Não precisa da solidão, todo dia é dia de viver*

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Heliporto, bairro São Bento e região. BELO HORIZONTE, MG

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       A cidade faz suas partilhas, atende de segunda a segunda, sem descanso, não imita Deus, que descansou no sétimo dia, de acordo com a lenda, ora, a suicidade é lépida, tem o que fazer, inventando e desinventando entradas e saídas, ela é totem e tabu, lugar por excelência de encontros e despedidas, arena de encontros fortuitos e camaradagens rápidas, na conta de uma dúzia de cervejas e mil opiniões e recomendações, verdade, a monstrópole tem boca roaz, mas é nela que vive a felicidade ambulante, cheia de dedos e psicologias ocas, perneta e zarolha, carente de muito, cheia de vazões, crimes para dar e vender, a aldeia é o máximo divisor comum, fedendo a peixe, ferve de gente nas feiras e mercados, filas para isso e aquilo, é uma beleza de sorrisos no canto da boca, do outro lado da boca o cigarro e o desdém, o pigarro e um amém de todos, mal raia o dia, diz o poema, “entanto lutamos”. “Todos se acham mortais, dividem a noite, a lua e até solidão.”

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foto e crônica: Darlan M Cunha

Carlos Drummond de Andrade: poema O Lutador. Fernando Brant, Márcio Borges e Lô Borges >>> Para Lennon e McCartney.  Milton Nascimento, Márcio Borges e Lô Borges >>> Clube da Esquina nº 1

Louvaminhas numa quinta-feira

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calos da terra

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Louvados sejam o sal e a cal que tudo demandam em prol de ti

louvados sejam os trevos que nos enchem os nervos

com canseiras maiores do que pode a cama absorver e comutar

louvemos os aríetes com que derrubarmos demências na forma de muros

embora que por algum tempo os muros nos salvem do Outro

nos salvem de nos revelarmos de todo a nós mesmos

louvados sejam o prumo para a construção e o arroz ao lado do feijão

a boca cheia de tufões ou de formigas senão de vontades esquecidas

mas tanto no céu da boca quanto no céu divino o que há de fato

escapa à compreensão cabal do nome e do sobrenome cada vez mais

sem escala própria sem identidade sem aquilo que é ainda pior

de não se ter à mão: a intimidade e a vontade própria e consciente para agir

tornando padrão o exato necessário ao teu chão – o sim e o não.

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cozinha, foto e poema: Darlan M Cunha

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Mercado 1

Mercado Central de Belo Horizonte (1929), MG, Brasil

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     Um dos livros através dos quais iniciei o aprendizado do idioma russo (33 letras) foi o da professora Nina Potapova, isso há décadas, numa representação cultural da Rússia, em BH, que ficava no edifício Rembrandt, na Rua São Paulo, região central. Lembro-me de ter ganho um relógio, num concurso feito pela modesta mas diligente instituição, e de tê-lo dado de presente à minha irmã Telma. O tempo fez o que sabe fazer, condenado a si mesmo, o espaço contraiu-se, para uns tantos, expandiu-se para o quase nenhum, mas eu continuo, o idioma russo continua (cinco ou seis idiomas sobreviverão), tu continuas, e enquanto não se descasca de todo a trama mundial, vamos ao mercado, ao lugar onde, segundo o poema do Bertolt Brecht:

Para ganhar o pão, cada manhã

vou ao mercado onde se compram mentiras.

Cheio de esperança

ponho-me na fila dos vendedores.

(BERTOLT BRECHT. Antologia Poética. Poema “Hollywood”)

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foto e crônica: Darlan M Cunha

imaginário

Teatro Francisco Nunes. Parque Municipal, BHte. Já me apresentei aí.

Teatro Francisco Nunes. Belo Horizonte, MG, Brasil (algumas vezes estive neste palco)

debates conferências teatro música reuniões de classes – há de tudo nesse tipo de casa

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No teatro se morre de morte prematura, violenta, idealizada

e a trupe pensa que é no palco que as coisas acontecem,

mas é na rua, a rua que o proscênio desconhece, onde o todo

se apresenta, é lá que se lava a roupa suja, que se aprende hábitos

que se manieta ou se impulsiona a usura, o pão do ódio, o ócio.

Foi lá que a foice e o martelo enferrujaram, outras normas

agora mamam e desmamam, prontas para te darem nova senha.

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foto e poema: Darlan M Cunha

da sega às bancas

Mercado Central, BHte, MG, Brasil Mercado Central (1929). BHte, MG, Brasil (uma das oito entradas)

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Sete entradas tem o mercado diário

nove buracos o inferno dantesco

mil e uma bocas a sede e a fome

ene braços a insônia que come

o homem sem nome e sobrenome.

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foto e poema: Darlan M Cunha

Os tempos não mudam de todo… fingem.

pelourinho

doce chibata, amado pelourinho, santo capitão-do-mato, gentil patrão

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     Até mesmo em Belo Horizonte, cidade quase pacata, se comparada a muitas outras, usar os coletivos tornou-se uma fonte de apreensão e de desprazer, principalmente se você não tem paciência larga, se tem o estopim curto, daqueles que ficam bem perto do barril de pólvora. É o meu caso essa tipologia pessoal e intranferível, mas não intransferível como um cartão de banco, uma URL, uma senha, ou o RG – embora cada vez mais tudo esteja tornando-se vulnerável. Eu disse “quase”. Hackers e piolhos.

     A quantidade de caronas nos ônibus, ou seja, aqueles ônibus que carregam as pessoas através das veias da cidade, é simplesmente de pasmar. Entram, ficam de pé ao lado do motorista, ou assentam-se no lugar onde os idosos põem os pés, quando não se sentam nas poltronas a estes dedicadas, não perdem tempo em cumprimentar ninguém, vários deles com roupas de “grife”, feitas no Paraguai, e seguem conversando, como se tivessem nas mãos o futuro da cidade e do mundo. Talvez até já estejam neste patamar, ou quase. Eu disse “quase”. Não se dignam a olhar para os parvos que estejam ao lado, à frente ou na parte de trás do comboio, certamente porque se sabem distantes,  alijados das benesses do establishment. Assim, parece que cabe a nós trazê-los para a luz, mas não contem comigo, tenho repolhos e tomates para cuidar, lagartas feitoras de seda, totens e tabus, fantasmas, etc. Além disso, preciso ler psicanálise, neurologia, sociologia, música, prosa e poesia, enfim, continuar a aprender a ler e escrever. Êpa !, a panela de pressão está apitando (e este “apitando” serve também como alusão aos fatos sociais).

     Essa postagem me fez lembrar de um poema que é, com justiça, tão famoso: um texto do poeta Eduardo Alves da Costa, de nome No caminho com Maiakóvski, um texto que vai fundo, décadas após escrito, ele ainda bate contra o marasmo, a vontade bamba, o que dá espaço para tipos como os caronas acima citados.

Foto e crônica: Darlan M Cunha

PALIAVANA4: https://paliavana4.blogspot.com

POEM HUNTER: https://members.poemhunter.com/members/club/profile.asp?member=5647848

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     Trecho do poema de Eduardo Alves da Costa (1936 – ), escrito na década de 60. Pseudônimo: Diana Gonçalves. Trazido do RECANTO DAS LETRAS: http://www.recantodasletras.com.br/poesias/5655034

NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

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o suprassumo do (desa)sossego

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Mohammad Mohiedine Anis (70) e a sua vitrola mecânica – Aleppo, Síria.

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Quero ficar só, deixar-me ao alcance do sossego

da própria intimidade tão dividida por razias

bombas arrasando tetos, o sono, o sexo, a escola

a água da cidade, a luz, o hospital e coisa e tal.

Zumbis, sou um deles, já sem nome e sobrenome

que um dia os tive, numa escala nobre os quis.

 

Quero estar com a música e o cachimbo, com os gritos

da infância aí fora jogando bola de pano, alheia ao dano

da guerra a infância, ou quase isso, não é nada disso

pois elas tudo percebem, e distanciam-se

da balança que pesa mortos e vivos, distanciam-se

 

dos discursos de quem ora, dos discursos que acabam

em riscos vindos do céu, onde Alá já não mora.

Quero estar só, na casa esburacada, na rua soterrada

de uma cidade que já não existe; mas, mesmo sem fé, teimosa

sob ferro e fogo, mesmo deitada, insiste em ficar de pé.

*

Poema: Darlan M Cunha

Foto: Joseph Eid (Ag. France Press)

Saldo do dia: cefaleia, dívidas, despejo, o dono do bar olhando de soslaio…

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,.. mas Deus ajuda quem madruga

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Estou pensando sériamente em mudar de postura,

sair desta vida dura, parar de viver no pindura,

nada de delícias e gostosuras várias, dárias, não

porque já estou de fato resolvido que doravante

serei mau amante, mercador de glostora, de jurubeba e do

horrível perfume lancaster, que tonteia gatas e gatos, sim

prometo ser uma nova criatura com outra postura

perante o mundo mau, cara de pau, embora eu não

me chame raimundo e nem segismundo, e acho até

que já nem tenho nome, sou o que todo mundo é:

apenas número na carceragem, no inss, no exército,

no banco, nos dedos do taxista (são R$52,00, cavalheiro, e pague por inteiro),

sim, prometo-me que um dia serei rei, bei, marajá

e com a bela e sábia Xerazade irei me deitar.

*

Foto e poema: Darlan M Cunha

quarta-feira de cinzas // ash wednesday

arco-iris

*

Porque não espero

Porque não espero retornar

A este invejando-lhe o dom e àquele o seu projeto

Não mais me empenho no empenho de tais coisas

(Por que abriria a velha águia suas asas ?)

Por que lamentaria eu, afinal,

O esvaído poder do reino trivial ?

Porque não mais espero conhecer

A vacilante glória da hora positiva

Porque não penso mais

Porque sei que nada saberei

Do único poder fugaz e verdadeiro

Porque não posso beber

Lá, onde as árvores florescem e as fontes rumorejam,

Pois lá nada retorna à sua forma […]

 

Poema: T. S. ELIOT. Quarta-feira de cinzas (1930)

 

*

       A mãe rediz que todo dia começa uma nova fase da vida, que todo dia tem todas as quatro estações embutidas nele, e o filho fica pensando e repensando, gastando em vão tantos dias debaixo de tanta chuva de impertinências, tantos desaforos e tristezas próprias e alheias (que o outro existe, é preciso sabê-lo por inteiro), e assim vão os dias. Nunca dizer “um dia a mais”, não, deve-se dizer “um dia a menos”, outro dia para ser vivido, e não apenas para ser gasto, como se gasta com a couve, o batom e a cerveja, com a viagem e o conserto da geladeira. Viver também é isto: arco-íris.

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Texto: Darlan M Cunha

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“Castelinho”, bairro Floresta – Belo Horizonte, MG

*

 

Olhe para este dia,
pois é a vida – a própria vida da Vida.
No seu breve curso,
deitam-se todas as verdades e realidades de sua existência:
a bem aventurança do crescimento,
a glória da ação,
o esplendor da realização.
Mas, são experiências do tempo.

 

Kalidasa. Índia.

Juntamente com Asvaghosas (375 a. C.), Kalidasa (período Gupta, séc. IV,V ou VI d.C.) é o grande poeta em língua sânscrita. Autor do famoso livro SAKUNTALA, do qual tenho um exemplar.

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Foto: Darlan M Cunha