comportamento(s)

o pão nosso de nem sempre

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@1

Vamos zelar pela fresca sobre a feira geral: verduras legumes carnes queijos quitutes e tachos, imagine uma peixada ou feijoada ou sopa de legumes nestas panelas de pedra-sabão, doces nos tachos de cobre, o mercado abre às seis, vamos descarregar a alegria, esvaziar caminhões e arrumar as bancas, porque o povão, os bárbaros vêm aí.

@2

Assisti na RAI Italia uma longa e delicada entrevista com Pelé, algo adoentado, o mestre, sempre solícito, concedeu uma longa entrevista à televisão italiana, ele respondendo às perguntas a partir da casa dele, com tradução simultânea do italiano para ele. Vieram à tona a Suécia, os mais de 1200 gols documentados, foi eleito por milhares de jornalistas do mundo todo como sendo O Atleta do Século 20, o único jogador com 3 Copas do Mundo, sendo que a primeira delas, um feito nunca igualado, foi aos 17 anos, e por aí foi a conversa bem humorada com os italianos mostrando o grande mestre sendo recebido por papas, rainhas, reis, crianças, mostrou-o recebendo uma dose da anti-covid 19, e então eis a foto incrível com a Rainha Elizabeth II, a qual fez questão de ir ao vestiário do Santos no dia do gol número 1000: Pelé estava todo ensaboado na foto magistral, modesto e encabulado, mas sorridente pelo grande feito, foi cumprimentado pela Rainha da Inglaterra, imagens mostrando-o com diplomatas, atrizes e atores, presidentes de várias nações, ele com outros grandes atletas do mundo, enfim, uma lenda verdadeira de ossos e carne. Muito embora esteja adoentado, retirado da vida tão atribulada, mantém o carisma, o respeito para com o Outro, o que sempre o caracterizou. Vi e ouvi essa entrevista de grande gabarito ontem à noite, por acaso, enquanto rodava pelos poucos canais que assisto.

@3

Amanhã, terei um compromisso inarredável: minha Mãe Maria José completará 89 anos. Um sonho, algo que extrapola qualquer nível de emoção. Lúcida, anda pra lá e pra cá, faz tricô e crochê, faz doces e biscoitos para os netos netas bisnetas bisnetos e vizinhos, não sossega. Tô rindo à toa. Bobão e babão é isso.

Darlan M Cunha

ELZA SOARES canta GONZAGUINHA (VÍDEO OFICIAL): Comportamento geral: https://www.youtube.com/watch?v=Ttn6V_r3D9Y

dominical

Eu uso tênis – antigamente chamado de quedes.

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CLUBE da ESQUINA nº 3 – ou Venha vestir a roupa de algodão grosso dos mineiros, como fizeram D. Pedro II e a Imperatriz Tereza Cristina.

De vez em quando a cabeça dói, algum dente late, um dos sapatos põe a língua para fora em plena rua, e aí fica complicado, meu amigo, voltarás mancando para casa, minha amiga do bico fino (o sapato), sempre há pequenas surpresas cotidianas, cotidiárias, cotidiácidas, imprevistos que se muitas vezes são desagradáveis e até desesperadores, outras vezes, são até engraçados, se analisados tempos depois. Comigo aconteceu, na bela e pequena e próxima Rio Acima, de estar de terno e gravata, e ponha elegância nisso, sapatos de couro cru, um dos quais me fez o solene favor de abrir a boca na rua, mas tive tanta sorte naquele domingo, que um passante, caminhoneiro e, nas horas vagas, sapateiro, marceneiro, mestre carpinteiro e sabe lá o diabo o que mais de bom ele tem, notou o meu embaraço (embaraço, em espanhol, é embarazo, significa mulher grávida… afe!), me levou à casa dele, onde, entre risadas e cervejas, fez o conserto, ele nada cobrou, ou seja, de um imprevisto desagradável, numa cidade com história do Brasil (Rio das Velhas = ouro, minérios em geral, a meia hora de Bêagá, o imperador D. Pedro II e a imperatriz Tereza Cristina estiveram lá), ganhei um amigo de fé: José. Coisas da vida, minha nêga, como diz o Paulinho da Viola numa canção. Para terminar, não esquecer que “todo mineiro é conspirador.” É a nossa genética, nosso psiquismo muito bem arraigado.

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Come wear the thick cotton clothes of the miners, as did the Emperor of Brazil, Dom Pedro II and Empress Tereza Cristina.

Once in a while your head hurts, a tooth barks, one of your shoes sticks out its tongue in the middle of the street, and then it gets complicated, my friend, you will go back home with a limp, my friend with the thin beak (the shoe), there are always little everyday surprises, everyday, everyday accidents, unforeseen events that, if they are often unpleasant and even despairing, are sometimes even funny, if analyzed afterwards. It happened to me, in the beautiful and small nearby Rio Acima, that I was wearing a suit and tie, and put elegance into it, raw leather shoes, one of which did me the solemn favor of opening my mouth on the street, but I was so lucky that Sunday, that a passerby, a truck driver and, in his spare time, a shoemaker, joiner, master carpenter and who knows what else good he has, noticed my embarrassment (embarrassment, in Spanish, is embarazo, it means pregnant woman. … afe!), took me to his house, where, between laughs and beers, he did the repair, he charged nothing, that is, from an unpleasant unexpected, in a city with Brazilian history (Rio das Velhas = gold, ores in general, half an hour from Bêagá, Emperor Pedro II and Empress Tereza Cristina were there), I gained a friend of faith: José. Things of life, my nêga, as Paulinho da Viola says. To finish, don’t forget that “every miner is a conspirator.” It is our genetics, our very well ingrained psyche.

Darlan M Cunha

CLUBE da ESQUINA nº2. MILTON e LÔ: https://www.youtube.com/watch?v=-83HCIbrfWU

CLUBE DA ESQUINA nº 1. MILTON (Vídeo no Blog de MOACIR SILVEIRA): https://www.youtube.com/watch?v=YkLjtrJjXEM

tempo não é de rir, 4

As Amigas

Tenho aqui, sobre a bancada onde escrevo, leio e estudo, alguma coisa: uma e outra rara ideia (miolo mole). Sei que pensar fundo e alto, um horizonte de 360º, é o que há de mais alto. Pois é. Pensando nisso, vejo à minha frente o bambuzinho que está há uns trinta anos com a família, de uma beleza incrível, alguns dizem que é renda portuguesa, há de várias espécies, mas para mim é um bambuzinho com espinhos nas hastes, sempre viçoso, está a três palmos do meu rosto, viu bisnetos e bisnetas nascerem, assim como a maioria absoluta das muitas netas e netos de meus pais. Bem teimoso esse cara é, recusa-se a murchar – ao contrário do rumo de atitudes cotidianas que vemos por aí, mundo afora, nesse tempo sem igual. Saiba o que aconteceu em Londres, 1666. Tente imaginar a Peste Bubônica numa época na qual os cadáveres eram levados em carroças diariamente, às centenas, nenhuma tecnologia (só 350 anos depois), superstições aos montes, esgotos pelas ruas, frio, comedores de beterrabas, mulheres tidas como feiticeiras, hereges, o clero e a realeza cuidando de suas bundas gordas, as mulheres principalmente elas jogadas nas fogueiras como sendo as pretensas causadoras do Mal que quase matou a Europa inteira. Pois é, os ratos de quatro patas dando conta dos ratos e ratas de duas patas. Pois é, HOJE, temos isto no quintal, no jardim, no quarto de todo mundo no mundo inteiro. Durma com este barulho. Ou deve-se dizer: durma com este silêncio, caso possa, com tanta desfeita pela vida ?

Fico por aqui, regando meu jardim de dúvidas, algumas se foram, outras nasceram enquanto eu fingia dormir. Preciso de um café, um gole, um rapé, e soprar meu fole.

Bambuzinho

@2.

Para não dizer que não falei de flores, e de doces, posto essa delícia – doce de abacaxi, desfiado – numa foto que uma de minhas irmãs, dos EUA, enviou para mim. Ela mesma preparou, e me enviou essa falta de respeito, essa loucura.

Doce de abacaxi, do tipo “puxa-puxa”. (By ICC)

Darlan M Cunha

Geraldo Vandré. Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores. https://www.youtube.com/watch?v=TKnbL5mMztw

colheita

A pauta dos dias (passeio do Mercado Central de BH, fev 2021)

E porque nenhum dia tem irmão gêmeo, é preciso ir ao novo dia como despreparado, mas não total, porque tens o cabedal dos dias anteriores. Cada dia tem seus próprios acordes em sol ou em ré maior ou menor, vá pegar o sol com a mão, a lua em seu compasso, todo dia é dia de viver, ou ficar dentro do pijama.

Mercado Central de BH

Mercado Central de BELO HORIZONTE – MG. Fundado em 7 de setembro de 1929, tem, hoje, 400 lojas, 2.850 funcionários. Centro de BÊAGÁ). Ao ser fundado, BH tinha 31 anos e cerca de 45 mil habitantes. Hoje, aos 123 anos, tem 3 milhões de habitantes.

Vocês querem bacalhau ?, Chacrinha perguntava, todos os sábados no seu famoso e maluco programa sempre em torno da música. Sim, Chacrinha, queremos bacalhau, pequi, jiló, melancia, umbu, urucum, queijo, sorvete de manga, café, o peixe de nome namorado; queremos quiabo e moranga, goiabada cascão, tacho de cobre e panela de pedra, queijo e doce quebra-queixo ou “puxa”, requeijão, espinafre, alho-poró, bodoque e gaiola de taquara, cheiro verde, suã de boi e suã de porco, cestaria, queremos a difícil, rara iguaria de nome Sossego.

Especiarias

TOLICES de se inventar DIA DISSO e/ou DAQUILO: Dia da MULHER é todo dia.

Darlan M Cunha

doce de requeijão & outras frequências

É um doce inigualável, poucos conhecem o que ele faz com os labirintos das sinapses cerebrais, com o palato, a língua, o estômago e por fim com o humor das vítimas…

@1.

Um bom requeijão é difícil de ser encontrado, mas ainda há, e isso é fundamental, e então nada de requeijão esfarinhento, ressecado, este é um ponto base. Algo do peso: um quilo. Então, ralar o requeijão num ralo fino, misturando com duas colheres de farinha de trigo (sem miséria nas colheradas, ora) e um ovo (clara e gema), ir amassando como se fosse massa de biscoito, para dar certa liga, sem untar as mãos (que o óleo é do próprio requeijão). Faça as bolinhas, e numa panela forte e larga, vá preparando a calda de açúcar com cravos e, caso queiras, um pedaço de pau de canela, e a partir daí colocar cuidadosamente as bolinhas na calda bem quente. Quando no ponto, deixe-a esfriar, pode-se inclusive colocar na geladeira. Este é um doce que é ou era comum no norte de Minas Gerais – Vale do Jequitinhonha. Este foi preparado aqui em casa, em BH. Criminosamente delicioso, muito cuidado com a dependência, quem avisa amigo é. Minhas avós, já falecidas, e minha mãe, toda serelepe aos quase 89, e eu, um aprendiz relapso, garantimos a tua escravidão a esse doce.

@2.

O presidente da República está brincando com fogo, ele, que serviu no Exército, entende de outro tipo de fogo, se é que. Seu fim político não será nada bom para ele, o Brasil não sentirá nenhuma falta de tanto despreparo, de tanto analfabetismo social, analfabetismo no que tange a se ter uma visão sociológica abrangente (sim, de fato, é para poucos). O país, em que pese ter muita gente desleixada, não sentirá falta nenhuma.

As notícias: como decifrá-las, traduzi-las, tê-las na conta das próprias mãos ? “É pau, é pedra…” diz a canção Águas de Março.

@3.

UM CONCEITO DO GRANDE BRASILEIRO QUE FOI O ENGENHEIRO E PRESIDENTE DO GRUPO VOTORANTIM, O Dr. ANTÔNIO ERMÍRIO DE MORAES, (1928-2014), DE UMA HONRADEZ À TODA PROVA: “Teoria não é a solução para os problemas sociais do Brasil. O que se precisa fazer é arregaçar as mangas, melhorar a administração das verbas e aplicá-las diretamente onde a questão é urgente.” (Antônio Ermírio de Moraes (1928-2014), engenheiro, filho do também engenheiro e fundador da VOTORANTIM, José Ermírio de Moraes. Antônio Ermírio o sucedeu na direção da Empresa).

@4.

Passagem comprada, resta esperar a madrugada, sem se desesperar dentro dela (são 03:22h), indo à casa sem número, nua de tiques e taques. Isso aqui é muito triste, ficou assim um clima bem macambúzio, ácida a correnteza, nenhum livro na cabeça, nas esquinas das aldeias parece que o que há é a réplica bilimultiplicada da tela O Grito, do norueguês Edvard Munch (1863-1944), quando não a reiterada, sutil e tão profunda solidão nas telas do estadunidense Edward Hopper (1882-1967), bem como no ar de incerteza de Os Ciclistas, do gaúcho Iberê Camargo (1914-1994), e, por fim, a tensão na música Água e Vinho, de Egberto Gismonti e Geraldo Carneiro.

Estrogonofre de frango

@5.

Às vezes, lembro-me dos que se foram, amigos e amigas de fato, e uma lassidão poderosa instala-se por tempo indeterminado, ou mesmo até que eu os expulse a todos e todas, mandando eles e elas às favas, ó, não mais me interrompam o coçar dos dedões dos pés, sim e sim, uma verdadeira amizade – o povão diz isto -, costuma ser mais forte e duradoura do que o famigerado sentimento de amor, sendo que um dos dois, ou ambos, deve(m) carregar o peso e a leveza do tempo de verbo grego (tempo indeterminado), antigas palavras oaristo e aoristo.

@6.

Amanhã, levarei minha Mãe para a segunda dose da anti COVID-19. Desejo que todas as Mães tenham este real conforto, este alívio, essa boa prescrição rumo ao sossego delas e deles que são o Esteio familiar: vovós e vovôs.

bairro Buritis, BELO HORIZONTE, MG

Darlan M Cunha

Março: lei marcial ou (nº 2)

de março a março

@1.

Onde estão as unidades, se o que se sente no mundo são as individualidades ? Se morri ontem e trasanteontem, o que é que eu vim fazer aqui, morto que estou, melhor, algo cansado de escalas, escadas, paus-de-sebo do subir na vida, rasteiras, baganas e bagaços, chumaços sobre as feridas e cortes sem sutura, mas vivo hoje feliz com esta minha sina de não aposentadoria sobre chinelos e notícias ferozes na tela. Sem dúvida, é um espanto e um desaforo que alguém se acabe assim, de joelhos, de traços dados com o Nada, o Nenhum, ou seja, outro indigente social pleno, tendo por interlocutora a solidez de sua solidão, ora, já tinhas visto este filme inúmeras vezes por aí, porque assim caminha a humanidade, a mesma que perdeu unidade, esquecida das lições das moléculas, sempre ali, reunidas em torno do(s) seu(s) objetivo(s) nuclear(es). Bom, outro café. Qualquer dia destes, ainda talvez em março, café com alho e cebola. Tempo de experimentos sempre será, portanto, vivamos tais tropeços e preços.

@2. DOS SOFRIMENTOS NOS BALCÕES OFICIAS, NOS CARTÓRIOS DO DIA-A-DIA, NAS DELEGACIAS DE PROTESTOS, A CIDADÃ e o CIDADÃO DIANTE DA MENTE BUROCRÁTICA.

Configurações de cor, por favor, Cidadão, as configurações de texto precisam ser revistas, pois estão faltando a data de nascimento, a data de ingresso e a data de casamento – caso tenha tido esta ideia infeliz. Ah, o logradouro está correto, sim, o Senhor Cidadão reside no Beco E, 13 – bairro Aleluia, bom lugar. Cavalheiro, agora, por gentileza, assine aqui neste “xizinho”, não sem antes de ler toda a página, preencher também o dia de seu falecimento, caso o Senhor não se lembre da famigerada SENHA, faça uma nova, podendo dispor dos nossos vigorosos aparelhos, isento dessa taxa extra pelo Governo sempre atento às necessidades do Povo (Ah, o distinto Cidadão não tem um, não sabe computador ??? Não se avexe, cuidaremos de tudo). Por fim, é só passar no Caixa, para o devido nobre pagamento, e então Vossa Senhoria estará liberada até o ano que vem nesta mesma data. Grato, Cidadão. Lembranças à esposa, caso seja o caso.

(Vou dar o nome a esse texto aí acima, escrito em três ou quatro minutos, entre mil risos, de forma que eu mal conseguia digitar tanta bobagem risonha ou risível. Pois é, logo depois de escrito nesta manhãzinha, lembrei-me de Todos os Nomes, do José Saramago, e de O Processo, do Franz Kafka – dois malucos, em certo grau, dois colegas. O título desta mínima crônica é Cidadão).

Darlan M Cunha

ZÉ GERALDO. CIDADÃO (Autor: LÚCIO BARBOSA): https://www.youtube.com/watch?v=cCnr8bpe6hI