Para subir na vida, um cajado por empréstimo, sim, pergunte ao Dr. Fausto, o Diabo é solícito

Buritis

Buritis, Belo Horizonte, MG

*****

 

       Crer ou descrer passa por não saber, lá onde a dúvida ainda é soberana, algo normal fluindo seu magma, de leve, até que a pressão seja maior do que a boca, e então a boca explode palavras como pedras em chamas sobre as camas os asfaltos os consultórios os estádios, enfim, a boca toma juízo, e se cumpre, botando verbos pelo avesso, degolando  sintaxes, pobres adjetivos – ele é bom, ela é má -, seccionando colhões de advérbios e pronomes, é isso: crer ou descer e ficar na apatia, enquanto o mundo vasto mundo inventa moda atrás de moda.

 

*****

foto e texto: Darlan M Cunha

Leia-me no Poem Hunter: https://www.poemhunter.com/poem/mimesis-and-symbiosis/

Anúncios

sobre as marés e o psiquismo: lua

DSC02126

lua em agosto

*****

 

A lua em agosto é grande foco de leituras diversas

um olho nos dentes da aldeia cujo corpo de texto

se arrasta, difícil, indócil cada vez mais

a palavra se afasta da palavra, todo o sem nexo

pairando sobre a arquitontura geral com indícios

de razias, rachas sobre quatro borrachas, a aversão

de sua luz pelo que jaz na estante, decerto que nada importa

ao olho de agosto, cheio de si, rumo a ser minguante.

*****

foto e poema: Darlan M Cunha

 

Onde os queijos não marcam ponto

Mercado 4

Mercado Central de Belo Horizonte

***

     Fui ao mercado comprar geléia de mocotó, pimentas variadas (tem até indianas, mais quentes do que a mansão de Belzebu), farinha de rosca, cachaça, queijo canastra de São Roque de Minas (compro também de outras cidades), e camisetas com motivos mineiros.

     Feito isso, fui ao Bar do Mané Doido – quase tão famoso quanto o próprio mercado no qual atende – e, entre umas e outras, petiscos preparados na hora, ouvi uma palavra que havia muito tempo eu não a ouvia. Sururucar tanto significa peneirar grãos, quanto rebolar, menear, saracotear, gingar. Pois é. Imediatamente, lembrei-me de uma palavra semelhante, que não consta do dicionário (não encontrei), mas ela está no livro Maíra, de Darcy Ribeiro, e a palavra é sururucucar, se não me falha a memória.

    Aí, entre outras e umas, risos, petiscos & lambiscos, palavras amontoaram-se em torno da mesa e, sem pedirem licença, entoaram sua voz, e ouvimos abisntestado mocorongo gusano nédio absconso carraspana edil bacabal estróina tinhoso cerúleo abespinhado abio sacripanta sastre sacarrão poltrão estrupício e estropício miasma ningres-ningres nênia calipígia… até que um alarido ecoou e me alertaram quanto à esposa-que-não-tenho me chamando em altos brados pelos corredores cheios de sons, cores e odores, e ela (presumo) com vestido de chita, rodado, rolinhos na cabeça, olhos injetados, varizes e sabe lá o diabo o que mais. Escapei de boa, por pouco, como se diz em latim: Paucas sed bonas.

***

foto e crônica: Darlan M Cunha

Coisas da minha terra – 4

DSC01693

*

     Na minha terra, usos e costumes não se perdem assim assim, não, por aqui o critério de perda não se resume na perda em si, vai mais além do fato de, por exemplo, de alguém esquecer um livro, uma sacola, a carteira, algum presente sobre um balcão qualquer, nos tantos lugares aos quais se vai todos os dias (perdi a conta dessas perdas), portanto, o pensamento em geral é de que perdeu-se o vazio da carteira, identidade e tudo lá dentro, mas não se perdeu a identidade que nos faz únicos, conhecidos ou desconhecidos da massa, enterrados num anonimato aceitável, ou pendurado numa potente lâmpada de led.

     Minha terra não tem palmeiras, muito poucas, que o mar é longe (nunca vi o mar, dizem que é bonito, dizem também que é bicho grande e mau, e que há quem nada pelado, no mar aparecem baleias adoidado, calipígias gingando nas marés alta e baixa, e tubarões famintos por uma aventura, piranhas não há no sal do mar). Pois é, aqui, nessa terra de minérios sem fim, o que se vê é um mar ou oceano de esculturas e pinturas ditas do Barroco, mas sou homem oco, só fico assim sentado, pasmado, mau olhado, ilhado, cercado de saudades por todos os lados, quase de todo largado por aí, asfixiado debaixo de tanta igreja. Mas vou ao BarTolo, pois nem mineiro é de ferro. Um ditado bem mineiro diz Tem isso aí ?” “Tem, mas acabou.”

*

foto e texto: Darlan M Cunha

caras & bocas

Maurino Araújo - Museu Afro Brasil

Caras e bocas todos temos, às vezes, usamos várias por dia, dependendo do assunto no qual a pessoa se mete, dependendo do ambiente ao qual tenha sido ou não tenha sido convidada, e esteja sentindo-se fora de foco, sendo necessário usar uma cara ou uma boca diferente, para talvez girar a situação a seu favor, ou simplesmente escafeder-se das companhias estranhas ao seu saber, à sua ignorância.

Viver de amor, diz uma canção, mas vive-se bem sem amor à vista, é o que parece, dado o número de gente sem ter com quem trocar certas dúvidas mais sérias, e alegrias às tantas da madrugada, ou consertar o estrado da cama, e coisas do gênero, as quais só mesmo quem se acha feliz pode perceber com detalhes.

Há alguns meses entrei na série de museus que estão localizados na praça da liberdade, em belo horizonte, uma área e um conjunto de prédios governamentais todos eles reformados e adaptados para serem museus. Uma beleza. Num deles vi alguns trabalhos do Maurino Araújo, pessoa de trato ameno, artista de fato com A maiúsculo (não o vejo pessoalmente há anos). Fiquei ali uma vez mais frente a algumas peças de sua autoria, e sempre que vejo obras de qualquer tempo da cepa mineira, barroca ou não, eu me espanto com a cara de espanto das figuras, todas elas imersas num não sei quê de pasmo com a existência, algum sofrimento maior do que o sofrimento físico perpassa a cara daquelas criaturas. E então digo a mim mesmo que eu gostaria de ter vivido naquele tempo – mas desde que eu tivesse constantemente a consciência plena de como seria o tempo ou a era de hoje.

Bom, este assunto torna-se até interessante, caso a gente se lembre da diversidade diária de caras feias e bocas torcidas que não nos desejam nem bom-dia e nem boa-noite. Sim, as pessoas estão com muita pressa de dizer que estão mortas. Mas onde será que se reunem tais tipos de mortos ?

Texto: Darlan M Cunha
Imagem: obra de MAURINO ARAÚJO (Rio Casca, 1943 -, MG, Brasil)

O BANHO DA INTERNET NAS EDITORAS

Comidas em Minas Gerais

Comidas em Minas Gerais

Estava eu assitindo ao programa do muito sagaz, e sempre de bom humor, cantor, compositor, escritor (Quando Se Olha Pra Dentro, De Versos, Dois Mundos) e artista plástico (pintura) Paulinho Pedra Azul, no programa comandado por ele na BHNEWS TV (Belo Horizonte, canal 009 NET), de nome “O Tom da Palavra”, no qual ele entrevistou o velho amigo dele, Roberto Lima, editor do jornal Brazilian Voice (USA), jornal dedicado à colônia brasileira, nos EUA (outros jornais com o mesmo fito que há por lá, como o Framingham City); e o citado editor disse algo sobre, digamos, a nova percepção que as pessoas têm acerca de poderem preparar e divulgar e vender, elas mesmas, seus próprios trabalhos musicais, pictóricos, literários, etc, via Internet, e que por esta e por outras causas além dessa aqui colocada, segundo ele, mostra que  “a Internet está dando um banho magistral na indústria editorial.”

Darlan M Cunha

BELO HORIZONTE DE CANÇÕES

O AR EM SEU ESTADO NATURAL
(Textos sobre letras do Clube da Esquina)

Aqui está o meu mais novo livro – um misto de pequenas crônicas, vou assim chamá-las, entremeadas com poemas. As pessoas já familiarizadas, ou não, com as emoções do Clube da Esquina, com suas canções, as entrevistas, as fotos, os casos engraçados, terão aqui um pouco de petiscos para saborear, petiscos com os quais assentarem-se à mesa, eu espero. Nada de entrevistas, de fotos. Escrevi o livro com a leveza necessária, com a leveza de quem percebe que a amizade é gênero de primeira necessidade, devendo estar na mesa de todos, algo de cesta básica, e este sentimento está presente em toda a obra do referido clube, de modo explícito ou subreptício, ou seja, é como está no livro: o que está sendo apreciado no livro é “o conceito de amizade”, e não própriamente a repetição dessa palavra, do termo, do substantivo amizade nas letras do Clube, e não só nas letras, porque é notória a amizade continuada até hoje, após virem filhos e filhas, viagens, carreiras em separado, etc, é notório este exemplo, tendo como paralelo de longa e produtiva amizade o MPB-4 e Os Cariocas. O conceito é o que vale, e é disso que este  livro trata, sem pretender nem mesmo de longe esgotar o assunto. Amigo é coisa pra se guardar debaixo de ene chaves. Te amo, espanhola.

A idéia surgiu de repente, embora o meu Inconsciente estivesse fustigando-me havia tempos acerca desse tema. Morei vinte e nove anos na Floresta, na região que eu sempre chamei de os bairros irmãos: Floresta/ Santa Teresa/ Horto/ Sagrada Família e, mais distante, dois outros bairros irmãos: Lagoinha e Cachoeirinha, região reduto de músicos e artistas plásticos, região que é casa do excepcional grupo de bonecos Giramundo, criado e desenvolvido pelo professor Álvaro Apocalypse e sua esposa Teresinha Veloso. Ora, tempos depois, por ali surgiu o hoje também internacional Grupo Sepultura. Para completar, sem esgotar o assunto, a excelente rapaziada do também internacional Skank, moçada que não se cansa modestamente de dizer que beberam e comeram na fonte musical do Clube da Esquina. Água de beber, bica no quintal, sede de viver tudo.

E assim iniciei o livro, o qual ficou pronto em poucos dias, mantendo o cuidado extremo de fazer com que ele não resvalasse para o pieguismo, para agrados a conhecidos, amigos, ex vizinhos; tive o cuidado de dosá-lo de tal forma a que uma pessoa de outro estado, de outro país, de outra latitude e longitude possa lê-lo, sem que a essa pessoa seja necessário procurar dicas em mapa, dicionário ou enciclopédia. Tenho inexcedível apreço pela minha literatura, e não posso sujá-la de forma alguma, até porque intrínseco a ela, dentro dela estão o meu saber e a minha honradez. Bom, acho melhor ir à macarronada do Bar do Bolão, em Santa Teresa, isso porque amigo é coisa pra se guardar. Da janela lateral do quarto de dormir. Não se espante assim meu moço com a noite do meu sertão.

Os textos surgiram sem maiores esforços, sim, eis que os títulos surgiam e diziam: eu sou o título, e estamos conversados. Fazer o quê ? Muitos deles fazem alusões diretas ou explícitas a títulos de canções, bem como no seio de todos os textos há um ou dois ou mais pequenos trechos ou frases de alguma canção, sem que isto configure cópia, ou plágio. Completamente fora de questão. Porque vocês não sabem do lixo ocidental.

Sim, escrever este livro foi como bebericar uma cachaça com torresminhos, comer ora pro nobis com angu, algo assim de frango ao molho pardo, isto se o pão de queijo deixar espaço na já volumosa pança dos glutões e glutonas. Mas quem, em sã ou sob má consciência, ou até mesmo inconsciente ou dormindo, resiste a tais delícias ? Lembro-lhes aqui a senha dos Inconfidentes, todos já se preparando em surdina para o grande dia da Derrama, com aquela que, hoje, é frase famosa: Tal dia é o batizado. É, mas eles bem que poderiam ter escolhido também esta simpática senha: O pão de queijo está no forno.

Pelo que sei, ainda não se escrevera algo assim acerca deste clube, não obstante textos de primeiro time tenham sido publicados sobre o mesmo. Recomendo, por exemplo, o excelente livro da Andréa Estanilau, Coração Americano – 35 anos do álbum Clube da Esquina, assim como recomendo a leitura (como não, uai ?) do livro que é, sem dúvida, um verdadeiro memorial acerca do assunto, escrito de dentro, do âmago: Os Sonhos Não Envelhecem, do Márcio Borges, e também o belo livro Palavras Musicais, do Paulo Vilara, entre outras publicações merecedoras de respeito. Clareia, manhã. Olha, eu não faço fé nessa minha loucura.

Sim, de tudo se faz canção e caução, e o meu pão de queijo saiu do forno.

DARLAN M CUNHA

(Textos sobre letras do Clube da Esquina)