Brasiliana

ou Brasiliense – dia a dia

Chove pouco em Brasília, mas o lago Paranoá salva aquela suicidade única, o lago também foi projetado, ou a bela monstrópole não existiria. O ar é seco de tal forma que em determinada época do ano [agora], as pessoas são afeitas aos seus instrumentos musicais, em especial o piano, que colocam recipientes cheios de água em vários cantos da casa ou do apartamento, para minimizar os efeitos da sequidão, e poupar a madeira dos instrumentos, porque a evaporação ajuda instrumentos e moradores. É verdade, é real.

Por falar naquela aldeia nacional e internacional, mãe querida dos brasileiros e brasileiras – bom, isso é quanto ao que diz respeito à história maravilhosa de sua construção, porque depois as nuvens negras começaram a chegar e ficar, ou chegar e partir, com algum pedaço ou naco ou migas do bolo. Lembrei-me da bela música do Toninho Horta: Céu de Brasília, e também do mesmo querido autor a canção Beijo Partido.

Como não poderia deixar de ser, a palavra “pasta” é muito pronunciada em Brasília, bem mais do que a palavra Mãe, é, eu sei do que falo, às vezes, mas, de Brasília sou mais do que mentecapto, sou EXPERT, aliás, como todo mundo deste rio de risos e abraços que é o país do qual o dramaturgo Dias Gomes disse: “O Brasil é um país que desmoraliza o Absurdo.” Uma beleza, na mosca. Por falar em absurdo, meu vizinho Aprígio Nonato Villa-Real, disse que já comprou a caneta com a qual medirá forças com os papéis que lhe derem quando da implantação do NOVO//VELHO método de se ir à urna, e ficar matutando diante do grande estigma, do grande enigma, esgrimando diante destoutra herança bolsonarista, bolsonarina, bolsoruego, bolsopata, bolsorepto, bolsotático, bolsoraro. Irei, com fervor de patriota, votar numa gloriosa invenção brasileira que é a URNA ELETRÔNICA. E fim de papo.

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Darlan M Cunha: foto e texto

Coisas da Vovó (Carta à Mãe nº 102)

COISAS DA VOVÓ. Primeiros dez dias de outubro 2018.

Plural incomum [Trabalhos de Dona MARIA JOSÉ M CUNHA – 86]

 

Carta à Mãe nº 102

Querida MÃE,

agora no fim desta madrugada de sábado veio-me a vontade de preparar para a senhora uma boa gemada, pois a senhora ainda está no sonho dos justos. Livrei-me da preguiça e preparei a gemada com três ovos, canela, mel, pitada de sal – de filho para mãe, espero que goste, que a anime neste dia frio. Não quero ouvir tosse neste lar.

Dona Maria,

no segundo turno eu não fui votar, devido a que nenhum dos partidos envolvidos atraem o meu paladar, mas vamos apoiar o novo presidente, ou seja, esperar para ver, e daqui a algum tempo o país poderá opinar sobre se a saia está justa ou se precisa ser levantada ou abaixada, hehe…

Mãinha,

sei que está cansada, até porque as peripécias de ontem no centro de Bêagá, sob chuva, não foi fácil, e sentimos na pele como é complicado colocar em dia documentos disso e daquilo, como registrar a escritura de um imóvel, ato caro e demorado, etc, e a senhora, com 86 anos feito uma bailarina no centro da multidão de guarda-chuva e dos malditos celulares. Arre ! Alguns detalhes ficaram pendentes, mas teremos de voltar à carga, e eu bem entendo a sua forte preocupação. Peripécias rumo a três cartórios.

Flor-Mãe

prepararei um competente tutu à mineira, embora eu saiba que logo de manhã a senhora irá passar umas horas com amigas e amigos da igreja, porque hoje é dia de festa por lá, inclusive com petiscos, comes e bebes. Prepararei o tutu, e o comerei sozinho, lembrando-me sem hipocrisia de quem não terá algo à mesa mundo afora. “Faça a tua parte que te ajudarei – não é assim que a senhora sempre diz aos incréus como eu ?”

Querida entre queridas,

vou levantar-me daqui, fechando esta cartinha, e desejando a ambos um ótimo dia, e ao mundo desejar que tome juízo.

Um beijo do filho querido, meio desmiolado, mas bom garoto.

DARLAN

longe do Congresso – 1

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Sem essa de toma lá, dá cá.

     Estou de mudança, como sublinhei numa postagem, mas ainda não me decidi para onde, para qual longitude e latitude ir: se para outro brejo ao sul, outro pântano a leste, algum mangue ao norte, outra prisão a oeste deste Nada, ou se para uma caverna, um iglu, uma nuvem ou uma toca de raposa, um balaio de gatos, quando não para o Diabo. Minhas pernas saberão dar conta dessa conta, do itinerário, seja qual for. Pensando bem, já que desaprendi de ter dois pesos e duas medidas, para Brasília (Carrapatolândia) não irei.

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foto e texto> Darlan M Cunha

foto feita em Medina (minha cidade natal), MG

final

pombo

 
SAPATOS VERMELHOS
 
 
Quando era adolescente, novos sapatos
mereciam batismo dos colegas: lama
cuspo ou graxa, mereciam o rito os quedes
ou os sapatos em geral marrons ou pretos.
Mas eis o filho de Pedro, moído pelos moinhos
da dura cepa da fé, sustendo vontades
que o mundo de deus dá aos seus,
desistido do encargo de lavoura arcaica,
enfim, voltará ele a usar sapatos pretos
em sua finita performance de homem
sustentando cara de divino, indicado, pernas
e mãos sob o peso da pedra do reino
do silêncio ? À beira da infância final, talvez
se encontrem os dois pares de sapatos,
dividindo risos sobre a solércia e o desencanto
dos tempos, dívidas entre ratos e gatos.

 

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A HISTÓRIA DESTE POEMA AÍ ACIMA:

Hoje, no final da madrugada, ao assistir ao telejornal na TVE,  televisão da Espanha, falando sobre o Vaticano, a voz em off referiu-se óbviamente ao papa, e ele estava calçado com sapatos vermelhos – que é uma das prerrogativas de se ser papa. A voz em off disse “zapatos rojos”, e o poema começou imediatamente a saltar de dentro de mim. Pertinente, cheio de alusões, inclusive a algo que era comum quando eu era adolescente, em Santa Bárbara: seguinte: toda vez que um dos colegas ganhava um par de quedes ou de sapatos, era só ir à rua com ele, que o batismo viria imediatamente. Tolices da puberdade, da juventude. A partir disso, fiz a alusão com os sapatos papais, sendo que na última estrofe do poema, eu o situo na segunda infância, pelo que pode surgir a oportunidade das duas infâncias dele se encontrarem. Sim, um poema extra, não tenho pejo de dizer isso. Lá se vai o papa com suas doenças, seus segredos e outras tristezas.

Poema: Darlan M Cunha