o visível e o invisível

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Pampulha, BH

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       Da cidade de Zirma, os viajantes retornam com memórias bastante diferentes: um negro cego que grita na multidão, um louco debruçado na cornija de um arranha-céu, uma moça que passeia com um puma na coleira. Na realidade, muitos dos cegos que batem as bengalas nas calçadas de Zirma são negros, em cada arranha-céu há alguém que enlouquece, todos os loucos passam horas nas cornijas, não há puma que não seja criado pelo capricho de uma moça. A cidade é redundante: repete-se para fixar alguma imagem na mente.

 

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Texto: Ítalo Calvino. As cidades invisíveis

Foto: Darlan M Cunha

estrados e estradas

RECOLOCANDO 3

 

     Todos os dias nós mudamos algo, sintonizamos de outra forma algum objetivo, muito embora continuemos básicamente os mesmos, com as mesmas nuanças, a mesma índole selvática ou apaziguadora. É de se rever a trajetória da humanidade, a qual nos dá muito bem a medida, nos mostra que muitas vezes muitos caminhos foram retornados, muitas opiniões ou conceitos bem fundamentados, mas errôneos em sua base, foram deixados de lado, ou não; enfim, muitos retornos foram e ainda são o prato do dia, e não sei por que cargas d’água pensei agora em calça boca de sino, topete pega rapaz, nas anquinhas, nos pés enfaixados à força das japonesas, durante centenas de anos, para agradar amos, mas pensei sobretudo no ainda moderno Código de Hamurabi, escrito pelo rei Hamurabi, da Mesopotâmia, nos idos de 1772 a.C.

     Uma epígrafe minha está nos meus livros e numa página minha na internet: O mesmo de ontem: mas, diferente. Assim, já que ir é o melhor remédio, vamos então de estrados e estradas.

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

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preto no branco

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água, não mágoa

(Fotos das torneiras: Darlan M Cunha. Arte do photoshop: Photofunia.com)

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Um dia na vida de Ivan Denisovich é o título de um livro do escritor russo, prêmio Nobel, Alexander Solzhenitsin, que li há muito tempo, e que, não sei por qual razão, me ocorreu agora. A mente ou a memória nos prega poucas e boas. Essa foi boa.

Às seis da manhã, apoiado no parapeito de uma janela, bebo o café e observo um tipo vizinho derramar oceanos sobre o carro, tudo nele sugere despreocupação, mais ainda o vaivém inconsequente da mangueira, e eu fico pensando nas crianças e nas mulheres que em tantos lugares do mundo caminham quilômetros para buscar água.

 

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Texto: Darlan M Cunha

elementos

Lagoa da Pampulha 1

Lagoa da Pampulha, BELO HORIZONTE, MG

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       Em agosto, o vento dá as caras por aqui, e ainda que não mate, cresta os rostos e dá asas aos anúncios, às placas de trânsito e às saias. As mãos, por terem pouca irrigação, sofrem suas picadas. Mas o que é o vento natural diante dos ventos sociais, quase nunca de bem com a saúde do cotidiano ? Lembro-me do poema Congresso dos Ventos:

 

Na várzea extensa do Capibaribe, em pleno mês de agosto

Reuniram-se em congresso todos os ventos do mundo;

Àquela planície clara, feita de luz aberta na luz e de amplidão cingida,

Onde o grande céu se encurva sobre verdes e verdes, sobre lentos telhados, […]*

 

       Em agosto, que a vida seja leve, que as vítimas não saibam de nada, comentários se abram (como é difícil deixar umas palavras, talvez porque falar cansa, escrever dói – é o que parece). Em agosto, não se ouça a palavra julho, talvez seja melhor citar setembro, o amanhã, mas um sambista diz que meu tempo é hoje.*

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foto e texto: Darlan M Cunha

dia sadio

The King, The Balistic Missil, WindMan

Quenianos e etíopes, com todo o respeito que lhes é devido, que se cuidem.

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     O que aqui se faz aqui se paga, diz o povo, em sua sabedoria, deixando de fora deus e o diabo, que o acerto seja feito aqui, que aqui se pague o faroeste, a lei de Talião, de Salomão, do Rubicão, do Chicão e de quem mais, ou não, pois há tantos erros e crimes não pagos que o melhor é levar em conta que desvios conscientes de conduta tomaram conta dos lares (ainda existem ?), das ruas, das casas públicas.

     O mar é museu de cuspo branco, de jogar suas anáguas na praia, de vomitar um caldo negro muito antigo de enome poder & discórdia, com prazo marcado para acabar. O que se faz aqui, aqui se paga, diz o povo; e se há pragas de gafanhotos e de formigas, se há virologias renovadas nas esquinas, o homem não desanima, que o instinto não permite baixar a guarda, e até mesmo as pedras reagem ao fim, escondendo-se no próprio pó, pelo que ninguém mais dirá que uma pedra no meio do caminho. Sem pedras não há como construir uma educação pela pedra, e nem pela pedrada.

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foto e poema: Darlan M Cunha

https://paliavana4.blogspot.com

tapioca

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à esquerda, com pesunto; à direita, com banana

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     – Vamos viver de brisa, Anarina.* Viver de brisa, foi como o poeta Bandeira escreveu. Enquanto a brisa não vem, deixemos de lado as casas com suas normas, armas, karmas, bravatas e gravatas, e vamos comer tapioca, pastel, pavê, pitomba, peru, peixe e o que mais houver. A brisa talvez venha. Talvez, porque o caráter do vento é duvidoso.

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cozinha, foto e texto: Darlan M Cunha

teclado

teclado

     Seja pisando em ovos, nas nuvens, no barro, em cacos de vidro, em brasas nas festas de são joão ou de são pedro ou do diabo, em cédulas falsas ou originais, nas palavras e nos atos da oposição, nas memórias pessoais e gerais, nas oportunidades (dizem que não voltam as boas oportunidades perdidas, das quais muitas vezes só mil tempos depois a pessoa se dá conta do que deixou escapar, por soberba, ignorância, apatia), o caminho se dá a ver, entre favos e favas, alguma trilha mostra as pernas, põe luz verde no indicador, grita por trás de um rochedo, cabendo a cada um/uma ir de vez, de ponta-cabeça, de xuá, seja lá, fazendo razia como um falcão ou um jato de guerra (já titubeei tantas vezes, que estou desacreditado até mesmo entre as pedras, pedras que tantos versos me ocuparam). Melhor mesmo é meter-se no teclado do piano, entrar no domingo, no feriado, nas férias, na aposentadoria, na morte em vida severina.

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foto e texto: Darlan M Cunha

quadrilha & partilha

O capciosoO capciosoO capciosoO capciosoO capcioso

O capciosoO capciosoO capciosoO capciosoO capcioso

NA VISÃO DE TRÊS ESCRITORES

 

QUADRILHA

Carlos Drummond de Andrade

lido por Drummond: https://www.letras.mus.br/carlos-drummond-de-andrade/460652/

 

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

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FLOR DA IDADE

Chico Buarque de Holanda

canta CBH: https://www.letras.mus.br/chico-buarque/84969/

 

[…] Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que

amava Paulo que amava Juca que amava Dora que

amava Carlos amava Dora que amava Rita que amava Dito que

amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava

Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto

que amava a filha que amava Carlos que amava Dora

que amava toda a quadrilha.

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PARTILHA

Darlan M Cunha

https://members.poemhunter.com/members/club/profile.asp?member=5647848

 

A palo seco a cidade resiste porque o amor insiste

mas quem é que sabe o que isso quer dizer, diga

que vida é essa sem trilha certa sem vinhedo sem

hora tarde ou cedo sem nada para dizer

sem nada para contradizer os ouvidos da quadrilha ?

O que se há de fazer senão merecer a partilha

que o amor exige de ti de mim de todos no mundo

que exige tudo de ana sílvia nara e raimundo ?

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ARTE-IMAGEM: Internet

clave de sol

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o cafofo para fins-de-semana e feriadões

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     Uma vizinha de uma de minhas avós dizia que mulher de músico ou de médico não tarda a descobrir o desânimo. Até hoje, tanto tempo após ouvir isso, isso me recorda o espanto, o hilário, o asco entre paredes, a bile, o silêncio, o trágico. E eis que o programa espanhol sobre literatura – Página Dos (TVE, 205) – entrevistou o escritor David Trueba, autor de Tierra de Campos, no qual o músico personagem diz que “No conozco a ninguna mujer que no se arrepienta de haberse enamorado de un músico.” Mas vamos devagar, sem generalizar, pois há muitos músicos com os dedos e a cabeça bem equilibrados. Decerto que seus itinerários, jornadas, noitadas, ensaios e viagens podem interferir na vida em comum, além de que por outros detalhes uma casa possa desandar. Há música quando nascemos, nos aniversários, nas formaturas, quando ganhamos na loteria, no fim das guerras, quando nos casamos, quando os filhos chegam, quando nos aposentamos e quando falecemos.

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foto e texto: Darlan M Cunha

rota do peixe e do riso

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o riso e o peixe

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     Já faz muito tempo que o riso sumiu nas brumas do Homem, os peixes correm grande perigo, insetos antigos veem com pasmo as pancadas em suas portas e janelas, bichos de todo tipo em seus túneis, locas, tocas, grutas, cavernas, labirintos térreos e aquáticos – as cobras do deserto, os castores – veem com apreensão o momento humano, sentindo que os mares e as terras não estão nem pra peixe e nem para formigas, que as ruas do mundo estão cheias de indecisões, de falsas alegrias pelas altas tecnologias, etc. Já faz um bom tempo que o riso das hienas domina o cenário, que suas garras seguram tudo. Entenda.

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imagem: INTERNET     >>>>>     texto: Darlan M Cunha