por aí

Roninho. Merc. PARAOPEBA. ITABIRITO, MG
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BIBLIOBURRO – Trazida do Blog FALANDO EM LITERATURA: https://falandoemliteratura.com, FERNANDA JIMENEZ
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cotidiário
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Darlanianas

@1.

Cansou-se de ser boazinha, farta

de sua mutilação nos canteiros estéreis

ao invés de haver-se com seda e algodão

ao fim dos dias, ela, avessa a adjetivos

e gestos vazios de significados, resoluta

como soem ser alguns, ciente

da ameaça de nunca dar um passo

à frente, resolveu sumir no mundo.

@2.

Foram muitas as pessoas das quais escutei sermões e discursos ou somente alguma frase tida como lapidar, mas suas perorações não me disseram nada, ao contrário, entraram-me pela uretra e saíram pelo ânus; outras, com as quais acordei mal, deixaram-me com uma sensação de que o vazio é também capaz de regredir, enganar o rés do chão, viver de través.

@3.

Aqui, às sextas-feiras, trilhas diferentes se abrem, o feminino ziquezagueia, e não há como segui-lo o tempo todo, embora tenha sido tentado várias vezes. É inútil lutar contra a sutileza ímpar. Nesses dias vive-se com fogo nos dentes, as unhas parecem dobrar de tamanho, precisam afiar-se, as íris amarelam, e a parte branca dos olhos se parece com meteoros entrando na órbita terrestre a mais de mil por hora, rubras que nem a resina vital. Não tinha medo de Nada, depois, de quase tudo, hoje, de tudo. E por muito doente estou morto.

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Texto e fotos (exceto Biblioburro): Darlan M Cunha

Textos duros, com café – 2

Ópera dos Mortos (Autran Dourado). POPOL VUH, Livro da Criação do Mundo (MAIAS)
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PEDAGOGIA DO OPRIMIDO –PAULO FREIRE (Educador, BRASIL)

Quem, melhor que os oprimidos, se encontrará preparado para entender o significado terrível de uma sociedade opressora ? Quem sentirá, melhor que eles, os efeitos da opressão ? Quem, mais que eles, para ir compreendendo a necessidade da libertação ?

OBS: Este é o único livro escrito por brasileiro que consta dos cem livros mais procurados em todo o mundo para consultas especializadas, teses universitárias, documentários, etc).

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O PÁSSARO PINTADO – JERZY KOSINSKI – (Polônia / EUA)

Nas semanas que se seguiram, até terminarmos a estação dos cogumelos, caminhávamos com frequência ao longo da via férrea. Ocasionalmente, passávamos junto a pequenos montes oblongos de cinzas negras ou outro osso chamuscado, partido e misturado ao cascalho. Os homens detinham-se então, o cenho franzido. Alguns temiam que mesmo depois de incinerados, os cadáveres daqueles que se haviam lançado para fora dos trens, pudessem contaminar a gente e os animais, e apressavam-se em empurrar terra com o pé para cima das cinzas. Certa vez, fingi que me abaixava para apanhar um cogumelo que caíra do meu cesto, e agarrei um punhado dessa poeira humana. Grudava-se nos meus dedos, e cheirava a gasolina. Examinei-a de perto, mas não pude encontrar nela o menor vestígio de um ser humano. E no entanto essa cinza não era igual aquela outra que sobra nos fornos de cozinha, onde são queimados lenha, turfa seca e musgo. Comecei a sentir medo. Esfregando nos dedos o punhado de cinza, tinha a impressão de que o espírito da pessoa queimada pairava sobre mim, espionando-me e recordando-me de tudo o que lhe passara nesta vida.

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DIVINA COMÉDIA – DANTE ALIGHIERI – (Itália)

Deixai toda esperança, vós que entrais.

Estas palavras em letreiro escuro
escritas vi por cima de uma porta;
e disse: ”Mestre, o seu sentido é duro”.[…]

Suspiros, choros, gritos escutei
ressoando no ar baço de estrelas,
de quanto ao começar também chorei ­
Línguas várias, horríveis falas delas,
e palavras de dor, acentos de ira,
vozes altas e roucas, batedelas
de mãos com mãos, tudo em tumulto gira,
naquela aura sem tempo destingida,
como areal que um turbilhão aspira.
E com a cabeça de erros só cingida,
eu disse: ”Mestre, que ouço? pela dor,
que gente é esta agora assim vencida?”

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JOHNNY CASH. FATHER AND SON : https://www.youtube.com/watch?v=x9nRsYVovFg

Imagem INTERNET.

palato

BRASIL rapadura
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CASA – 11

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Não tenhas medo do prazer, lado a lado

com ele. Antes, dê o que pensar a quem

te viu e a quem te vê contando nos dedos

trevos e trevas, rios, montanhas, várzeas

descampados, geleiras, arames farpados

sanga, salinas, planaltos, planícies, cavernas

metrôs, restingas, desertos e campos minados.

*

Não recear o amanhã, a poã do caranguejo

e nem outra rusga entre o bem e o mal.

Receie Das Kapital, e os perigos da capital,

o que diz e o que não diz o telejornal,

vá para casa, ao pão na mesa contumaz

lembra que é em casa que se repõe o gás

(tens heterônimo ? ouro anônimo ?)

é lá que se pode livrar da febre terçã

e se reaprumar para o dia de amanhã.

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Foto e poema: Darlan M Cunha

TADEU FRANCO. Onde eu nasci passa um rio (Autor CAETANO VELOSO): https://www.youtube.com/watch?v=ofAMOYWpd14

Babel Darlaniana

cantoneiras
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BABÉLICA

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23 pares de cromossomos

uma única criatura, ó, íris e polegares.

Outro dia sem nome e sem data, homens

sem nome, sem qualidades – interação

dois mais dois nem sempre são cinco.

Diz-se que óvulos ou esperma

no mercado atual rendem cada vez mais,

que doadores de sêmen têm de ser

examinados com rigor, e há também

a preocupação de se escolher doador

que se pareça com a receptora. Entenda.

Entenda que a Showciedade é perversa.

Estrogênio.

A última consideração ou pergunta

do morto, já morto: “Soluto solvente solução.

O que houve ? Vamos nessa ?”

Essa patologia requer maior atenção

requer intravenosa, entubação.

Entenda que amizade é algo sério demais

para se perdê-la de vista, como se perde

o molhe de chaves, o bilhete para o jogo,

a crença nalguma esperança

e até mesmo, ouso dizer, a aliança.

Cataluña ? Noutra encarnação

serei ditador, cruzcificador. Há países

nos quais a reprodução assistida

tem acompanhamento acurado, embora

sempre se esteja sujeito a falhas, a falha

é pilar da nossa genética. Era uma vez

es war einmal, once upon a time.

Quando morro, ressuscito de pronto,

quero tanto viver a desrazão, o marasmo

e viajar na alegria, segura ou insegura

seja a alegria de pipa nas alturas

ondas sobre pedras, mais que sobre

o betume e os falsos abraços.

Ó, jequitibá é enorme, Mãe é manteiga

cacau, algodão, algum dom doce.

Was ist das ? Auf ein Wort, auf ein Wort.

O Haiti é ali, Babel é aqui – bela vista

tão longa de nem ter horizonte.

Raga, razia, razão, rascante, repto,

roaz, rizoto, rapel, Renânia, rastro,

rim, roca, relapso, renegar, romaria,

recauchutar, riscos, risos.

Entre os dedos, anéis e um pastel

de palmito, na bandeja, mais pastéis

de queijo de banana de bacalhau.

Fuzarca é palavra bonita, ação pura,

embora possa ser feroz; já a palavra

desmilinguir soa estranha, assim como

o termo caraminguá (uns trocados).

Quando morro, ressuscito de pronto

não me apetece ficar deitado. Mulheres ?

Nietzsche: “Vais ter com mulheres ?

Não esqueças o chicote.”

Cara malvado, por frustrado, reacionário.

Sem teto, mas com o estro refinado.

Mar – que palavra, que entendimento

do mundo tem o mar. Hoje é domingo,

amanhã será terça-feira, sim, o mundo

é Pressa, tresloucado, fingidor, butim

e botim, saltemos um dia da semana.

Onde estamos, quando iremos ? Andei

por essa tierra blue. Soda cáustica.

Duerme, negrito, duerme.

Editarei meu livro póstumo, com fatos

insólitos, extraordinários, vexatórios,

pernas abertas feito tesoura.

O Brasil é ali, Babel é aqui – bela vista,

tão longa de nem ter horizonte.

  • Senhorita, por favor, onde fica o Museu da Dor ?
  • O Museu da Dor pegou fogo, caro Senhor de Triste Figura.

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Foto e poema: Darlan M Cunha

WALTER FRANCO. Tutano. : https://www.youtube.com/watch?v=YS7I32k9nBk&list=PL131FD51A73C0A059

surtos

Lugar de surtos, derrotas, também de revivência. Está tudo aí.
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Ada Salas é uma poetisa espanhola de escrita delicada, curta, ciente de que metáforas em excesso, varejo e atacado, sujam um texto. Encontrei-a por mim mesmo, há anos, e fiquei, de forma a visitá-la de quando em vez. Seus livros recebem títulos de constância suave, e algo enigmáticos: Lugar da Derrota, Variações em Branco, A Sede, Isto não é o Silêncio, entre outros. Um poema:

A qué región me llegaré a buscarte
ahora que reposas a mi lado
en forma de deseo
hombre
cuya belleza apenas
conocía. Cada día me ciñe
su cilicio de ausencia.
Me has herido de vida desde toda
tu muerte

y no hay sueño bastante a tu vacío.

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@2 Um lugar de derrotas, mantidas como se fossem vitórias é este, a cidade, com seus troféus de estrume, barro, gesso, capim, por fim, só palavreados, é este o lugar onde todas peças do tabuleiro fingem ignorar as outras, embora interligadas, sem outro modo de viverem sua alegria, sua angústia, seu ritmo cada vez mais infrene. ?A qué región me llegaré a buscarte? Onde procurar o tono exato, a cor mais em conta para a tela que para nós ambos preparo, um visgo que fixe melhor na superfície e no fundo o intento meu ?

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Poemas de ADA SALAS (Espanha, 1965 – ) : http://aullidolit.com/ada-salas-poemas/

vão

Vênus Plantinada“, um prédio emblemático de BÊAGÁ. Praça da Liberdade.
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@1

Atores, atrizes, espectadores… tudo é vão, a argamassa por um fio, trincas psicossociais por toda parte, o barco naufraga, ninguém quer saber, bola pra frente, e já que a felicidade é novelo e novela, todos fingem, crendo secamente que a saída é logo ali. Sorria, estás sendo filmado/a, alguma hollywood espera numa esquina. O trem vai sair.

@2

Porque o amor é a salvação do ódio – está num epitáfio. Quando o Diabo lhe perguntou em qual dia gostaria de morrer, não pensou, disse: Ontem. E assim o inventor, a fonte das mil artimanhas ficou atado sob xeque-mate.

@3

Para começar o dia, o que se deve ou se deveria fazer: ir às ruas com os novos preços do dia, ou varrer a casa, porque ninguém a quer sombria ? Ó, se tudo é rota, conceito, mantenha então a porta escancarada, a janela aberta, coração tranquilo, desligue-se de certas dúvidas que só creem em perdas & danos, diga-lhes: Fazer o quê lá em Pasárgada ? Ser amigo do rei ? É muito pouco, arranje parvos, ventrílocos ou vendedores de nuvens e lotes no céu, bangalôs em Marte, venda os riscos da arte.

@5

Estamos condenados a sermos costela de Adão ? Engane-me, que eu gosto. Lembro-me do Diabo dizendo à sua vítima, o Doutor Fausto, após este lhe ter vendido a alma, no livro monumental do Johann Wolfgang von Goethe: “Antes sozinho do que mal acompanhado.” Tarde demais para o Dr. Fausto ?

Foto e texto: Darlan M Cunha

Perfume do invisível. Céu (Céu, cantora e compositora): https://www.youtube.com/watch?v=RaN58mqMwMc

Aprendiz de Minotauro

Vênus de Milos (Afrodite)

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Essa estátua em mármore, do século II a. C., foi encontrada na ilha de Milos, em 1820, feita pelo escultor Alexandre de Antioquia). O poema é vento, por isso mesmo, vai a todo lugar. Eu o escrevi, fico com ele, mas reparto.

Georgina foi um espanto surgido um dia em Ouro Preto, / detrás de um balcão / um ímã de ascendência grega / parecia descuidada, mas ela imantava tanto/ que me esqueci do que fora fazer naquele ambiente. / A bebida já sem bolhas, / ela aproximou-se e, brevemente agachada, / selou-me o dia com um beijo, / e nunca mais percebi as deusas gregas / do mesmo modo com o qual eu as percebia nos livros: / Vênus de Milos, Ártemis, Démeter, Hera, Hebe, Héstia, Tália – nunca mais as vi de longe, e assim tornei-me aprendiz de minotauro.

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Texto e poema: Darlan M Cunha

Museu do Louvre, Paris. Endereço WEB: http://www.historia.seed.pr.gov.br/modules/galeria/detalhe.php?foto=737&evento=4

@2: jardim, cinzas

miríade
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Migo, ajudante de técnico eletricista
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Mais de quarenta anos depois de publicado, este poema do Eduardo Alves da Costa (1936 – ), ainda avisa aos ene esquecidos sobre algumas passagens estreitas vividas pelo país. Em frente. Lembro-me com as mesmas cores, os mesmos timbres, mas já não a mesma fortíssima apreensão que eu via no rosto dos pais e das mães, avós e avôs temerosos diante de tudo e de todos os mil e um dedos-duros e afins. Um poema ainda cheio de raios de sol. O autor tem vários trabalhos publicados, como Salamargo, Os Sobreviventes, Os meninos da Pátria, Memórias de um assobiador (juvenil)

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(…) Trecho do poema NO CAMINHO, COM MAIAKÓVSKI (EDUARDO ALVES DA COSTA, autor):

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada. (…)

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Foto e texto: Darlan M Cunha.

OBS: O título desta postagem veio do nome do livro Jardim, Cinzas, do poeta Danilo Kis (Sérvia, 1936-89)

No caminho, com Maiakóvski. Eduardo Alves da Costa (Niterói, 1936 – ) https://pt.wikipedia.org/wiki/Eduardo_Alves_da_Costa

Wave (Fantastic recording. Oscar Peterson plays the piano, Claus Ogerman Orchestra). Music of TOM JOBIM: https://www.youtube.com/watch?v=f44qgQA1B-g