o imaginário / the imaginary

foco

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Comece a narrativa com o que houver, principalmente, com o que não houver. A partir da cama tu vês boa parte do bairro, ou estás pensando no café da manhã ? aonde irás, após o ritual matinal ? qual será a primeira fila do dia ? deixe essa latinha ainda desligada um pouco mais – esqueça, poupe conversas inúteis, abobrinhas diárias, ou conversas pra boi dormir. Mude o valor das montanhas à frente. Estás bem de saúde ? Talvez já não estejas bem de saúde física ou mental, mas não sabes. Viver é teatro, é comprar e vender, cada qual com a sua pescaria, o mercado está em todo lugar. Meu nome é Nada, eu venho de Ur, cidade primeira da Mesopotâmia, hoje, Iraque, mas passei uns tempos em Sodoma e Gomorra. Comece ou continue a tua narrativa.

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Start the narrative, dear friend, with whatever there is, especially with what there isn’t. From your bed, you see what: part of the neighborhood, or are you thinking about breakfast ? where will you go, after the morning ritual ? what will be the first line of the day ? leave that little can still off a little longer – forget about it, save yourself useless conversations, daily nonsense, conversations for sleeping. Change the value of the mountains ahead. Are you in good health ? Maybe you are not in good physical or mental health, but you don’t know it. Living is theater, it’s buying and selling, each one with his own fishery, the market is everywhere. My name is Nada, I come from Ur, the first city in Mesopotamia, today, Iraq, but I spent some time in Sodom and Gomorrah. Start or continue your narrative.

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Darlan M Cunha: foto e texto

onírico 2

Pés não são asas

O paciente alegou inquietação a respeito de um sonho recorrente: os pés sempre parados, descalços ou calçados, sujos ou limpos, femininos ou masculinos, às vezes, parece-lhe que a mesma criatura tem um pé feminino, e o outro é masculino – de modo que o imaginário voa até dar com algum obstáculo enevoado, duro, sem se mostrar, e o sonho ou pesadelo acaba em suor, ânsia de ir-se à rua na madrugada, nada de clonazepam ou de familiares deste, prefere vodka com água de coco, sentar-se no sofá, só o silêncio provedor, silêncio amigo, e nenhuma pergunta, até porque há tantas que nenhuma tem primazia. Achava que sonhar, tendo os pés num mesmo lugar, significava o chamado do azar, se não da morte à porta (o óbvio costuma ser difícil, anula a Razão), é preciso um par de asas, e acrescentou que um trecho aparece no sono, no mundo do deus Hipnos: Enquanto a chama arder...

Darlan M Cunha

Beto Guedes & Djavan. Amor de Índio. : https://www.youtube.com/watch?v=Fe_nLBD9Hh4

imaginário

Numa pesquisa há poucos anos, o MC de BH foi eleito pela população como o lugar nº 1, superando Pampulha, Parque das Mangabeiras, Mineirão // Mineirinho, Palácio das Artes, Lagoa do Nado, Zoo, Praça do Papa, Museu de Mineralogia, Praça da Liberdade, etc.

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Uma pessoa num mercado causou furor, medo e espanto, pois usava uma legítima cabeça de porco, com nariz de tomada e o rosado dos suínos, como se já pronta para ser assada num rolete, mas eu nem soube se era homem ou mulher, a roupa era unissex, algo assim de blazer. Muita gente indo atrás da aparição, piadas sutis e admirações e invejas algo bem dosadas, mas eis que ao passarem em frente a outro açougue, alguém entrou, pegou uma peixeira, e logo deu cabo da inusitada criatura, e ninguém fez nada dentro daquele silêncio terrível, nunca existido, embora talvez o quisessem esfolar, mas como continuava com uma faca só lâmina na mão, lembrando aqui o poema do João Cabral, ninguém teve a audácia, e assim, como diz a canção da dupla Blanc e Bosco, depressa foi cada um pro seu lado, mas o corpo continuou estendido no chão. Coisas de cidade, de gente, do imaginário.

Darlan M Cunha

A Lei da Princesa Isabel não passou por aqui… ainda não, parece que não.

Pois é…

@1. Apanágios diversos (Não te percas de todo, não me culpes de nada, só de tudo).DMC

Lembra: Todo dia “ele” faz tudo sempre igual (quase todo dia, sem exageros), lembra que todo dia é dia de viver, você deve rezar pela xepa da feira e dizer que tudo tem melhorado, você merece, Marina, serena Carina, você se pintou, Deus e o Diabo na Terra do Sol, Pois é… pra que ?, eu não sei se vou te amar, amar no tempo do cólera ou da cólera, mas, pra não dizer que não falei de flores, ou cicatrizes, lembra que amigo é pra essas coisas, e que viajar é mais, encontrar a rosa e o espinho, lembra que o mundo é um moinho, Hay Gobierno? Soy contra?, repita: amigo é coisa pra se guardar, o deserto é logo ali o encontro marcado, a casa do atrapalhado Geraldo Viramundo, a conta chegou, e outra, o mundo é um moinho, aí estás sentado à beira do caminho, águas de março ou sol de primavera, Imagine, the fool on the hill, o sol não pode viver perto da lua, canto lunar, vou-me embora pra Pasárgada, lá eu sou amigo do rei, melhor dizer (e cumprir): vou-me embora para dentro de mim.

Jacas

@2. Clareira na noite / deserta procissão / nas portas da Arquidiocese (Fernando Brant & Tavinho Moura)*

Finja que estás na roça, que uma jaqueira convida, mangueiras cheirosas convidam, vacas aqui e ali, bois no bem bom do pasto, céu e estrume, biscoito frito, calma, nada de endoidar antes da hora, que ainda tem o bom suplício de se montar num cavalo, cachoeira é logo ali, convida, celular no lixo, per favore, finja que estás na mataria, no matagal, és de fato animal, o sossego ainda existe, mas só no imaginário, pensar cansa, viver dói, mói, mas, fazer o quê, senão viver ?, ponha o bornal e vá catar flores e gabirobas, volte logo para o almoço de pele de porco estalando, angu, couve rasgada nas mãos, frango ensopado nos caldeirões, batata doce, linguiça, cará com mel de abelha, banana da terra assada na chapa, banana dedo de moça, uma cachacinha para se lamber os beiços e leitoa assada, ora pro nobis, viola, todo mundo descalço, pés no chão batido, licor de jaboticada, Ê Minas, não é hora de partir, não, Calma, ninguém está te mandando embora, ora essa, essa aqui é uma terra hospitaleira, mas, lembra: todo mineiro é conspirador, por favor, mais umas lascas desta perdição de leitoa assada com maçã na boca, sim, estás de fato na roça, olhai os delírios do campo.

Darlan M Cunha

TAVINHO MOURA & FERNANDO BRANT: Beco do Mota: https://www.youtube.com/watch?v=b1WmqPQkwHc

Ó não, Ó sim

Zen >>> deitar e rolar // deitar e pensar // deitar e morrer

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Vontade

Parece-me que a flutusituação (palavra inventada, subtítulo do meu livro UMMA) existe ou é passível de existir, isto segundo testemunhas, ou seja, a levitação que aos hindus ou indianos é às vezes creditada

mas há quem só consiga levitar se estiver bem deitado, não numa cama de pregos – nada de ser faquir sem travesseiro – mas sobre uma superfície condizente com uma viagem mental tranquila, um bom esticar de pernas, alguma trama diabólica eivada de versos satânicos e risos, coisas assim numa superfície como esta na foto aí acima.

Terminar o ano flutuando, começar e ficar do mesmo jeito no todo de 2020 – surdo cego mudo. Não, não há como sair de todo do Grande Hospício que o Mundo é.

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Foto e texto: Darlan M Cunha (uma obra de Ai Wei Wei)

LUCIANA ELIZONDO & QUITO GATO. Manhã de carnaval ( LUIZ BONFÁ , autor): https://www.youtube.com/watch?v=c0yRtGCYzG8

Interpretação espetacular de Manhã de Carnaval – clássico mundial.

Ó…

Malvadezas em outubro: Bacalhau… by DMC.

 

    Era uma vez, eu fui no Tororó, acho que fui mas não voltei, quer dizer, voltei um tanto abilolado, e essa distorção psíquica anda comigo desde então, pelo que de quando em vez preciso me espraiar, mudar de rua, esquecer de matar um leão por dia, mas é difícil, porque amo o errado, sou sua síntese, melhor, sou sua gênese, a loucura me incentiva a ir pegar carona em turbina, rabo de foguetes, sem pai e sem mãe, sem namorada com rolinhos na cabeça e cem varizes em cada tornozelo, pois é, queria tanto não sofrer os maus tratos da insônia – a lucidez cruel da insônia, a insônia cruel da lucidez. Agora, mudando de assunto, caros e amadas, todo mundo está convidado à bacalhoada, com riso, música e azeite para aguentarmos o rojão, “que também sem a cachaça, ninguém segura este rojão.”*

     Dizem que deus fez o mundo em seis dias, e foi para a farra no sétimo, pois ninguém é de ferro, como diz o povo – pretenso filho feito à imagem deste mesmo deus. Portanto, vamos aos bons e aos maus exemplos, que só assim se aprende os bêabás do mundo, sim, vamos à bacalhoada no Bar & Restaurante OS LÁBIOS SEDOSOS DO DIABO.

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Veja e ouça: O PIANO QUE CONVERSA. Direção de MARCELO MACHADO. Pianista Benjamim Taubkin e convidadas/os de vários países.

YOUTUBE, CANAL CURTA (56 NET): http://canalcurta.tv.br/filme/?name=o_piano_que_conversa

OBS.: Na parte de cima da tela, à direita, pergunta-se se você é assinante de algum canal a cabo, para poder assistir sem entraves, e não ficar somente nos minutos promocionais. Clique sobre a pergunta…