiado no parapeito de uma janela, bebo o café e observo um tipo vizinho derramar oceanos sobre o carro, tudo nele sugere despreocupação, mais ainda o vaivém inconsequente da mangueira, e eu fico pensando nas crianças e nas mulheres que em tantos lugares do mundo caminham quilômetros para buscar água.

 

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Texto: Darlan M Cunha

ação e reação

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cabo de guerra

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     Pelo que me lembro, os últimos cabos de guerra de que participei foi no Exército, no milênio passado (lexicógrafos e dicionaristas, enfim, os doutos no idioma fizeram tanta força, de lado a lado, que a grafia deste substantivo perdeu os hífens, foram para o chão), mas outros cabos de guerra e de falsas baianas existem e nos afligem todos os dias (falsa baiana é o tormento de se caminhar numa corda suspensa, e segurar-se noutra, acima da cabeça, entre as quais os infelizes andam, balançam e gemem e tremem, às vezes, caem no rio cuja boca sorridente espera pelos fracos e descuidados), mas esta é outra história.

     Nesse tipo de brincadeira o que não falta é o ar de pilhérias e gargalhadas sem fim, tombos e bundas doendo, às vezes, alguma aposta esdrúxula faz com que os dois lados se esforcem em dobro.

     Pensando nisso, está na hora de ir ao Grande Mercado, ao Enxame do Dia, à Lavoura do Incerto. Haja corda, haja pescoço… e pilhérias e gargalhadas. É como diz a canção, e a gente vai tomando, que também sem a cachaça, ninguém segura esse rojão.

 

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foto e texto: Darlan M Cunha

sobre as marés e o psiquismo: lua

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lua em agosto

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A lua em agosto é grande foco de leituras diversas

um olho nos dentes da aldeia cujo corpo de texto

se arrasta, difícil, indócil cada vez mais

a palavra se afasta da palavra, todo o sem nexo

pairando sobre a arquitontura geral com indícios

de razias, rachas sobre quatro borrachas, a aversão

de sua luz pelo que jaz na estante, decerto que nada importa

ao olho de agosto, cheio de si, rumo a ser minguante.

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foto e poema: Darlan M Cunha

 

sabor a mi

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panela de pedra-sabão ainda por ser “curada” para o uso cotidiário

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     Insetos no piano, o tabuleiro de damas soltando vivas à incoerência, formigas no polo sul e beija-flores no polo norte, um pé virado para trás, vigiando as pegadas. Foi assim que ele ficou depois de algum tempo consigo mesmo – aloucado, como se tivesse sofrido uma trepanação mal sucedida, ou se a conta bancária tivesse sido invadida, via homebanking, mas sem clarear nada sobre o assunto. Afinal, em se tratando da própria via crucis, nem sempre a melhor atitude pode ser a de pôr a boca na orquestra, em especial, no trombone ou no baixo-tuba.

     O primo Haroldo Dente Azul sabe disso (a Dinamarca teve monarca com esse nome e essa alcunha), uzeiro e vezeiro em transgredir o novo e o arcaico, inventa todo tipo de instrumento musical, pás para desovar a terra, sentindo seus impulsos, cava e escava feito dentista na lida. E assim ele põe boca de trompete nos bandolins, perna de violoncelo nos violões, réstias de alho e de cebola nos címbalos, bolas de algodão no interior de bumbos e taróis, além de dar nó nas flautas transversas, de modo que o ré bemol e o sol sustenido ficam alterados, enfim, uma rareza. Leio com ele Memórias Não Ditas de Brás Cubas, e de outros que o mundo certamente tem e esconde. Memórias sem futuro, mas é preciso ir a elas, ou nunca saberemos um pouco de nada.

     Nada como uma segunda-feira radiosa, jubilante, com dois pesos e três medidas.

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foto e texto: Darlan M Cunha

…3…2…1

Contagem regressiva 3

contagem regressiva // put your hands up

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       O povo sempre acha ou faz motivos para se mexer, e para se aquietar nesse tempo de isolamento, de individualismo sem paralelo, teleguiado cada vez mais. As pessoas estão apegadas de tal forma à tela, que não se dão conta de quem vai ao seu lado num ônibus, não sentem quem está à frente e atrás de si numa fila, não percebem a contagem regressiva que de fato interessa, a qual se aproxima do fim, em progressão geométrica. Com isso em mente, ouço a música começaria tudo outra vez, se preciso fosse…*

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foto e texto: Darlan M Cunha

Louvaminhas numa quinta-feira

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calos da terra

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Louvados sejam o sal e a cal que tudo demandam em prol de ti

louvados sejam os trevos que nos enchem os nervos

com canseiras maiores do que pode a cama absorver e comutar

louvemos os aríetes com que derrubarmos demências na forma de muros

embora que por algum tempo os muros nos salvem do Outro

nos salvem de nos revelarmos de todo a nós mesmos

louvados sejam o prumo para a construção e o arroz ao lado do feijão

a boca cheia de tufões ou de formigas senão de vontades esquecidas

mas tanto no céu da boca quanto no céu divino o que há de fato

escapa à compreensão cabal do nome e do sobrenome cada vez mais

sem escala própria sem identidade sem aquilo que é ainda pior

de não se ter à mão: a intimidade e a vontade própria e consciente para agir

tornando padrão o exato necessário ao teu chão – o sim e o não.

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cozinha, foto e poema: Darlan M Cunha