Guerreiras G

Bolo de mandioca.com coco ralado

Bolo de mandioca com coco ralado (Dona Maria José, 86)

 

@1

Em categorias e tags o melhor é usar aqui uma única palavra: delícia. Dizem que mães e avós nos acostumam mal, de maneira que, volta e meia, mesmo já marmanjo, casado ou não, a gente está sempre fazendo uma visita àquelas mesas que estão sempre abertas.

@2

Ficar numa estação de viagem (Pedro pedreiro, penseiro, esperando o trem)*, alta ou baixa madrugada, ouvindo o silêncio interior, o vento, os passos de algum passageiro afobado, ouvindo um grito recém solto lá no Iraque. Mala na mão, vais partir…

@3

Tens saudades, rapaz, do tempo mochileiro ? Ainda é tempo, garoto, guarda no baú estas lembranças, ajeita o fluxo sanguíneo na cabeça (É a cabeça, irmão)*, toma o pulso do dia e da noite, e vá para onde o nariz apontar. Ainda há tempo, menina. Conhecer é mais.

***

Foto e texto: Darlan M Cunha

 

Anúncios

Guerreiras E

DSC00650

currículo de ajuda

     Comprei um conjunto de cama, de quatro peças, para a minha mãe. Nada demais, pensei, mas algo ainda me inquieta, até porque nunca sou de lhe dar presentes em mais um desses dias de invenção comercial. Às vezes, em plena segundona, dia nenhum, dia de ralar, levo para ela algum regalo, e isso faz diferença. Vá lá, mãe é mãe, diz o povo

     mas eu me pergunto: – O que me falta para dar a ela o que nunca conseguirei ? De antemão, sei que não adianta esbravejar, espernear e gritar palavrões antigos e recentes, não adianta beber feito gambá no alambique, porque essa dúvida atroz não sairá de mim, de tanto que está grudada na pele quanto nos órgãos internos.

O que fazer, quando a alegria é maior do que nós ? Longa e macia vida às mães todas elas.

*****

Foto e texto: Darlan M Cunha

Guerreiros 2

GUERREIROS 2

Sob malha ou cota de aço

 

      Num dia já distante, já sem nome e sem data, a mãe disse algo de que nunca se esquece: “Filho, tudo é sagrado, mas três coisas sagradas de verdade são a mãe, a água e a música. Esta é a Santíssima Trindade.” Lembrei-me da canção cubana Soy feliz, soy un hombre feliz, y quiero que me perdonen por este dia los muertos de mi felicidad.* Por-tanto, também sou feliz, por ter todas as três em casa. Era, porque este estado de graça durou até que o pai veio e disse: “Garoto, nada urge e nem vale mais do que a Ameaça, a Força, a Posse.” E fui à guerra cotidiária.

 

Foto e texto: Darlan M Cunha

86 anos

MERCADO CENTRAL, 12-12-2017

Felicidades muitas, Dona MARIA JOSÉ

***

     Dona Maria José sempre foi elétrica, incansável, mesmo aos 86 anos completados hoje, dia 13 de abril de 2018, mesmo tendo tido dez filhos, com treze netos e netas, dezesseis bisnetas e bisnetos e duas trinetas, nos EUA. Sempre diz que o dia deveria ter 25 horas, mas ela logo iria querer os dias todos com 30 horas, ou mais, hehe…

     Digo que me canso só de ver a Dona Maria trabalhar, porque quando não há serviço ela inventa. Faz croché, tricô, pintura a óleo, costura, borda, está sempre fazendo bolos, biscoitos, tortas, doces, sempre levando um pouco para a vizinhança – ato raro. Não tem pingo de maldade nem de malícia. Sempre ensinando as netas e as vizinhas que querem receita tal, mas ela faz tudo é “de cabeça”. Uma graça a Dona MARIA, que é o verdadeiro esteio de toda a família. Vive cantando, e eu a acompanho de vez em quando, no violão.

     Não abre mão de ir à igreja. Um dos pratos preferidos é quiabo com moranga, angu e carne moída – bem tradicional mineiro. Também não abre mão dos queijos, mormente o queijo Canastra, o queijo do Serro, etc.

     No espaço de um ano e dez meses ela perdeu três rapazes, dois afogados em lugares e datas diferentes: Múcio, 29 anos; Eduardo, 23 anos; Heber, 33 anos.

     Há quatorze anos (2004) abri para ela uma página no MUSEU DA PESSOA, onde conto a trajetória de sua vida, desde o nascimento, casamento, etc. Modesta, viajou por vários países, com a ajuda de filhas, netas, nora, filhos, genros, etc, tendo ido, por exemplo, à Jordânia, Israel, aos Emirados Árabes Unidos (Dubai), Paraguai, Argentina, EUA, etc.

AQUI: http://www.museudapessoa.net/pt/conteudo/historia/maria-jose-matos-cunha-e-o-seu-entorno-magico-40077

***

MIL E UMA FELICIDADES, Dona MARIA JOSÉ

Texto, site, foto: DARLAN M CUNHA

cotidiano 1

parada pro café

parada para o café

*****

 

       Mudar-se é, às vezes, cair em esquecimento. As mudanças agem sobre nós de modos diversos, por exemplo: nos deixam ansiosos, tristes, alegres, apreensivos quanto ao novo tempo, aos novos tipos de vizinhos, à substãncia prática ou não da região ou do bairro, apesar das pesquisas feitas antes do contrato, e por aí vai. E são ainda mais fortes estas sensações se a mudança se dá para outra cidade, estado ou mesmo para outro país, o que demonstra a nossa necessidade natural de estarmos juntos a alguém, embora sejamos andarilhos, somos também animais gregários, andamos em grupos. Pedro é o excelente pedreiro que cuida deste barraco, faz raspagem, emassamento e pintura num cômodo ou em dois ou três, troca esguicho de lavabo, chuveiro, quando não conserta algum temido vazamento no piso, rachaduras ou manchas no teto abaixo, e tome despesa inadiável, enfim, os muitos problemas que surgem numa casa. De vez em quando, um café, água e, depois do expediente, um aperitivo, o que não é o caso deste excelente Pedro Pedreiro.

 

*****

foto e texto: Darlan M Cunha

40

DSC02019

Minas Gerais – by Múcio Matos Cunha. Pintor, desenhista de moda. BH, MG (1957-87)

*****

       Essa tela está completando 40 anos, pintada por um dos meus irmãos, falecido no mar em Nova Almeida, ES. Ela dá uma boa ideia das cidades históricas não só de Minas, como também da Bahia, do Rio de Janeiro, de Goiás, etc. Mudei móveis, telas e livros de lugar, e ontem eu a estava observando, quando me dei conta do ano em que foi pintada, e lá está, no canto inferior direito: Múcio – 77. A vida é minuto. De novo, repito Niemeyer. Ele tinha cerca de vinte anos ao pintá-la. E de novo a arte ficou.

*****

foto e texto: Darlan M Cunha

formas

DSC01848

pé-de-moleque

*

     As fotos nas estantes absorvem minha presença, absorvo suas falas, seus gestos ama- relados, algumas delas com pintas como se gotas de ácido as tivessem atingido, mas isso não importa. Uma foto maior mostra sobre uma grande mesa, coberta por uma toalha rendada, o rosto da família, o corpo da alegria em forma de biscoitos, pudins, bolos, doces, pães, café, leite, sucos de frutas, broas, pastéis e um grande bolo centralizando a data. Velas em riste. Preto no branco, as fotos exibem meu rosto nos rosto dos convivas.

***

foto e texto: Darlan M Cunha

maldades da mamãe

DSC01125

roscas

    Tive um único livro sobre alimentos na minha biblioteca, a qual doei quase toda quando me mudei – um livro sobre alimentos típicos do Pará (sou mineiro da gema e da clara). Pois bem, pensando nos ocos da vida, fui rever Dona Maria, e eis o que encontro, saídas do fogão, com outros petiscos mais, o que ela faz constantemente: roscas. Ela sempre fica tramando biscoitos de polvilho, tortas de frango, doce de batata doce com coco ralado, biscoitos de coco, doce de requeijão, biscoitos “doidão”, pudim, pastéis…

     No próximo domingo, 28, ela (85 anos) embarcará para os EUA, para estar durante meses com filhas, filhos, genros, noras, netas, netos, bisnetas, bisnetos e duas trinetas ou tataranetas, já nem sei mais. E eu irei às padarias.

***

foto e texto: Darlan M Cunha

Algum dom doce

FeliDSC01745

Felicidades, Dona MARIA JOSÉ, pelos 85

*

Dizem que o mundo tanto é quadrado quanto redondo, e que há tantas disparidades, egoísmos, cegueiras, mãos estendidas para dentro dos próprios bolsos, que ele até se torna risível, e que está cada vez mais afastando as pessoas de si mesmas, e das outras.

Pois bem, neste quadro caótico, filho da Pressa, ainda há quem seja capaz de ignorar todas estas mazelas, todos estes choques psíquicos, choques anafiláticos, ml e um atropelos, e fazer a alegria de um sem-número de criaturas.

***

Foto: Cris / Flaví

Texto: Darlan M Cunha

mães avós bisavós trisavós – 3

espinhos de sobra ... rosa e cacto

rosa e cacto: espinhos

*

     

     A minha avó materna teve nove filhos e filhas, minha mãe é a primogênita, que teve a tristeza de perdê-la em decorrência de parto do qual nasceu meu tio Nem – morto aos 33 anos, na Amazônia.

     Fico pensando sobre os dias que antecederam ao meu nascimento, indagando sobre que pensamentos teriam ressurgido na mente da minha mãe. Será que ela se lembrou do que ocorrera com a própria mãe Isaura, e teria se inquietado, compreensívelmente, às vésperas do seu primeiro parto (outros nove viriam, numa sequência assustadora, sequência que as mulheres, hoje, rejeitam, pela elasticidade nas relações, facilidade de consultas médicas, pelo horizonte dos anticoncepcionais, etc.

     Aqui estou, pensando (pensar cansa, estabiliza, ou não), e chupando caqui, ciente de que o mundo é das perguntas, inventa e reinventa encruzilhadas. Tudo é livro, mas deve ser escrito e, mais, entendido, segundo diz o vigário.

***

foto e texto: Darlan M Cunha