numeral

cotidiano mundial // world daily life

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@1.

As sociedades em transe, a Terra em transe, vales e montanhas tristes porque fracos em seu potencial de alimento e de beleza, e nos rios e nos mares os poucos peixes foram vencidos no jogo desleal contra os monômeros & os polímeros, ou seja, o plástico nosso de todo dia – novo salmo, nova ladainha, a morte por asfixia.

@2.

Ontem, num mercado aqui do bairro, ouvi que “tudo vai dar certo.”, o que me deixou encantado por tal leveza na fala, leveza e certeza inabalável. Não mudei meu conceito a respeito disso ou daquilo, mas ainda agora, horas depois, lembro-me do sal e do açúcar contidos numa concepção alheia de bem quanto à vida, uma opinião bem clara e resoluta – coisa rara. Sim, tudo vai dar certo.

@3.

No dia da criança, anteontem, uma turma de alegres impenitentes aqui da região, saímos com cartazes, sem alarde, sem intrigas, brigas, isso é para desqualificados, e a bandeira foi o cartaz onde se lia NÃO SEJA CRIANÇA, É PERIGOSO, PODE SER PREJUDICIAL À SAÚDE. Num mundo cheio de iscas venenosas, virtuais e (a)normais, todo cuidado é pouco.

Alguém perguntou se neste ritmo o milhão de mortos de cada um destes gigantes, via pandemia, chegará: do Brasil, da China, da índia e dos EUA. Uma pergunta terrível, nua e crua, sem contemplação, porque o Pavor Geral não dorme.

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Darlan M Cunha: foto e texto

Ó, mamma mia!

roscas feitas em casa // home made
sorria ou chore // smile or cry

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E PORQUE HOJE É DOMINGO

E porque hoje é domingo, muitas pessoas ficarão em casa, afáveis, cansadas de mil correrias, eis os chinelos, a bermuda e a camiseta, mas onde estão os sorrisos e as piadas ? Nada de cílios postiços, nem de relógio, e muito menos de internet – basta de inutilidades ! isso porque hoje é o dia depois do dia de sábado, e quem vive sozinho, sozinha não fique. E porque é domingo, uma esticadinha na praça aqui perto, bom exemplo. Sol é bom, e as lagartixas gostam. De volta, um tropeção, e um pequeno palavrão, para desafogar. Lavar a roupa e ajeitar os móveis. Música com poucos decibéis, música é para se ouvir e viajar dentro dela, não seja arma para irritar a vizinhança, ora. E porque é domingo – feijão, arroz, salada e macarronada, ou seja, o que houver para comer. Certo ? Felizes iguais às borboletas, os sapos, as rãs, os bichos-preguiça, as bibas dependuradas no teto, de cabeça para baixo, nós todos felizes, iguais aos cofres do governo, cheios do suor do Povão. Mas está tudo bem, porque hoje é domingo, hoje é domingo.

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AND BECAUSE TODAY IS SUNDAY

And because today is Sunday, many people will stay at home, affables, tired of running, here are the slippers, the shorts and the T-shirt, but where are the smiles and the jokes ? No false eyelashes, no watch, and even less internet – enough with the uselessness! because today is the day after Saturday. and those who live alone, don’t be alone, and because it is Sunday, a little stretch in the square nearby, a good example. Sun is good, and lizards like it. On the way back, a stumble, and a little swearing, to relieve the pressure. Doing the laundry and tidying up the furniture. Music with low decibels, music is for listening to and traveling in, not for annoying the neighborhood. And because it is Sunday – beans, rice, salad and noodles, whatever you have to eat. Right ? Happy as butterflies, the frogs, the toads, the sloths, the bibies hanging from the ceiling, upside down, we are all happy, just like the government coffers, filled with the sweat of the People. But that’s okay, because today is Sunday,today is Sunday.

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Darlan M Cunha: foto e texto

sábado

porta

Pedra livre / pedra que do barranco se solta / e ao solo volta e rola, e entre outras / se mete, porque é só mesmo entre os seus / que se pode ter consciência plena de si, / enquanto basalto ou diamante, / mica ou paralelepípedo. Assim as formas de ser: diferentes, mas unidas por algo sutil, / sumindo no cotidiano avaro, no labirinto, no funil da garganta.

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O sábado promete não fazer nada mais do que os homens e as mulheres não façam, ele é mesmo um dia especialmente eclético, e já se levanta com boas perspectivas, pois esta é de fato a imagem que os humanos fazemos dele, pelo menos em certas culturas, e porque hoje é sábado – como dizia Vinícius de Moraes – há-se que abri-lo com cuidados. Dizem que Deus descansou um dia, que talvez tenha sido o sábado, com suas saturnais, bacanais, procissões de todo tipo, risos e aleivosias, dia de uma visita que se estava devendo, dia de se cortar o cabelo e aparar as unhas e certas arestas pessoais, dia de amizade e ternura, porque o sábado é diferente, dia de se ouvir Elomar e Black Sabbath, de se rever algum provérbio e de contar casos para as crianças, sim, amanhã outro dia será, e assim, nada será como antes, como hoje: sábado.

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Darlan M Cunha: texto e foto

é tanto nada

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@1.

De vez em quando, levava a pequena câmera nas cinco corridas semanais pelo bairro Buritis e região. Um dia (há décadas que sempre corro no final da madrugada, início da manhã), encontrei essa beleza de bom humor.

@2.

KAFKA revisitado: Prezada(o) assinante, sugerimos estes ítens para avaliação e consequente aceitação dos novos cargos, não necessariamente encargos. Clique à esquerda, no alto, e quando for o caso indicaremos clicar à direita, e não esquecer nenhum dado obrigatório, pois a Empresa é rigorosa em sua postura de proteger os associados ou condôminos ou sócios e convivas, por isso mesmo podemos dizer que somos divisores de águas. Nossa Empresa tem alto conceito no ramo, e assim, clique em CONTINUAR, repita os dados solicitados, aponha a assinatura digital, não se esquecer de atender à exigência de que Você não é um ROBÔ, clique novamente na palavra FINALIZAR, desta vez em vermelho, dê OK. Lembra que a nossa Empresa não entra em contato através de telefonemas, de convites para pescarias, motéis, churrascadas, e sim que todos os meses apareça em nossos arquivos a contribuição devida, e assim movimentaremos com rigor os valores sempre mutantes na conta de V. S.ª

@3.

O mundo vaia, apupos nos bolsos, pedras na boca, estiletes são as unhas, ponto G em discussão – sempre – o mundo não cheira, só exala descontentamento, exara, sim, exara, depois de cada cada refeição de nem sempre, o mundo arrota e bate na pança – não a pança do dileto amigo Sancho Panza, não – e volta para o batente de uma porta sempre fechada sempre de cara fechada o mundo e suas pulgas e carrapatos, seus carrapichos e capetas, bem se disse que o inferno é os outros (J. P. Sartre), e lá vão os zumbis, todos felizes homens ocos, the hollow men (T. S. Eliot), e a epidemia de desconfiança vai de popa no vento, atalhos para fuga não há, os muros estão cheios de fuzilados, os sobreviventes fingindo-se felizes negociantes de peles, sim, o inferno é os outros, são os outros. Mamma mia!

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Darlan M Cunha: foto e texto

Mãe, teus pés são o meu rumo

MÃE

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CARTA À MÃE nº 169

Dona MARIA,

a Senhora está dormindo, cá estou eu bebendo sins e nãos, bebendo café, rindo de mim e mais ainda do mundo, este idiota com e contra o qual se tem de lidar 25 horas por dia, mas deus – em quem não posso crer, porque sou o diabo em pessoa -, mas “deus proverá”, como a Senhora sempre diz, com essa bondade e esta alegria e esta energia aos 89 anos, que nem o poderoso chefão do céu tem, a Senhora com estes ene predicados que encantam a todos, e a quem a molecada não larga por nada.

Mãe, meu sossego, meu passatempo único (o qual muito me basta)

não se preocupe, porque a máquina de lavar roupas, que a rapaziada levou para uma troca de borracha e acho que de engrenagem, no dia de ontem, estará pronta e será entregue amanhã – sem falta, pois dei uma dura, de leve, caramba, R$490,00 o conserto, Mamma Mia ! Tive de pedir emprestado no boteco do Fuinha, pedi também para as minhas duas namoradas (até quando ? se descobrirem, estarei frito, terei de me mudar de barraco e de aldeia), um pouco também dos empréstimos veio do padre Abílio, e outro tanto veio do Gerardo Doido, bom rapaz. Mãe é Mãe.

Mãe, meu cordão de diamantes variados, minha catapulta para a felicidade

Ah, outra coisa: o dia de ontem foi de amargar, e olha que eu sempre tenho a segunda-feira como sendo, disparado, o melhor dia da semana, por ser o dia em que a galera ou o povão vai ralar, depois da macarronada e do frango e do fútilbol e do namoro dominicais, pois não há Plano B. Escute essas: A operadora de tv e/ou o banco aprontaram uma para cima de mim, que estava atrasado uns doze dias no plano de televisão de fibra ótica, sem saber, porque sempre foi débito automático, e este seu anjinho sem saber DE NADA, em tempo da Lei bater as botas sujas aqui na porta do humilde mas asseado barraco, e ainda mais nesses tempos de patologia letal, que colocou o mundo inteiro de joelhos, quando todos e todas se achavam, sim, os bonitões e gostosonas e poderosos e não se mais o quê. Menos uns poucos como eu e a Senhora, e muitas outras pessoas de bom tino. Eu tive de ir ao banco, com mil papéis e pedidos humildes, mas tive de resolver a parada. Além disso, fui procurar o rapaz para ir na casa da Senhora para ele trocar uma chave da porta da sala, a qual simplesmente resolvera quebrar-se e deixar um cotoco lá dentro, e como a Senhora tinha uma de reserva, nem foi preciso fazer outra, e não ficou nem dez minutos, mas lá se foram R$ 40,00 pilas, pilas, como se diz lá no Rio Grande do Sul, ou caraminguás, como se costuma dizer lá pras bandas do Nordeste, etc. Penso em me mudar para os anéis de Saturno, mas só se a Senhora também for comigo, pois os preços estão nas nuvens, mas Saturno fica muito acima delas. Mãe é Mãe.

Mãinha, colibri da minha existência

Não há de ser nada, não sou reclamão, a não ser quando é preciso, e isso é todo dia. Hoje, prepararei para a Senhora um delicioso chá de hortelã com legítimo mel de abelhas de Santa Bárbara, MG, onde moramos já faz um século (o tempo não espera). Sei que a Senhora está embalada em desenhar e bordar tecidos, linduras assim tão lindas quanto o arco-íris, e sei que a Senhora está um tanto triste com a volta da neta Fá com o marido e o casal de filhinhos, depois de umas semanas no Brasil, voltaram para os EUA, com muitos presentes da Vovó. Almoçaremos boa macarronada, ou chuchu com ovos, ou cará com carne moída, ou então o trio do qual a Senhora gosta: quiabo com moranga e carne de panela. Eu vou preparar, não quero ver a minha Mãe no lufa-lufa e eu bebendo café e cerveja. Toma juízo, zebedeu filisteu.

MÃE MARIA, minha brisa matinal, meu doce de batata doce com coco ralado e canela em pau

vou me despedir, sim, este seu filho meio lerdo e desmiolado, quase analfabeto, mas decerto um bom garoto já vai se despedir. Mãe é Mãe.

Dona MARIA JOSÉ, prontinha para a Abertura dos JOGOS OLÍMPICOS de TÓQUIO, entusiasmada como sempre, serelepe aos 89 anos.

DARLAN

simples

repolho & cia

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Recebeu algo raro, já mesmo fora de moda como um fax, sim, de fato, recebeu um telegrama o qual lhe dava conta do falecimento… dele mesmo, sim. Espantadíssimo, suando em bicas, beliscou as coxas e os braços, também o sexo, tudo lhe pareceu vivo, pulsante, beliscou os mamilos, puxou os cabelos e deu uma canelada proposital num pé da mesa de refeições – isso dói -, gritou em alto e bom som uns palavrões pavorosos, ameaças de morte gritou, pois iria descobrir quem fora o ou a autora de tal descalabro, pois estava se sentindo vivo, babando de ira e pavor. Cabeças iriam rolar.

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Darlan M Cunha: foto e texto