A insustentável leveza (peso) de ser

O AR EM SEU ESTADO NATURAL – Textos sobre letras do CLUBE DA ESQUINA,

ANDA, UMMA, MÍNIMOS CONTOS ORDINÁRIOS, ESBOÇOS E REVESES: O SILÊNCIO

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     Deixe para atrás toda esperança todo aquele que por essa porta passar. Esta advertência terrível está na Divina Comédia, de Dante Alighieri, e eu, que não creio em castigos celestiais e infernais, não queria não quero não quererei estar na pele de quem atravessou o portal do inferno, se não por nada, é que já houve quem disse que o inferno somos nós (Jean-Paul Sartre).

     Bom, voltanto para Gea – Terra -, ao cotidiano de ralações, danações, mandingas, risos e riscos, amanhã, para a estreia do Brasil na Rússia, prepararei arroz vermelho, qual seja, com urucum (Bixa orellana) legítimo, e não o coloral que se compra em todo lugar; também uma salada de milho verde, palmito, almeirão, alface crespa, tomate-cereja, azeite, limão capeta. Piramutaba ou surubim, de cujo caldo farei pirão, e batatas cozidas inteiras. Bom, o santo pede, e a vodka com água de coco fará presença. Sem esnobismo, digo, porque essa atitude não faz minha cabeça, não é para mim, mas de vez em quando a gente pode e deve sair dos trilhos, como diz a minha vizinha Anísia, a bela.

     Quanto aos livros mostrados aí acima, foi uma luta insana, mas agradável. Meu novo livro está quase pronto. Depois, vem a insônia para encontrar Editora, conversar sobre prazos, preço, mais insônia… hehe… Tenho mais o que fazer do que escrever livros, mas se não o fizer, O GRANDE VAZIO me pega.

 

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Fotos e texto: DARLAN M CUNHA

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Guerreiros 4

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Vikings

 

    É a cabeça, irmão. É isso, proteger o centro das coisas, o pensamento. Pensar dói, mas alarga a visão, pensar o impensado por esta ou por aquela pessoa, embora já pensado por tantas outras em Eras diversas, por tantas e tantas pessoas. É preciso pensar, mas estamos numa época na qual o que vale, o que vence, o único que se aceita é correr, chegar em casa como um farrapo diário, e o sono e a insônia sendo recebidos como uma dádiva.

     Eis o dia e a noite – cada qual com suas necessidades, mais dependências sendo criadas e substituídas. Eis a horta, o horto, a forja sempre em brasa, o Homem sempre pronto a um feixe de lenha, um feixe de vigas finas de aço, um rastilho de pólvora, eis o escritório onde suores próximos e distantes são decididos,  pois o trabalho mitiga a sede e serve de propaganda, e para exemplo famoso disso temos este e muitos outros slogans mundo afora em tempos diversos: Arbeit macht Frei / O trabalho liberta (está na entrada de um campo de concentração). Para tanta gente, ainda hoje, trabalho escravo ou semi-escravo é a sua realidade, mas ao salário do medo o riso não cede passo, e passa por dentro do título do livro do Cesare Pavese,  Lavorare stanca  // Trabalhar cansa. Eis o dia e a noite.

Foto e texto: Darlan M Cunha

Bee Gees: First of May >>> https://www.letras.mus.br/bee-gees/3614/#radio:bee-gees

Guerreiros 2

GUERREIROS 2

Sob malha ou cota de aço

 

      Num dia já distante, já sem nome e sem data, a mãe disse algo de que nunca se esquece: “Filho, tudo é sagrado, mas três coisas sagradas de verdade são a mãe, a água e a música. Esta é a Santíssima Trindade.” Lembrei-me da canção cubana Soy feliz, soy un hombre feliz, y quiero que me perdonen por este dia los muertos de mi felicidad.* Por-tanto, também sou feliz, por ter todas as três em casa. Era, porque este estado de graça durou até que o pai veio e disse: “Garoto, nada urge e nem vale mais do que a Ameaça, a Força, a Posse.” E fui à guerra cotidiária.

 

Foto e texto: Darlan M Cunha

Icone-communication (The sounds of the silence)

Icone-communication

Silêncio é pão e água

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     Silensidão pode significar o que pensas que tal palavra seja, pode não ser, às vezes, até eu, que inventei e publiquei em livro a junção dessas duas palavras fui ao fundo dela. Silensidão é a mistura de silêncio e imensidão, talvez também de receio e meditação. Mas onde pousar para em silêncio ficar ? Nem no Nepal nem no Butão nem no Tibete, e muito menos numa toca de tatu ou de urutu, já cercadas por minhocas de ferro e aço.

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Foto e texto: DARLAN M CUNHA

AQUI-Ó: https://www.flickr.com/photos/aqui-o/

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ESCRITAS: https://www.escritas.org/pt/ver/perfil/darlandematoscunha

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O Mercado Central nos 120 anos de BELO HORIZONTE (12 dez 2017)

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     Já ouvi e já contei histórias inúmeras no Mercado Central de BH, o qual foi eleito pela população como sendo “A cara de BH”, concorrendo, por exemplo, com a internacional Pampuha, a Praça Sete, o imenso Parque das Mangabeiras, o Mineirão, etc.

    Mas vamos a outros pontos ou a outras paragens, opiniões, divergências, gargalhadas, choros, desejos reprimidos (tantos !). 

     Pelo menos uma vez por dia deixe a boca de lado, racional, porosa, previdente, e fale com o coração, pelo menos uma vez por dia chute os baldes e execre o que se acha são, batendo a porta na tua cara e nas caras do entorno. Ó, miséria pouca é bobagem, diz o povo, mas o povo não sabe de nada, só ri, ri até cair e ficar por aí, com dor nas costas, cefaleia, dívidas.

    Lembra: enquanto dormes, coisas acontecem, fendas se abrem, mas a felicidade luta.

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Foto e texto: DARLAN M CUNHA

cotidiano 4

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     Rabiscar os rostos da aldeia, de sua santíssima trindade, pode parecer heresia – porém, como é que algo ou atitude pode se parecer com aquilo que já não existe ? Salvo engano, nada mais, em lugar nenhum do mundo vasto mundo é heresia. Degolar caules frescos é corriqueiro (imagino-me de joelhos, sem garganta com que validar quem a mãe cingiu de desvelos). Não, nada aqui escrito é para desfile de tropas. Tudo. Ir às ruas é abandonar o medo ou repintar de nervos as esquinas, tornando-as cordas esticadas como uma linha untada com cerol ? É a cabeça, irmão. Tudo é teu, credor de tudo, as ovelhas no cercado, dizem os textos sagrados. Enquanto esperas, reler o Decamerão, o Dicionário do Diabo.

     Rabiscar os pilares da santíssima trindade da aldeia – amor amor amor – não dá fim a ela, só o fogo nos pastos urbanos, o rural trespassado pelas queimaduras do cotidiano, ó, neves da caatinga e águas do Atacama, o ministro fará cair véus, assombros que o Nunca nunca imaginou, ó, a realidade trocará a tua pele tantas vezes quanto o fazem as cobras, e o grito que contivestes será enfim julgado apto por ele que porá de vez sobre os ombros teus a cátedra ministerial belzebuana. Tudo será teu que sou o teu credor invisível.

     As cidades invisíveis existem, de fato e de direito, mas até elas começam a cercar-se de todos os meios, cientes dos gases em ebulição, frases de efeito, palavras sem palavra, as suicidades e monstrópoles de carne e ossos serviram de noção às cidades invisíveis, mas foi em vão, que o invisível já está em debandada. Carona para onde, se não há onde, se nenhuma alusão vai até onde queres ir, se nenhum caminho tem força centrípeta forte o bastante para jogar-nos para fora do curtume ?

Viver, e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e cantar…

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Música: Gonzaguinha. O que é, o que é ? – https://www.youtube.com/watch?v=2iMOXqKTh34

cotidiano 2

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pre.univesp.br

 

 

 

 

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       O verbo murar está na moda, muito embora sempre tenha deixado suas pegadas na história, como os fossos e as pontes levadiças dos castelos medievais, a suicidade de três risíveis donos, a muralha da China, a muralha de Trajano e muitas outras barreiras ainda mais antigas, bem como as fortalezas japonesas da era dos samurais, nas quais, mesmo se o inimigo conseguisse entrar, após ene peripécias, dificilmente sairiam vivos dos labirintos e seus truques contra invasores. No tempo do homem das cavernas, é de se pensar que os morcegos tenham sido treinados para cuidar do sono dos inquilinos do momento, abrindo seu sonar ainda primitivo, gritando feito malucos, caso alguma tribo tentasse invadir a toca de seus amos, e assim por diante (depois o som dos morcegos tornar-se-ia inaudível a nós). Sabemos que os muros sempre tiveram simpatizantes, por esta ou por aquela razão. Pensando nisso, cada qual constrói para si e, muitas vezes, contra si, verdadeiros baluartes, dos quais nunca mais escapam. Beco sem saída é coisa de gente, é um ovo muito antigo. Ah: os castores, entre outros prevenidos, constroem fortalezas ou barragens, modificando rios, pelo que não estamos sozinhos no afã de construir muralhas muros paredes grades cercas redes labirintos becos abismos e túneis de fuga. Muro, no melhor dicionário de um idioma inexistente, significa ilusão de segurança. Tanto é que todos os dias muitos veem cair o grande muro que os separa da demência total: o emprego. E agora, José ? Há muitas obras sobre tal assunto, mas essa crônica me basta. Entre les Murs. Border Walls. Murs, voyage le long des barricades. Os Muros que nos Dividem. The Wall. Wall Street. Father and Son... De uma forma ou de outra, todo conceito tem germe mural.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Duas imagens trazidas da INTERNET:  mundo geografia  //  pre.univesp.br

ação e reação

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cabo de guerra

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     Pelo que me lembro, os últimos cabos de guerra de que participei foi no Exército, no milênio passado (lexicógrafos e dicionaristas, enfim, os doutos no idioma fizeram tanta força, de lado a lado, que a grafia deste substantivo perdeu os hífens, foram para o chão), mas outros cabos de guerra e de falsas baianas existem e nos afligem todos os dias (falsa baiana é o tormento de se caminhar numa corda suspensa, e segurar-se noutra, acima da cabeça, entre as quais os infelizes andam, balançam e gemem e tremem, às vezes, caem no rio cuja boca sorridente espera pelos fracos e descuidados), mas esta é outra história.

     Nesse tipo de brincadeira o que não falta é o ar de pilhérias e gargalhadas sem fim, tombos e bundas doendo, às vezes, alguma aposta esdrúxula faz com que os dois lados se esforcem em dobro.

     Pensando nisso, está na hora de ir ao Grande Mercado, ao Enxame do Dia, à Lavoura do Incerto. Haja corda, haja pescoço… e pilhérias e gargalhadas. É como diz a canção, e a gente vai tomando, que também sem a cachaça, ninguém segura esse rojão.

 

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foto e texto: Darlan M Cunha

…3…2…1

Contagem regressiva 3

contagem regressiva // put your hands up

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       O povo sempre acha ou faz motivos para se mexer, e para se aquietar nesse tempo de isolamento, de individualismo sem paralelo, teleguiado cada vez mais. As pessoas estão apegadas de tal forma à tela, que não se dão conta de quem vai ao seu lado num ônibus, não sentem quem está à frente e atrás de si numa fila, não percebem a contagem regressiva que de fato interessa, a qual se aproxima do fim, em progressão geométrica. Com isso em mente, ouço a música começaria tudo outra vez, se preciso fosse…*

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foto e texto: Darlan M Cunha

Não precisa da solidão, todo dia é dia de viver*

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Heliporto, bairro São Bento e região. BELO HORIZONTE, MG

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       A cidade faz suas partilhas, atende de segunda a segunda, sem descanso, não imita Deus, que descansou no sétimo dia, de acordo com a lenda, ora, a suicidade é lépida, tem o que fazer, inventando e desinventando entradas e saídas, ela é totem e tabu, lugar por excelência de encontros e despedidas, arena de encontros fortuitos e camaradagens rápidas, na conta de uma dúzia de cervejas e mil opiniões e recomendações, verdade, a monstrópole tem boca roaz, mas é nela que vive a felicidade ambulante, cheia de dedos e psicologias ocas, perneta e zarolha, carente de muito, cheia de vazões, crimes para dar e vender, a aldeia é o máximo divisor comum, fedendo a peixe, ferve de gente nas feiras e mercados, filas para isso e aquilo, é uma beleza de sorrisos no canto da boca, do outro lado da boca o cigarro e o desdém, o pigarro e um amém de todos, mal raia o dia, diz o poema, “entanto lutamos”. “Todos se acham mortais, dividem a noite, a lua e até solidão.”

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foto e crônica: Darlan M Cunha

Carlos Drummond de Andrade: poema O Lutador. Fernando Brant, Márcio Borges e Lô Borges >>> Para Lennon e McCartney.  Milton Nascimento, Márcio Borges e Lô Borges >>> Clube da Esquina nº 1