cotidiano 3

TEM DOIDO PRA TUDO

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     Se não me falha a memória, parece-me ter lido uma entevista com Egberto Gismonti, na qual ele cita ter visto um homem levitar-se, na Índia, nas viagens mundo afora feitas pelo grande músico. Isso já faz tempo. Pensando nisso no fim da madrugada, imagino ter visto o meu rosto no café, mas foi imaginação; porém, o que vemos no cotidiano tem tudo de sons imaginários, de colores y dolores fictícias, tudo nos convence de vivermos numa realidade cheia de delírios, e deliramos cada vez mais, voamos, flanamos, enfim, nos livramos de ficar com os pés e a mente no chão, de maneira que um solo de clarineta nos mantém no alto. Ontem, para assombro meu, melhor dizendo, já de todo indiferente para certas coisas, vi um automóvel voador, e o desaforado jogou-me uma piadinha do tipo Ei, garoto, um programinha ?, e foi por aí o atrevimento ao qual não respondi, pelo que ele urinou gasolina e graxa sobre mim. Devolvi o acinte, e botei fogo nele, ou seja, como leio muito, a lei de Talião ajudou-me num compasso delicado, um mal-entendido. Sem dúvida, ir à rua é ir pro ar, de lá se vê, como um motor de busca ou mecanismo de pesquisa, o lar o bar o mar a passeata o atentado ao pudor os cartazes o templo o bordel o estádio lixo sobre lixo a cadeia e o cemitério, enfim, a infinita algazarra da aldeia em cujo mercado vamos comprar e trocar e vender histórias e estórias.

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

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Mercado 1

Mercado Central de Belo Horizonte (1929), MG, Brasil

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     Um dos livros através dos quais iniciei o aprendizado do idioma russo (33 letras) foi o da professora Nina Potapova, isso há décadas, numa representação cultural da Rússia, em BH, que ficava no edifício Rembrandt, na Rua São Paulo, região central. Lembro-me de ter ganho um relógio, num concurso feito pela modesta mas diligente instituição, e de tê-lo dado de presente à minha irmã Telma. O tempo fez o que sabe fazer, condenado a si mesmo, o espaço contraiu-se, para uns tantos, expandiu-se para o quase nenhum, mas eu continuo, o idioma russo continua (cinco ou seis idiomas sobreviverão), tu continuas, e enquanto não se descasca de todo a trama mundial, vamos ao mercado, ao lugar onde, segundo o poema do Bertolt Brecht:

Para ganhar o pão, cada manhã

vou ao mercado onde se compram mentiras.

Cheio de esperança

ponho-me na fila dos vendedores.

(BERTOLT BRECHT. Antologia Poética. Poema “Hollywood”)

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foto e crônica: Darlan M Cunha

Onde os queijos não marcam ponto

Mercado 4

Mercado Central de Belo Horizonte

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     Fui ao mercado comprar geléia de mocotó, pimentas variadas (tem até indianas, mais quentes do que a mansão de Belzebu), farinha de rosca, cachaça, queijo canastra de São Roque de Minas (compro também de outras cidades), e camisetas com motivos mineiros.

     Feito isso, fui ao Bar do Mané Doido – quase tão famoso quanto o próprio mercado no qual atende – e, entre umas e outras, petiscos preparados na hora, ouvi uma palavra que havia muito tempo eu não a ouvia. Sururucar tanto significa peneirar grãos, quanto rebolar, menear, saracotear, gingar. Pois é. Imediatamente, lembrei-me de uma palavra semelhante, que não consta do dicionário (não encontrei), mas ela está no livro Maíra, de Darcy Ribeiro, e a palavra é sururucucar, se não me falha a memória.

    Aí, entre outras e umas, risos, petiscos & lambiscos, palavras amontoaram-se em torno da mesa e, sem pedirem licença, entoaram sua voz, e ouvimos abisntestado mocorongo gusano nédio absconso carraspana edil bacabal estróina tinhoso cerúleo abespinhado abio sacripanta sastre sacarrão poltrão estrupício e estropício miasma ningres-ningres nênia calipígia… até que um alarido ecoou e me alertaram quanto à esposa-que-não-tenho me chamando em altos brados pelos corredores cheios de sons, cores e odores, e ela (presumo) com vestido de chita, rodado, rolinhos na cabeça, olhos injetados, varizes e sabe lá o diabo o que mais. Escapei de boa, por pouco, como se diz em latim: Paucas sed bonas.

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foto e crônica: Darlan M Cunha

Um lugar para todos: histriônicos, felinos, paus-mandados, frenéticos do sexo pro agressivo, artífices das flores do mal, de solstícios e equinócios repintados à mão [falsos]; sinônimo de perigeu, há porcos-espinho, víboras e salamandras, salários sem crédito, motoristas a soldo da firma A Inenarrável Algazarra da Morte, enfim, eis um lugar para além do bem e do mal – pois é na rua que as coisas acontecem

Minha Neguinha 1

uma das “namoradeiras” de Sabará, MG, Brasil

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LETRAS DE MÚSICAS

Eu faço samba e amor até mais tarde, não tenho a quem prestar satisfação. Escuto a correria da cidade, que alarde, será que é tão difícil amanhecer ? (Samba e amor. Chico Buarque)

Era um homem que vivia lá com seus botões. Sempre dizia que ser homem não é só ter colhões – tem-se que viver, enfrentar a corrente, desde cedo (Um homem, por dentro. Darlan M Cunha)

Desilusão, desilusão, danço eu, dança você, na dança da solidão (Dança da Solidão. Paulinho da Viola)

Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor (Nelson Cavaquinho // Guilherme de Brito  // Alcides Caminha

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foto: Darlan M Cunha

uma casa de pernetas, daltônicos, gagos, lábios leporinos, fans de rock proagres- sivo, estudiosos de minhocas e do bicho-da-seda, duetos do globo da morte – a rua

a luta

Ó vida, margarida !

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Eu quero é botar meu bloco na rua
gingar, pra dar e vender*

     Numa das muitas vezes em que passei pela avenida Nossa Senhora do Carmo, BH, um pouco desviado da minha rota mais comum para casa, deparei-me com esta cena, nem digo espetáculo. Todos já viram este cenário, palco, luta de gente botando seu bloco, seu oco nas ruas, até porque é preciso estar atento e forte. É a cabeça, irmão.

     Assim como a rua é uma casa muito engraçada, também é memória de panos negros, de painéis de cabeça para baixo, um grito parado no ar, e logo ali num bar as conjecturas, as filosofias de mal casados, descasadas, separadas, amaziados, desquitados, roedores de unhas (onicofagia), e por aí vai este longo rosário de sapatos cheios de pedrinhas que a suicidade comporta.

     Eu também quero botar meu ovo na rua.

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foto e texto: Darlan M Cunha

VISITE: https://www.poemhunter.com/darlan-m-cunha/

Sonho de uma noite de plantão

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Isso que vês é pura ficção.

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     Como sempre acontece nas feiras e mercados populares, encontramos gente com a sua própria visão do mundo, e gostamos disso – ainda que divirjam da nossa própria visão a respeito deste ou daquele assunto. É natural ir ao riso e à cerveja, depois das compras. E foi numa dessas que um frequentador, de uns trinta e cinco anos, e a amiga, entraram na conversa, e ele foi logo dizendo que tinha saído de um plantão noturno, e que durante o mesmo um desejo de sumir no mapa o perseguiu por todos os cantos: na cantina, à beira da cama dos pacientes, assinando e carimbando receitas, lavando as mãos, enfim, sua realidade. O desejo o incitava a ir de férias (porém, como ?), chutar o balde, trocar de nome e até ficar sem nome e coisas e tais, e ele bem ali nos corredores brancos, absorto, babando diante das dicas, sonhando com notas caindo do céu, mil petiscos inenarráveis, entraria num vórtice total de ir descalço pelas ruas de cidades antigas, pelado no lombo de camelo (o estetoscópio quase lhe caiu da mão), enfim, o diabo atrás tocando viola. Tiraria férias, na marra, após dois anos mourejando, segundo ele, sob risadas gerais. Disse que seu salário acaba lá pelo dia dezoito, dia vinte, mas que sonhar não paga imposto. Iria.

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Foto e texto: Darlan M Cunha