convite

Sabará, MG – BRASIL

Algum dia irei a Sabarábuçu, Raposos, Rio Acima, e ao Rio das Velhas com muitas histórias de ouro, e também voltarei a São Sebastião das Águas Claras, que todo mundo conhece como Cachoeira dos Macacos, pequenina e dócil ao tato e ao olhar, tudo aqui bem pertinho de BH, mas longe da monstrópole, sim, é claro que fui até lá várias vezes, mas sempre me esqueço como estes lugares são, vivem, aí então eu invento de ir conhecê-los, e lá vamos nós aos queijos, chouriços, couves, linguiças, jabuticabas, torresminhos, taioba, goiabada, ao angu, ao ora pro nobis e àquela cachacinha. Ó, melhor do que isso é só beijo de Mãe, e umas bicotas das moças, e muita música, porque em todos estes lugares há músicos a rodo, é difícil uma família onde não haja alguém músico, ainda que amador, mas de muito boa técnica – moças e rapazes tocando com vovôs e vovós, crianças bem ali no seu dó maior na flauta, etc. Um espanto é o país, esse mesmo de Brasília – aliás, não o mesmo.

Darlan M Cunha: foto e texto

senhas / passwords

pausa

O ASSOMBROSO MUNDO DA MÃE SENHA

Somos filhos da Senha, tudo tem de ser conferido, ou a aba, o segredo não se abrirá, bastando alguns cliques, ou nada feito, teus cabelos ficarão crispados de raiva, tuas unhas apertando a superfície mais próxima, som de fúria, as páginas são rinhas trocando de senhas, mas o dique vaza, para o desespero sentado numa cozinha pequena, tudo em silêncio, menos o vizinho barulhento, isso vai mal, creia, senhas são seguranças vestidas com tecidos transparentes, são necessárias, mas ainda servem pouco sob o ataque de uma curra informática, sim, tu és filha da Mãe Senha, todos são filhos dessa mesma mãe, portanto, todos têm N irmãos e irmãs avaliadas e avariadas. Não há saída. No way.

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THE AMAZING WORLD OF THE MOTHER PASSWORD

We are children of the Password, everything must be checked, or the flap, the secret will not open, just a few clicks, or nothing done, your hair will be crisp with rage, your nails clenching the nearest surface, sound of fury, the pages are puzzles changing passwords, but the dam leaks, to your despair sitting in a small kitchen, all silent but the noisy neighbor, this is going badly, believe me, passwords are security guards dressed in transparent fabrics, they are necessary, but still serve little purpose under the onslaught of a computer curse, yes, you are the daughter of Mother Password, everyone is a child of that same mother, so everyone has N brothers and sisters assessed and broken down. There is no way out. No way.

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Amadas e Caros, vamos à macarronada do sábado, que a feijoada fique para o domingo:

SÁBADO: MACARRONADA — DOMINGO: FEIJOADA
  • Darlan M Cunha

do mundo

Bairro BARREIRO – BELO HORIZONTE, MG

Que se fale sobre amenidades, daquilo que flua com leveza, por exemplo: espaço, luz, ausência de gente (embora não se viva sozinho, mas, se só por algum tempo, isto é salutar), o sorriso franco, aberto feito leque ou tesoura ou braços, mas já faz tempo que ele sumiu, sim, falemos de boas leituras, de piadas de se rir tanto até fazer xixi, pois é… pense, embora se diga que pensar dói, mas, enquanto isso, vamos a esse bolo supimpa, caseiro:

Calma aí, ora, tem pra todo mundo, ora essa, e os bons modos que a mamãe ensinou ?

Não me lembro de ter ouvido – nunca – alguém dizer que não gosta de bolo ou de chocolate ou de pizza ou de pão. Pode existir, mas não aqui no meu raio de atuação, ou seja, todas as ruas do bairro, meu mundo vasto mundo, no dizer do Drummond, um cara sistemático, mas de bom humor, pode acreditar. Bom, quanto ao que mais interessa, que é a comilança, antes de tudo, lave as mãos, agradeça ao chão de onde o trigo, o açúcar, a manteiga, ovos, o leite e o fermento, você e eu viemos. Pronto, servir.

Agora, saciados e saciadas, vamos para outra janela, que não só a do Windows, com todo respeito, vamos à janela de outro pasmo:

CALMA. A SOPA FICARÁ PARA A NOITE – HORA MAIS PROPÍCIA, APÓS OUTRO DIA DE LABUTA.

Eu gostaria tanto de tantas coisas saber / como sei ir de madrugada, pé ante pé, / até a geladeira, para fazer e acontecer. / Mas, se tantas coisas eu soubesse / ou se as vivesse / talvez nenhum tempo eu tivesse / para as dolorosas mas saborosas madrugadas / bem postas de ladrão de geladeira. / Triste sina, deves te cuidar, criatura: colesterol, triglicérides e creatinina, sem falar na pressa / das ruas – essa dura sala de aulas, essa perigosa oficina.

Darlan M Cunha

HELENA MEIRELLES (1924-2005, Mato Grosso do Sul), excepcional violeira: HELENA MEIRELLES – FLOR PANTANEIRA – YouTube

dominical

Eu uso tênis – antigamente chamado de quedes.

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CLUBE da ESQUINA nº 3 – ou Venha vestir a roupa de algodão grosso dos mineiros, como fizeram D. Pedro II e a Imperatriz Tereza Cristina.

De vez em quando a cabeça dói, algum dente late, um dos sapatos põe a língua para fora em plena rua, e aí fica complicado, meu amigo, voltarás mancando para casa, minha amiga do bico fino (o sapato), sempre há pequenas surpresas cotidianas, cotidiárias, cotidiácidas, imprevistos que se muitas vezes são desagradáveis e até desesperadores, outras vezes, são até engraçados, se analisados tempos depois. Comigo aconteceu, na bela e pequena e próxima Rio Acima, de estar de terno e gravata, e ponha elegância nisso, sapatos de couro cru, um dos quais me fez o solene favor de abrir a boca na rua, mas tive tanta sorte naquele domingo, que um passante, caminhoneiro e, nas horas vagas, sapateiro, marceneiro, mestre carpinteiro e sabe lá o diabo o que mais de bom ele tem, notou o meu embaraço (embaraço, em espanhol, é embarazo, significa mulher grávida… afe!), me levou à casa dele, onde, entre risadas e cervejas, fez o conserto, ele nada cobrou, ou seja, de um imprevisto desagradável, numa cidade com história do Brasil (Rio das Velhas = ouro, minérios em geral, a meia hora de Bêagá, o imperador D. Pedro II e a imperatriz Tereza Cristina estiveram lá), ganhei um amigo de fé: José. Coisas da vida, minha nêga, como diz o Paulinho da Viola numa canção. Para terminar, não esquecer que “todo mineiro é conspirador.” É a nossa genética, nosso psiquismo muito bem arraigado.

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Come wear the thick cotton clothes of the miners, as did the Emperor of Brazil, Dom Pedro II and Empress Tereza Cristina.

Once in a while your head hurts, a tooth barks, one of your shoes sticks out its tongue in the middle of the street, and then it gets complicated, my friend, you will go back home with a limp, my friend with the thin beak (the shoe), there are always little everyday surprises, everyday, everyday accidents, unforeseen events that, if they are often unpleasant and even despairing, are sometimes even funny, if analyzed afterwards. It happened to me, in the beautiful and small nearby Rio Acima, that I was wearing a suit and tie, and put elegance into it, raw leather shoes, one of which did me the solemn favor of opening my mouth on the street, but I was so lucky that Sunday, that a passerby, a truck driver and, in his spare time, a shoemaker, joiner, master carpenter and who knows what else good he has, noticed my embarrassment (embarrassment, in Spanish, is embarazo, it means pregnant woman. … afe!), took me to his house, where, between laughs and beers, he did the repair, he charged nothing, that is, from an unpleasant unexpected, in a city with Brazilian history (Rio das Velhas = gold, ores in general, half an hour from Bêagá, Emperor Pedro II and Empress Tereza Cristina were there), I gained a friend of faith: José. Things of life, my nêga, as Paulinho da Viola says. To finish, don’t forget that “every miner is a conspirator.” It is our genetics, our very well ingrained psyche.

Darlan M Cunha

CLUBE da ESQUINA nº2. MILTON e LÔ: https://www.youtube.com/watch?v=-83HCIbrfWU

CLUBE DA ESQUINA nº 1. MILTON (Vídeo no Blog de MOACIR SILVEIRA): https://www.youtube.com/watch?v=YkLjtrJjXEM

rumos

O Mundo é isso: formas & normas.

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Darlaniana

Num dia do qual já não me recordo de nada do que ele foi, quase nada, um pouco aqui e ali, vivi algo até então inusitado para mim, qual seja: a primeira tomada de consciência de que eu, mais do que a barata na qual Gregor Samsa se viu transformado, ao acordar, eu me vi sem nenhuma forma e, mais gratificante, sem nenhuma norma – isso porque, rebelde pela própria natureza, já não morria de amores para entrar em fila, bater contingêngia tal ou tal, ajoelhar-me diante de algum senhor de anéis, nozes e vozes, não, nada disso, e assim eu me vi saído dos 99% de liberdade, para chegar ao Todo. Cá estou, não sei onde, cá estou, bem mal, porque sozinho.

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On a day when I no longer remember anything of what he was, almost nothing, a little here and there, I experienced something until then unusual for me, which was the first realization that I, more than the cockroach into which Gregor Samsa found himself transformed, upon waking up, I found myself without any form and, more gratifyingly, without any norm – this because, rebellious by nature, I was no longer dying to get in line, to beat contingency such and such, to kneel before some lord of rings, nuts and voices, no, none of that, and so I found myself leaving the 99% of freedom, to arrive at the All. Here I am, I don’t know where, here I am, quite badly, because alone.

Darlan M Cunha

GUANTANAMERA (Joseito Fernández / Héctor Angulo). Cerca de 75 cubanos em redor do mundo cantando e tocando Guantanamera. https://www.youtube.com/results?search_query=guantanamera+playing+for+change

nublado

Raposos – MG

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Salmo do Espanto / Psalm of Astonhishment

Não se tenha dedos só pra sonhar, Senhor sem Anéis, não te escondas nas promessas que há na raiz da fala onde se cavam túneis sem fim

não te atenhas só a um vício, não, faz deles uma casa ampla forrada com o veludo carmim do medo, ó Bom Pastor de Óbitos Diários nas Aldeias

Senhor, fazei também de mim um instrumento do vosso samba-jazz: pistom tocando muralhas em ré sustenido maior, ou baquetas fornicando com a argamassa do medo

Ó Pastor das cabritas e das ovelhas, tenras criaturas em sua sina de servir, eis aqui e ali a cerviz curvada dos pequenos pastores brilhando sob o cutelo do sol

temos em nós, peregrinos e peregrinas, momentos de dúvida e desespero, como este que agora nos assola – mundo lindo, mundo findo, sem que nenhuma luz se veja – nem a Tua.

Profeta Landar 69 : 21

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Don’t have fingers only to dream, Lord without Rings, don’t hide yourself in the promises at the root of speech where endless tunnels are dug

do not cling to one vice alone, no, make of them a wide house lined with the crimson velvet of fear, O Good Shepherd of daily deaths in the villages

Lord, make me also an instrument of your jazz: piston playing walls in D major, or drumsticks fornicating with the mortar of fear

O Shepherd of the goats and the sheep, tender creatures in their fate to serve, behold here and there the bent neck of the little shepherds shining under the cleaver of the sun

we have in us, pilgrims, moments of doubt and despair, like this one that now besets us – a beautiful world, a world at an end, with no light to be seen – not even Yours.

Prophet Landar 69 : 21

Darlan M Cunha