86 anos

MERCADO CENTRAL, 12-12-2017

Felicidades muitas, Dona MARIA JOSÉ

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     Dona Maria José sempre foi elétrica, incansável, mesmo aos 86 anos completados hoje, dia 13 de abril de 2018, mesmo tendo tido dez filhos, com treze netos e netas, dezesseis bisnetas e bisnetos e duas trinetas, nos EUA. Sempre diz que o dia deveria ter 25 horas, mas ela logo iria querer os dias todos com 30 horas, ou mais, hehe…

     Digo que me canso só de ver a Dona Maria trabalhar, porque quando não há serviço ela inventa. Faz croché, tricô, pintura a óleo, costura, borda, está sempre fazendo bolos, biscoitos, tortas, doces, sempre levando um pouco para a vizinhança – ato raro. Não tem pingo de maldade nem de malícia. Sempre ensinando as netas e as vizinhas que querem receita tal, mas ela faz tudo é “de cabeça”. Uma graça a Dona MARIA, que é o verdadeiro esteio de toda a família. Vive cantando, e eu a acompanho de vez em quando, no violão.

     Não abre mão de ir à igreja. Um dos pratos preferidos é quiabo com moranga, angu e carne moída – bem tradicional mineiro. Também não abre mão dos queijos, mormente o queijo Canastra, o queijo do Serro, etc.

     No espaço de um ano e dez meses ela perdeu três rapazes, dois afogados em lugares e datas diferentes: Múcio, 29 anos; Eduardo, 23 anos; Heber, 33 anos.

     Há quatorze anos (2004) abri para ela uma página no MUSEU DA PESSOA, onde conto a trajetória de sua vida, desde o nascimento, casamento, etc. Modesta, viajou por vários países, com a ajuda de filhas, netas, nora, filhos, genros, etc, tendo ido, por exemplo, à Jordânia, Israel, aos Emirados Árabes Unidos (Dubai), Paraguai, Argentina, EUA, etc.

AQUI: http://www.museudapessoa.net/pt/conteudo/historia/maria-jose-matos-cunha-e-o-seu-entorno-magico-40077

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MIL E UMA FELICIDADES, Dona MARIA JOSÉ

Texto, site, foto: DARLAN M CUNHA

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cotidiano 1

parada pro café

parada para o café

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       Mudar-se é, às vezes, cair em esquecimento. As mudanças agem sobre nós de modos diversos, por exemplo: nos deixam ansiosos, tristes, alegres, apreensivos quanto ao novo tempo, aos novos tipos de vizinhos, à substãncia prática ou não da região ou do bairro, apesar das pesquisas feitas antes do contrato, e por aí vai. E são ainda mais fortes estas sensações se a mudança se dá para outra cidade, estado ou mesmo para outro país, o que demonstra a nossa necessidade natural de estarmos juntos a alguém, embora sejamos andarilhos, somos também animais gregários, andamos em grupos. Pedro é o excelente pedreiro que cuida deste barraco, faz raspagem, emassamento e pintura num cômodo ou em dois ou três, troca esguicho de lavabo, chuveiro, quando não conserta algum temido vazamento no piso, rachaduras ou manchas no teto abaixo, e tome despesa inadiável, enfim, os muitos problemas que surgem numa casa. De vez em quando, um café, água e, depois do expediente, um aperitivo, o que não é o caso deste excelente Pedro Pedreiro.

 

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foto e texto: Darlan M Cunha

40

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Minas Gerais – by Múcio Matos Cunha. Pintor, desenhista de moda. BH, MG (1957-87)

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       Essa tela está completando 40 anos, pintada por um dos meus irmãos, falecido no mar em Nova Almeida, ES. Ela dá uma boa ideia das cidades históricas não só de Minas, como também da Bahia, do Rio de Janeiro, de Goiás, etc. Mudei móveis, telas e livros de lugar, e ontem eu a estava observando, quando me dei conta do ano em que foi pintada, e lá está, no canto inferior direito: Múcio – 77. A vida é minuto. De novo, repito Niemeyer. Ele tinha cerca de vinte anos ao pintá-la. E de novo a arte ficou.

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foto e texto: Darlan M Cunha

formas

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pé-de-moleque

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     As fotos nas estantes absorvem minha presença, absorvo suas falas, seus gestos ama- relados, algumas delas com pintas como se gotas de ácido as tivessem atingido, mas isso não importa. Uma foto maior mostra sobre uma grande mesa, coberta por uma toalha rendada, o rosto da família, o corpo da alegria em forma de biscoitos, pudins, bolos, doces, pães, café, leite, sucos de frutas, broas, pastéis e um grande bolo centralizando a data. Velas em riste. Preto no branco, as fotos exibem meu rosto nos rosto dos convivas.

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foto e texto: Darlan M Cunha

maldades da mamãe

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roscas

    Tive um único livro sobre alimentos na minha biblioteca, a qual doei quase toda quando me mudei – um livro sobre alimentos típicos do Pará (sou mineiro da gema e da clara). Pois bem, pensando nos ocos da vida, fui rever Dona Maria, e eis o que encontro, saídas do fogão, com outros petiscos mais, o que ela faz constantemente: roscas. Ela sempre fica tramando biscoitos de polvilho, tortas de frango, doce de batata doce com coco ralado, biscoitos de coco, doce de requeijão, biscoitos “doidão”, pudim, pastéis…

     No próximo domingo, 28, ela (85 anos) embarcará para os EUA, para estar durante meses com filhas, filhos, genros, noras, netas, netos, bisnetas, bisnetos e duas trinetas ou tataranetas, já nem sei mais. E eu irei às padarias.

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foto e texto: Darlan M Cunha

Algum dom doce

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Felicidades, Dona MARIA JOSÉ, pelos 85

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Dizem que o mundo tanto é quadrado quanto redondo, e que há tantas disparidades, egoísmos, cegueiras, mãos estendidas para dentro dos próprios bolsos, que ele até se torna risível, e que está cada vez mais afastando as pessoas de si mesmas, e das outras.

Pois bem, neste quadro caótico, filho da Pressa, ainda há quem seja capaz de ignorar todas estas mazelas, todos estes choques psíquicos, choques anafiláticos, ml e um atropelos, e fazer a alegria de um sem-número de criaturas.

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Foto: Cris / Flaví

Texto: Darlan M Cunha

mães avós bisavós trisavós – 3

espinhos de sobra ... rosa e cacto

rosa e cacto: espinhos

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     A minha avó materna teve nove filhos e filhas, minha mãe é a primogênita, que teve a tristeza de perdê-la em decorrência de parto do qual nasceu meu tio Nem – morto aos 33 anos, na Amazônia.

     Fico pensando sobre os dias que antecederam ao meu nascimento, indagando sobre que pensamentos teriam ressurgido na mente da minha mãe. Será que ela se lembrou do que ocorrera com a própria mãe Isaura, e teria se inquietado, compreensívelmente, às vésperas do seu primeiro parto (outros nove viriam, numa sequência assustadora, sequência que as mulheres, hoje, rejeitam, pela elasticidade nas relações, facilidade de consultas médicas, pelo horizonte dos anticoncepcionais, etc.

     Aqui estou, pensando (pensar cansa, estabiliza, ou não), e chupando caqui, ciente de que o mundo é das perguntas, inventa e reinventa encruzilhadas. Tudo é livro, mas deve ser escrito e, mais, entendido, segundo diz o vigário.

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foto e texto: Darlan M Cunha

mães, avós, bisavós e trisavós – 1

vida dura da Vovó

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     Sem dúvida, já ouvimos que ser mãe é padecer no paraíso, mas há diferenças: há mães que cuidam até da sombra dos filhos, mesmo adultos, e mães que esquecem as janelas do apartamento abertas, janelas para a tragédia, e outras há que simplesmente descartam, em seu desespero. Mães que leem ou inventam histórias à beira das camas, novas Sherazades, e aí o sono vem e parece durar mil e uma noites.

     Quanto a ir à casa das avós, isso é um verdadeiro chega-pra-lá no cotidiano enfadonho, é a vitória do riso, da anarquia tanto dos netos adultos, até casados, quanto dos pequenos arruaceiros. E tomem petiscos, afagos, pilhérias, risos e pitos, muitas vezes, com música. Frango & macarrão.

     Minha avó paterna fumava cigarro de palha e bebia uma caneca de pinga, mascava gengibre e folhas frescas de hortelã, montava a cavalo e atirava com espingarda e com um 32 (quando jovem, atirava com o 38), mandava na fazenda, no meu avô. Nunca a vi tricotar, como o faz muito bem e de modo constante até hoje a minha mãe. A mesa de prontidão 24 horas por dia, mas esse tempo tem os dias contados, até porque quase 90% da população já vivem nas cidades, suicidades, monstrópoles.

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foto e texto: Darlan M Cunha

seios/flores

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     As primeiras flores das quais tive notícia foram os seios de minha mãe – sua tessitura suave, seu odor, seu néctar, ou seja, o colostro. Desde então, tenho visto e sentido outras pétalas e sépalas, mas nada igual àquelas primeiras, sendo daí que o povão sempre diz, com a boca cheia e os olhos marejados, diz que “mãe é mãe“.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

à mesa – 3

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tormento gratuito

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     Há quem come depressa, esbaforido, num vu, ao passo que outras pessoas comem pouco e devagar, avaliam os ventos do dia, o peso e o avesso do anonimato, a pesca rumo ao conhecimento, as vestes do desãnimo, e coisas e tais, mas os contrastes à mesa não acabam aí, não, porque há os ovívaros e os pantagruéis, ou seja, comem absolutamente de tudo; e há aqueles e aquelas, com melindres de “ah, não como isso e nem aquilo, não gosto de jiló, pimenta, pequi e abacaxi; ovo me faz mal, não consigo ver a cara de pepino, carne de porco me dá pipocos na cara, espinhas, e assim por diante, além de que a balança me dá nos nervos da barriga, mesmo que seja só vaidade masculina”. Pois eu também – alguém à mesa pode dizer –, não suporto coentro e peixe frito, não me dou com quiabo, não posso com a coqueluche de caranguejos marinhos, ostras e mexilhões, embora que em muitos países, se não em todos do extremo oriente, tais como a Indonésia, a Tailândia, o Vietnam, a China, etc, se come absolutamente de tudo, é só ir aos milhôes de feiras e mercadinhos e restaurantes em plena rua, para provar grelo de bambu, rãs, escorpiões fritos ou torrados, marimbondos, cobras e enguias vivas, aptas a serem esfoladas e preparadas ali mesmo, peixes nadando tranquilamente, os quais logo estarão tanto na boca do populacho quanto na mesa dos bacanas locais e dos turistas (devagar com o andor do entusiasmo).

     Mas há quem não come nada de nada, porque doentes; e há quem não come nada de nada, porque a guerra come todo o dinheiro da nação, come a merenda escolar, atua sobre a vontade de reagir; a guerra é insônia, é falta de menstruação, mesmo que não se esteja grávida, yes, la guerre c’est un oiseaux de fer, un oiseaux sans plumes, e isso me lembra as telas Os comedores de batatas, de van Gogh, e Os retirantes, de Portinari. No entanto, nada é para sempre, diz o povão, pelo que resta a vontade de seguir, e assim vamos aos novos endereços. Hora é, com fome qualquer coisa serve, no auge do delírio da fome, até a sola da botina se transforma num suculento bife de búfala da ilha de marajó. Num dos filmes de Charlie Chaplin há uma cena assim.  Rir é o segundo melhor remédio, porque ir é o que há de mais sensato. Pé na estrada, porque viajar é mais. Ir.

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Foto e texto: Darlan M Cunha