artífices & ditados

ZAUSS GOMES – Luthier, Bairro Santa Cruz, BHte, MG. Pessoa afável, de bom trato.

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Conheci ZAUSS GOMES, luthier, por acaso, numa visita ao meu tio e às minhas tias maternas, que moram próximas à casa e à lutheria dele. Acho que foi em 2014, num domingo – tenho certeza do dia, não do ano. Não importa, porque amigo não tem data, gente boa extrapola essa miudeza de nomes & sobrenomes, dias com data – como já escrevi em textos aqui no WP e nalguns dos meus livros publicados e não publicados. Vi o cartão de visitas que ele me deu, à época, e faço então estoutra postagem em consideração a todas as pessoas às quais eu chamo de “manuais“, embora todos nós sejamos manuais, de uma forma ou de outra, mas estes e estas, para mim, são diferentes, não melhores, mas me encantam de uma maneira especial: marceneiros, carpinteiros, pintores, pintoras, escultoras, pintores de parede, oleiros, luthiers, rendeiras, fazedores de pipas e de piões (aqueles que precisam ser jogados ao solo, enrolados num barbante ou cordinha especial, lembra ?). Ah, os luthiers ou construtores e consertadores de instrumentos musicais têm que ter um olho e um ouvido muito especiais, têm que conhecer madeiras, lixas e colas, aparelhos próprios, miúdos, antigos, enfim, esses caras são mesmo para lá de anormais, isso mesmo: para lá de anormais, além de terem uma paciência também ela anormal. E quando o instrumento chegar às tuas mãos, cuida bem dele, pois, do amigão.

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Já que estamos remanescendo, eis alguns ditados populares, todos eles na boca da minha mãe que, sempre contente, superior às inúmeras vicissitudes dela e da Showciedade em geral, está sempre dizendo algo assim da vivência popular:

1. Sou madeira que jegue não rói. (imagine os dentes de um jegue roendo um mourão).

2. Quem dorme com criança amanhece molhado.

3. Cada um no seu canto chora seu tanto.

4. Quem não tem pão, caça com o quê ? (paródia cruel com o original. A responsabilidade é deste “esmiuçador de pândegas alheias”).

5. Antes uma andorinha voando do que duas nas mãos.

6. Quem corre, se cansa; quem anda, alcança.

7. O pouco com Deus é muito.

8. Com as roupas e bocas dos mortos se vai à igreja rezar pelos vivos.

9. Se vai chover ? Pergunte aos pingos.

10. Quem canta seus males espanta.

11. Deixe o que comer, mas não deixe o que fazer – OU – não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje.

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Darlan M Cunha

materno

BRISA NA VIDA…

Fluxo

Nasci antes dela / mas nos mesmos termos vivemos / as pausas e os cansaços. / Sou mais velho do que a Mãe, / e se muitas foram as vezes em que a deixei / no solo do desespero, / muitas vezes também levei água e sol / na peneira, na carreira, / mas chegava, intacto, / os poros em dia com a presteza filial. / Bem ou mal, ainda dou a ela / o meu diário, sacro ou hilário, é meu, / que ao seu redor espalho / feito um camponês com seu milho e seu alho, / uma médica com o seu colar de vida / bem distribuída (eis que, recuperados, os pacientes retornam / ao fado diário, à luta mais dura na crista de outra água / profunda, porque ainda e sempre funda é a trilha).

Meus dias são anteriores aos de minha Mãe, / os dias escavados na fome e na sede, sem bula e sem rede, / tendo por água uns filetes de fel; / por pão, amores dissolutos,  / assados na cal virgem, enfim, / um jovem que roçou as paredes / da poesia, no chão do medo e no teto do riso, / quase em vão, o coração duro, / as veias inchadas demais para ser paciente. / Sou mais antigo do que o dilúvio e do que as dúvidas / sobre o dilúvio, sou anterior à Minha e à tua Mãe, / e se mais me faço andar por trilhas / nunca antes vistas, é que o mundo / só usa os mesmos caminhos, / as mesmas antíteses: preto e branco, bom e ruim, quente e frio, / são poucos caminhos, e isto precisa ser melhorado, / até porque é preciso arcar com os pesos e medidas.

Sou, portanto, mais etéreo do que a morte, anterior a mim mesmo. Tu também és o avesso.

Darlan M Cunha

Dorival Caymmi. Das Rosas. : https://www.youtube.com/watch?v=xiPGU3BaS6A

Março: lei marcial ou [nº 1]

OU CONTINUAR (esta enfermeira, muito gentil e dentro da Lei, permitiu a foto ao vacinar a minha Mãe – algo geral)
OU FICAR NA ENCRUZILHADA

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SE NÃO COM A VIROLOGIA DO DIABO ?

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CÓDEX GIGAS // A BÍBLIA DO DIABO (Escrito na Idade Média, Autor Desconhecido)

CÓDEX GIGAS   // A BÍBLIA DO DIABO

Este calhamaço está em exibição na Biblioteca Nacional da Suécia, em Estocolmo. Uma de suas ilustrações, mostrando o Diabo, tornou-se irresistível através dos séculos ao nosso imaginário. Escrito na Idade Média. Ele tem 610 páginas, mede 89 cm de altura, 49 cm  de largura, pesa 71 (75 ?) quilos, todas as páginas são pergaminhos feitos de pele de bezerros – pelo que estima-se que foram necessárias as peles de 160 bezerrinhos para fazer este livro, num espaço mínimo de cinco anos, todos os dias e noites, à luz de velas, sem essa mordomia nossa de luz elétrica a qual só apareceria uns mil anos depois. Essa beleza, este esforço monumental tem metal na capa e na contracapa. Foi escrito provavelmente nalgum mosteiro de onde hoje é a República Checa, e é mesmo, sem favor, coisa de outro mundo, de gente, do diabo. Instrutiva leitura, aprendizado de não se esquecer.

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ROUPAGEM, GÊNERO DE PRIMEIRA NECESSIDADE.

Fale, quem saiba. Ontem, no Mercado Central de BÊAGÁ, ouviu-se que “Será preciso decretar lei marcial para que tantos e tantas se toquem ? Se as mães destas pessoas precisarem de leito ou de maca, elas se lembrarão de algo. Tarde demais ?” Estas considerações duríssimas, com 101% de razões de serem ditas e cobradas, ouvidas neste domingo 28. Março já está aqui com cara de bons e também de poucos amigos. Escolher.

@2. O ALICIANTE

O Diabo no meio do redemoinho – lá está, bem assente no assombroso livro Grande Sertão: Veredas, do médico e diplomata João Guimarães Rosa. A minha avó materna Senhorinha Maria de Jesus mãe do meu pai Elviro dizia que o Diabo planta floras e jardins de grande beleza sim meu neto predileto – ela me dizia – o Diabo tem mil mais mil milhões de truques e com eles engaloba os gulosos e as apressadas e pega os incontáveis egoístas e preguiçosos, sim, pode acreditar na sua avó aqui no meio da fazenda em Pedra Azul onde o Demo já quis entrar aqui o próprio Belzebu em pessoa mas encontrou chicotes e rezas brabas e mil e um excomungos em cada mourão da cerca e água benta e baldes e mais baldes de cruzinhas de madeira misturados com caca de gato e rabo de tatu, bem picado e cachaça com ranço de mulher velha e limão-capeta [o Mal contra o Mal], e foi um fuzuê foi sim um furdunço um estropício e um estrupício e palavrões para o Tinhoso bambear sim pro Pemba desmaiar e a gente cair de solfejo para cima do Dito Cujo Infernoso e tenebroso foi aquele dia que escurou e escurou de vez sem dar um tempo nem de ir no mato fazer necessidades – qui u quê ! – foi um frege ó meu neto mais velho Darlan desmiolado você é, ó mas fazer o quê, aprende então a lição: o Diabo é cheio de truques, e se embeiça logo com o mulherio, mas é de bom alvitre dizer que a recíproca é verdadeira, nem sempre, mas é, sim o Capeta veve tocando viola, ele canta uma musga muito perigosa que tem o refrão assim: “Tem, mas acabô.”. Muito cuidado com essa musga do Pé Torto. Por falar nisso, entre outras perdição, você toca violão, meu neto desmiolado ? Não, Vó, eu até ia aprender, mas é difícil, e eu desisti. Vou ser só, e só humano…

Darlan M Cunha

Bisavó e bisneta espantando o Caos

Falar o que… Amadas e Caros ?

MENSAGEM ao PEQUENO GRANDE SENHOR

@1. Distúrbios rueiros

Quantos nervos explodem, quantos impropérios são ditos em cada um dos 1440 minutos de todos os dias em aldeias como o Rio de Janeiro, Nova Iorque, Jerusalém, Beijing, Mumbai, Buenos Aires, Cidade do México, Lagos, Cidade do Cabo e nas minúsculas aldeias do mundo ? Porém, uma vez que se tenha de ir às ruas, o mínimo seja evitar jogar dados com o medo, onde os enganados morrem sem nome, sobrenome, telefone.

@2. Senhor Pequeno Gigante

É preciso que se diga bem alto que a estrutura social está vergada para muito além do suportável, algo assim feito um pequeno barco num mar em noite de Satã, breu de piche, siameses comendo um ao outro, pelo que logo se vê o peso da tua intromissão nos cotidianos do Mundo, Senhor de Sutilezas Vis e da Imantação Generalizada.

Ainda não há ponto final à vista, embora o esforço contínuo de 25, sim, 25 horas por dia em busca do néctar que apazigue os corações e as mentes no Planeta de Eixo Inclinado. Os políticos, em seu Areópago, sua Ágora, sua Praça, no alto e no baixo clero, contam desmedidas ações, até mesmo o benfazejo erotismo já levado por caminhos estranhos, ao que se sabe. Eis o homem já sem nome e sobrenome, um homem sem qualidades, conforme o título de um livro.

Pequeno Senhor Gigante

devastar é o teu único verbo, é de avivar câmeras dentro deste túnel pavoroso onde a falta de ar é o que há, onde os brônquios gritam para eles mesmos, verbo preferencial ao portador e afins é o que esse verbo é, e não me desculpe por essa dura intimidade fincada aqui, são coisas da vida, diz o povo, o mesmo povo que está sob cutelo, garrote vil, pau-de-arara, enfim, posto a ferros, sob o suplício muito destruidor da insônia, taquicardia, o SNC avariado, prejuízos de todos os calões ou para todos os jargões, alguns que a Bolsa de Valores sequer desconfiava, suicídios, mas sempre há os obesos, a lei das ofertas tingidas de gold, tintas de blood.

Senhor Pequeno Gigante

a nós – 8 bilhões – não nos interessa de onde vieste sob esta nomenclatura que é a sinonímia mais completa de devastação, e já penso no ano de 1666, entre outros do mesmo negrume, lembro-me aqui e agora da canção os ratos soltos na praça // os ratos mortos na praça. O caos e a breve arquitetura do choro, poema com muito ar.

Pequeno Senhor Gigante

tua mala está pronta, o caminho todo embandeirado até a porta das aldeias com fogos de armistício para a tua partida, porém, os laboratórios ainda ferverão por um longo tempo. Nenhuma dúvida sobre as agulhadas por virem, eis toda a Humanidade de joelhos, tudo isso nos fala fundo, e mais me lembra O Dicionário do Diabo – o livro do Bierce.

Darlan M Cunha

O palato a língua o esôfago a faringe a laringe a traqueia e o estômago agradecem à gula

Biscoitos de queijo feitos pela Dona MARIA JOSÉ, com pequena ajuda do assistente LANDAR.

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a@.

Todo mundo está convidado. Quem esquecer a senha/convite, entrará do mesmo jeito na comilança de biscoito e doces e bolos no barraco da Vovó Maria José. E nem é aniversário de ninguém, não.

Não te avexes, diz logo que estás com água na boca, agradecendo esta maldade boa da trisavó… hehe. Querias o quê: mais notícias más ? Pensa, embora que pensar dói, eu já disse isto aqui e em livro. Sim, todo mundo está convidado, e quem esquecer a senha/convite, entrará do mesmo jeito nos biscoitos e doces e bolos no barraco da Vovó Maria José. E nem é aniversário de ninguém, é que aqui ninguém segue na risca todos os preceitos da Showciedade, a família tem opinião própria, nada de ser maria-vai-com-as-outras, nesta família todo mundo é doido ou maluco ou biruta ou é ‘da lua’ e ‘vive nas nuvens’, ou até mesmo já fez lobotomia pré-frontal (técnica que deu Prêmio Nobel de Medicina ao português Egas Moniz, uma prática hoje abandonada, digamos assim, ou revista). É isso aí. Vamos que vamos, a PAN pediu entrada, a qual negamos: barraco limpo, gel e máscaras nos seis lados da casa: as quatro paredes, o teto e o chão. Seis.

@2.

Tenho amiga que vive em Lisboa, é de Lisboa, me visitou aqui em BH, de grande profundidade, tenho também amiga de fé [todas] na Alemanha, em Córdoba – Argentina -, uma que vive em Montreal, outras em Moscou, na Universidade Russa da Amizade dos Povos Patrice Lumumba, outras amigas em São Petersburgo, amiga em Madri, sim, meus livros cuidaram disso, elas leram um ou dois ou três. Só conheço pessoalmente a Maria, de Lisboa. Pois é, quem não crê em distâncias… a Rede, às vezes, vale. Às vezes.

@3.

É possível andar, se caminho não há. // Caminhante, larga de ti essa dúvida // torce o pescoço deste vento // e cinge o colo difícil da luz. // Verás que nos encontraremos.

Darlan M Cunha

AQUI: https://www.poemhunter.com/member/AddNewPoem/?poemid=57939877

candura

O Mundo é logo ali

@1.

Comigo nunca aconteceu, mas quando a minha mãe esteve no Oriente Médio, com uma sobrinha que lhe deu a viagem de presente, aconteceu-lhes o extravio de suas malas, em Dubai. Pois bem. Na sexta-feira passada, dia 5, uma neta de minha mãe, e o marido, com o casal de filhos, desembarcaram em BH, vindos dos EUA. Seis malas extraviadas. Um dia depois, a Empresa lhes dava conta de que duas malas tinham sido localizadas, e as entregaram no sábado. Na segunda-feira, após um fim de semana de apreensão, encontraram e entregaram as outras quatro malas. A turma, é claro, veio à casa da bisavó, aqui em BH, e na terça-feira foram ver avó e avô paternos, ainda em Minas, longe de BH, e se eu conto estas peripécias é porque acontecem. Afinal de contas,  há milhões de malas no céu a todo instante. Tudo pode falhar, mas é um sufoco que não se deseja a ninguém. Em tempo: as crianças estão deitando e rolando na fazenda, sujas de terra, passeando na propriedade numa charrete puxada a cavalo, frutas no pé, ou seja, daquele jeito, enviaram fotos para matar o garoto de inveja.

@2.

Sejam bonzinhos e boazinhas, nas normas sosiais: escovar os dentes, nada de chulé, de falar alto e apressado, calma, o planeta vive fugindo a 27 mil quilômetros por hora (confira, se duvidas), e então vamos no macio, no sapatinho, como diz o povão brasileiro, sempre gozador: no sapatinho. Quem tem pressa, cansa; quem não tem, alcança – é um dos ditados antiquérrimos que a minha Mãe vive repetindo, e eu rindo.

@3.

Certa vez, noite feita, chegou a uma cidade onde nunca estivera. Na estação, absoluto silêncio, procurou em vão por alguém, nem sombra de vivalma. Pulgas atrás da orelha. O silêncio começou a lhe dar nos nervos, pelo que andou por uma rua mal iluminada, e não havia nada que ativasse no viajante o entusiasmo típico de quando se chega a um lugar qualquer do mundo: cansaço e ansiedade por um banho, e depois sair e conhecer gente e ruas. Nada disso. Numa cidade fantasma o viajor estava, sozinho, sem pai e sem mãe, abriu uma porta qualquer, e procurou cama, e dormiu feito uma pedra, de sapatos e tudo, de óculos e tudo, antes, bebeu uma dormideira – como diz o povo, dormiu feito pedra-granito, até acordar na própria cama, não se lembrando de nada. Só hoje, mil dias depois de ter estado numa cidade fantasma.

Darlan M Cunha

LUIZ MELODIA: Pérola negra: https://www.youtube.com/watch?v=bJjKyc7VeCc