o visível e o invisível

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Pampulha, BH

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       Da cidade de Zirma, os viajantes retornam com memórias bastante diferentes: um negro cego que grita na multidão, um louco debruçado na cornija de um arranha-céu, uma moça que passeia com um puma na coleira. Na realidade, muitos dos cegos que batem as bengalas nas calçadas de Zirma são negros, em cada arranha-céu há alguém que enlouquece, todos os loucos passam horas nas cornijas, não há puma que não seja criado pelo capricho de uma moça. A cidade é redundante: repete-se para fixar alguma imagem na mente.

 

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Texto: Ítalo Calvino. As cidades invisíveis

Foto: Darlan M Cunha

preto no branco

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água, não mágoa

(Fotos das torneiras: Darlan M Cunha. Arte do photoshop: Photofunia.com)

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Um dia na vida de Ivan Denisovich é o título de um livro do escritor russo, prêmio Nobel, Alexander Solzhenitsin, que li há muito tempo, e que, não sei por qual razão, me ocorreu agora. A mente ou a memória nos prega poucas e boas. Essa foi boa.

Às seis da manhã, apoiado no parapeito de uma janela, bebo o café e observo um tipo vizinho derramar oceanos sobre o carro, tudo nele sugere despreocupação, mais ainda o vaivém inconsequente da mangueira, e eu fico pensando nas crianças e nas mulheres que em tantos lugares do mundo caminham quilômetros para buscar água.

 

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Texto: Darlan M Cunha

tapioca

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à esquerda, com pesunto; à direita, com banana

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     – Vamos viver de brisa, Anarina.* Viver de brisa, foi como o poeta Bandeira escreveu. Enquanto a brisa não vem, deixemos de lado as casas com suas normas, armas, karmas, bravatas e gravatas, e vamos comer tapioca, pastel, pavê, pitomba, peru, peixe e o que mais houver. A brisa talvez venha. Talvez, porque o caráter do vento é duvidoso.

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cozinha, foto e texto: Darlan M Cunha

teclado

teclado

     Seja pisando em ovos, nas nuvens, no barro, em cacos de vidro, em brasas nas festas de são joão ou de são pedro ou do diabo, em cédulas falsas ou originais, nas palavras e nos atos da oposição, nas memórias pessoais e gerais, nas oportunidades (dizem que não voltam as boas oportunidades perdidas, das quais muitas vezes só mil tempos depois a pessoa se dá conta do que deixou escapar, por soberba, ignorância, apatia), o caminho se dá a ver, entre favos e favas, alguma trilha mostra as pernas, põe luz verde no indicador, grita por trás de um rochedo, cabendo a cada um/uma ir de vez, de ponta-cabeça, de xuá, seja lá, fazendo razia como um falcão ou um jato de guerra (já titubeei tantas vezes, que estou desacreditado até mesmo entre as pedras, pedras que tantos versos me ocuparam). Melhor mesmo é meter-se no teclado do piano, entrar no domingo, no feriado, nas férias, na aposentadoria, na morte em vida severina.

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foto e texto: Darlan M Cunha

clave de sol

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o cafofo para fins-de-semana e feriadões

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     Uma vizinha de uma de minhas avós dizia que mulher de músico ou de médico não tarda a descobrir o desânimo. Até hoje, tanto tempo após ouvir isso, isso me recorda o espanto, o hilário, o asco entre paredes, a bile, o silêncio, o trágico. E eis que o programa espanhol sobre literatura – Página Dos (TVE, 205) – entrevistou o escritor David Trueba, autor de Tierra de Campos, no qual o músico personagem diz que “No conozco a ninguna mujer que no se arrepienta de haberse enamorado de un músico.” Mas vamos devagar, sem generalizar, pois há muitos músicos com os dedos e a cabeça bem equilibrados. Decerto que seus itinerários, jornadas, noitadas, ensaios e viagens podem interferir na vida em comum, além de que por outros detalhes uma casa possa desandar. Há música quando nascemos, nos aniversários, nas formaturas, quando ganhamos na loteria, no fim das guerras, quando nos casamos, quando os filhos chegam, quando nos aposentamos e quando falecemos.

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foto e texto: Darlan M Cunha

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Mercado 1

Mercado Central de Belo Horizonte (1929), MG, Brasil

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     Um dos livros através dos quais iniciei o aprendizado do idioma russo (33 letras) foi o da professora Nina Potapova, isso há décadas, numa representação cultural da Rússia, em BH, que ficava no edifício Rembrandt, na Rua São Paulo, região central. Lembro-me de ter ganho um relógio, num concurso feito pela modesta mas diligente instituição, e de tê-lo dado de presente à minha irmã Telma. O tempo fez o que sabe fazer, condenado a si mesmo, o espaço contraiu-se, para uns tantos, expandiu-se para o quase nenhum, mas eu continuo, o idioma russo continua (cinco ou seis idiomas sobreviverão), tu continuas, e enquanto não se descasca de todo a trama mundial, vamos ao mercado, ao lugar onde, segundo o poema do Bertolt Brecht:

Para ganhar o pão, cada manhã

vou ao mercado onde se compram mentiras.

Cheio de esperança

ponho-me na fila dos vendedores.

(BERTOLT BRECHT. Antologia Poética. Poema “Hollywood”)

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foto e crônica: Darlan M Cunha

Onde os queijos não marcam ponto

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Mercado Central de Belo Horizonte

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     Fui ao mercado comprar geléia de mocotó, pimentas variadas (tem até indianas, mais quentes do que a mansão de Belzebu), farinha de rosca, cachaça, queijo canastra de São Roque de Minas (compro também de outras cidades), e camisetas com motivos mineiros.

     Feito isso, fui ao Bar do Mané Doido – quase tão famoso quanto o próprio mercado no qual atende – e, entre umas e outras, petiscos preparados na hora, ouvi uma palavra que havia muito tempo eu não a ouvia. Sururucar tanto significa peneirar grãos, quanto rebolar, menear, saracotear, gingar. Pois é. Imediatamente, lembrei-me de uma palavra semelhante, que não consta do dicionário (não encontrei), mas ela está no livro Maíra, de Darcy Ribeiro, e a palavra é sururucucar, se não me falha a memória.

    Aí, entre outras e umas, risos, petiscos & lambiscos, palavras amontoaram-se em torno da mesa e, sem pedirem licença, entoaram sua voz, e ouvimos abisntestado mocorongo gusano nédio absconso carraspana edil bacabal estróina tinhoso cerúleo abespinhado abio sacripanta sastre sacarrão poltrão estrupício e estropício miasma ningres-ningres nênia calipígia… até que um alarido ecoou e me alertaram quanto à esposa-que-não-tenho me chamando em altos brados pelos corredores cheios de sons, cores e odores, e ela (presumo) com vestido de chita, rodado, rolinhos na cabeça, olhos injetados, varizes e sabe lá o diabo o que mais. Escapei de boa, por pouco, como se diz em latim: Paucas sed bonas.

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foto e crônica: Darlan M Cunha

acrobata (todos nós)

acrobata

os nós das ruas

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     Hoje é aniversário do quem e do que não existe, e parece-me que sou o único conviva, pelo menos o único até agora a comparecer ao ato; talvez haja bufê caprichado, com as últimas da novela das oito, ou alguma frase da novela das nove, um conto sobre futebol talvez seja lido, alguém dirá algo sobre estrela de cinco pontas e candelabros de sete e de nove pontas, senão de mais; outro entusiasta dirá que a barragem destruída já está de pé, redesenhada revista reprocessada regulamentada em papel cuchê e coisas e tais. Quero é outro tipo de vinho com estricnina, cansado de lesmas, bagaços de leis, alusões ao bom e ao melhor, liquidações a granel, no varejo e no atacado (vendo mãe e pai, mulher, filhas imprestáveis, filhos e enteados parasitas, a bandeja de prata de minha avó materna, e o chicote de couro cru com cabo de prata e marfim, muito usado pelo meu avô paterno (“Vais ter com mulheres ? Não esqueças o chicote” – Nietzsche escreveu no Assim Falava Zaratustra. Mas não se vejam com esse mesmo tipo de pensamento, nem com aquele tipo de atuação).

     Todo dia é aniversário do Diabo, e ele sou eu, em muitas medidas – foi o que disse  teresa batista, cansada de guerras e de outras inclemências.

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Foto e sátira: Darlan M Cunha

maldades da mamãe

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roscas

    Tive um único livro sobre alimentos na minha biblioteca, a qual doei quase toda quando me mudei – um livro sobre alimentos típicos do Pará (sou mineiro da gema e da clara). Pois bem, pensando nos ocos da vida, fui rever Dona Maria, e eis o que encontro, saídas do fogão, com outros petiscos mais, o que ela faz constantemente: roscas. Ela sempre fica tramando biscoitos de polvilho, tortas de frango, doce de batata doce com coco ralado, biscoitos de coco, doce de requeijão, biscoitos “doidão”, pudim, pastéis…

     No próximo domingo, 28, ela (85 anos) embarcará para os EUA, para estar durante meses com filhas, filhos, genros, noras, netas, netos, bisnetas, bisnetos e duas trinetas ou tataranetas, já nem sei mais. E eu irei às padarias.

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foto e texto: Darlan M Cunha

ir

carrinho de mão

gerenciar a própria vida

     Estou de mudança, mas não para Pasárgada, ou NYC. Talvez eu reveja o convite para Brasília, pois, se quero mudar de ar, todas as possibilidades devem ser avaliadas. Dizem que na terra brasiliense ainda há sombra e água fresca suficientes para novos peregrinos e aventureiros, e até para gente de bem, embora que para entrar no redemoinho seja preciso muito jogo de cintura – sambra frevo maxixe xaxado bolero guarânia chamamé carimbó xote bugio bossa-nova galope-a-beira-mar chorinho…

    Mas o melhor é esquecer a cidade da catedral dos dedos de concreto, ir em surdina pela madrugada, inciente de tudo=ciente de nada, ou seja, às cidades invisíveis, montado num cavalinho de platiplanto, platero e eu, mas é certo que não irei para compostela, fátima ou para a canudos atual, e nem para aparecida.

     Enfim, aonde ir, nesse tempo de arritmias ? Nunca li Une saison en enfer. Para quê, se atuam junto a mim e a ti os braços do inferno social de hoje e de sempre ? Ontem, achei moeda de cinquenta centavos na Rua Bonfim, ao lado do cemistério de mesmo nome. Bons auspícios para a mudança. Irei.

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Foto e texto: Darlan M Cunha