povo povaréu plebe massa cidadãos gente

A orquestra esquenta o MERCADO

“Todo artista tem de ir aonde o povo está / Assim sempre foi, assim será…” *

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     O povo diz: Se o diabo mora nos detalhes, vamos a eles, vamos ao demo em sua postura de não deixar para depois o que pode e deve ser feito hoje ainda, porque o diabo sabe o que diz, sabe onde o lucro, cansado de baratas tontas, ele inflete sobre íncubos e súcubos, bota a viola no saco e se manda. Isso é o que o faz diabo, e isso faz toda a diferença.*

     Eis o povo em construção, em toda a sua pseudo-majestade, sua gama de sensações, seu varal de roupas multicores, o cinza dos dias e a cinza nos pulmões, ei-lo contando os caraminguás, ou seja, seus trocados, feliz da vida, musical ele é ao extremo, cai no frevo e ferve no samba feito um pacote bêbado.*

     Quando o rio transborda, quando sua água se acelera de tal forma que se parece com um corredor de cem metros rasos, é quando o povão gosta de ir até a ponte, e ficar por lá durante horas, vendo a correnteza levar tocos, galhos, pedaços de muros, vacas, gente, levar seu pensamento enquanto mastiga um sanduíche e bebe o trago de sempre sobre o piso suspenso sobre a correnteza. O povo ama a velocidade das águas, a ferocidade delas, e a própria.

     O povo em construção, constituinte de boca aberta, esperando a morte chegar,* o presidiário de sempre, desde os primeiros tempos, por isso é preciso estar atento e forte.*

 

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Texto e foto: DARLAN M CUNHA

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Na vendinha da aldeia ouça Valsinha de Vila

VENDINHA

Restaurante Rancho Fundo – Buritis, BH, MG

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     Mesmo ciente de que a sua sabedoria está cada vez mais sendo posta de lado, o povo, teimoso que só, ainda leva consigo certas marcas, nódoas, luzes de sempre, e a música exige estar em seu lugar, a música: mãe dos doidos, irmã dos atazanados, filha do sal e do açúcar. O mesmo povo com seus ditos, chistes, sarcasmos:

– Só em casa de mineiro é que a gula não é pecado.

– Enquanto descansa, carrega pedra.

– Sou madeira que jegue não rói.

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texto e foto: Darlan M Cunha

UAKTI toca VALSINHA de VILA: https://www.youtube.com/watch?v=676JHKfL8HM

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Mercado 1

Mercado Central de Belo Horizonte (1929), MG, Brasil

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     Um dos livros através dos quais iniciei o aprendizado do idioma russo (33 letras) foi o da professora Nina Potapova, isso há décadas, numa representação cultural da Rússia, em BH, que ficava no edifício Rembrandt, na Rua São Paulo, região central. Lembro-me de ter ganho um relógio, num concurso feito pela modesta mas diligente instituição, e de tê-lo dado de presente à minha irmã Telma. O tempo fez o que sabe fazer, condenado a si mesmo, o espaço contraiu-se, para uns tantos, expandiu-se para o quase nenhum, mas eu continuo, o idioma russo continua (cinco ou seis idiomas sobreviverão), tu continuas, e enquanto não se descasca de todo a trama mundial, vamos ao mercado, ao lugar onde, segundo o poema do Bertolt Brecht:

Para ganhar o pão, cada manhã

vou ao mercado onde se compram mentiras.

Cheio de esperança

ponho-me na fila dos vendedores.

(BERTOLT BRECHT. Antologia Poética. Poema “Hollywood”)

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foto e crônica: Darlan M Cunha

uma casa de pernetas, daltônicos, gagos, lábios leporinos, fans de rock proagres- sivo, estudiosos de minhocas e do bicho-da-seda, duetos do globo da morte – a rua

a luta

Ó vida, margarida !

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Eu quero é botar meu bloco na rua
gingar, pra dar e vender*

     Numa das muitas vezes em que passei pela avenida Nossa Senhora do Carmo, BH, um pouco desviado da minha rota mais comum para casa, deparei-me com esta cena, nem digo espetáculo. Todos já viram este cenário, palco, luta de gente botando seu bloco, seu oco nas ruas, até porque é preciso estar atento e forte. É a cabeça, irmão.

     Assim como a rua é uma casa muito engraçada, também é memória de panos negros, de painéis de cabeça para baixo, um grito parado no ar, e logo ali num bar as conjecturas, as filosofias de mal casados, descasadas, separadas, amaziados, desquitados, roedores de unhas (onicofagia), e por aí vai este longo rosário de sapatos cheios de pedrinhas que a suicidade comporta.

     Eu também quero botar meu ovo na rua.

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foto e texto: Darlan M Cunha

VISITE: https://www.poemhunter.com/darlan-m-cunha/