cotidiano 4

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     Rabiscar os rostos da aldeia, de sua santíssima trindade, pode parecer heresia – porém, como é que algo ou atitude pode se parecer com aquilo que já não existe ? Salvo engano, nada mais, em lugar nenhum do mundo vasto mundo é heresia. Degolar caules frescos é corriqueiro (imagino-me de joelhos, sem garganta com que validar quem a mãe cingiu de desvelos). Não, nada aqui escrito é para desfile de tropas. Tudo. Ir às ruas é abandonar o medo ou repintar de nervos as esquinas, tornando-as cordas esticadas como uma linha untada com cerol ? É a cabeça, irmão. Tudo é teu, credor de tudo, as ovelhas no cercado, dizem os textos sagrados. Enquanto esperas, reler o Decamerão, o Dicionário do Diabo.

     Rabiscar os pilares da santíssima trindade da aldeia – amor amor amor – não dá fim a ela, só o fogo nos pastos urbanos, o rural trespassado pelas queimaduras do cotidiano, ó, neves da caatinga e águas do Atacama, o ministro fará cair véus, assombros que o Nunca nunca imaginou, ó, a realidade trocará a tua pele tantas vezes quanto o fazem as cobras, e o grito que contivestes será enfim julgado apto por ele que porá de vez sobre os ombros teus a cátedra ministerial belzebuana. Tudo será teu que sou o teu credor invisível.

     As cidades invisíveis existem, de fato e de direito, mas até elas começam a cercar-se de todos os meios, cientes dos gases em ebulição, frases de efeito, palavras sem palavra, as suicidades e monstrópoles de carne e ossos serviram de noção às cidades invisíveis, mas foi em vão, que o invisível já está em debandada. Carona para onde, se não há onde, se nenhuma alusão vai até onde queres ir, se nenhum caminho tem força centrípeta forte o bastante para jogar-nos para fora do curtume ?

Viver, e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e cantar…

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Música: Gonzaguinha. O que é, o que é ? – https://www.youtube.com/watch?v=2iMOXqKTh34

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o visível e o invisível

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Pampulha, BH

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       Da cidade de Zirma, os viajantes retornam com memórias bastante diferentes: um negro cego que grita na multidão, um louco debruçado na cornija de um arranha-céu, uma moça que passeia com um puma na coleira. Na realidade, muitos dos cegos que batem as bengalas nas calçadas de Zirma são negros, em cada arranha-céu há alguém que enlouquece, todos os loucos passam horas nas cornijas, não há puma que não seja criado pelo capricho de uma moça. A cidade é redundante: repete-se para fixar alguma imagem na mente.

 

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Texto: Ítalo Calvino. As cidades invisíveis

Foto: Darlan M Cunha

Para subir na vida, um cajado por empréstimo, sim, pergunte ao Dr. Fausto, o Diabo é solícito

Buritis

Buritis, Belo Horizonte, MG

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       Crer ou descrer passa por não saber, lá onde a dúvida ainda é soberana, algo normal fluindo seu magma, de leve, até que a pressão seja maior do que a boca, e então a boca explode palavras como pedras em chamas sobre as camas os asfaltos os consultórios os estádios, enfim, a boca toma juízo, e se cumpre, botando verbos pelo avesso, degolando  sintaxes, pobres adjetivos – ele é bom, ela é má -, seccionando colhões de advérbios e pronomes, é isso: crer ou descer e ficar na apatia, enquanto o mundo vasto mundo inventa moda atrás de moda.

 

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foto e texto: Darlan M Cunha

Leia-me no Poem Hunter: https://www.poemhunter.com/poem/mimesis-and-symbiosis/

do lampião ao hoje

NO TEMPO DO LAMPIÃO (2)

Lampião do filósofo grego DIÓGENES – O CÍNICO (412-323 a.C.), que arrematei, e depois, para comemorar, fui colocar querosene na cachola, no famoso BARTOLO.

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     Ninguém sabe como ele chegou até aqui, quem o descobriu, se foi roubado de algum Museu; mas isso não é possível, pois não há registro em nenhum lugar, em nenhum livro científico. O vendedor, analfabeto completo, como, de resto, a enorme maioria da nação, colou no bojo da preciosidade uns decalques para valorizá-la, sem saber o que tinha em mãos, disse ter feito um escambo, uma troca no interior de Minas, lá pelas bandas de Tiradentes, e coisa e tal, e eu acreditei, sem acreditar, porque eu logo detectei a origem exata dessa bela peça que vi com meus Olhos De Cão Azul (Garcia Marques), esta que o filósofo carregou pelas ruas de Atenas, pleno dia, dizendo que estava “à procura de um homem honesto em Atenas“. Atenas, a mãe da democracia.

     Como se vê, parece que não há mães como antigamente ( – Herege, exigimos as tuas desculpas às mães !).

     Como se vê, quanto à honestidade, à proteção do patrimônio público e a muitas outras coisas mais, autoridades de todas as latitudes e longitudes continuam as mesmas (salvo as famosas honrosas exceções).

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foto e texto e risos: Darlan M Cunha

reparos

apetrechos do funcionário (2)

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     Crianças e adolescentes entendem o perigo de forma prática, diferente: ou não existe, ou está longe. Avarias e desgastes acontecem ao longo do tempo, pelo que é preciso dar jeito de reverter o quadro, ainda que pela metade, paliativos, mas reparos exigem decisão.

     Por falar em desgaste, ouvi a música dizer você diz que me dá casa e comida, boa vida, e dinheiro pra gastar,* e fiquei pensando se, por ter passado por isso, mais de uma vez, portei-me como um gigolô de subúrbio, e se me devo execrar por tal atitude repetida, da qual me livrei, se devo me esforçar no sentido de reconquistar os favores de um sono honesto, longo, sem diabinhos aperreando. De reparo em reparo, vai-se o dia.

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foto e texto: Darlan M Cunha

*: Laranja madura. Ataulfo Alves

soberbas letras – 2

na-cozinha-medina-mg-nasci-la-e-nunca-tinha-voltado

      pé na estrada (minha cidade natal>>> Medina, MG

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A ESTRADA E O VIOLEIRO

(Sidney Miller). Cantam: MPB-4 e Quarteto em Cy

 

Sou violeiro caminhando só, por uma estrada caminhando só
Sou uma estrada procurando só levar o povo pra cidade só
Parece um cordão sem ponta pelo chão desenrolado
Rasgando tudo que encontra a terra de lado a lado
Estrada de sul a norte eu que passo, penso e peço
Notícias de toda sorte de dias que eu não alcanço
De noites que eu desconheço de amor, de vida e de morte
Eu que já corri o mundo cavalgando a terra nua
Tenho o peito mais profundo e a visão maior que a sua
Muitas coisas tenho visto nos lugares onde eu passo
Mas cantando agora insisto neste aviso que ora faço
Não existe um só compasso pra contar o que eu assisto
Trago comigo uma viola só, para dizer uma palavra só
Para cantar o meu caminho só, porque sozinho vou a pé e pó
Guarde sempre na lembrança que esta estrada não é sua
Sua vista pouco alcança mas a terra continua
Segue em frente violeiro, que eu lhe dou a garantia
De que alguém passou primeiro na procura de alegria
Pois quem anda noite e dia sempre encontra um companheiro
Minha estrada, meu caminho, me responda de repente
Se eu aqui não vou sozinho, quem vai lá na minha frente
Tanta gente tão ligeiro que eu até perdi a conta
Mas lhe afirmo, violeiro, fora a dor, que a dor não conta
Fora a morte quando encontra, vai na frente um povo inteiro
Sou uma estrada procurando só levar o povo pra cidade só
Se meu destino é ter um rumo só, choro em meu pranto é pau, é pedra, é pó
Se esse rumo assim foi feito sem aprumo e sem destino
Saio fora desse leito, desafio e desafino
Mudo a sorte do meu canto, mudo o norte dessa estrada
Em meu povo não há santo, não há força e não há forte
Não há morte, não há nada que me faça sofrer tanto
Vai, violeiro, me leva pra outro lugar
Que eu também quero um dia poder levar
Tanta gente que virá                                                                                                                  caminhando, procurando, na certeza de encontrar.

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Ouça na página de Cyn Rocha: https://www.youtube.com/watch?v=rMzhevB_y-U

Foto: Darlan M Cunha

individual // modern way of life

odos

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     Vi na TVE, da Espanha, canal 205-NET, que um espanhol amputou uma das mãos, para receber um seguro de vida com o qual, sem saída, pagaria uma pesada dívida. Fez o serviço, estancou o sangue e jogou o carro, com ele dentro, numa ribanceira de estrada, alegando ter perdido a mão no acidente. Tempos depois, provas o desmascararam – pelo que terá de devolver o dinheiro, etc etc etc, ficando com um cotoco de braço.

     O mundo moderno oferece tantas oportunidades, tantos atrativos, tanta luz ou tanto glamour, que é fácil uma pessoa encontrar sua muralha pela frente, um empecilho do qual não será possível encontrar saída, enfim, a paralisia, a cegueira, o suicídio.

     All you need is love – diz uma canção, mas na hora da verdade tudo é solidão solitude loneliness; tudo é pressa, estigma, sudorese e taquicardia, e todo mundo fingindo – como nas propagandas de bancos e automóveis – todos fingindo estar tudo às mil maravilhas, arco-íris em toda parte, enfim, fingindo ser Alice no país das maravilhas, aliás, uma tolice de livro. Não o deem às crianças, e também nada de pequeno príncipe, que o mundo já tem engodos e venenos demais.

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Foto e crônica: Darlan M Cunha

Visite: http://paliavana4.blogspot.com

Conto(s) com o diabo dentro

https://scribatus.files.wordpress.com/2009/05/diogenes2.jpg?w=304&h=474Kackar Jourrney Sept 2007 087. Foto by Breno Bastos

Filósofo grego Diógenes, o Cínico (413-323 a.C.)

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       Desde garoto eu leio o que os gregos antigos escreveram, e o que sobre eles foi escrito, sobre a Grécia clássica. Li dezenas de livros a respeito, e nada e ninguém me atraiu mais, e ainda atrai, do que a figura do filósofo Diógenes, o Cínico. Ora, só esta alcunha vale uma vida toda. Pense nisto: em ser chamado de Cínico, reverenciado como sendo “o que chuta o balde”, que vive incólume entre as forças centrípeta e centrífuga, palitando os dentes com o vento, junto com seu amigo cão, um pulguento decerto de fácil convívio, de ser capaz de ir às profundezas da filosofia cínica expressada pelo seu amigo, e não dono ou patrão Diógenes de Sínope (Sínope, hoje, é uma cidade turca).

       Conta-se que Alexandre Magno, que derrotara os gregos, ouviu falar do temido e amado cínico, o qual vivia perto do porto de Atenas, dentro de um grande barril. Foi até lá, com seus mil soldados vezes mil, e a ele ofereceu todas as benesses imagináveis, mas o solitário lhe pediu que ele e o cavalo não lhe tapassem o sol. Só restou ao maior conquistador de toda a História retirar-se, compreendendo a grandeza do pedido: “Estou tomando sol, e ele você não me pode dar.”

     Diógenes foi capturado e vendido como escravo a um nobre, que o incumbiu de educar seus filhos. Mas ele ficou mesmo famoso até hoje pelo que se conta de que ele andava pelas ruas de Atenas, em pleno dia, carregando uma lamparina acesa, à procura de um homem verdadeiramente livre, não um a mais no rebanho (lembrei-me da música do Gilberto Gil e Dominguinhos, a qual eu toco e canto, música esta escrita cerca de dois mil e trezentos anos depois de Diógenes, embora sem nenhum conotação consciente quanto a isso, no que toca a essa parte de se ser parte do “rebanho”, quando foi escrita: Lamento sertanejo).

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OBS.: Conto(s) com o diabo dentro é um dos possíveis títulos para um dos meus livros, já pronto.

Imagens: 1. John William Waterhouse. 2. Breno Bastos

Crônica: Darlan M Cunha, um cínico

numeral

estetoscópio

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  • Diga trinta e três ?

     “O número 33, no Brasil 2016, tornou-se um número tão apavorante, desprezível e odiento em todo o país, que, principalmente as médicas e as enfermeiras, consciente e/ou inconscientemente alertadas e induzidas pelo que nele foi introjetado, talvez até mesmo evitem dizê-lo.”

 

Ouvido no Mercado Central, de Belo Horizonte, MG. (Não nos esqueçamos do fato de que tudo pode ser matéria para o literário; por isso é que essa crônica está também aqui, em Literatura).

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Foto e texto: Darlan M Cunha