MAO – BH, 5

Carrancas

Carro de boi

Cangas ou cangalhas
***

“Que é, que é ?: São doze irmãos em viagem, nenhum deles passa na frente do outro ?” (dito popular sobre os bois dos carros de bois).

Alceu Maynard Araújo. Folclore Nacional, vol. III, p. 335

Darlan M Cunha

Milton Nascimento canta Carro de boi (Cacaso e Maurício Tapajós). https://www.youtube.com/watch?v=gferQZd4s0I

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Darlan visita Ai Wei Wei, nº 4

cor corar coral coralina corante quaral quarador

*
a criança pensa e ultrapassa horizontes


Destas proposições, alguma há de restar: morrer sem um A ou um Z atrás de si, ou seja, sem herança – mas isto é impossível, porque todos deixamos rastros; ou viver conforme as novas leis, adaptações estas às quais é preciso atentar, ou ser um nerd, ou uma auto exilada social, e sabe-se lá o que mais. As crianças logo percebem o que as rodeia, e até mesmo notam o mais além do seu entorno imediato, mas cuidamos de tirá-las da opinião própria, de lhes dar logo no café da manhã um sim e vários nãos. Beber café, e ir ao que haverá, e também se bebe mágoas com água de coco e pedra de gelo, e se nada nos pode intimidar, isto se deve ao fato de se ter opinião própria (a garotinha na foto está com ela mesma). Feriado, o país está parado; se é dia de muda, vai à luta, ainda que vá pela metade, ou nem isso.

*

O DIA COMEÇA É NA MADRUGADA


Míriam chegou sem alarde, talvez da montanha ou do mar

ou tenha vindo de algum lugar maior do que a imaginação,

silenciosa feito um peixe ou um feixe de sol nas paredes

ela veio e ficou, e nada parece incomodá-la, mas é preciso

estar atento aos traços de uma mulher, espertas por natureza

e por necessidade social, por sua necessidade de defesa

diante da História sempre desfavorável a elas. Mulher é menos ?

Não para essa Míriam, e para muitas outras, e assim ela vai

como um Don Quixote, de calça comprida, de bermuda ou nua

sob sol e chuva (“Com sol e chuva você sonhava” – diz a canção),

sorrindo dentro dos tênis brancos ela vai levando seu Enigma.

*

Fotos e textos: Darlan M Cunha

Música: Tudo o que você podia ser. CLUBE DA ESQUINA (Milton Nascimento canta): https://www.youtube.com/watch?v=GGmGMEVbTAY

interrogante

Interrogação >>> [clique na foto e leia o texto por tras dela]

Encontrei essa interrogação num domingo de manhã quando ia zanzar no Parque das Mangabeiras, bem situado na base da famosa Serra do Curral del Rey [ao fundo] – o primeiro nome de Belo Horizonte. Uma alusão à serra está na música Clube da Esquina [nº 1]: ” E no Curral del Rey / janelas se abram ao negro do mundo lunar“. Pois é, aquele impacto inesperado foi grande demais, e fiz a foto, há uns dez anos. Ela continua florindo, rindo, enquanto posso me perguntar o que foi feito de mim, por mim, por tantos, tanto eu todo tudo tantas medidas, encontros e despedidas, mas a paleta sobre o cavalete não se esgotou, e agora mesmo o vermelho e o verde exigem que eu as misture, o que resultará na cor amarela. A noite não existe, nada de breu insistente se vê por aqui. Só de vez em quando, normal.

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DARLAN M CUNHA

O pequeno mentecapto*

Universidade UNI-BH — um dos laboratórios >>> [clique na foto e leia o poema no anverso]

SONHO e DELÍRIO: OLHAI OS DELÍRIOS DA ALDEIA

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@1

Quando eu nasci, ouvi: Vixe, qui minino feio, Santa Filomena ! Puro drama rindo-se à custa do novato, mas após eu beber colostro, a mãe disse: – Não liga, filhinho, são as invejosas de plantão, sabem que você é lindinho. Pois bem, mãe é mãe, é pão sovado, salgado, é doce de não haver doce igual (assim, carrega água na peneira para ela, sem desperdiçar uma gota, ou te haverás comigo, o Diabo em pessoa). E depois do que ela falou eu caí na real, e botei para quebrar, tudo fucei com a maldade na bile, investi em mim, que já era líndio, e hoje sou um espanto imune a quebranto. Mas eu ficava ainda mais solar era quando minha mãe me vestia de marinheiro, com direito a um gorro e a palavrões (estes, por conta própria), iguais aos que se ouve num convés, lá onde tudo acontece, o convés é a rua dos navios, e é por isso que se diz que roupa suja se lava é na rua. Voltando à minha efígie, já cunhada para uma coleção de moedas de ouro, para colecionadoras e colecionadores, lembro-me da canção cubana, alfinetando: Soy feliz // soy un hombre feliz // y quiero que me perdonen por ese día // los muertos de mi felicidad.*

@2

Reli trechos dos dois primeiros livros – A Mãe e o Filho da Mãe (1966), e O Menino e o Pinto do Menino (1967) – do mineiro Wander Pirolli (1931-2006), um dos fundadores do jornal Hoje em Dia. Raramente releio, com exceção a meus livros, de Lavoura Arcaica (Raduan Nassar) e do Dom Quixote (Miguel de Cervantes Saavedra, 1547-1616). Na semana anterior, relera umas páginas de O Grande Mentecapto, rindo de cair, é de fazer a pessoa querer mudar-se para Ouro Preto, Mariana e adjacências, para talvez sentir no todo este livro maluco e engraçado, imaginando o personagem principal, o parvo Geraldo Viramundo, e o temível Montalvão, o manda-chuva nos bordéis sobre aquelas pedras inconfidentes. Então, ficamos assim: enquanto e onde houver gargalhadas, estaremos lá, todos salvos. Ave, Darlan, os que vão gargalhar te saúdam !

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Darlan M Cunha

OLHA, MARIA (Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Chico Buarque). Milton Nascimento canta, Tom Jobim, ao piano: https://www.youtube.com/watch?v=oJ3gLQFarig

ponto

Universidade UNI-BH (Medicina, Odontologia), bairro Buritis, BELO HORIZONTE

REUNIÃO ou ENCONTRO NÃO MARCADO

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O que vale é o caminho, a procura*

e aqui e ali e acolá e além-lá quase todos estão cientes

disso, alegres ou taciturnos, todos se acham normais*

mesmo diante do impasse não se pense

ou se diga a si mesmo e ao Outro

o verso que está no poema do espanhol Machado:

Caminante, no hay camino*

tudo é mutação, exige luta, ou nada seria digno de ser sequer

amorfo, fantasma ou redemoinho sem núcleo, sem força

centrípeta, nada, e que não se abalem os visionários

nem a trapezista no teto de seu mundo

cada vez mais alto, talvez, até vazio

embora com as estrelas roçando-lhe os cabelos, ó

la canción de las simples cosas*

adormece a casa onde tudo conflui contra o abecedário

das manhãs mal receptivas ao primeiro toque

do sol, à palavra inaugural do dia.

O que vale é a procura, o caminho – seja Sidarta ou Gêngis-Cã.

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Darlan M Cunha

ALUSÕES EXPLÍCITAS NO POEMA: 1. Cristileine Leão // 2. Márcio Borges, Lô Borges e Milton Nascimento // 3. António Machado (Esp.) // 4. Armando Tejada Gómez e César Isella (Arg.)


Sentimento

O incrível canarinho cantador MILTON SENTIMENTO >>><<< [Clique na foto e leia o poema por trás dela].
O repouso à sombra para o inenarrável canarinho cantador MILTON SENTIMENTO
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Há dias e dias, noites e noites nunca iguais, existindo sempre algum desejo refreado, uma ajuda descartada, não levada a sério uma viagem, os exames médicos à espera de que tudo piore. O que se sabe é que não é da índole de tudo o que vive viver sozinho, pois a interdependência é taxativa. O canário em questão nesta postagem não tinha o pé esquerdo.

     Há mais de uma década, o marido de uma prima minha deu ao meu pai um canário, e aí começou nova dependência na família, até mesmo na vizinhança, pelo modo incrível dele cantar, de maneira muito variada e extensa, e o chamei de MILTON SENTIMENTO, alusão ao muito querido MILTON NASCIMENTO.     

Ontem, domingo 17, fui trocar-lhe água e comida, e lá estava ele, descansando para sempre. Embrulhei-o e desci ao jardim do condomínio, o dia já quase de todo claro, hora certa dele iniciar sua cantoria benfazeja, e o enterrei debaixo de um arbusto, visível de uma de minhas janelas. Minha Mãe está numa tristeza só, o que nos remete de novo a pensar na dependência diante de outras criaturas – humanas ou não.

Fotos e texto: DARLAN M CUNHA

Comigo não, violão !

HANG_10 – Jogo da forca

(clique na figura, depois, lá dentro, clique em “comentário, e leia o poema)

Disse que só estará comigo quando chover canivete e o arco-íris for preto, e saiu rindo, fiquei vendo os apressados no celular, desatentos ao trânsito e a quem venha em sentido contrário pela calçada. Pois bem, telefonou de novo e disse, sempre com um sorriso em cada canto da boca: Ó, vou pensar no seu caso. Riu e desligou, meus ouvidos ficaram zunindo como se uma colmeia e mil cigarras morassem lá dentro, como se eu fosse o único culpado do mundo ser como está – só despedidas.

Darlan M Cunha

ENCONTROS E DESPEDIDAS (Fernando Brant // Milton Nascimento). https://www.youtube.com/watch?v=vLFHjw47nUc

OBSERVAÇÃO: A paisagem que aparece nesta gravação mostra a viagem de trem mais linda do Brasil , que vai de Curitiba à região de Paranaguá, Morretes, Antonina, dentro da Serra do Mar – fiz esta viagem e muitas outras, por isso posso comparar.

pois é

Fernando Sabino, Otto Lara Rezende, Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos  – escritores. BIBLIOTECA PÚBLICA DE MG – Belo Horizonte

[CLIQUE NA FOTO ACIMA]
Carlos Drummond de Andrade [farmacêutico] e Pedro Nava [médico] – escritores.
Rua Goiás, centro de Belo Horizonte, MG
Murilo Rubião, escritor, um dos fundadores do Suplemento Literário de MG. BIBLIOTECA PÚBLICA DE MINAS GERAIS. Belo Horizonte


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O amor contém glúten ? o amor se faz mímese de quê, sinônimo

ou antônimo de si mesmo ? o amor se faz antinomia e apostasia

de quantas necessidades humanas já demasiado distantes entre si ?

O que mais cansa no amor: o caos na cozinha e no banheiro

as flores murchas na copa, o aquário vazio

a dúvida à mesa, entre o copo com água e duas palavras,

um ímã inócuo com o vizinho ou vizinha, ou a espera infinita  

por areia e sol, deixando para trás, para o nunca, o vazio

já definido, talvez com seguro de vida garantido pelo velho retângulo ?

O amor contém luto ? dá votos, retira fotos? ele vive de quê, afinal ?

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Fotos e poema: Darlan M Cunha

CLUBE DA ESQUINA nº 1 >>> MILTON NASCIMENTO [Márcio Borges, Lô Borges, Milton Nascimento]: https://www.youtube.com/watch?v=YkLjtrJjXEM