Guerreiros 11

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Hoplitas: eram chamados assim os soldados gregos

 

     Certa vez, enquanto lavava o rosto, ocorreu-me que eu não era eu – não mais, o que me deixou entre pasmo e apavorado, e um tremor invadiu-me de tal forma que tive de me sentar, não sem antes olhar-me no espelho do banheiro, sim, lá estava o outro, outra dimensão Darlaniana, e a taquicardia atacou pra valer, queria gritar, pedir socorro, um copo de água ou uma dose de vodka com água de coco e pedra de gelo, mas como, se um mutismo desesperado me apertava a garganta ? Nunca mais me olhei num espelho, e por isso mesmo, dizem as boas e as más línguas, vivo desgrenhado, descabelado feito outra Madame Min.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

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Guerreiros 7

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Aquiles e o Cavalo de Troia

 

     Eis o legionário, o combatente de baixa e de alta patente, outro soldado sozinho no campo da justa, embora cercado de pares e ímpares por todos os lados, sabe que está sozinho, e treme e não teme, baba e não baba, fere e é ferido de morte ou mais longe do umbigo, longe das partes altas. O soldado está sempre a soldo por glebas, terras e águas de outros impérios, e o chão e o rio são vermelhos, o céu é escuro da cor de sangue coagulado, mas o soldado deve ir, quer voltar para casa, outros não querem, outros parecem que já nem se importam em ficar para sempre em terras infiéis, longe de um amor deixado lá atrás, impossível paraíso que o soldado carrega bem preso por trás da couraça. O amor é algo único porque nos acompanha, mesmo quando não existe mais. Será por isso que se diz que, às vezes, o amor se parece com um “presente de grego ?” Não creio, não crês, não cremos ?

 

Foto e texto: Darlan M Cunha

Guerreiros 6

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Manta e escudo do rei e general LEÔNIDAS, de Esparta (540 a.C – 480 a.C)

 

A PALHA VAI PEGAR JOGO

     Antes do jantar, senta-se numa pequena poltrona, mais baixa, e se desamarra dos cal-çados, lentamente, encosta-se para puxar a calça, desencosta-se para livrar-se da camisa, e fica repassando o dia, inalando as idas e voltas de que foi alvo, costurando e descosturando tratos, e se lembra de que entre uma palavra e outra sempre vem o silêncio mútuo para que as partes juntem argumentos com os quais revalidarem algum acordo. Assim os dias, seus dias, até voltar da luta, em farrapos, sentar-se no pequeno trono, e abaixar-se para se li-vrar dos calçados, com dificuldade cada vez maior, quando então repete “sim, o tempo dos empecilhos chegou, está cada vez mas difícil alcançar os pés, mas este resto de palha ainda há de pegar jogo.”

 

Foto e texto: Darlan M Cunha

torpor / abstração / viagem

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infinito

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  “À medida que aumenta o conhecimento científico diminui o grau de humanização do nosso mundo.

– CARL GUSTAV JUNG (Psiquiatra e psicoterapeuta suiço – 1875-1961). O Homem e seus Símbolos, p. 95

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     Aqui as coisas se desenrolam conforme a língua de fogo caia sobre cada um e cada uma. Aqui, onde Cronos não é nada, onde o tempo não se mede com nada e nem sobre nada, a noção de infinito só serve para chiste. Relógios dos condenados ficam lá fora, são incinerados no Grande Bojo Infernal, Quintal dos Supliciados. Lembra que o Inferno, o Hades grego, é que é O ícone, sim

     lembra que todos e todas vêm de sociedades onde ódio, usura, pressa e cegueira são a moda, mas o diabo sabe que a inveja mata as metrópolis enredadas em si, esquecidas do que há fora de seus muros, vivendo em conluio apenas com o próprio umbigo, embora precisem de mercadorias que não produzem. Assim sendo, sofrem o cuspo da inveja, o sêmen doentio dos aflitos em seu entorno, mas fora de seus portões, enquanto pulmões doentes melam ruas becos pontes túneis travessas e avenidas, todos mandando todos ao inferno, e eu e meus asseclas à espera, felizes por tanta afeição, pelo reconhecimento do nosso trabalho de inseticidas, desinfetantes do mundo.”

O Diabo diz / Satan says:

     “Voltemos ao que vocês não foram e não são: o silêncio, o entendimento. Lembra que aqui é a Casa dos Gritos, onde o desespero é soberano. Em que você está pensando ? Há quanto tempo esteve caindo, escalando dúvidas antigas, transtornos de pernas lentas e braços longos, até chegar aqui, aos que esperam com paciência, aqui onde o tempo não é nada, não se mede com nada, não serve para jogo de cena ?

     Ao menos uma vez por dia deixe a boca de lado, racional, porosa, previdente, e fale com o coração, ao menos uma vez ao dia, chute os baldes e execre aqueles que se acham sadios, imunes ao punho severo do Diabo, batendo porta na tua cara e nas pessoas do entorno.

     Cronos, pai do Tempo, pai de Hades – este é o deus do submundo, rei dos mortos – e irmão de Zeus é finito ou infinito ?”

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Texto e foto: DARLAN M CUNHA

do lampião ao hoje

NO TEMPO DO LAMPIÃO (2)

Lampião do filósofo grego DIÓGENES – O CÍNICO (412-323 a.C.), que arrematei, e depois, para comemorar, fui colocar querosene na cachola, no famoso BARTOLO.

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     Ninguém sabe como ele chegou até aqui, quem o descobriu, se foi roubado de algum Museu; mas isso não é possível, pois não há registro em nenhum lugar, em nenhum livro científico. O vendedor, analfabeto completo, como, de resto, a enorme maioria da nação, colou no bojo da preciosidade uns decalques para valorizá-la, sem saber o que tinha em mãos, disse ter feito um escambo, uma troca no interior de Minas, lá pelas bandas de Tiradentes, e coisa e tal, e eu acreditei, sem acreditar, porque eu logo detectei a origem exata dessa bela peça que vi com meus Olhos De Cão Azul (Garcia Marques), esta que o filósofo carregou pelas ruas de Atenas, pleno dia, dizendo que estava “à procura de um homem honesto em Atenas“. Atenas, a mãe da democracia.

     Como se vê, parece que não há mães como antigamente ( – Herege, exigimos as tuas desculpas às mães !).

     Como se vê, quanto à honestidade, à proteção do patrimônio público e a muitas outras coisas mais, autoridades de todas as latitudes e longitudes continuam as mesmas (salvo as famosas honrosas exceções).

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foto e texto e risos: Darlan M Cunha

Conto(s) com o diabo dentro

https://scribatus.files.wordpress.com/2009/05/diogenes2.jpg?w=304&h=474Kackar Jourrney Sept 2007 087. Foto by Breno Bastos

Filósofo grego Diógenes, o Cínico (413-323 a.C.)

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       Desde garoto eu leio o que os gregos antigos escreveram, e o que sobre eles foi escrito, sobre a Grécia clássica. Li dezenas de livros a respeito, e nada e ninguém me atraiu mais, e ainda atrai, do que a figura do filósofo Diógenes, o Cínico. Ora, só esta alcunha vale uma vida toda. Pense nisto: em ser chamado de Cínico, reverenciado como sendo “o que chuta o balde”, que vive incólume entre as forças centrípeta e centrífuga, palitando os dentes com o vento, junto com seu amigo cão, um pulguento decerto de fácil convívio, de ser capaz de ir às profundezas da filosofia cínica expressada pelo seu amigo, e não dono ou patrão Diógenes de Sínope (Sínope, hoje, é uma cidade turca).

       Conta-se que Alexandre Magno, que derrotara os gregos, ouviu falar do temido e amado cínico, o qual vivia perto do porto de Atenas, dentro de um grande barril. Foi até lá, com seus mil soldados vezes mil, e a ele ofereceu todas as benesses imagináveis, mas o solitário lhe pediu que ele e o cavalo não lhe tapassem o sol. Só restou ao maior conquistador de toda a História retirar-se, compreendendo a grandeza do pedido: “Estou tomando sol, e ele você não me pode dar.”

     Diógenes foi capturado e vendido como escravo a um nobre, que o incumbiu de educar seus filhos. Mas ele ficou mesmo famoso até hoje pelo que se conta de que ele andava pelas ruas de Atenas, em pleno dia, carregando uma lamparina acesa, à procura de um homem verdadeiramente livre, não um a mais no rebanho (lembrei-me da música do Gilberto Gil e Dominguinhos, a qual eu toco e canto, música esta escrita cerca de dois mil e trezentos anos depois de Diógenes, embora sem nenhum conotação consciente quanto a isso, no que toca a essa parte de se ser parte do “rebanho”, quando foi escrita: Lamento sertanejo).

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OBS.: Conto(s) com o diabo dentro é um dos possíveis títulos para um dos meus livros, já pronto.

Imagens: 1. John William Waterhouse. 2. Breno Bastos

Crônica: Darlan M Cunha, um cínico