Texto é pintura. Alguns da pesada – 1

“Pedro pedreiro, penseiro, esperando o trem…” – Pedro Pedreiro. Chico Buarque.
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VERSOS SATÂNICOS – SALMAN RUSHDIE – (Índia / Inglaterra)

A cidade moderna é o locus clássico de realidades incompatíveis. Vidas que não têm nada a ver umas com as outras se misturam, sentadas lado a lado no ônibus. Nas listras do chão do cruzamento, um universo é atingido por um instante, piscando como um coelho, pelos faróis de um veículo motorizado dentro do qual se encontra um continuo inteiramente estranho, contraditório. E contanto que não vá além disso, que passem na noite, que se acotovelem em estações de metrô, tirando os chapéus em algum corredor de hotel, não é tão grave.

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O DICIONÁRIO DO DIABO – AMBROISE BIERCE – (EUA)

A parte do mundo que fica a oeste (ou a leste) do Oriente.é em grande medida habitada por cristãos, uma poderosa subtribo dos hipócritas, cujas principais atividades são o assassinato e a fraude, que eles gostam de chamar de guerra e de comércio. Essas são, também, as principais atividades do Oriente.

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O CASTELO DOS DESTINOS CRUZADOS – ÍTALO CALVINO – (Itália)

Não sei se para ti foi melhor sobreviver, ó soldado, A derrota e a carnificina não se abatem somente sobre a bandeira de tuas tropas: o exército das amazonas justiceiras destrói e massacra os regimentos e os impérios, estende-se sobre os continentes do globo submetidos há dois mil anos ao domínio no entanto frágil dos homens. Rompeu-se o precário armistício que impedia o confronto do homem e da mulher no seio das famílias: esposas irmãs filhas e mães já não reconhecem em nós pais irmãos filhos e esposos, mas apenas o inimigo, e todas acorrem de armas em punho a engrossar as hostes do exército vingativo.

As orgulhosas fortalezas de nosso sexo estão se derruindo uma a uma: não perdoam homem algum; aos que não matam, castram; só a uns poucos eleitos como zangões de colmeia concedem um adiamento…

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Imagem: Darlan M Cunha

Pedro pedreiro. CHICO BUARQUE: https://www.youtube.com/watch?v=ukyJzG9IePI

cotidiano 1

parada pro café

parada para o café

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       Mudar-se é, às vezes, cair em esquecimento. As mudanças agem sobre nós de modos diversos, por exemplo: nos deixam ansiosos, tristes, alegres, apreensivos quanto ao novo tempo, aos novos tipos de vizinhos, à substãncia prática ou não da região ou do bairro, apesar das pesquisas feitas antes do contrato, e por aí vai. E são ainda mais fortes estas sensações se a mudança se dá para outra cidade, estado ou mesmo para outro país, o que demonstra a nossa necessidade natural de estarmos juntos a alguém, embora sejamos andarilhos, somos também animais gregários, andamos em grupos. Pedro é o excelente pedreiro que cuida deste barraco, faz raspagem, emassamento e pintura num cômodo ou em dois ou três, troca esguicho de lavabo, chuveiro, quando não conserta algum temido vazamento no piso, rachaduras ou manchas no teto abaixo, e tome despesa inadiável, enfim, os muitos problemas que surgem numa casa. De vez em quando, um café, água e, depois do expediente, um aperitivo, o que não é o caso deste excelente Pedro Pedreiro.

 

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foto e texto: Darlan M Cunha