Sou barroca – sou de barro e oca (Adélia Prado)

Santa Bárbara, MG. Demósthenes Silva - foto.

Igreja matriz de Santa Bárbara, MG. À esquerda, a Cadeia (branca), e a parte de trás da Prefeitura (muro vermelho) – frente a frente num só ‘largo’.

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@ 1

     O teto da matriz de Santo Antônio, em Santa Bárbara-MG, foi pintada pelo Mestre Athayde (1762-1830), contemporâneo de Aleijadinho (1738-1814). Ele também pintou no famoso Colégio do Caraça (próximo a Catas Altas e Santa Bárbara) uma tela intitulada A última Ceia (1828), que é talvez sua obra mais famosa, a qual parece-me que foi levada para enriquecer o palácio do governo de Minas Gerais. Morei em Santa Bárbara vários anos, e assim posso argumentar pelo menos de leve sobre algo tão importante quanto é o barroco mineiro.

@ 2

     Um lugar sem eus: euforbiácea, eubiótica, aneurisma, heurística, eufemismo, Euterpe (ó música), eutanásia, enfim, um lugar de nada, lugar de derrotas, tudo procura lugar, ocupar espaço, e se faz lasso, erro crasso, dia após dia.

@ 3

     Silensidão de porta em porta, silensidão exalando de cada janela, indo ao porão remoer paixões vencidas em seu tempo de encantamento, rever o futuro só dúvidas.

@ 4

     Pode ser vã a glória de suar a camisa, se se rasga pelo avesso a honra, enfim, a lenda se espalha de forma a nunca mais diluir-se, sentar-se à mesa onde macruros, micruros e anuros, antônimos e sinônimos se vergastem até chegarem a um possível lacre geral ou abertura total.

 

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Foto: Demósthenes do Carmo Silva     >>>>>     Texto: DARLAN M CUNHA

Obras do Mestre ATAÍDE: http://mestreataidebarroco.blogspot.com/p/obras.html

Mestre ALEIJADINHO: https://pt.wikipedia.org/wiki/Aleijadinho

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Ser ou ser

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Hay gobierno? Se hay soy contra!

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     Casou-se bem jovem, teve quatorze filhos e filhas, por duas vezes nasceram gêmeos e gêmeas. Doce pessoa. Fora do casamento, o pai teve filho e filha, psiquismo exacerbado, cérebro convulso, pinto bailarino, benfeitor de domésticas, inquilino das nuvens, totem. Teria de ganhar bem para amparar essa multidão. Bendito seja o fruto do vosso vento.

     Gosto de chutar latas de lixo da cidade, chutar vira-latas, pôr guizos no rabo de cães e gatos, pois é bom vê-los desesperados pelas ruas, fazendo barulho ao arrastarem latas de sardinha, enquanto me encrenco com panacas, sintonizando alto o som, no velho estilo de sexo, droga e rock and roll, sim, sou do contra.

     Hay gobierno? Se hay soy contra!

     Domingo pede cachimbo, diz o dito popular, sendo também o dia nacional da macar-ronada com frango, e de futebol visto de cima ou de dentro do velho sofá.

Leiamos Clarice: “Eu era talvez a primeira pessoa a pisar naquele castelo no ar.” *

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Foto e texto: DARLAN M CUNHA

 * citação: CLARICE LISPECTOR. A Paixão Segundo GH, p.127

Um lugar para todos: histriônicos, felinos, paus-mandados, frenéticos do sexo pro agressivo, artífices das flores do mal, de solstícios e equinócios repintados à mão [falsos]; sinônimo de perigeu, há porcos-espinho, víboras e salamandras, salários sem crédito, motoristas a soldo da firma A Inenarrável Algazarra da Morte, enfim, eis um lugar para além do bem e do mal – pois é na rua que as coisas acontecem

Minha Neguinha 1

uma das “namoradeiras” de Sabará, MG, Brasil

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LETRAS DE MÚSICAS

Eu faço samba e amor até mais tarde, não tenho a quem prestar satisfação. Escuto a correria da cidade, que alarde, será que é tão difícil amanhecer ? (Samba e amor. Chico Buarque)

Era um homem que vivia lá com seus botões. Sempre dizia que ser homem não é só ter colhões – tem-se que viver, enfrentar a corrente, desde cedo (Um homem, por dentro. Darlan M Cunha)

Desilusão, desilusão, danço eu, dança você, na dança da solidão (Dança da Solidão. Paulinho da Viola)

Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor (Nelson Cavaquinho // Guilherme de Brito  // Alcides Caminha

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foto: Darlan M Cunha

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casal simpático

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     Entraram na padaria como se nunca tivessem visto uma, como se o sagrado pão lhes fosse completamente desconhecido, como se o trigo nunca existira. Entre modestos e desconfiados, perguntaram algo, em tom baixo, ao proprietário – um tipo quase sempre de má vontade. Mas a paciência e a humildade daquele casal nunca visto por aquelas bandas afrouxou um pouco a rabugice do patife comedor de empregadinhas, misturador de milho nos pães de trigo, reconhecido também como um escroque. Sentaram-se, absortos com a quantidade de imbecis pilotando celulares, pediram dois copos de leite, e navegaram neles como Camões navegou, como Ulisses navegou, como Cabral desembarcou nessas terras. E então se foram para nunca mais. Felizes. Acho.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

caras & bocas

Maurino Araújo - Museu Afro Brasil

Caras e bocas todos temos, às vezes, usamos várias por dia, dependendo do assunto no qual a pessoa se mete, dependendo do ambiente ao qual tenha sido ou não tenha sido convidada, e esteja sentindo-se fora de foco, sendo necessário usar uma cara ou uma boca diferente, para talvez girar a situação a seu favor, ou simplesmente escafeder-se das companhias estranhas ao seu saber, à sua ignorância.

Viver de amor, diz uma canção, mas vive-se bem sem amor à vista, é o que parece, dado o número de gente sem ter com quem trocar certas dúvidas mais sérias, e alegrias às tantas da madrugada, ou consertar o estrado da cama, e coisas do gênero, as quais só mesmo quem se acha feliz pode perceber com detalhes.

Há alguns meses entrei na série de museus que estão localizados na praça da liberdade, em belo horizonte, uma área e um conjunto de prédios governamentais todos eles reformados e adaptados para serem museus. Uma beleza. Num deles vi alguns trabalhos do Maurino Araújo, pessoa de trato ameno, artista de fato com A maiúsculo (não o vejo pessoalmente há anos). Fiquei ali uma vez mais frente a algumas peças de sua autoria, e sempre que vejo obras de qualquer tempo da cepa mineira, barroca ou não, eu me espanto com a cara de espanto das figuras, todas elas imersas num não sei quê de pasmo com a existência, algum sofrimento maior do que o sofrimento físico perpassa a cara daquelas criaturas. E então digo a mim mesmo que eu gostaria de ter vivido naquele tempo – mas desde que eu tivesse constantemente a consciência plena de como seria o tempo ou a era de hoje.

Bom, este assunto torna-se até interessante, caso a gente se lembre da diversidade diária de caras feias e bocas torcidas que não nos desejam nem bom-dia e nem boa-noite. Sim, as pessoas estão com muita pressa de dizer que estão mortas. Mas onde será que se reunem tais tipos de mortos ?

Texto: Darlan M Cunha
Imagem: obra de MAURINO ARAÚJO (Rio Casca, 1943 -, MG, Brasil)

EM 1512

Falas antigas

Falas antigas

Miguel Ângelo Buonarroti deu sua última pincelada na Capela Sistina. Desceu de lá, nem triste nem alegre, esticou pernas e braços, foi para uma taberna onde bebeu vinho e comeu uma lasca de cordeiro, e foi para a mulher que o esperava. Para ele (e para mim) a mulher era o portal musical, pintura, pó reativo, única escultura reagente, reacionária, carbonária.

Miguel morreu no ano 1519, insatisfeito com seus trabalhos – como é de praxe nos grandes artistas (poucos) e nos grandes escritores (poucos, dentre os quais estou), mas algo apaziguado pelas lâminas da calma e da calamidade, do amor e do desamor das mulheres.