Cidades – tijolo por tijolo num desenho ilógico

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Da antiquérrima cidade de Ur, na Mesopotâmia, passando por Ulm (onde nasceu Einstein, na Alemanha), passando pelo Rio Urubamba, no Peru, até chegar à tua cidade, que talvez já seja também cidade fantasma, como tantas outras mundo afora, embora com repartições públicas, igrejas, ginásios e cartórios, elas parecem cidades fantasmas, porque só há mortos enquanto convivência cotidiana, e por isso as cidades tornam-se ostras (daí a palavra ostracismo, vinda do idioma grego, devido a que na época grega clássica, os incômodos ou indesejáveis, como certos políticos, agitadores culturais e generais, eram banidos de Atenas, e tinham de se mudar, cumprir seu ostracismo.

Mas em muitas cidades ainda é possível ouvir gritos de amor fazendo residência aqui e ali e acolá e além-lá da praça, num barracão ou numa mansão, o amor na via pública (mas não reduzas a tua visão sobre o que ele é), eis a superintendente em informática, emaranhada com ene terabytes, eis outro artesão cumprindo-se como tal ao fazer uma nova peça, eis a doceira levando seus petiscos ao mercado, puro amor.

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Foto: Antje. Texto: Darlan M Cunha

Quem sabe isso quer dizer amor. MILTON canta (Milton e Lô): https://www.youtube.com/watch?v=oX2tbUm5Iig

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memórias despertam por conta própria, às vezes, atiçadas

Doces de mamão e de leite, queijo canastra e ameixa

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Vendo minha mãe que eu tinha frio, ofereceu-me chá […] Ela mandou buscar um desses bolinhos pequenos e cheios chamados madaleines...* (Marcel Proust).

Na nossa casa sempre se fez biscoitos de polvilho, coco, queijo, mandioca e chocolate, pudins, bolos, broas, pavês, e fazia-se manteiga, e nossa mãe nos dava uma cumbuquinha com manteiga fresca, feita em casa, e aí os irmãos ficávamos beliscando aquela delícia, e nada de passar mal, de ter diarreia. Ainda hoje, ao comer certos petiscos, lembro-me desta sensação que é a de nos fazer lembrar de certa época, da infância, pelo simples fato de se provar de novo uma gostosura, e a esta sensação o escritor Marcel Proust (Em busca do tempo perdido // À la recherche de les temps perdu) chamou de memórias involuntárias.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Ponta de areia (NASCIMENTO / BRANT). BADI ASSAD, violão.: https://www.youtube.com/watch?v=_BzlFX9s1LA

Ponta de areia (NASCIMENTO / BRANT). MILTON canta:. https://www.youtube.com/watch?v=ESEX-4H53X8

MAO – BH, 5

Carrancas

Carro de boi

Cangas ou cangalhas
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“Que é, que é ?: São doze irmãos em viagem, nenhum deles passa na frente do outro ?” (dito popular sobre os bois dos carros de bois).

Alceu Maynard Araújo. Folclore Nacional, vol. III, p. 335

Darlan M Cunha

Milton Nascimento canta Carro de boi (Cacaso e Maurício Tapajós). https://www.youtube.com/watch?v=gferQZd4s0I

Darlan visita Ai Wei Wei, nº 4

cor corar coral coralina corante quaral quarador

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a criança pensa e ultrapassa horizontes


Destas proposições, alguma há de restar: morrer sem um A ou um Z atrás de si, ou seja, sem herança – mas isto é impossível, porque todos deixamos rastros; ou viver conforme as novas leis, adaptações estas às quais é preciso atentar, ou ser um nerd, ou uma auto exilada social, e sabe-se lá o que mais. As crianças logo percebem o que as rodeia, e até mesmo notam o mais além do seu entorno imediato, mas cuidamos de tirá-las da opinião própria, de lhes dar logo no café da manhã um sim e vários nãos. Beber café, e ir ao que haverá, e também se bebe mágoas com água de coco e pedra de gelo, e se nada nos pode intimidar, isto se deve ao fato de se ter opinião própria (a garotinha na foto está com ela mesma). Feriado, o país está parado; se é dia de muda, vai à luta, ainda que vá pela metade, ou nem isso.

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O DIA COMEÇA É NA MADRUGADA


Míriam chegou sem alarde, talvez da montanha ou do mar

ou tenha vindo de algum lugar maior do que a imaginação,

silenciosa feito um peixe ou um feixe de sol nas paredes

ela veio e ficou, e nada parece incomodá-la, mas é preciso

estar atento aos traços de uma mulher, espertas por natureza

e por necessidade social, por sua necessidade de defesa

diante da História sempre desfavorável a elas. Mulher é menos ?

Não para essa Míriam, e para muitas outras, e assim ela vai

como um Don Quixote, de calça comprida, de bermuda ou nua

sob sol e chuva (“Com sol e chuva você sonhava” – diz a canção),

sorrindo dentro dos tênis brancos ela vai levando seu Enigma.

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Fotos e textos: Darlan M Cunha

Música: Tudo o que você podia ser. CLUBE DA ESQUINA (Milton Nascimento canta): https://www.youtube.com/watch?v=GGmGMEVbTAY

interrogante

Interrogação >>> [clique na foto e leia o texto por tras dela]

Encontrei essa interrogação num domingo de manhã quando ia zanzar no Parque das Mangabeiras, bem situado na base da famosa Serra do Curral del Rey [ao fundo] – o primeiro nome de Belo Horizonte. Uma alusão à serra está na música Clube da Esquina [nº 1]: ” E no Curral del Rey / janelas se abram ao negro do mundo lunar“. Pois é, aquele impacto inesperado foi grande demais, e fiz a foto, há uns dez anos. Ela continua florindo, rindo, enquanto posso me perguntar o que foi feito de mim, por mim, por tantos, tanto eu todo tudo tantas medidas, encontros e despedidas, mas a paleta sobre o cavalete não se esgotou, e agora mesmo o vermelho e o verde exigem que eu as misture, o que resultará na cor amarela. A noite não existe, nada de breu insistente se vê por aqui. Só de vez em quando, normal.

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DARLAN M CUNHA

O pequeno mentecapto*

Universidade UNI-BH — um dos laboratórios >>> [clique na foto e leia o poema no anverso]

SONHO e DELÍRIO: OLHAI OS DELÍRIOS DA ALDEIA

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@1

Quando eu nasci, ouvi: Vixe, qui minino feio, Santa Filomena ! Puro drama rindo-se à custa do novato, mas após eu beber colostro, a mãe disse: – Não liga, filhinho, são as invejosas de plantão, sabem que você é lindinho. Pois bem, mãe é mãe, é pão sovado, salgado, é doce de não haver doce igual (assim, carrega água na peneira para ela, sem desperdiçar uma gota, ou te haverás comigo, o Diabo em pessoa). E depois do que ela falou eu caí na real, e botei para quebrar, tudo fucei com a maldade na bile, investi em mim, que já era líndio, e hoje sou um espanto imune a quebranto. Mas eu ficava ainda mais solar era quando minha mãe me vestia de marinheiro, com direito a um gorro e a palavrões (estes, por conta própria), iguais aos que se ouve num convés, lá onde tudo acontece, o convés é a rua dos navios, e é por isso que se diz que roupa suja se lava é na rua. Voltando à minha efígie, já cunhada para uma coleção de moedas de ouro, para colecionadoras e colecionadores, lembro-me da canção cubana, alfinetando: Soy feliz // soy un hombre feliz // y quiero que me perdonen por ese día // los muertos de mi felicidad.*

@2

Reli trechos dos dois primeiros livros – A Mãe e o Filho da Mãe (1966), e O Menino e o Pinto do Menino (1967) – do mineiro Wander Pirolli (1931-2006), um dos fundadores do jornal Hoje em Dia. Raramente releio, com exceção a meus livros, de Lavoura Arcaica (Raduan Nassar) e do Dom Quixote (Miguel de Cervantes Saavedra, 1547-1616). Na semana anterior, relera umas páginas de O Grande Mentecapto, rindo de cair, é de fazer a pessoa querer mudar-se para Ouro Preto, Mariana e adjacências, para talvez sentir no todo este livro maluco e engraçado, imaginando o personagem principal, o parvo Geraldo Viramundo, e o temível Montalvão, o manda-chuva nos bordéis sobre aquelas pedras inconfidentes. Então, ficamos assim: enquanto e onde houver gargalhadas, estaremos lá, todos salvos. Ave, Darlan, os que vão gargalhar te saúdam !

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Darlan M Cunha

OLHA, MARIA (Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Chico Buarque). Milton Nascimento canta, Tom Jobim, ao piano: https://www.youtube.com/watch?v=oJ3gLQFarig

ponto

Universidade UNI-BH (Medicina, Odontologia), bairro Buritis, BELO HORIZONTE

REUNIÃO ou ENCONTRO NÃO MARCADO

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O que vale é o caminho, a procura*

e aqui e ali e acolá e além-lá quase todos estão cientes

disso, alegres ou taciturnos, todos se acham normais*

mesmo diante do impasse não se pense

ou se diga a si mesmo e ao Outro

o verso que está no poema do espanhol Machado:

Caminante, no hay camino*

tudo é mutação, exige luta, ou nada seria digno de ser sequer

amorfo, fantasma ou redemoinho sem núcleo, sem força

centrípeta, nada, e que não se abalem os visionários

nem a trapezista no teto de seu mundo

cada vez mais alto, talvez, até vazio

embora com as estrelas roçando-lhe os cabelos, ó

la canción de las simples cosas*

adormece a casa onde tudo conflui contra o abecedário

das manhãs mal receptivas ao primeiro toque

do sol, à palavra inaugural do dia.

O que vale é a procura, o caminho – seja Sidarta ou Gêngis-Cã.

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Darlan M Cunha

ALUSÕES EXPLÍCITAS NO POEMA: 1. Cristileine Leão // 2. Márcio Borges, Lô Borges e Milton Nascimento // 3. António Machado (Esp.) // 4. Armando Tejada Gómez e César Isella (Arg.)


Sentimento

O incrível canarinho cantador MILTON SENTIMENTO >>><<< [Clique na foto e leia o poema por trás dela].
O repouso à sombra para o inenarrável canarinho cantador MILTON SENTIMENTO
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Há dias e dias, noites e noites nunca iguais, existindo sempre algum desejo refreado, uma ajuda descartada, não levada a sério uma viagem, os exames médicos à espera de que tudo piore. O que se sabe é que não é da índole de tudo o que vive viver sozinho, pois a interdependência é taxativa. O canário em questão nesta postagem não tinha o pé esquerdo.

     Há mais de uma década, o marido de uma prima minha deu ao meu pai um canário, e aí começou nova dependência na família, até mesmo na vizinhança, pelo modo incrível dele cantar, de maneira muito variada e extensa, e o chamei de MILTON SENTIMENTO, alusão ao muito querido MILTON NASCIMENTO.     

Ontem, domingo 17, fui trocar-lhe água e comida, e lá estava ele, descansando para sempre. Embrulhei-o e desci ao jardim do condomínio, o dia já quase de todo claro, hora certa dele iniciar sua cantoria benfazeja, e o enterrei debaixo de um arbusto, visível de uma de minhas janelas. Minha Mãe está numa tristeza só, o que nos remete de novo a pensar na dependência diante de outras criaturas – humanas ou não.

Fotos e texto: DARLAN M CUNHA