Para subir na vida, um cajado por empréstimo, sim, pergunte ao Dr. Fausto, o Diabo é solícito

Buritis

Buritis, Belo Horizonte, MG

*****

 

       Crer ou descrer passa por não saber, lá onde a dúvida ainda é soberana, algo normal fluindo seu magma, de leve, até que a pressão seja maior do que a boca, e então a boca explode palavras como pedras em chamas sobre as camas os asfaltos os consultórios os estádios, enfim, a boca toma juízo, e se cumpre, botando verbos pelo avesso, degolando  sintaxes, pobres adjetivos – ele é bom, ela é má -, seccionando colhões de advérbios e pronomes, é isso: crer ou descer e ficar na apatia, enquanto o mundo vasto mundo inventa moda atrás de moda.

 

*****

foto e texto: Darlan M Cunha

Leia-me no Poem Hunter: https://www.poemhunter.com/poem/mimesis-and-symbiosis/

Anúncios

Não precisa da solidão, todo dia é dia de viver*

DSC02052

Heliporto, bairro São Bento e região. BELO HORIZONTE, MG

*****

 

       A cidade faz suas partilhas, atende de segunda a segunda, sem descanso, não imita Deus, que descansou no sétimo dia, de acordo com a lenda, ora, a suicidade é lépida, tem o que fazer, inventando e desinventando entradas e saídas, ela é totem e tabu, lugar por excelência de encontros e despedidas, arena de encontros fortuitos e camaradagens rápidas, na conta de uma dúzia de cervejas e mil opiniões e recomendações, verdade, a monstrópole tem boca roaz, mas é nela que vive a felicidade ambulante, cheia de dedos e psicologias ocas, perneta e zarolha, carente de muito, cheia de vazões, crimes para dar e vender, a aldeia é o máximo divisor comum, fedendo a peixe, ferve de gente nas feiras e mercados, filas para isso e aquilo, é uma beleza de sorrisos no canto da boca, do outro lado da boca o cigarro e o desdém, o pigarro e um amém de todos, mal raia o dia, diz o poema, “entanto lutamos”. “Todos se acham mortais, dividem a noite, a lua e até solidão.”

*****

foto e crônica: Darlan M Cunha

Carlos Drummond de Andrade: poema O Lutador. Fernando Brant, Márcio Borges e Lô Borges >>> Para Lennon e McCartney.  Milton Nascimento, Márcio Borges e Lô Borges >>> Clube da Esquina nº 1

luz

parque, 3

Parque Municipal de BELO HORIZONTE, MG

***

     O tempo faz o que sabe fazer: construir e desconstruir tudo, mas a luz, os caminhos da luz permanecem, como que alheios às destruições, mutações. O tempo, sim, é que é “o” livro, o cara, o cântico dos cânticos.

***

foto e texto: Darlan M Cunha

imaginário

Teatro Francisco Nunes. Parque Municipal, BHte. Já me apresentei aí.

Teatro Francisco Nunes. Belo Horizonte, MG, Brasil (algumas vezes estive neste palco)

debates conferências teatro música reuniões de classes – há de tudo nesse tipo de casa

***

No teatro se morre de morte prematura, violenta, idealizada

e a trupe pensa que é no palco que as coisas acontecem,

mas é na rua, a rua que o proscênio desconhece, onde o todo

se apresenta, é lá que se lava a roupa suja, que se aprende hábitos

que se manieta ou se impulsiona a usura, o pão do ódio, o ócio.

Foi lá que a foice e o martelo enferrujaram, outras normas

agora mamam e desmamam, prontas para te darem nova senha.

***

foto e poema: Darlan M Cunha

da sega às bancas

Mercado Central, BHte, MG, Brasil Mercado Central (1929). BHte, MG, Brasil (uma das oito entradas)

***

Sete entradas tem o mercado diário

nove buracos o inferno dantesco

mil e uma bocas a sede e a fome

ene braços a insônia que come

o homem sem nome e sobrenome.

***

foto e poema: Darlan M Cunha

longe do Congresso – 1

DSC01406

Sem essa de toma lá, dá cá.

     Estou de mudança, como sublinhei numa postagem, mas ainda não me decidi para onde, para qual longitude e latitude ir: se para outro brejo ao sul, outro pântano a leste, algum mangue ao norte, outra prisão a oeste deste Nada, ou se para uma caverna, um iglu, uma nuvem ou uma toca de raposa, um balaio de gatos, quando não para o Diabo. Minhas pernas saberão dar conta dessa conta, do itinerário, seja qual for. Pensando bem, já que desaprendi de ter dois pesos e duas medidas, para Brasília (Carrapatolândia) não irei.

*****

foto e texto> Darlan M Cunha

foto feita em Medina (minha cidade natal), MG

baixos e altos relevos: a vida

antiga cena cotidiana

cena antiga

Então, um belo dia, uma bela madrugada, o preso acertou de vez suas contas com a lei, ao suicidar-se. Outro, ajudado por um poster gigante, de mulher nuazinha, arquitetou sua fuga do inferno, porque na prisão há-se que ocupar a mente, e só há um modo disso ser levado a contento: pensar incessantemente no outro lado da muralha, pensar e fazer-se cumprir com asas também físicas, custe o que custar; tanto é que um preso modificou a letra de uma conhecida canção, e vive cantando que “hoje, eu vou mudar de casa, vou levar meus ais deste arrastão. Pra onde eu vou, venha, neném” – é como ele canta. Todo preso quer andar nu nos corredores da liberdade, seja ela onde for, ele quer praticar a sua arte, quer fornicar, bater com o martelinho no alumínio, e fazer seus baixos e altos relevos; ele precisa ir ao além-lá do que conhece, do que desconfia que existe – que o encarcerado vive em mim e em ti. Ecos de vários tipos saem do prisioneiro.

Obs.: Alusão à letra da canção Fuga n. 2, dos MUTANTES.

Texto e foto: Darlan M Cunha