juventude(s)

Artista: Maria José M Cunha (89), incansável, para a bisneta Alícia (6).

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O alarme soou o alarme do cansaço e das impossibilidades, já soaram os cravos e os entraves da ausência já vêm todos aí dando o grito porque é o saldo a vir das indiferenças, sim, é tempo das comorbidades quererem entrar é tempo do desalento no quarto ou nos três metros da varanda eis os pés a tez os punhos puídos e as pálpebras cansadas de insônia os cílios com poucos arco-íris em sua trajetória eis a boca algo assim cansada de berros de guerras até no amor, e assim, quando o alarme soar, não sejas tu igual a este ou esta aí acima na descrição tão triste e desanimadora. Botem para quebrar, vovó e vovô, chutando o balde e as canelas desta showciedade maluca e, por isso mesmo, boa, pois é diversificada. Vamos que vamos, ao diabo com a  velhice, com as cãs, com a bengala, com os chinelos e com os óculos, mas não com os ósculos ou beijos. Vamos, vovó e vovô, a balada está esperando, hoje recomeça a vossa juventude.

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Darlan M Cunha: foto e texto

convite

Sabará, MG – BRASIL

Algum dia irei a Sabarábuçu, Raposos, Rio Acima, e ao Rio das Velhas com muitas histórias de ouro, e também voltarei a São Sebastião das Águas Claras, que todo mundo conhece como Cachoeira dos Macacos, pequenina e dócil ao tato e ao olhar, tudo aqui bem pertinho de BH, mas longe da monstrópole, sim, é claro que fui até lá várias vezes, mas sempre me esqueço como estes lugares são, vivem, aí então eu invento de ir conhecê-los, e lá vamos nós aos queijos, chouriços, couves, linguiças, jabuticabas, torresminhos, taioba, goiabada, ao angu, ao ora pro nobis e àquela cachacinha. Ó, melhor do que isso é só beijo de Mãe, e umas bicotas das moças, e muita música, porque em todos estes lugares há músicos a rodo, é difícil uma família onde não haja alguém músico, ainda que amador, mas de muito boa técnica – moças e rapazes tocando com vovôs e vovós, crianças bem ali no seu dó maior na flauta, etc. Um espanto é o país, esse mesmo de Brasília – aliás, não o mesmo.

Darlan M Cunha: foto e texto

repouso

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Eis a cama cotidiária, o rosto da sobrevivência, parte da anatomia do Sistema, solvente, soluto e solução digna, Ecce homo // Eis o Homem na sua masmorra, o carnaval sadio de todo santo dia, de todo dia pagão, via de volta, lépido ou febril, eis o leite das crianças, a história da beleza & outras estórias, é com essa que eu vou andar até cair no chão, é com essa que eu vou desabafar com a minha mão, sim, parodiando a bela canção, eis o inigualável senso de humor do povo brasileiro, qualidade que eu tenho na mais alta estima, pois é de fato nossa marca registrada e intransferível, eis o pão à mesa, dez entre dez brasileiros preferem feijão, é o que nos diz outra canção.

Eis a cama, sua madeira, seus ferros e o elástico de suas rodas sobre as quais as viagens cotidiávidas são feitas, eis os dentes cariados, a cabeça em dia com o fósforo apto a incêndio, se necessário for. O amor é lindo, o Povo diz.

Consta que nos tempos antigos, antigos assim de nem precisar voltarmos à Idade Média, ao Renascimento, ao tempo Barroco, ou durante a Grande Peste que arrasou Londres e a Europa,1665/66, Peste Bubônica, os mortos eram carregados aos milhares nas mesmas carroças das feiras, chiqueiros, construções. Pouco tem mudado, parece, muito embora a bela e necessária Techno. Eis O COMA PLANETÁRIO nas ruas.

Não, nada de desrespeito, aqui não, violão. Vamos que vamos. Eis a carroça CACILDINHA levando sempre sacas de verduras e legumes, sacos de cimento ou de areia, tijolos, ferros, aparelhos elétricos já vencidos em seu tempo de serviço, e no quintal está o burrinho ARGÍLIO II, bem deitado debaixo da mangueira, está de folga, mastigou seu capim e sua ração, está arraçoado, e agora está filosofando, arguto e satírico que ele é, damo-nos muito bem, melhor do que muito casal, embora o amor seja lindo… hehe, rir é humano, mas é das hienas também.

Nesse tipo de trabalho a pessoa não pode nem pensar em gripe, sim, uma humilde gripe com cefaleia, dores musculares, da apatia, perda de apetite e até de sono, e não uma pneumonia, uma febre terçã ou quartã, ou uma tuberculose, não, isso porque é Você de um lado (para a sua família), e deus e o diabo do outro lado, ambos contra Você – mais Aquele do que Este -, é algo assim como no belo jogo de tênis: o Diabo de um lado, e Satanás do outro.

Darlan M Cunha: foto e texto

muscular

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@1.

Manhã de domingo encontrei-o assim mesmo: pensando na vida, sossegado, dei um tempo na corrida e fiz a foto, rápido, porque fotos assim têm que ser feitas num átimo, porque esse tipo de modelo não espera, não faz pose, continua na dele, indiferente ao “mundo vasto mundo”, como está no poema do Drummond.

@2.

Uma vez no solo, o grão ou semente sabe o que fazer, mas é preciso água sol vento. O ser humano é o mamífero cuja chegada à idade adulta é a mais demorada, a vida lhe é curta, embora já ninguém mais durma, as madrugadas sejam pontilhadas de luzes nas casas e apartamentos.

@3.

Quando dizem que as mulheres grávidas têm desejos estranhos quanto a alimentos, pode-se tentar entender tal dinâmica hormonal, digamos assim, da fisiologia e/ou da psicologia. Bom, do outro lado do balcão, cá estou, em casa, uma hora da madrugada, e uma vontade repentina, que danada, de comer uma boa feijoada. Mamma mia ! Bom… pensando bem, sacrifício exigido, posso pensar num purê de batatas ou de cenouras amarelas, também chamadas de ‘baroas’, até porque o Mundo está cheio de pesadelos, portanto, vamos de leveza.

Darlan M Cunha: foto e texto

invasão

Zé Lu Iº

O dileto amigo aí acima, Zé Lu 1º, amado pela molecada do bairro, tem o bom hábito da prosa, de conversar, assim como eu, que tenho a sua amizade, e por isso ficamos de bons papos e boas gargalhadas (qualquer semelhança com o famoso livrinho PLATERO Y YO // PLATERO E EU, do espanhol prêmio Nobel de Literatura, Juan Ramon Jiménez, é pura casualidade, e também um ponto honroso, sendo que Platero é um burrinho famoso, sabedor das coisas). Acontece que o nosso amigo sabe ler e escrever, mas não lê nada humano, pois o nosso papo é alto e profundo demais para os tais Homo sapiens sapiens, por isso não prestamos ATENÇÃO à PLACA na propriedade a qual de vez em quando a gente passa o dia, mastigando palavras, digerindo conceitos e capim meloso, por isso, que o proprietário ou a proprietária nos perdoe total, porque somos assim mesmo, contestadores e, bons mineiros que somos, somos irremediavelmente conspiradores. Marca registrada do nosso psiquismo.

Darlan M Cunha: foto e texto

Ó não, Ó sim

LANDARO BUDA SENTADO, ESPERANDO MAMADEIRA.

ENSINAMENTOS, SEM PROSOPOPEIA, DO GRANDE MESTRE ATEMPORAL – SUA VISÃO ANCHA DA EXISTÊNCIA, SUA PARCIMÔNIA AO PERCEBER ISSO OU AQUILO (ATENÇÃO: O GRANDE MESTRE BUDA NÃO JULGA NINGUÉM. APELA AO BOM SENSO GERAL).

  1. Não te livres assim de qualquer jeito de uma casca de banana.
  2. Vais ter com o oposto natural ? Estarás no caminho frutífero da Dúvida e do Conhecimento, dueto construtivo.
  3. Vais ter com homem ? Idem.
  4. Estás com dívida na Mercearia ? Não te avexes. Uma volta no quarteirão, até saldares o teu incômodo compromisso.
  5. Fazer como disse o poeta, acho que um tal William: “Não durmas, o sono é o prelúdio da morte.”
  6. Ser prudente. Não nadar em águas turvas, convulsas, redemoinhos (“O Diabo no meio do redemoinho”, em J.G.Rosa).
  7. Ser humilde, sem exagero, nada de subserviência, bata o pé, dê murro na mesa. Exija, mas só com 101% de razão.
  8. “Viajar é mais”, dizem Toninho Horta e Fernando Brant, bons rapazes.
  9. Não creia, descreia. Sê incréu, até que tenhas absoluta certeza. Não olhar para o céu, ele engana, dá miopia, cegueira.
  10. Não desmerecer o vizinho, tua mulher, tua velha bicicleta, teus pensamentos malvados, tuas 217 frustrações.
  11. Vá. Ir é o melhor, o único remédio. Leva contigo o hábito da meditação, de ver antes de acontecer. Sê sábio, sábia.

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Darlan M Cunha: texto. Elviro Ferreira Cunha (Pai, em memória): foto