Um lugar para todos: histriônicos, felinos, paus-mandados, frenéticos do sexo pro- agressivo, artífices das flores do mal, de solstícios e equinócios repintados à mão [falsos]; sinônimo de perigeu, há porcos-espinho, víboras e salamandras, salários sem crédito, motoristas a soldo da firma A Inenarrável Algazarra da Morte, enfim, eis um lugar para além do bem e do mal – pois é na rua que as coisas acontecem

Minha Neguinha 1

uma das “namoradeiras” de Sabará, MG, Brasil

***

LETRAS DE MÚSICAS

Eu faço samba e amor até mais tarde, não tenho a quem prestar satisfação. Escuto a correria da cidade, que alarde, será que é tão difícil amanhecer ? (Samba e amor. Chico Buarque)

Era um homem que vivia lá com seus botões. Sempre dizia que ser homem não é só ter colhões – tem-se que viver, enfrentar a corrente, desde cedo (Um homem, por dentro. Darlan M Cunha)

Desilusão, desilusão, danço eu, dança você, na dança da solidão (Dança da Solidão. Paulinho da Viola)

Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor (Nelson Cavaquinho // Guilherme de Brito  // Alcides Caminha

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foto: Darlan M Cunha

uma casa de pernetas, daltônicos, gagos, lábios leporinos, fans de rock proagres- sivo, estudiosos de minhocas e do bicho-da-seda, duetos do globo da morte – a rua

a luta

Ó vida, margarida !

***

Eu quero é botar meu bloco na rua
gingar, pra dar e vender*

     Numa das muitas vezes em que passei pela avenida Nossa Senhora do Carmo, BH, um pouco desviado da minha rota mais comum para casa, deparei-me com esta cena, nem digo espetáculo. Todos já viram este cenário, palco, luta de gente botando seu bloco, seu oco nas ruas, até porque é preciso estar atento e forte. É a cabeça, irmão.

     Assim como a rua é uma casa muito engraçada, também é memória de panos negros, de painéis de cabeça para baixo, um grito parado no ar, e logo ali num bar as conjecturas, as filosofias de mal casados, descasadas, separadas, amaziados, desquitados, roedores de unhas (onicofagia), e por aí vai este longo rosário de sapatos cheios de pedrinhas que a suicidade comporta.

     Eu também quero botar meu ovo na rua.

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foto e texto: Darlan M Cunha

VISITE: https://www.poemhunter.com/darlan-m-cunha/

as direções do vento, da amizade…

uakti

UAKTI – Belo Horizonte, MG, Brasil

*

     Poesia e música podem ser cravo e canela, nada, macarronada coberta com parmesão ralado, pão de queijo, forca, doce de batata doce com coco ralado, alegria, agonia, trato e distrato, a famosa tentativa de fuga, tentativa de compreender a rua onde se mora, enfim, escrever de verdade é sofrer de verdade.

II

     Terça de carnaval, quatro e cinquenta da manhã, comecei o dia ouvindo o Uakti, ou mais uma moçada verdadeiramente internacional daqui de BH (Uakti, Clube da Esquina, Grupo Corpo, Grupo Galpão, Grupo Giramundo, Skank, Sepultura, etc), tocando suas famosas Variações sobre a excepcional Águas de Março. Café à mão, biscoitos de polvilho caseiros. Antes de ouví-los, escrevi mais três textos para o próximo livro a sair este ano.

*

Imagem: Por Gerardo Lazzari – Uakti, CC BY 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=2588711

Texto: Darlan M Cunha

soberbas letras – 5

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Ruas Paraisópolis e Divinópolis, bairro Santa Teresa – BELO HORIZONTE, MG, Brasil

CLUBE DA ESQUINA nº 1                                                                                        

(Márcio Borges / Lô Borges / Milton Nascimento)

 

Noite chegou outra vez, de novo na esquina
Os homens estão, todos se acham mortais
Dividem a noite, a lua e até solidão
Neste clube a gente sozinha se vê, pela última vez
À espera do dia naquela calçada
Fugindo de outro lugar.

Perto da noite estou,
O rumo encontro nas pedras
Encontro de vez, um grande país eu espero
Espero do fundo da noite chegar
Mas agora eu quero tomar suas mãos
Vou buscá-la onde for
Venha até a esquina, você não conhece o futuro
Que tenho nas mãos.

Agora as portas vão todas se fechar
No claro do dia, um novo encontrarei
E no curral D’el Rey
Janelas se abram ao negro do mundo lunar
Mas eu não me acho perdido
Do fundo da noite partiu minha voz
Já é hora do corpo vencer a manhã
Outro dia já vem, e a vida se cansa na esquina
Fugindo, fugindo pra outro lugar.

*               

Ouça AQUI: https://www.youtube.com/watch?v=PH7NdNBFeX4

O CLUBE DA ESQUINA nunca foi lenda, ao contrário, é uma realidade bem plasmada, muito bem conceituada mundo afora, orgulho de quem pensa claro, de quem percebe a força da palavra, e também do silêncio que existe entre os acordes, cientes de que as palavras se entendem e se desentendem, mas, com isso, criam algo novo, e o CLUBE DA ESQUINA  sempre teve e ainda conserva com grande contentamento seu convívio com as letras, com o bom humor e, principalmente, com a pedra-base da amizade.

Foto e texto: Darlan M Cunha

soberbas letras – 4

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Entenderem-se, ou não.

AS APARÊNCIAS ENGANAM                                                                             

(Tunai  // Sérgio Natureza)

 

As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões
Os corações pegam fogo e depois não há nada que os apague
se a combustão os persegue, as labaredas e as brasas são
O alimento, o veneno e o pão, o vinho seco, a recordação
Dos tempos idos de comunhão, sonhos vividos de conviver

.
As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio se irmanam na geleira das paixões
Os corações viram gelo e, depois, não há nada que os degele
Se a neve, cobrindo a pele, vai esfriando por dentro o ser
Não há mais forma de se aquecer, não há mais tempo de se esquentar
Não há mais nada pra se fazer, senão chorar sob o cobertor

.
As aparências enganam, aos que gelam e aos que se inflamam
Porque o fogo e o gelo se irmanam no outono das paixões
Os corações cortam lenha e, depois, se preparam pra outro inverno
Mas o verão que os unira, ainda, vive e transpira ali
Nos corpos juntos na lareira, na reticente primavera
No insistente perfume de alguma coisa chamada amor.

***

Tunai, irmão mais novo do compositor e cantor João Bosco, assim como o irmão, também estudou engenharia na famosa Escola de Minas de Ouro Preto. Sérgio Natureza compôs algumas canções com Tunai, inclusive esta que, para mim, é um dos pilares básicos da MPB, enquanto letra e melodia. Ele também compôs e gravou com Paulinho da Viola.

Foto: Darlan M Cunha

Ouça AQUI: https://www.youtube.com/watch?v=5h7YrvmxklY

soberbas letras – 3

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Escrevendo e desenhando com os pés

*

ÚLTIMA FORMA

(Paulo César Pinheiro – Baden Powell)


É como eu falei: não ia durar
Eu bem que avisei, vai desmoronar
Hoje ou amanhã, um vai se curvar
E graças a Deus não vai ser eu quem vai mudar                                                                                Você perdeu

E sabendo com quem eu lidei
Não vou me prejudicar, nem sofrer, nem chorar
Nem vou voltar atrás, estou no meu lugar
Não há razão pra se ter paz
Com quem só quis rasgar o meu cartaz                                                                                            Agora pra mim você não é nada mais

E qualquer um pode se enganar
Você foi comum, você foi vulgar
E o que é que eu fui fazer
Quando me dispus te acompanhar                                                                                                   Porém pra mim você morreu
Você foi castigo que Deus me deu

Não saberei jamais
Se você mereceu perdão
Porque eu não sou capaz
De esquecer uma ingratidão
E você foi uma a mais

E qualquer um pode se enganar
Você foi comum, você foi vulgar
E o que é que eu fui fazer
Quando me dispus te acompanhar                                                                                                   Porém pra mim você morreu
Você foi castigo que Deus me deu

E como sempre se faz
Aquele abraço, adeus, e até nunca mais.

*

foto: Darlan M Cunha   ///   visite: PALIAVANA 4    ///   Ouça AQUI, com MPB-4 e CAUBY PEIXOTO: https://www.youtube.com/watch?v=xvZ80CKsvzM

soberbas letras – 1

passaros

Assunto em pauta

(para CHRONOSFER, para TODOS e TODAS)

*

POIS É, PRA QUÊ ?

 

O automóvel corre, a lembrança morre
O suor escorre e molha a calçada
A verdade na rua, a verdade no povo
A mulher toda nua, mas nada de novo
A revolta latente que ninguém vê
E nem sabe se sente, pois é, pra quê ?

O imposto, a conta, o bazar barato
O relógio aponta o momento exato
da morte incerta, a gravata enforca
o sapato aperta, o país exporta
E na minha porta, ninguém quer ver
Uma sombra morta, pois é, pra quê ?

Que rapaz é esse, que estranho canto
Seu rosto é santo, seu canto é tudo
Saiu do nada, da dor fingida
desceu a estrada, subiu na vida
A menina aflita ele não quer ver
A guitarra excita, pois é, pra quê ?

A fome, a doença, o esporte, a gincana
A praia compensa o trabalho, a semana
O chope, o cinema, o amor que atenua
O tiro no peito, o sangue na rua
A fome a doença, não sei mais porque
Que noite, que lua, meu bem, pra quê ?

O patrão sustenta o café, o almoço
O jornal comenta, um rapaz tão moço
O calor aumenta, a família cresce
O cientista inventa uma flor que parece
A razão mais segura pra ninguém saber
De outra flor que tortura, pois é, pra quê ?

No fim do mundo tem um tesouro
Quem for primeiro carrega o ouro
A vida passa no meu cigarro
Quem tem mais pressa que arranje um carro
Pra andar ligeiro, sem ter porque
Sem ter pra onde, pois é, pra quê ?

*

foto: Darlan M Cunha

SIDNEY MILLER (RJ, 1945-80) foi um excelente letrista, coisa rara, tendo escrito canções como A estrada e o violeiro, também esta com uma letra irrepreensível. Poucos jogam nesse time de letristas da MPB: Chico, Brant, Aldir, Tom, Edu, P. C. Pinheiro, Satler, Cartola, Caymmi, etc. Muito embora a trajetória dele tenha sido curta, ela nos mostra de um modo inequívoco a sua categoria musical. Trabalhou na Funarte. Gravou o disco Línguas de fogo (1974). Suicidou-se, aos trinta e cinco anos.

4 em 1

4-em-1

Uncovering new songs, old senses

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The Moldy Moldy Man

I’m a moldy moldy man
I’m moldy thru and thru
I’m a moldy moldy man
You would not think it true
I’m moldy til my eyeballs
I’m moldy til my toe
I will not dance I shyballs
I’m such a humble Joe.

JOHN LENNON. In his own write (book of poems, chronicles).     http://beatlesnumber9.com/write.html

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       Vieram a essa casa os trilhos do desentendimento puro e simples, disfarçados em bons samaritanos, vieram com argumentos irretocáveis vender seus peixes eletrônicos, tudo por atacado ou a granel, chegaram com cara de bons amigos, mas com uma arma sob o paletó. Trouxeram presentes, e assim nenhuma sombra teve vez durante tal visita, mas a cara do diabo é infalível, seu odor de enxofre não há como ser disfarçado por lavandas, sua língua é sibilina, seu falar suavemente libidinoso é uma arma, uma tática difícil de se escapar dela.

       Vieram a essa casa alguns filhos da guerra pura e simples contra vizinhos próximos e distantes, estrangeiros e nacionais, mulheres e homens, mas todos eles são a favor de se contar certas histórias e estórias, de se ouvir, por exemplo, as mil e uma noites, piadas do Bocage, o decamerão, o kama-sutra, ler os livros Satan says e O dicionário do Diabo, pois é assim mesmo que tantos entram nesse barco. Eu lhes disse que pensaria no assunto, e os despedi. Fiquei de pensar nos totens e nos tabus, mas me esqueci dos malwares aqui no pc. Malditos, vão infestar a barra da saia da mãe !!!

*

Foto e crônica: Darlan M Cunha

datas numa só data

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senhor dos passos, irmão da leveza

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       No dia 22 de novembro de 1963, eu e amigos estávamos sentados na escadaria da capela de Nossa Senhora do Rosário dos Negros (1756), em Santa Bárbara-MG, jogando conversa fora, quando uma grande inquietação, um alarido tomou conta da cidade, devido a que o presidente de uma república fora assassinado, e as rádios gritavam a notícia, televisor era algo raro, missão impossível. Pois bem, o presidente foi enterrado, e até hoje não se sabe com absoluta certeza que trama foi aquela.

       O dia 22 de novembro tem importância visceral na sociedade, porque é o dia da Música, do Músico, dia de Santa Cecília, que é a padroeira dos músicos, que é a arte por excelência, mãe das outras artes,  segundo o consenso geral. Assim, para todas as ocasiões se convoca a música: nascimentos, festa de 15 e de 18 anos, festa de formatura, casamento bodas de prata, de ouro e de diamante, comemoração esportiva, o homem na lua, posse de político, velório, e por aí vai. Nasci num dia assim. A vida é minuto – dizia Oscar Niemeyer. Minuto, cisco, susto, ventania.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Som

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com MARILTON BORGES, irmão mais velho dos irmãos Borges: MÁRCIO BORGES, LÔ BORGES, IÉ, SOLANGE…etc (CLUBE DA ESQUINA), são 11 irmãos e irmãs. Bairro Santa Teresa, BHte, MG, BRasil. Ao fundo, à direita, o Bar do MARILTON, grande músico, pianista.

*

O intento do viajante é ir, porque ir é o melhor remédio
mas é certo que o trajeto a ser cumprido pelo passageiro
não pode ser de todo contado – pelo fato de que bons
e maus imprevistos acontecem quando se vai ao distante
horizonte, às terras do Nunca, avisos em idiomas nunca sentidos
na pele, e assim, no íntimo do viajor vão as alegrias mais sãs                                                  numa noite fria num banco de ferroviária ou num banho
gelado num banheiro 2×2, uma tempestade, um acidente ou
algo como o que se passou no conto La autopista del Sur (Cortázar),
sim, é preciso ir, trocar de roupa como as cobras, ir de déu em déu
descobrindo certos infernos, descobrir ou esquecer o céu.

***

 Foto e texto: Darlan M CUnha

Darlan M Cunha
(poema escrito especialmente para a página ChronosFer, no WORDPRESS,e repetida aqui).