estrados e estradas

RECOLOCANDO 3

 

     Todos os dias nós mudamos algo, sintonizamos de outra forma algum objetivo, muito embora continuemos básicamente os mesmos, com as mesmas nuanças, a mesma índole selvática ou apaziguadora. É de se rever a trajetória da humanidade, a qual nos dá muito bem a medida, nos mostra que muitas vezes muitos caminhos foram retornados, muitas opiniões ou conceitos bem fundamentados, mas errôneos em sua base, foram deixados de lado, ou não; enfim, muitos retornos foram e ainda são o prato do dia, e não sei por que cargas d’água pensei agora em calça boca de sino, topete pega rapaz, nas anquinhas, nos pés enfaixados à força das japonesas, durante centenas de anos, para agradar amos, mas pensei sobretudo no ainda moderno Código de Hamurabi, escrito pelo rei Hamurabi, da Mesopotâmia, nos idos de 1772 a.C.

     Uma epígrafe minha está nos meus livros e numa página minha na internet: O mesmo de ontem: mas, diferente. Assim, já que ir é o melhor remédio, vamos então de estrados e estradas.

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

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do lampião ao hoje

NO TEMPO DO LAMPIÃO (2)

Lampião do filósofo grego DIÓGENES – O CÍNICO (412-323 a.C.), que arrematei, e depois, para comemorar, fui colocar querosene na cachola, no famoso BARTOLO.

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     Ninguém sabe como ele chegou até aqui, quem o descobriu, se foi roubado de algum Museu; mas isso não é possível, pois não há registro em nenhum lugar, em nenhum livro científico. O vendedor, analfabeto completo, como, de resto, a enorme maioria da nação, colou no bojo da preciosidade uns decalques para valorizá-la, sem saber o que tinha em mãos, disse ter feito um escambo, uma troca no interior de Minas, lá pelas bandas de Tiradentes, e coisa e tal, e eu acreditei, sem acreditar, porque eu logo detectei a origem exata dessa bela peça que vi com meus Olhos De Cão Azul (Garcia Marques), esta que o filósofo carregou pelas ruas de Atenas, pleno dia, dizendo que estava “à procura de um homem honesto em Atenas“. Atenas, a mãe da democracia.

     Como se vê, parece que não há mães como antigamente ( – Herege, exigimos as tuas desculpas às mães !).

     Como se vê, quanto à honestidade, à proteção do patrimônio público e a muitas outras coisas mais, autoridades de todas as latitudes e longitudes continuam as mesmas (salvo as famosas honrosas exceções).

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foto e texto e risos: Darlan M Cunha

pão pane pan Brot bread pain хлеб

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delírio caseiro

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     Em verdade vos digo que o filho do trigo é tão antigo quanto a nossa fome, curiosidade e engenho. Chegou e ficou como tendo sido a primeira necessidade diária daquilo que hoje se conhece como produção em massa. Há coisas quase inacreditáveis, por exemplo, o fabrico de pão artesanal na Armênia: abre-se um buraco no meio da massa de cada pão ou de biscoito (se parecem com grandes biscoitos de polvilho, ou com mantas retangulares ou redondas), e tudo é “colado” no forno caseiro, cujo fundo está cheio de brasas vivas, um forno que não é mais que um buraco aberto no chão, em cuja parede bem aquecida se “gruda” cada uma daquelas belezas redondas que chamamos de pão sírio, pão árabe, etc, técnicas que vão passando de geração em geração, de um povo para outro, e assim é que as técnicas antigas ainda resistem aqui e acolá, embora não haja porque dispensar fogões modernos, fornos, micro-ondas, etc.

     Em verdade vos digo que a sede e a fome fazem o Homem procurar, e descobrir. Em data recente, li o livro PÃO – ARTE e CIÊNCIA, de Sandra Canella-Rawls, onde recolhi dicas, sem falar no prazer de ter em mente que o pão é sagrado, como o amor – como está na canção Amor de índio, do Beto Guedes e Ronaldo Bastos: “Sim, todo amor é sagrado / e o fruto do trabalho é mais que sagrado, meu amor…”

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Foto, feitura das roscas e texto: Darlan M Cunha

Visite o MUSEU DO PÃO (Ilópolis, RS, Brasil)

Visite o MUSEU do PÃO (Seia, Portugal)

Conto(s) com o diabo dentro

https://scribatus.files.wordpress.com/2009/05/diogenes2.jpg?w=304&h=474Kackar Jourrney Sept 2007 087. Foto by Breno Bastos

Filósofo grego Diógenes, o Cínico (413-323 a.C.)

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       Desde garoto eu leio o que os gregos antigos escreveram, e o que sobre eles foi escrito, sobre a Grécia clássica. Li dezenas de livros a respeito, e nada e ninguém me atraiu mais, e ainda atrai, do que a figura do filósofo Diógenes, o Cínico. Ora, só esta alcunha vale uma vida toda. Pense nisto: em ser chamado de Cínico, reverenciado como sendo “o que chuta o balde”, que vive incólume entre as forças centrípeta e centrífuga, palitando os dentes com o vento, junto com seu amigo cão, um pulguento decerto de fácil convívio, de ser capaz de ir às profundezas da filosofia cínica expressada pelo seu amigo, e não dono ou patrão Diógenes de Sínope (Sínope, hoje, é uma cidade turca).

       Conta-se que Alexandre Magno, que derrotara os gregos, ouviu falar do temido e amado cínico, o qual vivia perto do porto de Atenas, dentro de um grande barril. Foi até lá, com seus mil soldados vezes mil, e a ele ofereceu todas as benesses imagináveis, mas o solitário lhe pediu que ele e o cavalo não lhe tapassem o sol. Só restou ao maior conquistador de toda a História retirar-se, compreendendo a grandeza do pedido: “Estou tomando sol, e ele você não me pode dar.”

     Diógenes foi capturado e vendido como escravo a um nobre, que o incumbiu de educar seus filhos. Mas ele ficou mesmo famoso até hoje pelo que se conta de que ele andava pelas ruas de Atenas, em pleno dia, carregando uma lamparina acesa, à procura de um homem verdadeiramente livre, não um a mais no rebanho (lembrei-me da música do Gilberto Gil e Dominguinhos, a qual eu toco e canto, música esta escrita cerca de dois mil e trezentos anos depois de Diógenes, embora sem nenhum conotação consciente quanto a isso, no que toca a essa parte de se ser parte do “rebanho”, quando foi escrita: Lamento sertanejo).

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OBS.: Conto(s) com o diabo dentro é um dos possíveis títulos para um dos meus livros, já pronto.

Imagens: 1. John William Waterhouse. 2. Breno Bastos

Crônica: Darlan M Cunha, um cínico

da Rota da Seda aos drones

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     Um ditado popular, repetido por minha mãe, nos diz: enquanto descansa, carrega pedra, sendo que ela própria executa este preceito, e de tal forma que eu fico cansado só de vê-la trabalhar. Assim é com certa gente, não muita; mas cada qual tem seu esquema, sua química, carrega consigo sua vontade consciente para agir, ou não.

     Uma simples carroça pode evocar numa pessoa mais atenta milhares de anos de história, que ali estão argumentos irrespondíveis, a necessidade, a invenção da roda, a doma dos animais de tração, de forma que ainda hoje, nesse tempo no qual qualquer um tem um drone em casa, para bisbilhotar a vida alheia, e qualquer país tem, para sondar o campo inimigo, a carroça resiste, não somente no nosso imaginário, mas de modo real.

 

Foto e texto: Darlan M Cunha

pequena história das mãos

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     Se as mãos se estendem, lassas e sem imbróglio nenhum, nem sempre se mostram a gosto ou capazes de serem entendidas por quem as vê assim com a calma em suas palmas, que é mesmo assim a sina de se viver entre iguais, entre humanos demasiado humanos. As mãos, tal como nós as conhecemos e usamos, demoraram mais tempo até terem a mesma utilidade prática como, por exemplo, a dos olhos que evoluíram para se protegerem, para detectar oportunidades, praticar surpresas e maldades. Sim, o olhar mudou de foco muitas vezes, aprimorando-se, pois é preciso estar atento e forte.

     Depois que descemos das árvores, isso já tem alguns milhares de anos, nossas mãos começaram a se desenvolver num ritmo diferente, os toques foram aprimorando-se, aprendemos a segurar com mais precisão os objetos ou as coisas – uma pedra, uma tora, ou beber água com o bojo das mãos, como se as mãos juntas fossem um vaso ou copo.

     As mãos, não só os pés e a vontade férrea, fizeram o mundo. Há quem, como eu, gostaria de ter escrito a história monumental da Rota da Seda, ou a da Muralha da China. Ir à lua já perdeu a graça.

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Texto e foto: Darlan M Cunha

a rota da seda

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Certas viagens requerem um preparo mais apurado, quase que um ritual, quebrando de tal forma a monotonia, tomam conta de práticamente todos os momentos do viajante, nos dias que as antecedem. Viajar está no mais fundo de nós, e não há como ficar indiferente a uma viagem – seja ela a negócio, seja para enterrar alguém, seja para receber um prêmio, seja uma fuga do meio social ou familiar.

Falando francamente, a viagem que eu gostaria de ter feito é aquela que foi capaz de atrair milhares de mercadores, artífices, saltimbancos, embaixadores, enfim, gente de toda cepa enfiando-se no seu traçado, sob climas e subclimas pavorosos por milhares de quilômetros, atravessando longitudes e latitudes, sempre a mando da sobrevivência, da conquista, misturando idiomas e costumes, sempre sob a luz de algum negócio, ou seja, claro está que falo da rota da seda.

Foto e texto: Darlan M Cunha