sábado

porta

Pedra livre / pedra que do barranco se solta / e ao solo volta e rola, e entre outras / se mete, porque é só mesmo entre os seus / que se pode ter consciência plena de si, / enquanto basalto ou diamante, / mica ou paralelepípedo. Assim as formas de ser: diferentes, mas unidas por algo sutil, / sumindo no cotidiano avaro, no labirinto, no funil da garganta.

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O sábado promete não fazer nada mais do que os homens e as mulheres não façam, ele é mesmo um dia especialmente eclético, e já se levanta com boas perspectivas, pois esta é de fato a imagem que os humanos fazemos dele, pelo menos em certas culturas, e porque hoje é sábado – como dizia Vinícius de Moraes – há-se que abri-lo com cuidados. Dizem que Deus descansou um dia, que talvez tenha sido o sábado, com suas saturnais, bacanais, procissões de todo tipo, risos e aleivosias, dia de uma visita que se estava devendo, dia de se cortar o cabelo e aparar as unhas e certas arestas pessoais, dia de amizade e ternura, porque o sábado é diferente, dia de se ouvir Elomar e Black Sabbath, de se rever algum provérbio e de contar casos para as crianças, sim, amanhã outro dia será, e assim, nada será como antes, como hoje: sábado.

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Darlan M Cunha: texto e foto

mesas

aprender

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Os dados soltos na mesa verde, o vertedouro

está aberto: façam jogo, suas apostas estarão

garantidas e serão ressarcidas de acordo

com o protocolo da Casa, pondo no claro os dedos

escondidos nas mangas, pois há sempre uma carta

um extra deve haver na retaguarda de alguém prevenido

ciente de que a vida é cheia de muros e névoas.

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Darlan M Cunha: foto e poema

atemporal

Ladainha

Senhor, deve-se mesmo afastar o que ou quem
já não nos diz nada ?: o sol, a noite, a pequena
e a grande família com seus destroços psicossociais,
a mulher ou o marido, as ondas do medo,
longe dos queijos os ratos, e do açúcar interior,
que se recusa a ser fel,
afastar os curiosos, o açúcar que se recusa a ser
o sal que os papagaios arrancam dos barrancos,
por fim, manter distância do salário do medo ?

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Litany

Lord, we really must put away what or who
no longer tells us anything?: the sun, the night, the small
and the big family with its psychosocial wreckage,
the wife or husband, the waves of fear,
away from the cheeses the rats, and the inner sugar,
that refuses to be gall,
away the curious, the sugar that refuses to be
the salt that parrots pluck from the ravines,
and finally, keep away from the wages of fear ?

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Darlan M Cunha: foto e texto (DMC / DeepL.com)

simplesmente

Ah… de ACARAJÉ (PRAIA DO FORTE, MATA DE SÃO JOÃO – BAHIA)

Há muito não vais ao mar / sentes que algo te chama, / és das montanhas, e o grande azul te invoca, / batendo com suas pedras de sal na tua cabeça, / esfregando as moedas da ânsia em tuas pernas e braços / sentes que deves ir a outros tipos de ondas.

PROJETO TAMAR – PARIA DO FORTE, BAHIA

Teu mar atual é o de nadar / em noitícias ? Há muito tempo és noctívago / teu bar é a saleta de memórias, cinzas, / alguma tela torta na parede / o sofá é o teu oceano, claro / é preciso ir a algum lugar / trabalhar cansa, lavorare stanca – diz uma turista, / deves partir, amanhã.

RAY VIANNA. Escultura “ODOYÁ”. PRAIA de SANTANA. RIO VERMELHO, SALVADOR, BAHIA. (Mesmo desatento que estava no momento, de repente, pressenti, e fiz a foto).

Disseram para não colocar nenhuma palavra na boca da ficção, estupefato, amargou no aparelho digestivo certas lições que diluem o raciocínio que porventura ainda se tenha, e foi devido a isso que a estupefação, o desânimo e por último o desespero subiram no seu costado, esporas e chicote, tinham avisado para não se endividar com a clareza, não fazer nenhuma frase na terra da ficção, em vão, que ser humano é ser ficção, delírio e delíquio, relíquias malditas e benditas, poço fundo e areal viscoso é o humano, erros e seus ecos, o riso na boca de cada poro, desgraças mil graças, foi dito para cortar a língua da palavra, fechar o caminho a cada palavra que ouse ser lavra, palavra, notícia, nuvem, pó… em vão, pois ser Ser Humano é plantar verde para colher maduro. Uai, Ó Xente, Barbaridade Chê !

Darlan M Cunha

CHICO BUARQUE / ROBERTO MENESCAL. BYE BYE BRASIL: https://www.youtube.com/watch?v=5oYLRRo8sTY

FRANK SINATRA. MY WAY. : https://www.youtube.com/watch?v=LQzFT71LCuc

então ?

“COM QUE ROUPA ?” (NOEL ROSA)

AULA MAGNA DA DÚVIDA

*

Aonde vai essa vontade tonta, seriedade tanta ?

Para onde, caro, essa cara nada amorfa,

signos de alegria, mistério e, talvez, de mofa ?

Para onde vai esta ânsia de instância veloz,

se não para fora do dia comum e da noite feroz ?

Aonde vais com tanta saudade nos ombros ?

Até onde levarás essa tamanha maldade ?

Para que correr atrás de assentos e ventos,

para votar ou saudar outros tetos sem alentos ?

Ao que irás neste dia de nebulosa porfia,

e a quem irás servir a foice ou a pá da aleivosia ?

Diga, como Satã: Irei mais para dentro de mim.

Diga, como digo eu, e não ao feitio de Salomão,

de César, de Alexandre, do vate de um olho só,

do monge russo ou do maneta de Alcalá de Henares.

Diga e aja como o Visgo ou o Inerente

o Inevitável o Uno o Móvel de Todas as Ânsias:

– Para onde vou nem o Amanhã saberá.

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Darlan M Cunha

MPB-4. Canto dos Homens.: https://www.youtube.com/watch?v=cJ_RullMXL8

materno

BRISA NA VIDA…

Fluxo

Nasci antes dela / mas nos mesmos termos vivemos / as pausas e os cansaços. / Sou mais velho do que a Mãe, / e se muitas foram as vezes em que a deixei / no solo do desespero, / muitas vezes também levei água e sol / na peneira, na carreira, / mas chegava, intacto, / os poros em dia com a presteza filial. / Bem ou mal, ainda dou a ela / o meu diário, sacro ou hilário, é meu, / que ao seu redor espalho / feito um camponês com seu milho e seu alho, / uma médica com o seu colar de vida / bem distribuída (eis que, recuperados, os pacientes retornam / ao fado diário, à luta mais dura na crista de outra água / profunda, porque ainda e sempre funda é a trilha).

Meus dias são anteriores aos de minha Mãe, / os dias escavados na fome e na sede, sem bula e sem rede, / tendo por água uns filetes de fel; / por pão, amores dissolutos,  / assados na cal virgem, enfim, / um jovem que roçou as paredes / da poesia, no chão do medo e no teto do riso, / quase em vão, o coração duro, / as veias inchadas demais para ser paciente. / Sou mais antigo do que o dilúvio e do que as dúvidas / sobre o dilúvio, sou anterior à Minha e à tua Mãe, / e se mais me faço andar por trilhas / nunca antes vistas, é que o mundo / só usa os mesmos caminhos, / as mesmas antíteses: preto e branco, bom e ruim, quente e frio, / são poucos caminhos, e isto precisa ser melhorado, / até porque é preciso arcar com os pesos e medidas.

Sou, portanto, mais etéreo do que a morte, anterior a mim mesmo. Tu também és o avesso.

Darlan M Cunha

Dorival Caymmi. Das Rosas. : https://www.youtube.com/watch?v=xiPGU3BaS6A