Um lugar para todos: histriônicos, felinos, paus-mandados, frenéticos do sexo pro- agressivo, artífices das flores do mal, de solstícios e equinócios repintados à mão [falsos]; sinônimo de perigeu, há porcos-espinho, víboras e salamandras, salários sem crédito, motoristas a soldo da firma A Inenarrável Algazarra da Morte, enfim, eis um lugar para além do bem e do mal – pois é na rua que as coisas acontecem

Minha Neguinha 1

uma das “namoradeiras” de Sabará, MG, Brasil

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LETRAS DE MÚSICAS

Eu faço samba e amor até mais tarde, não tenho a quem prestar satisfação. Escuto a correria da cidade, que alarde, será que é tão difícil amanhecer ? (Samba e amor. Chico Buarque)

Era um homem que vivia lá com seus botões. Sempre dizia que ser homem não é só ter colhões – tem-se que viver, enfrentar a corrente, desde cedo (Um homem, por dentro. Darlan M Cunha)

Desilusão, desilusão, danço eu, dança você, na dança da solidão (Dança da Solidão. Paulinho da Viola)

Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor (Nelson Cavaquinho // Guilherme de Brito  // Alcides Caminha

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foto: Darlan M Cunha

uma casa de pernetas, daltônicos, gagos, lábios leporinos, fans de rock proagres- sivo, estudiosos de minhocas e do bicho-da-seda, duetos do globo da morte – a rua

a luta

Ó vida, margarida !

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Eu quero é botar meu bloco na rua
gingar, pra dar e vender*

     Numa das muitas vezes em que passei pela avenida Nossa Senhora do Carmo, BH, um pouco desviado da minha rota mais comum para casa, deparei-me com esta cena, nem digo espetáculo. Todos já viram este cenário, palco, luta de gente botando seu bloco, seu oco nas ruas, até porque é preciso estar atento e forte. É a cabeça, irmão.

     Assim como a rua é uma casa muito engraçada, também é memória de panos negros, de painéis de cabeça para baixo, um grito parado no ar, e logo ali num bar as conjecturas, as filosofias de mal casados, descasadas, separadas, amaziados, desquitados, roedores de unhas (onicofagia), e por aí vai este longo rosário de sapatos cheios de pedrinhas que a suicidade comporta.

     Eu também quero botar meu ovo na rua.

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foto e texto: Darlan M Cunha

VISITE: https://www.poemhunter.com/darlan-m-cunha/

batente

batente

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    Nada como a sátira. Eu estava chegando em casa (moro no último), subia algo contente os degraus da vida (ou descia, sei lá), quando encontrei essa beleza, ri, fotografei, e agora reparto este aviso: “Vai buscar”.

*

Foto e texto: Darlan M Cunha

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Minha percepção das coisas, dos instrumentos com os quais construímos e destruímos o mundo, refina-se com estas quatro poetisas, ou poetas, como uns preferem:

Mariana Ianelli –  https://www2.uol.com.br/marianaianelli/index.htm

Denise Emmerhttps://www.letras.com.br/busca.htm?buscar=denise+emmer

https://deniseemmergerhardt.blogspot.com.br/

Hilda Hilsthttp://www.hildahilst.com.br/

Adélia Prado – http://www.poesiaspoemaseversos.com.br/adelia-prado-poemas/

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Sugiro que ouça Arthur Moreira Lima, Paulo Moura e Heraldo do Monte – juntos: https://www.youtube.com/watch?v=NayDac-xLi4

Tiques da minha gente – 5

aldeotas

infinity: ∞∞∞ //  terra de homens ocos  //  city of hollow men

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     Na minha terra tudo se pode: cantar de galo, cantares de amor, descartar pai e mãe, padrasto e madrasta, avós e consorte, e se pode atolar o indicador no bolo, abrir e fechar enterros com frevo ou pagode, e não há feriado de espécie alguma, mas é desejável que cada um se aplique ao ofício do outro, bem como é altamente recomendável que ninguém se feche em casa, sob pena de moção de censura geral, porque deve-se mostrar a cara, a que veio ao mundo: jogar, beber, fornicar, viajar e, se possível, trabalhar (competindo cada vez mais com robôs), é isso, na minha aldeia a música grita, não há padres nem delegados e os impostos prediais e de automóveis foram banidos, não há automóveis, a não ser os ônibus escolares, e todos têm o Triste Fim de Policarpo Quaresma e o Dom Quixote nas estantes e na cabeça.

     Para se unir, os pares não têm dificuldade, pois é só reunir qualquer número de cidadãos ou cidadãs – a partir de duas pessoas – que a união estará legitimada pela aldeia, nos três sentidos: masculino-feminino, masculino-masculino, feminino-feminino. Mas ainda nos resta dizer que nunca mandaremos ninguém daqui para a lua ou para marte. Quem tomaria conta do rio que aqui nasce, das árvores cheias de si, pássaros sem fim ?

     Em tempo: todos se lembram de quando os refrigerantes foram expulsos, de quando os jornais fecharam, a tevê é piada ruim, mas os carrinhos de bebês fazem a ronda nas praças ruas avenidas becos pinguelas pontes pontilhões e rampas, farra de decibéis. Bicicletas e parapentes. O jejum é bem visto, que o mundo precisa de faquires. Aqui se dorme pouco, como diz a música, é preciso estar atento e forte.

*

Fotos e texto: Darlan M Cunha

Montagem feita online com PHOTOFUNIA: https://photofunia.com

soberbas letras – 5

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Ruas Paraisópolis e Divinópolis, bairro Santa Teresa – BELO HORIZONTE, MG, Brasil

CLUBE DA ESQUINA nº 1                                                                                        

(Márcio Borges / Lô Borges / Milton Nascimento)

 

Noite chegou outra vez, de novo na esquina
Os homens estão, todos se acham mortais
Dividem a noite, a lua e até solidão
Neste clube a gente sozinha se vê, pela última vez
À espera do dia naquela calçada
Fugindo de outro lugar.

Perto da noite estou,
O rumo encontro nas pedras
Encontro de vez, um grande país eu espero
Espero do fundo da noite chegar
Mas agora eu quero tomar suas mãos
Vou buscá-la onde for
Venha até a esquina, você não conhece o futuro
Que tenho nas mãos.

Agora as portas vão todas se fechar
No claro do dia, um novo encontrarei
E no curral D’el Rey
Janelas se abram ao negro do mundo lunar
Mas eu não me acho perdido
Do fundo da noite partiu minha voz
Já é hora do corpo vencer a manhã
Outro dia já vem, e a vida se cansa na esquina
Fugindo, fugindo pra outro lugar.

*               

Ouça AQUI: https://www.youtube.com/watch?v=PH7NdNBFeX4

O CLUBE DA ESQUINA nunca foi lenda, ao contrário, é uma realidade bem plasmada, muito bem conceituada mundo afora, orgulho de quem pensa claro, de quem percebe a força da palavra, e também do silêncio que existe entre os acordes, cientes de que as palavras se entendem e se desentendem, mas, com isso, criam algo novo, e o CLUBE DA ESQUINA  sempre teve e ainda conserva com grande contentamento seu convívio com as letras, com o bom humor e, principalmente, com a pedra-base da amizade.

Foto e texto: Darlan M Cunha

soberbas letras – 4

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Entenderem-se, ou não.

AS APARÊNCIAS ENGANAM                                                                             

(Tunai  // Sérgio Natureza)

 

As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões
Os corações pegam fogo e depois não há nada que os apague
se a combustão os persegue, as labaredas e as brasas são
O alimento, o veneno e o pão, o vinho seco, a recordação
Dos tempos idos de comunhão, sonhos vividos de conviver

.
As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio se irmanam na geleira das paixões
Os corações viram gelo e, depois, não há nada que os degele
Se a neve, cobrindo a pele, vai esfriando por dentro o ser
Não há mais forma de se aquecer, não há mais tempo de se esquentar
Não há mais nada pra se fazer, senão chorar sob o cobertor

.
As aparências enganam, aos que gelam e aos que se inflamam
Porque o fogo e o gelo se irmanam no outono das paixões
Os corações cortam lenha e, depois, se preparam pra outro inverno
Mas o verão que os unira, ainda, vive e transpira ali
Nos corpos juntos na lareira, na reticente primavera
No insistente perfume de alguma coisa chamada amor.

***

Tunai, irmão mais novo do compositor e cantor João Bosco, assim como o irmão, também estudou engenharia na famosa Escola de Minas de Ouro Preto. Sérgio Natureza compôs algumas canções com Tunai, inclusive esta que, para mim, é um dos pilares básicos da MPB, enquanto letra e melodia. Ele também compôs e gravou com Paulinho da Viola.

Foto: Darlan M Cunha

Ouça AQUI: https://www.youtube.com/watch?v=5h7YrvmxklY

soberbas letras – 3

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Escrevendo e desenhando com os pés

*

ÚLTIMA FORMA

(Paulo César Pinheiro – Baden Powell)


É como eu falei: não ia durar
Eu bem que avisei, vai desmoronar
Hoje ou amanhã, um vai se curvar
E graças a Deus não vai ser eu quem vai mudar                                                                                Você perdeu

E sabendo com quem eu lidei
Não vou me prejudicar, nem sofrer, nem chorar
Nem vou voltar atrás, estou no meu lugar
Não há razão pra se ter paz
Com quem só quis rasgar o meu cartaz                                                                                            Agora pra mim você não é nada mais

E qualquer um pode se enganar
Você foi comum, você foi vulgar
E o que é que eu fui fazer
Quando me dispus te acompanhar                                                                                                   Porém pra mim você morreu
Você foi castigo que Deus me deu

Não saberei jamais
Se você mereceu perdão
Porque eu não sou capaz
De esquecer uma ingratidão
E você foi uma a mais

E qualquer um pode se enganar
Você foi comum, você foi vulgar
E o que é que eu fui fazer
Quando me dispus te acompanhar                                                                                                   Porém pra mim você morreu
Você foi castigo que Deus me deu

E como sempre se faz
Aquele abraço, adeus, e até nunca mais.

*

foto: Darlan M Cunha   ///   visite: PALIAVANA 4    ///   Ouça AQUI, com MPB-4 e CAUBY PEIXOTO: https://www.youtube.com/watch?v=xvZ80CKsvzM

soberbas letras – 1

passaros

Assunto em pauta

(para CHRONOSFER, para TODOS e TODAS)

*

POIS É, PRA QUÊ ?

 

O automóvel corre, a lembrança morre
O suor escorre e molha a calçada
A verdade na rua, a verdade no povo
A mulher toda nua, mas nada de novo
A revolta latente que ninguém vê
E nem sabe se sente, pois é, pra quê ?

O imposto, a conta, o bazar barato
O relógio aponta o momento exato
da morte incerta, a gravata enforca
o sapato aperta, o país exporta
E na minha porta, ninguém quer ver
Uma sombra morta, pois é, pra quê ?

Que rapaz é esse, que estranho canto
Seu rosto é santo, seu canto é tudo
Saiu do nada, da dor fingida
desceu a estrada, subiu na vida
A menina aflita ele não quer ver
A guitarra excita, pois é, pra quê ?

A fome, a doença, o esporte, a gincana
A praia compensa o trabalho, a semana
O chope, o cinema, o amor que atenua
O tiro no peito, o sangue na rua
A fome a doença, não sei mais porque
Que noite, que lua, meu bem, pra quê ?

O patrão sustenta o café, o almoço
O jornal comenta, um rapaz tão moço
O calor aumenta, a família cresce
O cientista inventa uma flor que parece
A razão mais segura pra ninguém saber
De outra flor que tortura, pois é, pra quê ?

No fim do mundo tem um tesouro
Quem for primeiro carrega o ouro
A vida passa no meu cigarro
Quem tem mais pressa que arranje um carro
Pra andar ligeiro, sem ter porque
Sem ter pra onde, pois é, pra quê ?

*

foto: Darlan M Cunha

SIDNEY MILLER (RJ, 1945-80) foi um excelente letrista, coisa rara, tendo escrito canções como A estrada e o violeiro, também esta com uma letra irrepreensível. Poucos jogam nesse time de letristas da MPB: Chico, Brant, Aldir, Tom, Edu, P. C. Pinheiro, Satler, Cartola, Caymmi, etc. Muito embora a trajetória dele tenha sido curta, ela nos mostra de um modo inequívoco a sua categoria musical. Trabalhou na Funarte. Gravou o disco Línguas de fogo (1974). Suicidou-se, aos trinta e cinco anos.

Som

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com MARILTON BORGES, irmão mais velho dos irmãos Borges: MÁRCIO BORGES, LÔ BORGES, IÉ, SOLANGE…etc (CLUBE DA ESQUINA), são 11 irmãos e irmãs. Bairro Santa Teresa, BHte, MG, BRasil. Ao fundo, à direita, o Bar do MARILTON, grande músico, pianista.

*

O intento do viajante é ir, porque ir é o melhor remédio
mas é certo que o trajeto a ser cumprido pelo passageiro
não pode ser de todo contado – pelo fato de que bons
e maus imprevistos acontecem quando se vai ao distante
horizonte, às terras do Nunca, avisos em idiomas nunca sentidos
na pele, e assim, no íntimo do viajor vão as alegrias mais sãs                                                  numa noite fria num banco de ferroviária ou num banho
gelado num banheiro 2×2, uma tempestade, um acidente ou
algo como o que se passou no conto La autopista del Sur (Cortázar),
sim, é preciso ir, trocar de roupa como as cobras, ir de déu em déu
descobrindo certos infernos, descobrir ou esquecer o céu.

***

 Foto e texto: Darlan M CUnha

Darlan M Cunha
(poema escrito especialmente para a página ChronosFer, no WORDPRESS,e repetida aqui).

Conto(s) com o diabo dentro

https://scribatus.files.wordpress.com/2009/05/diogenes2.jpg?w=304&h=474Kackar Jourrney Sept 2007 087. Foto by Breno Bastos

Filósofo grego Diógenes, o Cínico (413-323 a.C.)

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       Desde garoto eu leio o que os gregos antigos escreveram, e o que sobre eles foi escrito, sobre a Grécia clássica. Li dezenas de livros a respeito, e nada e ninguém me atraiu mais, e ainda atrai, do que a figura do filósofo Diógenes, o Cínico. Ora, só esta alcunha vale uma vida toda. Pense nisto: em ser chamado de Cínico, reverenciado como sendo “o que chuta o balde”, que vive incólume entre as forças centrípeta e centrífuga, palitando os dentes com o vento, junto com seu amigo cão, um pulguento decerto de fácil convívio, de ser capaz de ir às profundezas da filosofia cínica expressada pelo seu amigo, e não dono ou patrão Diógenes de Sínope (Sínope, hoje, é uma cidade turca).

       Conta-se que Alexandre Magno, que derrotara os gregos, ouviu falar do temido e amado cínico, o qual vivia perto do porto de Atenas, dentro de um grande barril. Foi até lá, com seus mil soldados vezes mil, e a ele ofereceu todas as benesses imagináveis, mas o solitário lhe pediu que ele e o cavalo não lhe tapassem o sol. Só restou ao maior conquistador de toda a História retirar-se, compreendendo a grandeza do pedido: “Estou tomando sol, e ele você não me pode dar.”

     Diógenes foi capturado e vendido como escravo a um nobre, que o incumbiu de educar seus filhos. Mas ele ficou mesmo famoso até hoje pelo que se conta de que ele andava pelas ruas de Atenas, em pleno dia, carregando uma lamparina acesa, à procura de um homem verdadeiramente livre, não um a mais no rebanho (lembrei-me da música do Gilberto Gil e Dominguinhos, a qual eu toco e canto, música esta escrita cerca de dois mil e trezentos anos depois de Diógenes, embora sem nenhum conotação consciente quanto a isso, no que toca a essa parte de se ser parte do “rebanho”, quando foi escrita: Lamento sertanejo).

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OBS.: Conto(s) com o diabo dentro é um dos possíveis títulos para um dos meus livros, já pronto.

Imagens: 1. John William Waterhouse. 2. Breno Bastos

Crônica: Darlan M Cunha, um cínico