O Mundo visto de dentro de um caldeirão

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     Dancei com Madame Min na floresta durante quarenta dias e quarenta e uma noites, depois fomos jogar cartas, e ela naturalmente trapaceou, me ferrou bonito, levando-me os últimos trocados, mas como foi por uma boa causa não me importei, porque ela doou o dinheirinho para uma creche a boa garota descabelada. Para repormos as energias, ela preparou um panelaço especial, sendo que não faltaram cerveja choca e pão caseiro feito de trigo selvagem, sem veneno tão comum na showciedade, comemos glúten e alimentos com altas taxas de colesterol, nós tiramos isso de letra, e por aí vão nossas estrepolias, nossa heresia, nossa velha e insuperável sátira.

     Maga Patalógica desaparecera floresta adentro com o namorado atual dela, um tal de Bidu Bandalheira, gente muy fina, fino trato, cicatriz na cara do tipo Scarface, a mesma do grande e generoso Mr. Al Capone, que tinha a alcunha de Scarface (meu sobrenome Cunha terá algo a ver com isto ?).

     Min preparou panelaço com asas e coração de morcegos zarolhos, costelas do Homem de Neanderthal, cocô de Rattus rattus, olho de vidro roubado do cego Agiraldo enquanto ele dormia, dois frangos pretos e duas galinhas albinas, canelas de seriema, pinto de besouro rola-bosta, três rabinhos e três focinhos de porcos criados num lugar no Oriente Médio ou Middle West, urina reciclada de astronauta (está na moda), penas de rabo de pavão, três litros e um quarto de leite de camela manca de duas corcundas (dromedário), uma caneta de um político condenado pela justiça (derretida num vu), sal grosso, pimenta sete-molhos, gengibre selvagem, jiló, um sutiã de Cleópatra (seda pura), óleo de fígado de bacalhau, dezessete gotas de estricnina (tem de coincidir o mesmo número de gotas com o dia do mês), dois grandes baiacus (peixes mortais), folhas de aningapara, chamada de comigo-ninguém-pode, pernas e boca serrilhada das terríveis formigas de fogo da Amazônia, a tocandira (na época dos rapazes passarem de fase, ou seja, rito de iniciação, os mestres enfiam um braço deles num recipiente de fibras, onde centenas das terríveis picadoras injetam ácido fórmico nos garotos que incham e gemem e choram e zonzeiam e uns desmaiam, e só assim serão considerados homens pela aldeia). A mão fica parecendo uma bola, é o preço da tradição.

     Tomamos a sopa inigualável, manjar dos deuses, bebemos muita pinga de fundo de quintal, o paraíso existe. Depois da carraspana ou bebedeira, antes de irmos roncar no meio da floresta, fogueira acesa, Min recitou alguns de seus poemas, começando com o famoso Ukelelê Ziriguidum, ode ao amor, à maneira da famosa filha da ilha de Lesbos, na Grécia, a poetisa Safo. O amor é lindo, disse um cego do tempo do Abracadabra.

 

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Texto: Darlan M Cunha

Arte gráfica: Mundo HQ, Ivan Saldenberg, GramUnion

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Guerreiros 11

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Hoplitas: eram chamados assim os soldados gregos

 

     Certa vez, enquanto lavava o rosto, ocorreu-me que eu não era eu – não mais, o que me deixou entre pasmo e apavorado, e um tremor invadiu-me de tal forma que tive de me sentar, não sem antes olhar-me no espelho do banheiro, sim, lá estava o outro, outra dimensão Darlaniana, e a taquicardia atacou pra valer, queria gritar, pedir socorro, um copo de água ou uma dose de vodka com água de coco e pedra de gelo, mas como, se um mutismo desesperado me apertava a garganta ? Nunca mais me olhei num espelho, e por isso mesmo, dizem as boas e as más línguas, vivo desgrenhado, descabelado feito outra Madame Min.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

facho

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     Nada como um sol atrás do outro, embora a penumbra também seja para todos, democrática, tanto para os céticos quanto para os crentes, para todos. O rumo das coisas tem um passado, mas só o amanhã interessa, segundo alguns, segundo muitos. Eis a showciedade presa num metrô, com um sorriso meio assim-assim, mas não há o que fazer senão ir em frente, ainda que demente e impotente, mas sempre confiante de que as coisas sairão do círculo vicioso.

 

Foto e texto: Darlan M Cunha

Guerreiras E

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currículo de ajuda

     Comprei um conjunto de cama, de quatro peças, para a minha mãe. Nada demais, pensei, mas algo ainda me inquieta, até porque nunca sou de lhe dar presentes em mais um desses dias de invenção comercial. Às vezes, em plena segundona, dia nenhum, dia de ralar, levo para ela algum regalo, e isso faz diferença. Vá lá, mãe é mãe, diz o povo

     mas eu me pergunto: – O que me falta para dar a ela o que nunca conseguirei ? De antemão, sei que não adianta esbravejar, espernear e gritar palavrões antigos e recentes, não adianta beber feito gambá no alambique, porque essa dúvida atroz não sairá de mim, de tanto que está grudada na pele quanto nos órgãos internos.

O que fazer, quando a alegria é maior do que nós ? Longa e macia vida às mães todas elas.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Planos

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purgatório / inferno / inexistente   >>>   purgatory / hell / nonexistent

@1

Uma das modas ou leis não oficiais de hoje é a de se levar no bolso um Plano B, para quando as dificuldades para se impor o Plano A se tornem agudas, ou quase, e aí então entra esta variante já famosa e indispensável nos tempos modernos, tempo da Maratona Para O Óbvio, de modo que todo mundo tem um plano reserva, todo mundo é um plano reserva, para si, senão para os outros. Resta saber.

@2

“Na entrada do inferno deve haver muita folia, atrações sem fim”, alguém disse numa roda de bebidas e tira-gostos, fiquei pensando sobre aquilo, e ri todinho por dentro e por fora, e logo tirei a roupa, em plena luz do dia, no meio do mercado, e mostrei a todos com quantas canoas se faz a tal liberdade infinita, mostrei-lhes a rubra roupa louca, chifres, rabo peludo, um odor inigualável, mas ninguém se importou, ninguém teve pavor, pelo que depreendi que o Diabo tão querido e temido já não se cumpre como tal, não, já não se faz Diabos como antigamente. Soluços com tira-gostos.

 

Foto e texto: Darlan M Cunha

Guerreiros 6

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Manta e escudo do rei e general LEÔNIDAS, de Esparta (540 a.C – 480 a.C)

 

A PALHA VAI PEGAR JOGO

     Antes do jantar, senta-se numa pequena poltrona, mais baixa, e se desamarra dos cal-çados, lentamente, encosta-se para puxar a calça, desencosta-se para livrar-se da camisa, e fica repassando o dia, inalando as idas e voltas de que foi alvo, costurando e descosturando tratos, e se lembra de que entre uma palavra e outra sempre vem o silêncio mútuo para que as partes juntem argumentos com os quais revalidarem algum acordo. Assim os dias, seus dias, até voltar da luta, em farrapos, sentar-se no pequeno trono, e abaixar-se para se li-vrar dos calçados, com dificuldade cada vez maior, quando então repete “sim, o tempo dos empecilhos chegou, está cada vez mas difícil alcançar os pés, mas este resto de palha ainda há de pegar jogo.”

 

Foto e texto: Darlan M Cunha

Guerreiros 5

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Cruzadas (séc. XI a XIII)

@1

Esses dentes que tanto sentiram a argamassa da dúvida sabem que também um castor está condenado a gastá-los diariamente. Esse dentes que morderam a sevícia, que foram quebrados pela tortura, e que, junto com o ar e a língua, com todo o aparelho respiratório, assobiaram para ovelhas e mulheres, esses dentes sofreram com o tártaro e com cáries (os nervos à flor da dor). Porém, é preciso ir, porque ir é o melhor remédio, com ou sem dentes, intuindo que o melhor remédio é ter vontade férrea, e o resto é figuração, como diz o povo em sua infinita intuição de lebre cega.

@

Eis o bambu na forma de uma esteira de enrolar sushi, eis o esteio de uma civilização, o pai da China, o bambu está em tudo, está no avesso, no verso, no reverso e no anverso do cotidiano: o cesto cai sobre os peixes e os aprisiona, taquaras cercam as casas, palitos de bambu, ou kuáizi, em chinês, levam comida às bocas, com ele também se faz instrumento musical, constroem-se barragens, escadas, tambores, barris, casas, arpões, lanças, brin-quedos, ou seja, totalmente introjetado no psiquismo geral. Salvas de prata ao bambu.

@3

Se o amor é mesmo de ir e voltar

de voltar e tornar a ir ao céu da boca

com o chicote em punho

com o avesso dele sempre pronto

a perdoar, ou não, logo mais saberás –

talvez já saibas, saibamos, esquecidos, saibamos.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

 

Guerreiros A

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Ordenha num sítio de gente “de casa”, próximo a Medina, MG

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O AR DE UMA ERA   

 

Uma vez atingido um ideal, por ora

as pessoas costumam sumir

misturando-se com alguma incógnita

já não dão mais o ar de sua graça

nada dizem do despejo de suas tramas

sobre a ira e a insônia do Outro

e assim se diga que é natural, é ótimo

que ninguém creia em ninguém

ninguém arrisque um real ou um dólar furado

em ninguém com tecnologia de ponta

com saia justa ou com esmeralda no fígado

em lugar nenhum ninguém creia em nada

em lugar algum se dê corda ao céu

da boca, nada disso, o mundo está demente

mas de piada em piada a gente vai levando

e em nada mais acreditando.

 

Foto e poema : Darlan M Cunha

Guerreiros 4

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Vikings

 

    É a cabeça, irmão. É isso, proteger o centro das coisas, o pensamento. Pensar dói, mas alarga a visão, pensar o impensado por esta ou por aquela pessoa, embora já pensado por tantas outras em Eras diversas, por tantas e tantas pessoas. É preciso pensar, mas estamos numa época na qual o que vale, o que vence, o único que se aceita é correr, chegar em casa como um farrapo diário, e o sono e a insônia sendo recebidos como uma dádiva.

     Eis o dia e a noite – cada qual com suas necessidades, mais dependências sendo criadas e substituídas. Eis a horta, o horto, a forja sempre em brasa, o Homem sempre pronto a um feixe de lenha, um feixe de vigas finas de aço, um rastilho de pólvora, eis o escritório onde suores próximos e distantes são decididos,  pois o trabalho mitiga a sede e serve de propaganda, e para exemplo famoso disso temos este e muitos outros slogans mundo afora em tempos diversos: Arbeit macht Frei / O trabalho liberta (está na entrada de um campo de concentração). Para tanta gente, ainda hoje, trabalho escravo ou semi-escravo é a sua realidade, mas ao salário do medo o riso não cede passo, e passa por dentro do título do livro do Cesare Pavese,  Lavorare stanca  // Trabalhar cansa. Eis o dia e a noite.

Foto e texto: Darlan M Cunha

Bee Gees: First of May >>> https://www.letras.mus.br/bee-gees/3614/#radio:bee-gees

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Guerreiros: “Em nome do Rei e de Deus.”

 

     Longe de se tornar apêndice (removível) nos dias de hoje vemos a câmera fotográfica tornar-se algo assim parte da fisiologia e do psiquismo, pois é preciso dar um clique sobre qualquer coisa, viver a solidão, a impertinência, a alegria, a ilusão de um clique, cimentar o ego vacilante por trás do foco. Gentilmente, avisam: Você pode estar sendo filmado.

Foto e texto: Darlan M Cunha