Carta à Mãe, nº 148

Clima


A luz também se curva ao desviar-se dos obstáculos (Einstein), não se cansa. Há frutas e frutos à espera, lutas cotidianas, minutos é o que há nas mãos, todos os dias.

Dona Maria José,

ontem, ouvi com atenção os pedidos da Senhora, que não pede nada nem aos filhos e filhas, e cuidei logo de ir ao fio da procura, ao rabo da arraia, ao rabo de foguete, no fundo do rio Arrudas, riacho poluído que passeia impune pela aldeia. Fossem quais fossem os obstáculos eu chegaria lá, Dona Maria, fosse como fosse: tossindo ou sorrindo, esmolambado ou com roupas importadas, tudo seria entregue, num átimo. Feito isso, vamos a outros pensamentos e silêncios.

Mãinha, minha sopa de macarrão com caldo de feijão (ó infância)

estou me lembrando que hoje a Senhora, bem cedo, irá à igreja, encontrar-se com o maioral celestial, e com as amigas, para irem logo colocando a conversa em dia. Seja. Por motivos que a Senhora sabe, não são possíveis a mim os prazeres da reza, oração, petições para que o mundo tome juízo, enfim, eis a sua mais absoluta, silente e sagrada tristeza por também me ver auto-relegado ao primeiro plano da sátira à Showciedade de Cãosumo.

“Vovó Méuri”, como dizem as bisnetas e trinetas, rindo a valer com a boca cheia de petiscos…

como eu a ensinei a ver o Youtube na tevê, ao invés de ficar na pavorosa mesmice de tiros, facadas, estupros, aumentos de impostos, corona, enchentes, aposentados, terremotos, hospitais lotados, mas as cadeias nem tanto, e o congresso nacional ainda e sempre entregue às moscas do “toma-lá-dá-cá”, cada vez mais acidentes de trânsito causados por gente (?) drogada e embriagada, e por tipos e tipas penduradas no maldito celular, e até escrevi num folha de caderno, sei que a Senhora, no sofá, segue estes meus preceitos: vá ver Holambra, vá ver o Vale do Jequitinhonha, MG, onde ambos nascemos, e por aí vai. Por falar em vamos, a Senhora fez chá com a hortelã ? Quinta-feira, lembra, é um dos seus quatro dias semanais de caminhada – há muito tempo.

Mãe, meu xampu feito de nuvens branquíssimas e cheirosas,

vou me despedir, vou sair para comprar umas coisinhas (no primeiro dia deste ano, jurei que poria em cada bolso um escorpião, chega de gastar o que não tenho ! Mas de que jeito, se até para tossir na esquina se paga uma taxa ou pedágio ou imposto ou uma simpática multa ?

Um beijo valendo por mil, mil abraços valendo por milhões, deste seu filho meio desmiolado, analfabeto, mas bom garoto…

Darlan

AQUI: Carta à Mãe, nº 147: https://uaima.wordpress.com/2021/02/14/referencias/

Memórias de um viandante

OURO PRETO, MG – BRASIL. Essa foto tem 35 anos, feita por mim e o meu dileto amigo ANDRÉ ROELENS, engenheiro, brasileiro de origem franco-belga, já falecido, no que não achei graça nenhuma, anos depois desta foto e outras. AMIGO com A maiúsculo.

***

UMA ALDEIA

Chegado a uma cidade onde o normal é visível, viu um fio de leveza em cada canto da aldeia, pessoas vistosas, com garbo natural, mas, estranhamente, não há monumento, estátua, enfim, nenhum vestígio de louvor ou de subserviência na aldeia, dando ela a impressão de que os habitantes não se importam com o que houve por lá (no presente do indicativo, porque a aldeia está viva e pujante, nem pequena e nem grande), então, é um ledo engano pensar desta forma acerca de tal lugar no qual o lema ordem e o lema progresso vão de mãos dadas, com os pés num ritmo plausível, e nada de marca-passo no peito ou conversas inúteis, como é a praxe geral. Em cada esquina, um visual diferente, ou quase, placas de ouro de prata e de bronze dando conta de onde se está, mas não se acha absolutamente nenhuma pichação, como se não houvesse tinta por lá, mas é que as leis são severas, são de decapitação pública para cima, de se ser esfolado vivo, de se apertar o pescoço até que o esfíncter exploda, e por aí vai a paga por uma infração. No entanto, para sua surpresa, uma vez no hotel, em nenhuma torneira dourada não havia gota de vida, sinal nenhum. Não existe água naquela cidade, não, e foi então informado disso e daquilo, e entendeu que banhos por lá são à base de finíssima areia naturalmente perfumada, e que o fato de não terem água explica seu desapego absouto a tantas e tantas idiotices – inclusive mausoléus e estátuas, monumentos e museus de quaisquer assuntos, e o viandante tornou-a sua, de imediato.

Darlan M Cunha (leia a postagem anterior: CARTA À MÃE, nº 146)

as visitas, 3

sonhos & pesadelos

Viver por inteiro não há, isso porque da água e do fogo sempre haverá o que conhecer, algo da sombra e da luz, da cama de pregos ou de molas, e nenhum dia será mesmo o desejado, e assim o inteiro viver estará sempre esperando que arrumemos de novo as malas, e cada mão continuará com a sua sina de areia ou de sal espalhado e de açúcar que as formigas levarão, e o nariz se parecerá com o da esfinge de Gizé – roído de ventos.

Darlan M Cunha

Olhai os delírios do ‘trampo’

Formas altas e rasteiras. UNI-BH, MEDICINA e ODONTOLOGIA. BELÔ.
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LAVOURA ARCAICA  //  ARCAIC PLOUGHING or To The Left of the Father

É um filme que traduz bem a força e a elegância desta novela do escritor Raduan Nassar, uma obra que se tornou uma referência literária nacional e internacional, um livro para além das pobres dimensões bíblicas, para lá de mundanismo, do amor em cacos, o incesto, tensões psicológicas no limite e além do limite, a culpa sutil e a culpa feroz não dando trégua, dualidades à mesa. Dirigido por Luiz Fernando Carvalho.

A film that translates well the strength and elegance of this novel by the writer Raduan Nassar, a work that has become a national and international literary reference, a book beyond the poor biblical dimensions, beyond worldliness, love in pieces, incest, psychological tensions at the limit and beyond, subtle guilt and ferocious guilt not giving a truce, dualities at the table. Directed by Luiz Fernando Carvalho.

NOTE: Play trailer on You Tube: https://www.youtube.com/watch?v=kZ1_aD00GmI Provedor: Sofá Digital

Preênsil

NATURAL

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Um nome com uma escuridão espessa e malsã

rodeia minha mente, ora, memória pouca

é fuga incompleta, memória pouca nos iguala

aos outros bichos cujas únicas recordações

vêm das mordidas sofridas nas batalhas

que o cio animal exige, porque as fêmeas exigem

o mais apto – sadio, manso e feroz, e assim os machos

nem dormem, atados à fúria, à vigília, ao medo

às especulações, aos sibilos do vento e do rio e da chuva.

Mesmo quando já nada mais importa, algo ainda importuna –

algo novo ou antigo.

: darlan m cunha

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We have to fight with what we have.

janela & dúvida
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@1

Por acaso, no canal Curta (NET 56), vi e ouvi a excelente cantora e doutora em literatura comparada, STACEY KENT, numa longa e bela entrevista a um jornalista de origem chinesa – JI XIAOJUN -, no pequeno templo do jazz em NYC, o mais do que famoso BLUE NOTE. Um dos meus irmãos que mora nos EUA, costuma ir lá, porque sabe que todos os grandes craques já tocaram lá. Pois bem. Stacey Kent é apaixonada com a música brasileira, e na entrevista foram mostrados lances dela num show no qual ela canta O Barquinho, em português, acompanhada de sua banda e do Marcos Valle ao piano, citando Edu Lobo, Jobim, e outros craques da MPB, ela que já cantou em cinquenta países. Vive com o marido em Londres, onde estudaram, a novaiorquina de nascimento gravou vários discos e tem prêmios internacionais. Tudo isso no programa ICON. Eu não tinha notícias dela havia vários anos. Bela surpresa.

@2

We have to fight with what we have. All right, mate.

@3

THE VISIT

Sometimes the silence

enter without formal invitation

in the house without garden

no greater promise of light

enters stepping on eggs

or in broken glass

the silence that is gender

of first need

takes on the wrists do not cut

takes in the bones not the fracture

takes in the eyes not saturation

finally, get in clean

neither blind nor deaf nor dumb.

***

@4

SACRIFÍCIO DE VÉSPERA

O amor é onda como as do mar

como as lufadas de vento

que chegam trazendo espuma

e alguns peixes por testemunha.

Depois, ele costuma recuar

some mas deixa vestígios.

***

Fotos e textos: DARLAN M CUNHA >>> Visite-me aqui (40 textos no POEMHUNTER): https://www.poemhunter.com/poem/anamorphosis/