dia sadio

The King, The Balistic Missil, WindMan

Quenianos e etíopes, com todo o respeito que lhes é devido, que se cuidem.

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     O que aqui se faz aqui se paga, diz o povo, em sua sabedoria, deixando de fora deus e o diabo, que o acerto seja feito aqui, que aqui se pague o faroeste, a lei de Talião, de Salomão, do Rubicão, do Chicão e de quem mais, ou não, pois há tantos erros e crimes não pagos que o melhor é levar em conta que desvios conscientes de conduta tomaram conta dos lares (ainda existem ?), das ruas, das casas públicas.

     O mar é museu de cuspo branco, de jogar suas anáguas na praia, de vomitar um caldo negro muito antigo de enome poder & discórdia, com prazo marcado para acabar. O que se faz aqui, aqui se paga, diz o povo; e se há pragas de gafanhotos e de formigas, se há virologias renovadas nas esquinas, o homem não desanima, que o instinto não permite baixar a guarda, e até mesmo as pedras reagem ao fim, escondendo-se no próprio pó, pelo que ninguém mais dirá que uma pedra no meio do caminho. Sem pedras não há como construir uma educação pela pedra, e nem pela pedrada.

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foto e poema: Darlan M Cunha

https://paliavana4.blogspot.com

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teclado

teclado

     Seja pisando em ovos, nas nuvens, no barro, em cacos de vidro, em brasas nas festas de são joão ou de são pedro ou do diabo, em cédulas falsas ou originais, nas palavras e nos atos da oposição, nas memórias pessoais e gerais, nas oportunidades (dizem que não voltam as boas oportunidades perdidas, das quais muitas vezes só mil tempos depois a pessoa se dá conta do que deixou escapar, por soberba, ignorância, apatia), o caminho se dá a ver, entre favos e favas, alguma trilha mostra as pernas, põe luz verde no indicador, grita por trás de um rochedo, cabendo a cada um/uma ir de vez, de ponta-cabeça, de xuá, seja lá, fazendo razia como um falcão ou um jato de guerra (já titubeei tantas vezes, que estou desacreditado até mesmo entre as pedras, pedras que tantos versos me ocuparam). Melhor mesmo é meter-se no teclado do piano, entrar no domingo, no feriado, nas férias, na aposentadoria, na morte em vida severina.

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foto e texto: Darlan M Cunha

O Diabo no meio do redemoinho (JGR)

O capcioso

O Cara – ícone, totem, tabu, libido, ator, pastor, ídolo das multidões

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     Lembrei-me de um dito popular que eu ouvia, quando criança: “O capeta atenta, e a faca entra”. Pois é, de cansaço em cansaço a despensa se enche, é preciso usar o acervo, os ingredientes, antes que nos esqueçamos deles de modo total, ou que tomem conta de nós, por tê-los inalado durante tanto tempo, visto suas formas, sentido suas nuanças, é verdade, a gente acumula um sem-fim de experiências, umas se sobrepõem a outras, e moldam de maneira mais incisiva o nosso caráter, junto com as outras – as perdedoras, por assim dizer, mas que ficam atuando em segundo plano.

II

PENSAR, DIZER:

– “Como eu poderia comer, se não cantasse ?”

Uma senhora centenária, de Zanzibar (Somewhere on Earth // Algum lugar na Terra, documentário no canal Mais, 44)

– “A poesia é uma coisa sensorial, compreende ?

João Cabral de Melo Neto, numa entrevista.

– “Sou um homem realizado: tenho certeza de que vou morrer.”

Esperidião Abílio de Souza Melo (vizinho)

 

Imagem> internet     >>>>>     Texto: Darlan M Cunha

Domingo pede cachimbo ?

Pés calejados, Nova Canaã, BA, 1998.

by EVANDRO TEIXEIRA (Brasil)

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     O que mais se pode dizer que representa de modo mais claro o que entendemos como o lado mau do mundo ? Deve-se levar em consideração os altos e baixos passados pelo céu da boca, como os verbos fingir e atingir, o adjetivo feioso, todas as aféreses e as apócopes implícitas no substantivo Tempo, sempre te encurtando, o pântano social analisado sobre a mesa com gráficos não raro indecentes (der Grüne Tisch) ? Quando clicas, és desviado, manejado, inserido sutilmente noutro contexto de compra e venda, sim, quando clicas, és fichado ou fixado e perseguido por uma polícia muito especial – só tua. Compreenda.

     Os pés doem mais do que se pode suportar, é preciso ir, porque ir é o melhor remédio, a (r)evolução depende de outras realidades. Já agora mesmo veio-me o que diz uma música: é um estrepe, é um prego, ou o que diz um poema: que se morre de velhice antes dos trinta, ou o que nos diz a escritora: sem o outro não temos como ser egoístas.

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Texto: Darlan M Cunha

Trechos extraídos de Tom Jobim, João Cabral de Melo Neto, Viviane de Santana Paulo

soberbas letras – 6

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007

antíteses

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MORTE E VIDA SEVERINA

(João Cabral de Melo Neto, poema / Chico Buarque, melodia)

 

Esta cova em que estás, com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida

É de bom tamanho, nem largo, nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio

Não é cova grande, é cova medida
É a terra que querias ver dividida

É uma cova grande pra teu pouco defunto
Mas estarás mais ancho que estavas no mundo

É uma cova grande pra teu defunto parco
Porém mais que no mundo, te sentirás largo

É uma cova grande pra tua carne pouca
Mas à terra dada não se abre a boca

É a conta menor que tiraste em vida

É a parte que te cabe deste latifúndio
(É a terra que querias ver dividida)

Estarás mais ancho que estavas no mundo
Mas à terra dada nao se abre a boca

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Foto: Darlan M Cunha

Ouça AQUI: https://www.youtube.com/watch?v=gGLDaE01PdA

Escola: uma faca só lâmina (JCMNeto)

escola-de-facas

escola de facas // school for cooking

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     Uma faca não sofre de dúvida existencial, que a ela só lhe toca cortar com a calma mais fina (o bisturi), ou retalhar com a descompostura dos desatinados numa briga de rua ou de bar (peixeira, também dita lambedeira, canivete automático, facão, machado, gilete), que a ela não lhe dá se é domingo, segunda-feira ou se não é dia nenhum, até porque a sociedade vai em direção a abolir quase tudo aquilo que hoje é praxe, inclusive datações, e assim é que a memória já está de sobreaviso, cenho franzido, já se sabe condenada a ser memória sem memória, algo inerente aos que padecem de Alzheimer, mas de alcance geral, de afetar a todos em todos os lugares.

     Uma faca não sofre de hesitação existencial, com ou sem ferrugem, com ou sem dentes, afiada ou cega, torta ou em linha reta sua lâmina, com o cabo quebrado ou não, ela é de se achar e de se perder em algo: na polpa de uma fruta, nos tendões de um legume, no frouxo de um pudim, nas nervuras de homem e mulher, de modo a que se cumpra como tal: faca, e dela se possa dizer ou escrever algo, imaginar e desenhar-lhe o trajeto

assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;*

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Foto e texto: Darlan M Cunha

*: Em itálico: João Cabral de Melo Neto, excerto do poema Uma faca só lâmina