senhas / passwords

pausa

O ASSOMBROSO MUNDO DA MÃE SENHA

Somos filhos da Senha, tudo tem de ser conferido, ou a aba, o segredo não se abrirá, bastando alguns cliques, ou nada feito, teus cabelos ficarão crispados de raiva, tuas unhas apertando a superfície mais próxima, som de fúria, as páginas são rinhas trocando de senhas, mas o dique vaza, para o desespero sentado numa cozinha pequena, tudo em silêncio, menos o vizinho barulhento, isso vai mal, creia, senhas são seguranças vestidas com tecidos transparentes, são necessárias, mas ainda servem pouco sob o ataque de uma curra informática, sim, tu és filha da Mãe Senha, todos são filhos dessa mesma mãe, portanto, todos têm N irmãos e irmãs avaliadas e avariadas. Não há saída. No way.

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THE AMAZING WORLD OF THE MOTHER PASSWORD

We are children of the Password, everything must be checked, or the flap, the secret will not open, just a few clicks, or nothing done, your hair will be crisp with rage, your nails clenching the nearest surface, sound of fury, the pages are puzzles changing passwords, but the dam leaks, to your despair sitting in a small kitchen, all silent but the noisy neighbor, this is going badly, believe me, passwords are security guards dressed in transparent fabrics, they are necessary, but still serve little purpose under the onslaught of a computer curse, yes, you are the daughter of Mother Password, everyone is a child of that same mother, so everyone has N brothers and sisters assessed and broken down. There is no way out. No way.

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Amadas e Caros, vamos à macarronada do sábado, que a feijoada fique para o domingo:

SÁBADO: MACARRONADA — DOMINGO: FEIJOADA
  • Darlan M Cunha

tentáculos

“Que tragédia é essa que cai sobre todos nós ?” (MILTON – Estrada do Sol)

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Os opostos vivem em todos os lugares. Sempre foi assim: uns precisam dos outros. Elementar. Olha, de se ser um girassol do espanto, ou de se ser uma árvore, não se canse quem tentar, pois através de suas sementes, do pólen, as árvores caminham há muito mais tempo do que os humanos. Quanto ao meu vizinho à esquerda, outro da mais pura lavoura arcaica ele é junto aos outros, como poucos. Estamos na Era Nano, vírus é nano, embora nem todos. Em tempo, eu ouço que é preciso que cada qual encontre e dialogue com o seu próprio oposto, aquele que está por aí, a um palmo de distância de cada pessoa, com o seu jeito soez ou não, relapso ou não, cruel ou não, um jeito mimético ou aberto como se fosse um leque, uma varanda, um sorriso matinal. Ontem eu saí de casa, vim com a mala cheia de exclusão, o mundo é enganosamente grande, tudo é diferente, mas tudo sempre nos lembra algo similar, alguma coisa quase da mesma cor e quase com as mesmas formas, embora quase nunca se lhes saiba as intenções. E é justamente nisso – na Incógnita – que resiste / existe a beleza. Estou de bruços, nada me dói, tudo me dilacera, vivo como quem irá à feira daqui a pouco, mas tenho medo do que é invisível, é preciso cautela contra isso. Estamos todos de um jeito diferente, uma febre diferente nos tornou ariscos e amargos, trêmulos e sonsos, enfim, estamos assim feito espantalhos sem serventia numa grande lavoura ressecada, Mas há tempo, parece, de se pisar neste terrível rastilho, neste algoz, neste ladrão da alegria, nesta inenarrável algazarra da morte. Quando um muro separa, uma ponte une, diz a canção.

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Opposites live everywhere. It has always been this way: one needs the other. Elementary. Look, of being a sunflower of wonder, or of being a tree, don’t get tired who tries, because through their seeds, through pollen, trees have been walking much longer than humans. As for my neighbor to the left, another of the purest archaic farming he is along with the others, like few others. We are in the Nano Age, viruses are nano, though not all. In time, I hear that it is necessary for everyone to find and dialogue with their own opposite, the one that is out there, an inch away from each person, with its own way or not, relapse or not, cruel or not, a mimetic or open way as if it were a fan, a balcony, a morning smile. Yesterday I left home, I came with a suitcase full of exclusion, the world is deceptively big, everything is different, but everything always reminds us of something similar, something almost the same color and almost the same shapes, although we almost never know their intentions. And it is precisely in this – in the Unknowns – that beauty resists / exists. I am on my stomach, nothing hurts, everything tears me apart, I live like someone who will go to the fair in a while, but I am afraid of what is invisible, one has to be careful against that. But there is time, it seems, to step on this terrible fuse, this tormentor, this thief of joy, this unspeakable racket of death. When a wall separates, a bridge unites, says the song.

Darlan M Cunha

FAMÍLIA ASSAD e KEITA OGAWA cantam e tocam Milagre dos Peixes, de MILTON NASCIMENTO: https://www.youtube.com/watch?v=ppVU_zC6Qnk

optar

Paredão ou Luz (Cachoeira da SAMSA. Rio Acima. MG, Brasil)

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Darlanianas

no Dia Mundial das Livrarias

@1.

O rubor chegou e ficou de pé, imprensado contra a parede e contra si mesmo, teve que ouvir frase lapidar, depois dela ouviu prédicas, ladainhas, sermões hiper admoestadores e, por fim, ouvir uma caudal de nome discurso, porque o rubor é indefeso diante de certos fatos. Sua reação é involuntária, sobe e esquenta as faces, às vezes, ele até chora e solta pontapés e palavrões para todos os lados, coerente e incoerente consigo mesmo, pelo que fez e não fez – está vivo, suando frio, mastigando erros e acertos, projetos inconclusos, rios de dúvidas e tristeza, querendo bem longe de si certo tipo de mundo.

@2.

Hoje é dia de temor na aldeia a qual nas sextas-feiras – dia treze ou não – é vigiada com mais minúcias ainda, talvez nada aconteça, como de outras vezes, mas já no início da madrugada soou o alarme, pois uma criança, ou algo parecido, foi vista na ala norte, e logo, horrorizado, o povo notou-a sem rosto, locomovendo-se como se o tivesse, a aldeia se fez de joelhos, seu antigo costume de dar-se de joelhos – menos eu e outros, resolvidos a não darmos fim a tal expiação e bulício, porque talvez o melhor seja rever como é que o povo paga pelo que faz a si mesmo a cada giro da ampulheta.

@3.

Continuando sua explanação, seu delírio momentâneo, ela disse que “homem de roupão é o máximo, vi na tevê” – disse, e eu fiquei na minha, calado que nem um bode ressabiado, tarado com vontade doida de esganar homem roupão cipreste barco arco reflexo e arco e flecha também esganar gato cachorro bolsa de valores incendiar presídios igrejas fóruns quartéis & mil réis, dar sumiço nos pobres parasitas vadias matar todas as baratas a chineladas pulgas e piolhos, enfim, eu fiquei alucinado com aquela ingênua confissão, e foi então que me percebi muito doente, sim, um pré paciente já nos últimos gorgolejos da Razão, tragada por um egoísmo só visto no seio das piores causas, no meio de ruas mais abandonadas e confusas do que certas mentes, eu me notei sem prumo, perdido no meio da aldeia quanto nas veias da casa.

@4.

Temeroso, ao extremo de suar em bicas, levado a custo por gente amiga ao cadafalso – foi assim que ele se referiu ao consultório do urologista, fazendo pilhéria para ver se se relaxava um pouco, pois era preciso, e alguém disse o de sempre: Ó, vai ser bem rápido e indolor – no que aquele paciente com hora marcada não acreditou. Mas foram, sentaram-se dentro do silêncio branco, até que seu nome foi citado, pareceu muito distante, e foi para o exame, de onde voltou radiante, porque nada de câncer prostático, a sua neoplasia é benigna, ou seja, é melhor do que o Mundo. Benigna. Fomos às cervejas. Amigo é pra essas coisas, para a hora difícil.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

MPB_4. Amigo é pra essas coisas (autores: Sílvio Silva – Aldir Blanc): https://www.youtube.com/watch?v=lhi7YIfuwmQ