a câmera= vida ou tempo, frente e verso

Revivida pelo artesão Zauss – bairro Santa Cruz, Belo Horizonte, MG.

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Na estrada das areias de ouro *

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Numa foto recente os ídolos cheios de cãs e rugas, quase irreconhecíveis, irreversível é o imponderável pondo a mesa, e há quem perca a coragem de ir ao espelho, de se ver como uma anamorfose, uma imagem distorcida que talvez já seja a sua realidade não percebida, mas quem inventou o pavor não fui eu. Para alguns, pouco importa viver com rugas, hérnia, tremores, catarata, rinite, conjuntivite, diabetes, insuficiência renal, disritmia, alta PA, obesidade, impotência sexual, ai. Noutros, o que mais lhes dá nos nervos é o fato de não saberem o que foi feito daquilo que não fizeram, dos trevos que encontraram e não entraram, e hoje acordaram de analisar o Tempo, o que fizeram ou não fizeram dele os ídolos e os fãs que já deixaram as motos, as passeatas e bandanas, comem e bebem pouco, pois o tempo avisa dos riscos, mas a música continua, e assim é que quando ouves alguma daquelas joias, reentras na estrada, e tome ponta-cabeça em beiras de estradas, vilarejos, amor de uns dias, vidas de um dia, e tome estrada, lá onde não se fica velho, engano, fake news, querem nos enganar, desconfie dos baratos, de deus e do diabo, tudo, já ponho o viés de volta na estrada, caminhos de pedra & seda, risco de perdas & danos – como convém. Vamos, o mundo está farto de toc, balcões, refrigerantes, igrejas e refugiados. Eu quase me esquecia de uma vítima da Grande Gastronomia, o glúten, mais antigo do que o primeiro cozinheiro. Ora, direis, és mesmo um tipo para se odiar. Não tens o que fazer, a não ser satirizar ? Tenho, sim. Por exemplo: ainda hoje, cuidarei de uma pequena cirurgia a ser feita na minha mãe, Dona Maria. O Mundo pode ser pétala e sépala, Mãe é Mãe, ou seja, é um universo à parte.

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Texto e foto: Darlan M Cunha

A Horse With No Name >>> Ventura Highway. AMERICA : https://www.youtube.com/watch?v=4N-OiKzZjws >>> https://www.youtube.com/watch?v=4N-OiKzZjws

ELOMAR FIGUEIRA MELO. Na estrada das areias de ouro: https://www.youtube.com/watch?v=5XO2bqGY5rY

Textos rudes: calabouços & confessionários – 5

OPRICHNIKI ou Os Cães de Guarda do Czar IVAN IV, O TERRÍVEL (1530-1584, RÚSSIA). Créditos da imagem by NAZGUL RINGWRAITH.
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O ano de 1570, os habitantes da cidade russa de Novgorod foram acusados de traição para com o czar, supostamente por engendrar motins. Ivan, o Terrível, expediu ordem para que sua cavalaria negra saqueasse a cidade e punisse os envolvidos na trama conspiratória: durante alguns meses, os oprichniki pilharam, torturaram e massacraram a população de Novgorod, quase a exterminando. // Embora o soberano da Rússia acreditasse que os responsáveis pela suposta deslealdade fossem os boiardos (os nobres)* e os membros da igreja local, a perseguição se estendeu à classe média e ao campesinato com igual brutalidade. // Após a devastadora carnificina gerada pela lâmina dos oprichniki, a fome e o frio elevaram o número de vítimas, o qual diverge incrivelmente entre 2.700 e 60 mil mortos. Pesquisadores atuais acreditam em 7.500 mortos. // Resenha sobre OPRICHNIKI, Os Cães de Guarda do Czar IVAN IV, O TERRÍVEL – por EUDES BEZERRA

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A sabedoria com as coisas da vida não consiste, ao que me parece, em saber o que é preciso fazer, mas em saber o que é preciso fazer antes, e o que fazer depois. O tempo e a paciência são dois eternos beligerantes. (LEÃO TOLSTOI – Guerra e Paz – Rússia)

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O LINGUADO, capítulo DO QUE NÃO QUERO ME LEMBRAR — GÜNTHER GRASS, Prêmio NOBEL de Literatura de 1999. Escultor e pintor — 1927/2015, Alemanha)

Da palavra excessiva, da gordura rançosa, do coro sem cabeça: Mestwina. Do caminho para Eisiedeln e da volta: da pedra no punho, no bolso. Daquela sexta-feira, 4 de março, da minha mão na caixa de greve. Das flores de gelo (suas) e da minha respiração. De mim, como corri: fugindo das panelas, sempre história abaixo. Do Dia dos Pais, recentemente, do Dia da Ascensão do Senhor, naturalmente que eu estava presente. Da louça suja em cacos, misturada com cacos, dos suecos em Hela, da lua sobre Zuckau, do sujeito atrás da giesta, do silêncio, do surdo dizer sim. Da gordura e da pedra, da carne e do punho, histórias bobas como esta.

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POSTAGEM: DARLAN M CUNHA

NA TERRA COMO NO CÉU  –  GERAlDO VANDRÉ  (Pb, Brasil): https://www.youtube.com/watch?v=-41iWu0rVDc

as cidades, 3

Dubai. Ao fundo, o Hotel Burj Al Arab, único 7 estrelas (Photo by MJMC).
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Garis
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Fardos (o que sobra da bela Showciedade)
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@1

Um dos sinais era… não sei, mas me era algo familiar. One of the signals was, I don’t know, familiar somehow. Isn’t a pity… John said: “Woman is the nigger of the world.” Well, but I do not know that, no.

@2

Eu conhecia aquela pessoa, mas não me lembrava quem era, seu nome, sua origem, enfim, um branco total na memória. Ouça. A memória privilegia certos fatos em detrimento de outros, isto é, o que causa dor, ela os disfarça, oculta, borra, assim como mandamos o computador deletar isso ou aquilo.

I knew that person, but I did not remember who I was, its name, its origin. A total blank in memory. Listen. The memory privileges certain facts to the detriment of other facts, that is, what causes pain, it disguises, conceals, erases, just as we have the computer delete this or that.

@3

Manhã tão bonita manhã, nos diz esta música de justa fama internacional, do Luíz Bonfá (1922-2001 – RJ) e do cronista Antônio Maria (1921-1964 – PE), pela harmonia e pela letra, é uma das pioneiras no trato suave com o violão e com a voz, enfim, com a própria substância da Música. Ainda está escuro, madrugada, e agora me vem à mente o livro do poeta amazonense Thiago de Mello (1926- ), Faz escuro, mas eu canto: porque a manhã vai chegar.

@4

Bom, minhas amadas e meus caros, hora é de vasculhar a geladeira. Bom domingo.

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Fotos e texto: Darlan M Cunha

LUIZ BONFÁ (autor, junto com Antônio Maria) e ELIZETH CARDOSO

pista

Porta entreaberta (clique na foto, leia, comente no espaço por trás dela)

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@1

Quando chegou em Pompeia, aquela gente toda despertou, levantou-se e sacudiu suas cinzas e, zelosos com aquele patrimônio, limparam os afrescos e rearrumaram as termas, e então o seguiram pelas ruas bem calçadas, ainda endividados com a clareza dos fatos ali ocorridos, porque o cataclisma veio muito rapidamente, sem nenhum aviso prévio, pelo que as cinzas cobriram tudo, inclusive o céu e o mar. Mas, durante o tempo em que ficou naquela cidade à beira do mar e debaixo de uma grande boca infernal, o que melhor lhe chamou a atenção foi o zelo de todos para com o patrimônio maior daquelas casas e ruas: crianças, além do já comentado zelo para com o mármore, todos os afrescos, as termas, a praça, o foro e a padaria, de maneira que quando voltou do sonho ele estava depurado, continuou deitado, pensando, e foi pensando que se fez ao dia, levando Pompeia consigo, o pão e o vinho… e as cinzas.

@2

Há uns quatro ou cinco anos venho reiterando que o Chico receberia o maior prêmio da língua portuguesa – Prêmio Camões – dado alternadamente aos escritores/as de países que têm a língua portuguesa como língua mãe. Este ano aconteceu. O Brasil tem, entre os agraciados, dos quais eu bem me lembro agora, por alto, João Cabral de Melo Neto, Lygia Fagundes Telles, Raduan Nassar, Ferreira Gullar, Rubem Fonseca, João Ubaldo Ribeiro, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, etc. Carlos Drummond não consta desta lista seleta, onde está, por exemplo, José Saramago (também Nobel).

3@

Se queres uma pista para saber quem eu sou de fato, não procures primeiro em mim, mas em ti, em tuas gavetas, teu ócio, tua luta, tuas alegrias, todas as viagens ainda não feitas, procure no amor que rói fracos e fortes, e depois venha a mim.

4@

Algumas vezes por dia, / todos os dias / venho a mim, pedir ajuda / ao Outro em mim. / E quanto mais vou e volto, / mais me afasto do meu entorno mais próximo, / e ainda mais longe fico do grande circo. / Algumas vezes por dia / ainda sinto o pulso.

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Foto e Texto: Darlan M Cunha

Prelude Nº 3 (HEITOR VILLA-LOBOS), violão clássico. ALEXANDRA WHITTINGHAM:https://www.youtube.com/watch?v=TvrUuZwzhLc

mão, 5

Farinha de mandioca (Mercado Municipal de Medina, MG – cidade na qual nasci)

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Quando uma pessoa fica muito tempo sem ir ao lugar onde nasceu, o que sucede é que algo ao mesmo tempo doce e fortemente melancólico surge das várias profundezas da memória – estava nalguma gaveta da memória – e a gente fica como que paralisado, longe dos decibéis da grande cidade, anda-se pelas ruas, seu calçamento, suas casas, algumas delas geminadas, entra-se num bar, vai-se ao mercado comer algo típico da região – frutas e frutos, por exemplo, enfim, você está numa realidade que ao mesmo tempo em que ela é sua, também não é. Voltar para casa, dias ou semanas depois, algo assim confuso, e algo iluminado, ou volta-se conversando sozinha, rindo e chorando sozinha. A propósito, eu coloquei a música do Tom Jobim porque ela cabe muito bem aqui, porque fala de comida, de passarinho, pedra de atiradeira (bodoque), de chuva, pau, pedra, toco, estrepe, prego, sapo, rã, luz da manhã, conversa ribeira, marcha estradeira, matintapereira (uma lenda)…

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Águas de março. TOM JOBIM. : https://www.youtube.com/watch?v=BhlNHxh3Z5E

Mão, 3

castanhas de baru (Dipteryx alata)
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Pródiga, ainda que espancada a diário, a natureza não se faz de rogada. No deserto chove com força, as dunas se vão, camelos e homens afogam-se no areal, sombra não existe, a não ser aquelas sombras no psiquismo, comum nos humanos. Enquanto isso, cascavéis, besouros e ratos do deserto palitam os dentes. Nas monstrópoles, sôfregos, os zumbis sobem e descem escadarias cotidiárias, homens e mulheres pisando no tapete vermelho do desespero. Ó vida, Margarida !

Foto e texto: Darlan M Cunha

MAO-BH, 8

Pharmácia ou Botica

Pharmácia ou Botica

Pharmácia – unguentos, óleos, essências, pós, sais…
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E ainda um girassol / de louça e nostalgia: / flor do 56 / que é pia / oráculo e urinol / Isso deixo – não é meu / E, que o fosse, deixava: / tenho uma alma escrava / de perder o que é meu.

Ferreira Gullar. Toda Poesia.

fotos: Darlan M Cunha

MAO – BH, 4

Balcão para salgar carne de porco

Bilros

Cadeira de barbeiro

Bem-aventurado o que pressentiu / quando a manhã começou: / não vai ser diferente da noite.

Adélia Prado. Bagagem.

Darlan M Cunha