optar

Paredão ou Luz (Cachoeira da SAMSA. Rio Acima. MG, Brasil)

***

Darlanianas

no Dia Mundial das Livrarias

@1.

O rubor chegou e ficou de pé, imprensado contra a parede e contra si mesmo, teve que ouvir frase lapidar, depois dela ouviu prédicas, ladainhas, sermões hiper admoestadores e, por fim, ouvir uma caudal de nome discurso, porque o rubor é indefeso diante de certos fatos. Sua reação é involuntária, sobe e esquenta as faces, às vezes, ele até chora e solta pontapés e palavrões para todos os lados, coerente e incoerente consigo mesmo, pelo que fez e não fez – está vivo, suando frio, mastigando erros e acertos, projetos inconclusos, rios de dúvidas e tristeza, querendo bem longe de si certo tipo de mundo.

@2.

Hoje é dia de temor na aldeia a qual nas sextas-feiras – dia treze ou não – é vigiada com mais minúcias ainda, talvez nada aconteça, como de outras vezes, mas já no início da madrugada soou o alarme, pois uma criança, ou algo parecido, foi vista na ala norte, e logo, horrorizado, o povo notou-a sem rosto, locomovendo-se como se o tivesse, a aldeia se fez de joelhos, seu antigo costume de dar-se de joelhos – menos eu e outros, resolvidos a não darmos fim a tal expiação e bulício, porque talvez o melhor seja rever como é que o povo paga pelo que faz a si mesmo a cada giro da ampulheta.

@3.

Continuando sua explanação, seu delírio momentâneo, ela disse que “homem de roupão é o máximo, vi na tevê” – disse, e eu fiquei na minha, calado que nem um bode ressabiado, tarado com vontade doida de esganar homem roupão cipreste barco arco reflexo e arco e flecha também esganar gato cachorro bolsa de valores incendiar presídios igrejas fóruns quartéis & mil réis, dar sumiço nos pobres parasitas vadias matar todas as baratas a chineladas pulgas e piolhos, enfim, eu fiquei alucinado com aquela ingênua confissão, e foi então que me percebi muito doente, sim, um pré paciente já nos últimos gorgolejos da Razão, tragada por um egoísmo só visto no seio das piores causas, no meio de ruas mais abandonadas e confusas do que certas mentes, eu me notei sem prumo, perdido no meio da aldeia quanto nas veias da casa.

@4.

Temeroso, ao extremo de suar em bicas, levado a custo por gente amiga ao cadafalso – foi assim que ele se referiu ao consultório do urologista, fazendo pilhéria para ver se se relaxava um pouco, pois era preciso, e alguém disse o de sempre: Ó, vai ser bem rápido e indolor – no que aquele paciente com hora marcada não acreditou. Mas foram, sentaram-se dentro do silêncio branco, até que seu nome foi citado, pareceu muito distante, e foi para o exame, de onde voltou radiante, porque nada de câncer prostático, a sua neoplasia é benigna, ou seja, é melhor do que o Mundo. Benigna. Fomos às cervejas. Amigo é pra essas coisas, para a hora difícil.

***

Foto e texto: Darlan M Cunha

MPB_4. Amigo é pra essas coisas (autores: Sílvio Silva – Aldir Blanc): https://www.youtube.com/watch?v=lhi7YIfuwmQ

a câmera= vida ou tempo, frente e verso

Revivida pelo artesão Zauss – bairro Santa Cruz, Belo Horizonte, MG.

***

Na estrada das areias de ouro *

>>>

Numa foto recente os ídolos cheios de cãs e rugas, quase irreconhecíveis, irreversível é o imponderável pondo a mesa, e há quem perca a coragem de ir ao espelho, de se ver como uma anamorfose, uma imagem distorcida que talvez já seja a sua realidade não percebida, mas quem inventou o pavor não fui eu. Para alguns, pouco importa viver com rugas, hérnia, tremores, catarata, rinite, conjuntivite, diabetes, insuficiência renal, disritmia, alta PA, obesidade, impotência sexual, ai. Noutros, o que mais lhes dá nos nervos é o fato de não saberem o que foi feito daquilo que não fizeram, dos trevos que encontraram e não entraram, e hoje acordaram de analisar o Tempo, o que fizeram ou não fizeram dele os ídolos e os fãs que já deixaram as motos, as passeatas e bandanas, comem e bebem pouco, pois o tempo avisa dos riscos, mas a música continua, e assim é que quando ouves alguma daquelas joias, reentras na estrada, e tome ponta-cabeça em beiras de estradas, vilarejos, amor de uns dias, vidas de um dia, e tome estrada, lá onde não se fica velho, engano, fake news, querem nos enganar, desconfie dos baratos, de deus e do diabo, tudo, já ponho o viés de volta na estrada, caminhos de pedra & seda, risco de perdas & danos – como convém. Vamos, o mundo está farto de toc, balcões, refrigerantes, igrejas e refugiados. Eu quase me esquecia de uma vítima da Grande Gastronomia, o glúten, mais antigo do que o primeiro cozinheiro. Ora, direis, és mesmo um tipo para se odiar. Não tens o que fazer, a não ser satirizar ? Tenho, sim. Por exemplo: ainda hoje, cuidarei de uma pequena cirurgia a ser feita na minha mãe, Dona Maria. O Mundo pode ser pétala e sépala, Mãe é Mãe, ou seja, é um universo à parte.

***

Texto e foto: Darlan M Cunha

A Horse With No Name >>> Ventura Highway. AMERICA : https://www.youtube.com/watch?v=4N-OiKzZjws >>> https://www.youtube.com/watch?v=4N-OiKzZjws

ELOMAR FIGUEIRA MELO. Na estrada das areias de ouro: https://www.youtube.com/watch?v=5XO2bqGY5rY

Textos curvos: ilhas, iscas & uivos – 8 (final)

CORDAS EM PARALELO: SIMBOLISMO
***

Apressar o passo das colheitas, da marreta, do ato, aligeirar a preguiça, o manco e o cego, o surdo e o mudo, a afronta salarial, verticalizar todos os inapetentes e desassombrar as frígidas, fazendo o Bem sem olhar a quem, ou o Mal. Isso depende de muitos fatores. Desliza por baixo das anáguas do mar, nas espumas bem cláridas da Ilha do Nada.

DARLAN M CUNHA (MG, Brasil)

***

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar. Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto, quem não muda as marcas no supermercado, não arrisca vestir uma cor nova, não conversa com quem não conhece. […] Talvez não tenha vivido em mim mesmo, talvez tenha vivido a vida dos outros.”

PABLO NERUDA (Chile. Nobel de Literatura 1971. CONFESSO QUE VIVI).

***

Ninguém se atreveu a intervir. Uriarte perdera terreno, Duncan então carregou. Os corpos já quase se tocavam. O aço de Uriarte buscava a cara de Duncan. Subitamente, nos parecera mais curto, porque penetrara no peito. Duncan ficou estendido na grama. Foi então que disse com voz muito baixa: – Que esquisito. Tudo isso é como um sonho. Não fechou os olhos, não se moveu, e já tinha visto homem morto. Maneco Uriarte inclinou-se sobre o morto e pediu-lhe que o perdoasse. Soluçava mesmo. O que acabara de cometer o dilacerava. Agora sei que se arrependia menos de um crime que da execução de um ato insensato.

PABLO NERUDA (Chile, Nobel de Literatura 1999. HISTÓRIA UNIVERSAL DA INFÂMIA & OUTRAS HISTÓRIAS).

***

A esposa, sob a fantasia contínua, não só chegou temerariamente a essa conclusão, como esta transformou sua vida em mais alargada e perplexa, em mais rica, e até supersticiosa. Cada coisa parecia o sinal de outra coisa, tudo era simbólico, e mesmo um pouco espírita dentro do que o catolicismo permitiria. Não só ela passou temerariamente a isso como – provocada exclusivamente pelo fato de ser mulher – passou a pensar que um outro homem a salvaria. O que não chegava a ser um absurdo. Ela sabia que não era. Ter meia razão a confundia, mergulhava-a em meditação.  //  O marido, influenciado pelo ambiente de masculinidade aflita em que vivia, e pela sua própria, que era tímida mas efetiva, começou a pensar que muitas aventuras amorosas seriam a vida.  //  Sonhadores, eles passaram a sofrer sonhadores, era heroico suportar. Calados quanto ao entrevisto por cada um, discordando quanto à hora mais conveniente de jantar, um servindo de sacrifício para o outro, amor é sacrifício.

CLARICE LISPECTOR (Ucrânia / Brasil). A LEGIÃO ESTRANGEIRA, cap. Os Obedientes.)

***

Foto: Darlan M Cunha. (Fim da série).

A ESTRADA & O VIOLEIRO, autor SIDNEY MILLER (RJ, Brasil – 1945 / 1980). Cantam: MPB-4 e QUARTETO EM CY: https://www.youtube.com/watch?v=rMzhevB_y-U

Textos brutos: dias de breu, noites rubras – 7

densidade
***

“Os recalques atualizam e requintam a inveja, a injúria, o ódio, a insônia, e a recíproca é verdadeira.”

DARLAN M CUNHA – (MG, Brasil)

***

“E aquele homem suou sangue // para fazer essa ferrovia // e o que ele conseguiu com isso ? // Ele disse uma coisa: Como ela custa // como qualquer guerra contra os índios custa ao governo // 20.000 dólares por cabeça // para eliminar os guerreiros de pele vermelha, seria mais humano / e até mais barato educar […]”

EZRA POUND. OS CANTOS, Canto XXII – (USA)

***

O lugar onde os tupiniquins foram aprisionados ficava a umas duas boas milhas distante da costa. Remávamos então tão depressa quanto podíamos, de volta para a terra, a fim de acamparmos novamente no mesmo sítio que a noite passada. Pela tarde, pouco antes do pôr do sol chegamos à terra, em Maembipe. Levou aí cada um seu prisioneiro para a sua cabana. Aqueles que estavam muito feridos foram arrastados à praia, mortos imediatamente e cortados em pedaços, segundo o seu costume, assando-se então a carne. Entre os que foram assados nessa noite, encontravam-se dois mamelucos que eram cristãos. Um deles era um português de nome Jorge Ferreira, filho de capitão, que o havia tido de uma índia. O outro chamava-se Jerônimo. Havia capturado este um selvagem chamado Paraguá, que morava comigo numa cabana. Paraguá assou Jerônimo durante a noite, a um passo mais ou menos da minha cama. Jerônimo (que Deus o tenha) era parente próximo de Diogo de Braga.

HANS STADEN (Alemanha). Duas viagens ao Brasil – 1542 / 1555, cap. 43

***

Era sabido que ele viera dos sertões advogar os sagrados direitos da Igreja com o mesmo fanático destemor com que saíra a pregar para selvagens sedentos de sangue, destituídos de compaixão humana, e de qualquer outro tipo de culto. Rumores de proporções legendárias falavam de suas vitórias como missionário além dos olhos de gente cristã. Ele havia batizado nações inteiras de índios, vivendo entre eles como se fosse ele próprio selvagem. Contava-se que o padre costumava cavalgar com os seus ídolos, dias a fio, seminu, carregando um escudo de pele de boi e sem dúvida uma longa lança também – quem sabe ?

JOSEPH CONRAD (Polônia). NOSTROMO, cap. 5

*****

Imagem: Darlan M Cunha

MPB-4 (RJ, Brasil). PESADELO. : https://www.youtube.com/watch?v=OOZ0TVSKBWU&list=OLAK5uy_n92bpW8gdIKrP96UpMfpnMZgpX6w-YS_k

Textos rudes: calabouços & confessionários – 5

OPRICHNIKI ou Os Cães de Guarda do Czar IVAN IV, O TERRÍVEL (1530-1584, RÚSSIA). Créditos da imagem by NAZGUL RINGWRAITH.
*****

O ano de 1570, os habitantes da cidade russa de Novgorod foram acusados de traição para com o czar, supostamente por engendrar motins. Ivan, o Terrível, expediu ordem para que sua cavalaria negra saqueasse a cidade e punisse os envolvidos na trama conspiratória: durante alguns meses, os oprichniki pilharam, torturaram e massacraram a população de Novgorod, quase a exterminando. // Embora o soberano da Rússia acreditasse que os responsáveis pela suposta deslealdade fossem os boiardos (os nobres)* e os membros da igreja local, a perseguição se estendeu à classe média e ao campesinato com igual brutalidade. // Após a devastadora carnificina gerada pela lâmina dos oprichniki, a fome e o frio elevaram o número de vítimas, o qual diverge incrivelmente entre 2.700 e 60 mil mortos. Pesquisadores atuais acreditam em 7.500 mortos. // Resenha sobre OPRICHNIKI, Os Cães de Guarda do Czar IVAN IV, O TERRÍVEL – por EUDES BEZERRA

***

A sabedoria com as coisas da vida não consiste, ao que me parece, em saber o que é preciso fazer, mas em saber o que é preciso fazer antes, e o que fazer depois. O tempo e a paciência são dois eternos beligerantes. (LEÃO TOLSTOI – Guerra e Paz – Rússia)

***

O LINGUADO, capítulo DO QUE NÃO QUERO ME LEMBRAR — GÜNTHER GRASS, Prêmio NOBEL de Literatura de 1999. Escultor e pintor — 1927/2015, Alemanha)

Da palavra excessiva, da gordura rançosa, do coro sem cabeça: Mestwina. Do caminho para Eisiedeln e da volta: da pedra no punho, no bolso. Daquela sexta-feira, 4 de março, da minha mão na caixa de greve. Das flores de gelo (suas) e da minha respiração. De mim, como corri: fugindo das panelas, sempre história abaixo. Do Dia dos Pais, recentemente, do Dia da Ascensão do Senhor, naturalmente que eu estava presente. Da louça suja em cacos, misturada com cacos, dos suecos em Hela, da lua sobre Zuckau, do sujeito atrás da giesta, do silêncio, do surdo dizer sim. Da gordura e da pedra, da carne e do punho, histórias bobas como esta.

***

POSTAGEM: DARLAN M CUNHA

NA TERRA COMO NO CÉU  –  GERAlDO VANDRÉ  (Pb, Brasil): https://www.youtube.com/watch?v=-41iWu0rVDc

Textos duros, vodka com água de coco – 3

Etapa decisiva na História do Oriente, Mundial – Exposição GUERREIROS, no BH Shopping, BH.
***


OS RATOS (1935, Prêmio Machado de Assis)  –  DYONÉLIO MACHADO (Psicanalista, RS, Brasil)

O que lhe disse o leiteiro?  A mais terrível das frases:  Lhe dou mais um dia. E saiu daquela maneira escandalosa, exibindo os músculos, exatamente para desmoralizá-lo diante dos vizinhos.

Um dia.  Apenas vinte e quatro horas para conseguir aqueles cinquenta e três mil réis que não seriam grande coisa, não fosse o pequeno salário que Naziazeno recebe como funcionário público.  E também, o que o leitor logo ficará sabendo, pelas dívidas que contraiu depois da doença do filho.  Deve para o médico, do qual se esconde quando o vê no abrigo dos bondes, para o chefe da repartição, para um fornecedor da Secretaria de Obras, e sabe Deus a quem mais, incluindo outros pobres coitados como seus amigos Duque e Alcides.

***

UM COPO DE CÓLERA – RADUAN NASSAR (Prêmio Camões 2016. SP, Brasil)

Já foi o tempo em que via a convivência como viável, só exigindo deste bem comum, piedosamente, o meu quinhão, já foi o tempo em que consentia num contrato, deixando muitas coisas de fora sem ceder contudo no que me era vital, já foi o tempo em que reconhecia a existência escandalosa de imaginados valores, coluna vertebral de toda ‘ordem’; mas não tive sequer o sopro necessário, e, negado o respiro, me foi imposto o sufoco; é esta consciência que me libera, é ela hoje que me empurra, são outras agora minhas preocupações, é hoje outro o meu universo de problemas; num mundo estapafúrdio _ definitivamente fora de foco _ cedo ou tarde tudo acaba se reduzindo a um ponto de vista, e você que vive paparicando as ciências humanas, nem suspeita que paparica uma piada: impossível ordenar o mundo dos valores, ninguém arruma a casa do capeta; me recuso pois a pensar naquilo em que não mais acredito, seja o amor, a amizade, a família, a igreja, a humanidade; me lixo com tudo isso! me apavora ainda a existência, mas não tenho medo de ficar sozinho, foi conscientemente que escolhi o exílio, me bastando hoje o cinismo dos grandes indiferentes.

***

ANÔNIMO NA PRAÇA RAUL SOARES, Belo Horizonte, MG

Um pastor disse às meninas, a drogados, assassinos, estupradores, carteiristas, fugidos, espoliados, órfãs, sidáticos – nossos vizinhos (gravado):

“Irmãs e irmãos, vivemos todos debaixo de negativas diárias, no olho do furacão, só cacos, os bagulhos da rua invejando Judas, o rebelde que recebeu trinta dinheiros emprestados, por uma boa causa-bomba, mas de milagres de peixes e de pães já se falou muito, muito se exagerou, mentiras de geração em geração, de não ser possível destrançar o baralho, mas é de se ver que o tempo da delicadeza não morreu, de fato ele nunca existiu. O Senhor está cansado, chora o dia todo, nada come, às vezes, uma papa, uma sopa, o chá. O Senhor tem consciência plena de seu fiasco ao criar e tutelar os humanos. Não temais, ímpios e servas do Demo, porque tenho a chave da libertação para vocês. Irmãs e irmãos, ouçamos este salmo: Lançai sobre Ele toda a vossa ansiedade, porque Ele tem cuidado de vós. >>> I Pedro 5:7

Depois dessa, desligada a maquininha, fui pecar, antes de ser salvo. (DMC)

***

Imagem: Darlan M Cunha

Canto chorado. BILLY BLANCO (PA), arquiteto e músico. : https://www.youtube.com/watch?v=kqaidHLj5ZY

Textos duros, com café – 2

Ópera dos Mortos (Autran Dourado). POPOL VUH, Livro da Criação do Mundo (MAIAS)
*****
***
*

PEDAGOGIA DO OPRIMIDO –PAULO FREIRE (Educador, BRASIL)

Quem, melhor que os oprimidos, se encontrará preparado para entender o significado terrível de uma sociedade opressora ? Quem sentirá, melhor que eles, os efeitos da opressão ? Quem, mais que eles, para ir compreendendo a necessidade da libertação ?

OBS: Este é o único livro escrito por brasileiro que consta dos cem livros mais procurados em todo o mundo para consultas especializadas, teses universitárias, documentários, etc).

*****

O PÁSSARO PINTADO – JERZY KOSINSKI – (Polônia / EUA)

Nas semanas que se seguiram, até terminarmos a estação dos cogumelos, caminhávamos com frequência ao longo da via férrea. Ocasionalmente, passávamos junto a pequenos montes oblongos de cinzas negras ou outro osso chamuscado, partido e misturado ao cascalho. Os homens detinham-se então, o cenho franzido. Alguns temiam que mesmo depois de incinerados, os cadáveres daqueles que se haviam lançado para fora dos trens, pudessem contaminar a gente e os animais, e apressavam-se em empurrar terra com o pé para cima das cinzas. Certa vez, fingi que me abaixava para apanhar um cogumelo que caíra do meu cesto, e agarrei um punhado dessa poeira humana. Grudava-se nos meus dedos, e cheirava a gasolina. Examinei-a de perto, mas não pude encontrar nela o menor vestígio de um ser humano. E no entanto essa cinza não era igual aquela outra que sobra nos fornos de cozinha, onde são queimados lenha, turfa seca e musgo. Comecei a sentir medo. Esfregando nos dedos o punhado de cinza, tinha a impressão de que o espírito da pessoa queimada pairava sobre mim, espionando-me e recordando-me de tudo o que lhe passara nesta vida.

***

DIVINA COMÉDIA – DANTE ALIGHIERI – (Itália)

Deixai toda esperança, vós que entrais.

Estas palavras em letreiro escuro
escritas vi por cima de uma porta;
e disse: ”Mestre, o seu sentido é duro”.[…]

Suspiros, choros, gritos escutei
ressoando no ar baço de estrelas,
de quanto ao começar também chorei ­
Línguas várias, horríveis falas delas,
e palavras de dor, acentos de ira,
vozes altas e roucas, batedelas
de mãos com mãos, tudo em tumulto gira,
naquela aura sem tempo destingida,
como areal que um turbilhão aspira.
E com a cabeça de erros só cingida,
eu disse: ”Mestre, que ouço? pela dor,
que gente é esta agora assim vencida?”

*****

JOHNNY CASH. FATHER AND SON : https://www.youtube.com/watch?v=x9nRsYVovFg

Imagem INTERNET.

correnteza(s) que o viver mistura usa desusa

o garoto e sua companhia – MEDINA, MG
***

selas 1 – MEDINA, MG
***

LOCALIZAÇÃO // MEDINA, MG, BRASIL
***

CASA – 12

*

Onde nasci passava um rio que praticamente sumiu sob queimadas, desmates, retiradas de areia para construções, o rio no qual as mães lavavam panelas e roupas, que depois se tornou amargura ardendo feito pimenta nos olhos.

A estrada Rio-Bahia tossia poeira de mil caminhões, jipes e carroças, burros, mulas, éguas e cavalos numa vida de mesmice igual à dos donos, animais que uma vez e outra eram enfeitados para uma festa geral. O rio sumiu, o gato comeu, o rato roeu, o urubu bicou, a galinha bebeu o rio São Pedro, em Medina, MG

mas ainda está comigo, estou vindo de suas margens, com fieiras de peixes imaginários na direita, varas de bambu na mão sinistra, anzóis de tamanhos, intenções, alvos diferentes. Agora, vão para a panela estes bagres, piabas, cascudos, traíras. Cuidado com as crianças, que traíras têm muito espinho. Hoje, o rio se parece com uma estrada poeirenta.

Onde nasci passava um rio – nadei, cavalos burros jegues e éguas montei, umbu e carne de sol provei. Cavalos, onde estão os cavalos de crina, carne, ossos, grunhidos, coices, onde, que só vejo e ouço com extrema inquietação os cavalos pomposos e ruidosos, os cavalos neurotizantes e mortais dos automóveis ?

***

Fotos e texto (exceto o mapa Google): Darlan M Cunha

XANGAI. A ESTRADA DAS AREIAS DE OURO (Autor ELOMAR FIGUEIRA MELO), Vídeo de MOACIR SILVEIRA: https://www.youtube.com/watch?v=-Fm1PgOIzm8