Textos duros, vodka com água de coco – 3

Etapa decisiva na História do Oriente, Mundial – Exposição GUERREIROS, no BH Shopping, BH.
***


OS RATOS (1935, Prêmio Machado de Assis)  –  DYONÉLIO MACHADO (Psicanalista, RS, Brasil)

O que lhe disse o leiteiro?  A mais terrível das frases:  Lhe dou mais um dia. E saiu daquela maneira escandalosa, exibindo os músculos, exatamente para desmoralizá-lo diante dos vizinhos.

Um dia.  Apenas vinte e quatro horas para conseguir aqueles cinquenta e três mil réis que não seriam grande coisa, não fosse o pequeno salário que Naziazeno recebe como funcionário público.  E também, o que o leitor logo ficará sabendo, pelas dívidas que contraiu depois da doença do filho.  Deve para o médico, do qual se esconde quando o vê no abrigo dos bondes, para o chefe da repartição, para um fornecedor da Secretaria de Obras, e sabe Deus a quem mais, incluindo outros pobres coitados como seus amigos Duque e Alcides.

***

UM COPO DE CÓLERA – RADUAN NASSAR (Prêmio Camões 2016. SP, Brasil)

Já foi o tempo em que via a convivência como viável, só exigindo deste bem comum, piedosamente, o meu quinhão, já foi o tempo em que consentia num contrato, deixando muitas coisas de fora sem ceder contudo no que me era vital, já foi o tempo em que reconhecia a existência escandalosa de imaginados valores, coluna vertebral de toda ‘ordem’; mas não tive sequer o sopro necessário, e, negado o respiro, me foi imposto o sufoco; é esta consciência que me libera, é ela hoje que me empurra, são outras agora minhas preocupações, é hoje outro o meu universo de problemas; num mundo estapafúrdio _ definitivamente fora de foco _ cedo ou tarde tudo acaba se reduzindo a um ponto de vista, e você que vive paparicando as ciências humanas, nem suspeita que paparica uma piada: impossível ordenar o mundo dos valores, ninguém arruma a casa do capeta; me recuso pois a pensar naquilo em que não mais acredito, seja o amor, a amizade, a família, a igreja, a humanidade; me lixo com tudo isso! me apavora ainda a existência, mas não tenho medo de ficar sozinho, foi conscientemente que escolhi o exílio, me bastando hoje o cinismo dos grandes indiferentes.

***

ANÔNIMO NA PRAÇA RAUL SOARES, Belo Horizonte, MG

Um pastor disse às meninas, a drogados, assassinos, estupradores, carteiristas, fugidos, espoliados, órfãs, sidáticos – nossos vizinhos (gravado):

“Irmãs e irmãos, vivemos todos debaixo de negativas diárias, no olho do furacão, só cacos, os bagulhos da rua invejando Judas, o rebelde que recebeu trinta dinheiros emprestados, por uma boa causa-bomba, mas de milagres de peixes e de pães já se falou muito, muito se exagerou, mentiras de geração em geração, de não ser possível destrançar o baralho, mas é de se ver que o tempo da delicadeza não morreu, de fato ele nunca existiu. O Senhor está cansado, chora o dia todo, nada come, às vezes, uma papa, uma sopa, o chá. O Senhor tem consciência plena de seu fiasco ao criar e tutelar os humanos. Não temais, ímpios e servas do Demo, porque tenho a chave da libertação para vocês. Irmãs e irmãos, ouçamos este salmo: Lançai sobre Ele toda a vossa ansiedade, porque Ele tem cuidado de vós. >>> I Pedro 5:7

Depois dessa, desligada a maquininha, fui pecar, antes de ser salvo. (DMC)

***

Imagem: Darlan M Cunha

Canto chorado. BILLY BLANCO (PA), arquiteto e músico. : https://www.youtube.com/watch?v=kqaidHLj5ZY