morro minas

bairro BELVEDERE, BH

Vista da ‘parte de trás’ do elegante bairro Belvedere, BH

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    Tudo está salvo, menos um detalhe, menos outra pendência, menos aquilo que os amantes não se disseram, tudo foi salvo das chamas e das águas sulfurosas, ora, nada como estar em dia com a razão, o sono bem posto, o riso em toda a sua explosão, os bolsos cheios de viagens, nada como ir ao bar ou tirar a maçã da boca de uma leitoa assada, cujo estalido da pele crocante se faz ouvir pela casa, ó, a vida é boa – dizem -, mas para isso as coisas devem estar a salvo dos descuidos do Homem.

Foto e texto: Darlan M Cunha

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Guerreiras B

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Lavadeiras no Rio Jequitinhonha, MG

 

     Nada como um banho num rio de águas limpas, pelado, matando aula, a gente fica agradecido por ainda respirar e espalhar no meio do mato a roupa dos colegas desavisados, lá embaixo no meio do rio, soltando maldições e palavrões, antes e depois de verem seus molambos mastigados por algum boi, por algum cabrito ou servindo de cobertor para alguma ninhada de cobra. Cada tempo em seu tempo. Nada como ficar de cócoras numa beira de rio, vendo e ouvindo as lavadeiras, as novinhas todas elas serelepes contando coisas, afastando de si os salmos dominicais, esquentando os ouvidos das vítimas. Nada como atravessar de balsa um rio, junto com bichos de todo tipo, inclusive humanos, atravessar o rio, indo de encontro à grande curva na vida – luzes, decibéis, domínios, pressa, insônia, enfim, mudança de temperamento, ó, ele está diferente – dizem, quando volta por uns dias à terra nativa.

 

Foto e texto : Darlan M Cunha

Ar

As medidas do som no Tom

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     Tive esse disco (doei), e essa foto é a de maior personalidade que já vi de um músico em ação: pernas esticadas, coração tranquilo no vento vadio, consciente de que as rosas falam (às vezes, não), de que é doce morrer no mar, enfim, é um resumo quase completo da pergunta ancestral pois é, pra quê ?, tão antiga quanto a primeira das perguntas.

     Essa foto foi feita talvez com alguma rolleyflex, senão pelos olhos de algum passarim porventura naqueles momentos sobrevoando o Corcovado, Ipanema e outras dádivas. Bem se vê que não estava chovendo na roseira, que o tempo estava bem mais para água de beber, nada de desafinado, chega de saudade, de insensatez, o que se quer pode não estar longe daqui, de mim e de ti. Se estiver longe, fiat lux / faça-se luz, faça-se um samba no avião rumo a Pasárgada ou ao além-lá dos nove círculos infernais da Divina Comédia.

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Coleção MÚSICA POPULAR BRASILEIRA, idealizada por MARCUS PEREIRA, a partir de 1973. MARCUS faleceu em 1981.

Foto no blog RONALDO EVANGELISTA: https://ronaldoevangelista.wordpress.com/category/flauta/

Texto: DARLAN M CUNHA.

OBS.: Todas as alusões musicais que inseri nesse texto estão nas Tags e nas Categorias.

 

 

Para subir na vida, um cajado por empréstimo, sim, pergunte ao Dr. Fausto, o Diabo é solícito

Buritis

Buritis, Belo Horizonte, MG

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       Crer ou descrer passa por não saber, lá onde a dúvida ainda é soberana, algo normal fluindo seu magma, de leve, até que a pressão seja maior do que a boca, e então a boca explode palavras como pedras em chamas sobre as camas os asfaltos os consultórios os estádios, enfim, a boca toma juízo, e se cumpre, botando verbos pelo avesso, degolando  sintaxes, pobres adjetivos – ele é bom, ela é má -, seccionando colhões de advérbios e pronomes, é isso: crer ou descer e ficar na apatia, enquanto o mundo vasto mundo inventa moda atrás de moda.

 

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foto e texto: Darlan M Cunha

Leia-me no Poem Hunter: https://www.poemhunter.com/poem/mimesis-and-symbiosis/

Não precisa da solidão, todo dia é dia de viver*

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Heliporto, bairro São Bento e região. BELO HORIZONTE, MG

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       A cidade faz suas partilhas, atende de segunda a segunda, sem descanso, não imita Deus, que descansou no sétimo dia, de acordo com a lenda, ora, a suicidade é lépida, tem o que fazer, inventando e desinventando entradas e saídas, ela é totem e tabu, lugar por excelência de encontros e despedidas, arena de encontros fortuitos e camaradagens rápidas, na conta de uma dúzia de cervejas e mil opiniões e recomendações, verdade, a monstrópole tem boca roaz, mas é nela que vive a felicidade ambulante, cheia de dedos e psicologias ocas, perneta e zarolha, carente de muito, cheia de vazões, crimes para dar e vender, a aldeia é o máximo divisor comum, fedendo a peixe, ferve de gente nas feiras e mercados, filas para isso e aquilo, é uma beleza de sorrisos no canto da boca, do outro lado da boca o cigarro e o desdém, o pigarro e um amém de todos, mal raia o dia, diz o poema, “entanto lutamos”. “Todos se acham mortais, dividem a noite, a lua e até solidão.”

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foto e crônica: Darlan M Cunha

Carlos Drummond de Andrade: poema O Lutador. Fernando Brant, Márcio Borges e Lô Borges >>> Para Lennon e McCartney.  Milton Nascimento, Márcio Borges e Lô Borges >>> Clube da Esquina nº 1

luz

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Parque Municipal de BELO HORIZONTE, MG

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     O tempo faz o que sabe fazer: construir e desconstruir tudo, mas a luz, os caminhos da luz permanecem, como que alheios às destruições, mutações. O tempo, sim, é que é “o” livro, o cara, o cântico dos cânticos.

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foto e texto: Darlan M Cunha

imaginário

Teatro Francisco Nunes. Parque Municipal, BHte. Já me apresentei aí.

Teatro Francisco Nunes. Belo Horizonte, MG, Brasil (algumas vezes estive neste palco)

debates conferências teatro música reuniões de classes – há de tudo nesse tipo de casa

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No teatro se morre de morte prematura, violenta, idealizada

e a trupe pensa que é no palco que as coisas acontecem,

mas é na rua, a rua que o proscênio desconhece, onde o todo

se apresenta, é lá que se lava a roupa suja, que se aprende hábitos

que se manieta ou se impulsiona a usura, o pão do ódio, o ócio.

Foi lá que a foice e o martelo enferrujaram, outras normas

agora mamam e desmamam, prontas para te darem nova senha.

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foto e poema: Darlan M Cunha

da sega às bancas

Mercado Central, BHte, MG, Brasil Mercado Central (1929). BHte, MG, Brasil (uma das oito entradas)

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Sete entradas tem o mercado diário

nove buracos o inferno dantesco

mil e uma bocas a sede e a fome

ene braços a insônia que come

o homem sem nome e sobrenome.

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foto e poema: Darlan M Cunha

longe do Congresso – 1

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Sem essa de toma lá, dá cá.

     Estou de mudança, como sublinhei numa postagem, mas ainda não me decidi para onde, para qual longitude e latitude ir: se para outro brejo ao sul, outro pântano a leste, algum mangue ao norte, outra prisão a oeste deste Nada, ou se para uma caverna, um iglu, uma nuvem ou uma toca de raposa, um balaio de gatos, quando não para o Diabo. Minhas pernas saberão dar conta dessa conta, do itinerário, seja qual for. Pensando bem, já que desaprendi de ter dois pesos e duas medidas, para Brasília (Carrapatolândia) não irei.

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foto e texto> Darlan M Cunha

foto feita em Medina (minha cidade natal), MG

baixos e altos relevos: a vida

antiga cena cotidiana

cena antiga

Então, um belo dia, uma bela madrugada, o preso acertou de vez suas contas com a lei, ao suicidar-se. Outro, ajudado por um poster gigante, de mulher nuazinha, arquitetou sua fuga do inferno, porque na prisão há-se que ocupar a mente, e só há um modo disso ser levado a contento: pensar incessantemente no outro lado da muralha, pensar e fazer-se cumprir com asas também físicas, custe o que custar; tanto é que um preso modificou a letra de uma conhecida canção, e vive cantando que “hoje, eu vou mudar de casa, vou levar meus ais deste arrastão. Pra onde eu vou, venha, neném” – é como ele canta. Todo preso quer andar nu nos corredores da liberdade, seja ela onde for, ele quer praticar a sua arte, quer fornicar, bater com o martelinho no alumínio, e fazer seus baixos e altos relevos; ele precisa ir ao além-lá do que conhece, do que desconfia que existe – que o encarcerado vive em mim e em ti. Ecos de vários tipos saem do prisioneiro.

Obs.: Alusão à letra da canção Fuga n. 2, dos MUTANTES.

Texto e foto: Darlan M Cunha