Um lugar para todos: histriônicos, felinos, paus-mandados, frenéticos do sexo pro- agressivo, artífices das flores do mal, de solstícios e equinócios repintados à mão [falsos]; sinônimo de perigeu, há porcos-espinho, víboras e salamandras, salários sem crédito, motoristas a soldo da firma A Inenarrável Algazarra da Morte, enfim, eis um lugar para além do bem e do mal – pois é na rua que as coisas acontecem

Minha Neguinha 1

uma das “namoradeiras” de Sabará, MG, Brasil

***

LETRAS DE MÚSICAS

Eu faço samba e amor até mais tarde, não tenho a quem prestar satisfação. Escuto a correria da cidade, que alarde, será que é tão difícil amanhecer ? (Samba e amor. Chico Buarque)

Era um homem que vivia lá com seus botões. Sempre dizia que ser homem não é só ter colhões – tem-se que viver, enfrentar a corrente, desde cedo (Um homem, por dentro. Darlan M Cunha)

Desilusão, desilusão, danço eu, dança você, na dança da solidão (Dança da Solidão. Paulinho da Viola)

Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor (Nelson Cavaquinho // Guilherme de Brito  // Alcides Caminha

***

foto: Darlan M Cunha

Kaquende

chafariz-kaquende-sabara

chafaziz do Kaquende (1757). Sabará, MG, Brasil

*

Dizem que há um diabinho que mora dentro do chafariz, e que nas sextas-feiras de lua cheia ele sai para passear pela cidade, transformando-se num belo rapaz.

fonte: http://sousabara.com.br/cultura/lenda-chafariz-kaquende

*

Aqui todos vêm beber e charlar, beber e contar                                                                          sestros erros dúvidas que o dia não resolverá

assim, em pedra lavrada, lascada, vive o chafariz                                                                  escorrendo de mão em mão, que a água é vinho e pão

e porque todos enchem baldes panelas pipotes                                                                               nessa terra de prumo incerto de jesus e de iscariotes

o chafariz tem pouso certo na cena da aldeia                                                                                      dia e noite se pode ouvir de sua boca algum açoite

que muito sangue encharcou essa pedra, essa veia.

*

foto e poema: Darlan M Cunha

de Ur ao drone

IM000765.JPG

Sabará, MG, Brasil

 

     Um tempo cheio de incertezas é o que temos cada vez mais. Essencialmente, isso não difere tanto assim das incertezas de nossos ancestrais, do tempo das primeiras cidades lá na Mesopotâmia, o Iraque de hoje – Ur, Uruk, Nínive, Nipur, Kish. Inquietos, os humanos precisaram cada vez mais de espaço, e as migrações se fizeram, e ainda se fazem, de modo que por milhares de anos os pés levaram as turbas mundo afora, fugidos de inimigos, de secas, de escassez de alimento, sim, o homem não demorou a entender que é gregário, e assim continuaram juntos, habitando cavernas, já cientes do medo, antigo quanto a água. O fogo veio depois. A arquitetura veio depois. A música sempre existiu em suas entranhas.

     Foi um tempo enorme de caminhada, passando pelos hieróglifos, pinturas rupestres, lutas medonhas contra tribos surgidas não se sabia de onde, um clima desgraçado, tudo contra a sobrevivência dos parcos de cérebro, sim, foi insana e maravilhosa a caminhada dos humanos, rasgando tempo e espaço na rota do incenso, com a rota da seda, a longa marcha dos 5000 li, na China de mao tsé tung, a coluna prestes que andou 10 mil kms, a inacreditável dose de teimosia da gente de Canudos, bem como a epopeia dos exploradores árticos morrendo congelados, delirantes de entusiasmo e desespero, mais aquele do que este; a pavorosa inquisição da igreja católica, e as crianças estraçalhadas por dezoito horas de trabalho diário, na falsamente ética terra dos anglo-saxões, a invenção da bússola e da tipografia, ó céus e infernos, como esquecer o portal do inferno na Alemanha de 39 a45, advertindo que Arbeit macht frei // O trabalho faz a liberdade, e o portão do inferno na divina comédia, avisando para que Abandone toda esperança aquele que por aqui entrar ?

     Depois de tanto, resta-nos viver blindados, um drone em cada janela, comida plástica, botijões de oxigênio logo serão entregues na porta, por uma pequena fortuna cada, já que a vida, parece, ainda vale alguma coisa. Encomendei drones, preciso estar enganosamente preparado.

*

Foto e texto: Darlan M Cunha

Visite: PALIAVANA4: http://www.paliavana4.com.br