Darlan visita Ai Wei Wei, nº 4

cor corar coral coralina corante quaral quarador

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a criança pensa e ultrapassa horizontes


Destas proposições, alguma há de restar: morrer sem um A ou um Z atrás de si, ou seja, sem herança – mas isto é impossível, porque todos deixamos rastros; ou viver conforme as novas leis, adaptações estas às quais é preciso atentar, ou ser um nerd, ou uma auto exilada social, e sabe-se lá o que mais. As crianças logo percebem o que as rodeia, e até mesmo notam o mais além do seu entorno imediato, mas cuidamos de tirá-las da opinião própria, de lhes dar logo no café da manhã um sim e vários nãos. Beber café, e ir ao que haverá, e também se bebe mágoas com água de coco e pedra de gelo, e se nada nos pode intimidar, isto se deve ao fato de se ter opinião própria (a garotinha na foto está com ela mesma). Feriado, o país está parado; se é dia de muda, vai à luta, ainda que vá pela metade, ou nem isso.

*

O DIA COMEÇA É NA MADRUGADA


Míriam chegou sem alarde, talvez da montanha ou do mar

ou tenha vindo de algum lugar maior do que a imaginação,

silenciosa feito um peixe ou um feixe de sol nas paredes

ela veio e ficou, e nada parece incomodá-la, mas é preciso

estar atento aos traços de uma mulher, espertas por natureza

e por necessidade social, por sua necessidade de defesa

diante da História sempre desfavorável a elas. Mulher é menos ?

Não para essa Míriam, e para muitas outras, e assim ela vai

como um Don Quixote, de calça comprida, de bermuda ou nua

sob sol e chuva (“Com sol e chuva você sonhava” – diz a canção),

sorrindo dentro dos tênis brancos ela vai levando seu Enigma.

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Fotos e textos: Darlan M Cunha

Música: Tudo o que você podia ser. CLUBE DA ESQUINA (Milton Nascimento canta): https://www.youtube.com/watch?v=GGmGMEVbTAY

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8 bilhões de baratas tontas

Para onde ? >>> [clique na foto, e leia o poema por trás dela]

MODERN WAY OF LIFE

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Uma longa e sinuosa estrada, uma escadaria cheia de degraus em falso, ou até mesmo faltando degraus, suprimidos pelas circunstâncias do momento, do lugar, da época, das partes em questão, etc. Deu nisso: nós viemos até aqui, e aqui estamos cada vez mais apertados, cheios de leis insolúveis, ou quase isso, a pressa como moeda, o desespero e a ira por troco, a juventude levada ao marasmo social (lembro-me do filme, embora eu não morra de amores por cinema e teatro, do filme italiano com seis horas de duração, é dividido em duas partes, La Meglio Gioventù / A melhor juventude, do diretor Marco Tulio Giordano), os velhos jogando cartas, bocha ou damas, atados à mísera aposentadoria, pão debaixo do braço, olhar baço, nenhum cheiro de horizonte, as mulheres continuam crescendo socialmente, e apanhando no emprego e em casa, ganham menos na mesma função, e por aí vamos no caminho que leva à angústia extrema, o número de suicídios no mundo é espantoso, não se fala disso, mal se fala desta atitude extrema, todos fingem felicidade, mas por dentro é que as coisas acontecem de fato, e cá estamos uns e umas, aliás, inumeráveis pessoas sofrendo claustrofobia, agorafobia (que é o medo de lugares abertos, de multidão), a famigerada dor que fica para todo o sempre introjetada no imo da pessoa: a agrafobia (medo de abusos sexuais), pessoas que, bem largas em sua visão do mundo – [Weltanschauung] – acabam num quase completo, quando não no vazio, no mais completo isolamento social, irritadiças, o novo e o velho já não interessam, não há sensações novas e vivificantes, o amor não serve nem para piada ou passatempo, e por aí vamos, saltitando com um pé só, fingindo sob sorrisos amarelados. Ouçamos a bela canção do gaúcho Lupicínio Rodrigues: “Felicidade foi-se embora / e a saudade no meu peito / ainda mora / e é por isso que eu gosto lá de fora / porque sei que a falsidade / não vigora“. Vigora, sim. Oito bilhões de espantos. A família morreu ? Entanto, lutamos…

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Darlan M Cunha

OBS.: A foto foi feita na pequena, simples e acolhedora Rio Acima, próxima de BH, na praça em frente à Câmara Municipal.

magia & realidade

TRÊS TEMPOS DE UM REPASTO. (POR FAVOR, SENTE-SE E SIRVA-SE) >>>>> [clique na foto…] Para CRISTILEINE LEÃO // para TODOS E TODAS

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O QUADRO DE PANO *


Os filhos são adestrados como camaleões, mas não só por isso conta-se aqui uma bela história que eu nunca ouvira, acordado ou em vigília, uma história ou estória passada em lugar e tempo incertos, melhor dizendo, tem origem no Tibete, história ou estória falando dos inumeráveis sacrifícios maternos e de rixas entre jovens irmãos, mas isso é mesmo humano.

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Imagine encontrar numa feira de rua um quadro com uma paisagem

capaz de chamar a atenção dos cegos, desenhada num tecido

de cor indefinida, causando sensações estranhas, mágica peça

chamando e até gritando seu desespero, sim, um quadro intrigante,

feito de pano, com uma paisagem tão clara quanto uma manhã

quase perfeita, não fosse pelo fato de que irmãos se desentendam

pela peça, e de que as mães sofram sem aparentar, em silêncio,

mas é preciso correr atrás do necessário (e até do desnecessário)

e assim é que numa tela comprada numa feira do mundo

pode-se de repente perceber uma cruz, uma pedra ou uma luz

um funil  e um túnel, e também se pode achar algum assombro

numa pintura crivada de azul feito o oceano e o céu de certas bocas,

e assim é que pode acontecer, numa andança sem pé nem cabeça,

ao azar mais completo, de encontrarmos numa feira no Tibete, por

exemplo, uma razão para coabitarmos melhor, embora condenados

a buscar o pão da felicidade recheado com a geleia da insônia

pois se pode achar de tudo na pele e no fundo do mundo, até mesmo

encontrar-se a si mesmo se pode, e se a ave nos vai bicando o fígado

ela logo se cansará de ti, duro na queda que és, subindo montanhas

e descendo da forca no último instante, e a andança continuará

nua e crua, e na bagagem irá um quadro de pano com o contorno

de um rosto entre homem e mulher, mas não o do cristo –

que isso é pouco, e aqui se diga que os viúvos vivem numa janela

sem tempo e sem espaço – ambos abolidos da perspectiva deles -,

e se alguém recita uma dor, outros tentam colorir a rua onde moram

ou tentam dormir onde o sono também foi abolido, e ainda há quem

incuta nos erros um ar de legalidade, há quem chute a pedra no seio

do caminho, enquanto a música, este antigo seixo, abre nossos poros

e quebra nosso desleixo. E se o caldo familiar engrossa, lembra

que roupa suja se lava é na rua, na feira, no pátio dos templos,

roupa suja se lava é ao ar livre, queimando-a numa fogueira

especial, levando com ela o irrisório e o monumental. Jardim, cinzas.*

Comprei numa feira de rua certa felicidade: um quadro de pano. Magia.

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DARLAN M CUNHA

Odoyá

“ODOYÁ”, de RAY VIANNA. Praia Vermelha, SALVADOR, BA. (Foto de DARLAN M CUNHA).

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Se o mar é a tua razão maior

ou segunda, entra nele então

e fica de alga peixe gaivota

traineira baiacu náufrago coral,

pois se te sabes do mar, larga

deste pouco onde subvives

à beira dele numa falésia

numa aldeia de pescadores

enquanto as falésias desabam

e as aldeias trucidam-se, sim

vá com urgência ao útero geral,

pois se o mar é mãe e música

que se abracem é de todo natural.

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DARLAN M CUNHA

DORIVAL CAYMMI. O Bem do Mar.:
https://www.youtube.com/watch?v=ckLQA94YAMY

Ô TREM BÃO, UAI !

“Viajar é mais.”, diz a música MANUEL, O AUDAZ, do TONINHO HORTA e do FERNANDO BRANT


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TREM DE MINAS
(Clique na foto, clique em “comentário”, e leia o poema que está logo abaixo dela).

Alguns anos atrás, refiz uma bela viagem no trem da VALE, entre BH e Vitória, cujo itinerário passava rente ao fundo do imenso quintal da maior casa da cidade de Santa Bárbara, a 100 km de BH – a casa e a cidade nas quais morei durante nove anos. Eu estava indo rever o mar, lia um livro e bebia uma cerveja em lata, sendo que nem cheio e nem vazio ia a grande fera de ferro, quando de repente entrou um gajo no vagão no qual eu estava, e começou a falar uma lenga-lenga com a bíblia nas mãos, e eu pensei “não é possível, que azar”, ele estava vestido com aquela indefectível camisa branca de manga comprida dos crentes, e eu me enfurecia cada vez mais e dizia “puxa vida, caraca, que azarão“, deus não gosta de mim, não gosta mesmo, não. Por isso, desci em Barão de Cocais, a 12 km de SB, ou seja, não viajei nem mesmo um terço da viagem de 450 km.  De Barão de Cocais fui a SB, onde fiquei dois dias na casa de gente amiga, e depois me arranjaram carona até Vitória, ou seja, há males que vêm para bem.

Eis um verso bíblico, lido por minha mãe: Correm e não ficam exaustos; andam e não se cansam (Isaías 40:37). Quase cometi um crime naquele dia, ao me levantar contra o tal perturbador-xereta, mas a turma do deixa disso entrou em cena. Espero que o tal irmão de cristo tenha esquecido a bíblia num motel.

Em Vitória, o mar estava calmo. Não viajo em época de temporada, é gente tola demais com mil bolas, mil petecas, dez mil cachorros, cem mil celulares na praia, assustando os peixes que decerto ficam tiriricas da vida ao verem sua casa invadida por tantos e tantas meratrizes e atores de banda larga sem carisma nenhum.

Darlan M Cunha

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OBS.: BRUMADINHO, que fica a 60 km de BH, terra do famoso museu a céu aberto INHOTIM (propriedade particular, visitas pagas), com obras imensas de artistas de vários países, como o mundo todo sabe, sofreu uma tragédia espantosa na qual cerca de 350 pessoas morreram, e também hortas, plantações, gado, casas, carros, pousadas foram arrasadas num instante, ninguém teve a menor chance.

cacto é seda

companhia
(clique na foto, clique lá em “comentário” e leia o poema escrito junto a ela)


Acham que todos são de delitos, de sincronia com o patrimônio alheio, que odeio a paz da aldeia, mas não é bem assim, embora tenha meus pecados como todos e todas. E assim se vive isolado, quando os olhos e os ouvidos dos aldeotas sentem-se donos do quintal ao lado, mas há algo que não se deve perder em hipótese alguma: o sorriso diante da inveja e da escuridão, que isto é comum nas pessoas, é uma doença que se instala e não sai do lado de quem a perseguiu, até que ela cede e torna-se sua sombra e começa a minar a pessoa, sim, dizem que uns são isso e aquilo, que não assumem que o cárcere os conhece, e outras petas e insinuações, mas sorrir e desprezar é mesmo do homem, feitio de oração, meu riso já foi ouvido no fundo do mar, na serra da Mantiqueira, na caatinga, no Atacama. Um convite sobre a mesa, junto a um pequeno cacto com duas florzinhas rubras.

Darlan M Cunha

ó mais ó

“Vênus platinada” (vox populi). Liberdade Square. BELO HORIZONTE, MG, BRAZIL. [Clique na FOTO  // click on the photo]
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“Vênus platinada (vox populi)

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uvas e ameixas  // grapes and plums 

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Doubts insist, the eagerness scales the walls of the house,

because craving does not create mold

and then sometimes poetry seems to me to be a mixture of grapes

and tears, mimesis, faces of chameleons.

In fact, doubts sometimes get plowed with faces of a chameleon

questions sometimes get pampered with the red buttocks of baboons

questions sometimes get pampered with this look.

The fool on the hill.*

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As dúvidas insistem, a ânsia escala as paredes

da casa, porque a ânsia não cria mofo

e então algumas vezes a poesia me parece uma mistura de uvas

e lágrimas, mímeses, as faces dos camaleões.

De fato, as dúvidas às vezes se parecem com as faces de um camaleão

as perguntas às vezes se parecem com a bunda vermelha dos babuínos

as perguntas às vezes se parecem com este olhar.

O tolo na colina.

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Fotos e Poema: Darlan M Cunha

pois é

Fernando Sabino, Otto Lara Rezende, Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos  – escritores. BIBLIOTECA PÚBLICA DE MG – Belo Horizonte

[CLIQUE NA FOTO ACIMA]
Carlos Drummond de Andrade [farmacêutico] e Pedro Nava [médico] – escritores.
Rua Goiás, centro de Belo Horizonte, MG
Murilo Rubião, escritor, um dos fundadores do Suplemento Literário de MG. BIBLIOTECA PÚBLICA DE MINAS GERAIS. Belo Horizonte


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O amor contém glúten ? o amor se faz mímese de quê, sinônimo

ou antônimo de si mesmo ? o amor se faz antinomia e apostasia

de quantas necessidades humanas já demasiado distantes entre si ?

O que mais cansa no amor: o caos na cozinha e no banheiro

as flores murchas na copa, o aquário vazio

a dúvida à mesa, entre o copo com água e duas palavras,

um ímã inócuo com o vizinho ou vizinha, ou a espera infinita  

por areia e sol, deixando para trás, para o nunca, o vazio

já definido, talvez com seguro de vida garantido pelo velho retângulo ?

O amor contém luto ? dá votos, retira fotos? ele vive de quê, afinal ?

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Fotos e poema: Darlan M Cunha

CLUBE DA ESQUINA nº 1 >>> MILTON NASCIMENTO [Márcio Borges, Lô Borges, Milton Nascimento]: https://www.youtube.com/watch?v=YkLjtrJjXEM