clima & clima

BALADA

O passageiro disse algo sobre o fato dele ter voltado da cidade histórica onde morara, e para onde não ia havia muitos anos, e estranhou não ter visto cerração ou neblina, comum naquela época, e o taxista concordou, e também com a observação de que não se via nem sombra de pirilampos (aos milhares), o bom homem concordou, diminuiu a marcha, e o passageiro arrematou dizendo que nenhum som de saparia viera da beira do rio nas noites nas quais ficara por lá, e o bom homem, uma vez mais, e cada vez mais cabisbaixo, murcho, concordou, até porque é irreversível. Pagou, agradeceu e entrou em casa assobiando uma canção que também já não existe.

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ESCRITOR URTIGÃO

E foi assim que aquele passageiro da agonia – há outros, de muitos outros tipos, com outras alergias, outras ausências – ficou em casa assobiando uma música que já não existe.

Darlan M Cunha

MPB-4: Pesadelo (Paulo César Pinheiro / Maurício Tapajós): https://www.youtube.com/watch?v=1l7JMQMUMQw

imo

Duas fontes de luz // Two sources of light.

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Cheguei antes de minha mãe e de meu pai, sim, sou anterior até a mim mesmo, mas não criei nada, nada me deve sua existência – talvez algumas gotas de dor, de apreensão, se não oceanos de angústia. A canção diz, não diz, desdiz, rediz, e assim também é o poema dentro e fora do queira-não-queira, viver é o que há. Pegue, e não largue estes ossos, estas escamas, este metal incandescente que é o amor (há muitos tipos de amor), o couro que te cubra do frio social. Nasci num dia sem nome e sem sobrenome, dia sem data, cheguei nu, o choro é o nosso primeiro conhecimento, e é só depois que o peito nos dói é que vamos ao primeiro leite – colostro –, e daí então se vai ao primeiro e único sono verdadeiro de toda uma existência por vir. Nasci sem ter nascido, nasci antes do Todo, do Nada, do Algo Consta.  Mãe é Mãe. Olha, está chovendo na roseira.*  

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I came before my mother and father, yes, I am before even myself, but I created nothing, nothing owes me its existence – maybe a few drops of pain, of apprehension, if not oceans of anguish. The song says, doesn’t say, un-says, redictates, and so does a poem in and out of want-not, living is what there is. Take it and don’t let go of this bone, these scales, the leather that covers you from the social cold. I was born on a day with no name and no last name, a day with no date, I arrived naked, crying is our first knowledge, and only after the breast hurts do we go to the first milk – colostrum – and from there to the first and only true sleep of an entire existence to come. I was born without being born, I was born before the All, the Nothingness, the Somethingness. Mother is Mother. Look, it’s raining on the rosebush. *

Darlan M Cunha

*: A última frase desse texto é um verso que está em Chovendo na roseira, de TOM JOBIM. **: Tradução feita com DeepL.com

Yo-Yo Ma toca o Prelúdio da Suíte nº 1 para violoncelo, de Johann Sebastian Bach: https://www.youtube.com/watch?v=q2ZHjSA8mkY

caneca

café com canela em pau

Realista é uma coisa, revoltado é outra. Isso não quer dizer que um realista também não tenha revoltas.” Conceito emitido no Bar do Manoel Doido, Mercado Central de BH.

@2.

sensaborão, lustre, apneia, xibiu, zinabre, atávico, pitimba, insosso, blefe, senil, quartã, perorar, femural, lio, errático, nódulo, macruro, micruro, anuro, taiobal, bacurau, guaiamum, poã, úvula, glote, abilolado, simbiose, xisto, chiste, aluá, timbó, factual, crisol, cisto, cooptar

@3.

Em tempo de pedras, recolher o inútil esforço, e aplicar o que restou em procurar água e luz. Em tempos de cólera, de ira desvairada, entender que no fundo do poço do Homem lá está ela: a ira, nadando, esperando oportunidade. Num tempo sem tempo – como este – tornar-se peixe ou passarinho ou pipa, porque os três flutuam.

Darlan M Cunha

FAMÍLIA ASSAD – Medley of Sambas: https://www.youtube.com/watch?v=kJdMy65_tKo

Carta à Mãe – 144

Buritis, BHte, 2020

Dona MARIA,

pessoas como a Senhora, por serem raras, ou de não se encontrar em todas as esquinas do mundo, nos desertos, no Ártico ou na Antártida, onde, em teoria, não há esquinas e outros tipos de divisões, devem sair às ruas todos os dias, sim, para iluminá-las, e, assim como está no título do muito querido José Saramago, modificar o Ensaio Sobre A Cegueira, que há tanto tempo, desde sempre, é marca registrada da humanidade, é isso aí… puxa, 88 anos !

Domingo, de carona, para ir visitar a Dona MARIA… ora, MÃE É MÃE.

Mãe Mãinha,

ah, sei que a Senhora gostou da saia colorida, que eu sempre compro para a Senhora, que ama as flores, sei disso, ainda quando eu morava no útero, reclamando do mundo, eu não me chamo só Raimundo, dizendo horrores do lugar para onde eu iria, e vim, e todos viemos. Pois é, ponho a mão em pala na testa, e vejo coisas boas, mas vejo também muito breu, mas tenho mais fórmulas e táticas ainda não usadas, e os bons como a Senhora vencerão. A Senhora, que é tão dada aos outros – conhecidos e desconhecidos -, bem nos ensinou isto.

O asseio constante… Dona MARIA não tem empregada.

Vovó Bisavó Trisavó MARIA JOSÉ,

têm biscoitos e bolo por aí ? Se tiver, irei; mas se não tiver (duvido), irei, do mesmo jeito. Ó, estou precisando de sentar-me devagar, sem barulho, para tentar me recompor de mais um susto que o meu coração fraco levou agora de manhã, na feira, sim, Mãe, os preços estão mais altos do que fumaça de jato, corri atrás, mas só deu para trazer uns verdes: ora-pro-nobis, taioba, couve, e tomates e pepinos, pacote de arroz (2 kgs), três quilos de carne para cozinhar – porque dura três, quatro, cinco dias, e até que o gás por aqui não esta tão caro: somente R$ 73,00 (fiquei sabendo que em Brasília, um butijão de gás já passou dos 110, 120…). Ó, chega lá pelo dia 20, seu menino já está rastejando, bolso furado (por falar em BOLSO… ?), e por aí vai, Mãe, mas a Senhora diz que é preciso ir, com dignidade, será. Unidos, venceremos, é o que diz o povão sem rumo.

Bolo de chocolate

MÃE, minha sopa de baroa com ovos cozidos, folhas de repolho e pão,

não se preocupe, as eleições estão aí, votarei na Senhora, com certeza, votar é esporte, votar é lazer, é riso garantido. Tenho encontro marcado (lembra do livro do Fernando Sabino: Encontro Marcado, que beleza, e mais beleza ainda o livro, já que falamos em rir até cair no chão: O Grande Mentecapto, também do Fernando Sabino).

Ó, vou me despedir, com 365 abraços e 365 beijos deste seu filho abilolado, analfabeto, mas bom garoto

Dona MARIA e três filhas…

DARLAN

rua

Não consegui desvendar a assinatura autoral, à direita. BELO HORIZONTE, 2020.

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É NA RUA QUE OS FATOS MAIS ACONTECEM, E SE MOSTRAM COMO SÃO

A rua é cada vez mais aberta ou permissiva, psicodélica, barulhenta, já sem nenhum pudor, suja, cheia de buracos, nódoas e rabiscos nas paredes e nos muros, rancores por toda a sua extensão, e a Mãe Pressa, sim, todos vão até ela, ou se sentirão como se não existissem – a rua é “o cara“, é preciso estar de bem ou de mal com ela, pois não há como não ir à padaria, à farmácia, à manicure, ao açougue, aos super e aos hiper, enfim, à lotérica, sendo que se pode pedir via aparelho, mas ao diabo com celular, o que se quer é sentir o bafo dos becos das ruas das alamedas do parque sujo e das avenidas, ou se está morto, morto pela virologia da apatia, sensação ruim.

O artista, sim, é o cara ou a cara da showciedade.

Arte na rua é o que é: muito de desabafo anônimo, uma busca frenética por algo, algum retorno indefinido, ira pessoal numa coleção particular de ene frustrações, arte na rua é salutar, é irritante (íris não veem nada, servem de passagem às imagens, o que decodifica é o cérebro), é muita cor, e note que nos museus as obras ficam bem longe umas das outras, nem é preciso dizer sobre isto. A música das ruas, cada rua com a sua partitura, a pauta do dia.

Av. Armando Vaz de Melo – Barreiro de Baixo, BELO HORIZONTE.

Algumas vezes por semana se vai comprar algo: rabanete, couve, alface, fio dental, detergente, arroz, ovolândia, algum medicamento, ou alguma ajuda para as unhas ou para os cabelos, enfim, eis o mundo da alegria: a rua.

Praça Sete, Centro – BELO HORIZONTE, MG

Darlan M Cunha

MPB-4 canta Pois é, pra quê ? (SIDNEY MILLER): https://www.youtube.com/watch?v=W7f69FuRCk8

faces

As Faces de um Mesmo Medo.
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Para FERNANDO (que aprecia Música): https://chronosfer2.wordpress.com/
Para TODAS e TODOS

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O lamento noturno dos viúvos como um gato gemendo no porão” – Alceu Valença

Apenas apanhei na beira-mar um táxi pra estação lunar” – Geraldo Azevedo

O circo nasceu com o mundo, o mundo nasceu palhaço, e um barracão de lona erguido em cabos de aço” – Teixeirinha

Vento solar e estrelas do mar, você ainda quer morar comigo ?” – Lô Borges

Quando chegar na sua casa, e encontrar solidão, lembra de mim que também vivo só” – Paulinho Pedra Azul

As criaturas da noite, um voo calmo e sereno, procuram luz onde secar peso de tanto sereno” – O Terço

Hoje eu vou sair de casa, vou levar a mala cheia de ilusão, vou deixar alguma coisa velha esparramada toda pelo chão” – Mutantes

Quem tem tutano, tutano tem, quem não tem tutano, tutano não tem” – Walter Franco

Nunca lá estive, é certo, como também é certo meu coração, em dias tais, ser um deserto” – Eduardo A. da Costa

Você é ficar sobre o sol e se queimar, eu fico me perguntando se valerá” – Sirlan

E será também dos prisioneiros, será dos canteiros e do chafariz. Ó lua, lua é da cidade, da humanidade, e de quem quiser” – Denise Emmer

Buscar leveza exige algo mais com que sacudir o instável em si” – DMC

A palavra é meu domínio sobre o mundo Clarice Lispector

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Foto: Darlan M Cunha