Para subir na vida, um cajado por empréstimo, sim, pergunte ao Dr. Fausto, o Diabo é solícito

Buritis

Buritis, Belo Horizonte, MG

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       Crer ou descrer passa por não saber, lá onde a dúvida ainda é soberana, algo normal fluindo seu magma, de leve, até que a pressão seja maior do que a boca, e então a boca explode palavras como pedras em chamas sobre as camas os asfaltos os consultórios os estádios, enfim, a boca toma juízo, e se cumpre, botando verbos pelo avesso, degolando  sintaxes, pobres adjetivos – ele é bom, ela é má -, seccionando colhões de advérbios e pronomes, é isso: crer ou descer e ficar na apatia, enquanto o mundo vasto mundo inventa moda atrás de moda.

 

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foto e texto: Darlan M Cunha

Leia-me no Poem Hunter: https://www.poemhunter.com/poem/mimesis-and-symbiosis/

estrados e estradas

RECOLOCANDO 3

 

     Todos os dias nós mudamos algo, sintonizamos de outra forma algum objetivo, muito embora continuemos básicamente os mesmos, com as mesmas nuanças, a mesma índole selvática ou apaziguadora. É de se rever a trajetória da humanidade, a qual nos dá muito bem a medida, nos mostra que muitas vezes muitos caminhos foram retornados, muitas opiniões ou conceitos bem fundamentados, mas errôneos em sua base, foram deixados de lado, ou não; enfim, muitos retornos foram e ainda são o prato do dia, e não sei por que cargas d’água pensei agora em calça boca de sino, topete pega rapaz, nas anquinhas, nos pés enfaixados à força das japonesas, durante centenas de anos, para agradar amos, mas pensei sobretudo no ainda moderno Código de Hamurabi, escrito pelo rei Hamurabi, da Mesopotâmia, nos idos de 1772 a.C.

     Uma epígrafe minha está nos meus livros e numa página minha na internet: O mesmo de ontem: mas, diferente. Assim, já que ir é o melhor remédio, vamos então de estrados e estradas.

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

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preto no branco

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água, não mágoa

(Fotos das torneiras: Darlan M Cunha. Arte do photoshop: Photofunia.com)

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Um dia na vida de Ivan Denisovich é o título de um livro do escritor russo, prêmio Nobel, Alexander Solzhenitsin, que li há muito tempo, e que, não sei por qual razão, me ocorreu agora. A mente ou a memória nos prega poucas e boas. Essa foi boa.

Às seis da manhã, apoiado no parapeito de uma janela, bebo o café e observo um tipo vizinho derramar oceanos sobre o carro, tudo nele sugere despreocupação, mais ainda o vaivém inconsequente da mangueira, e eu fico pensando nas crianças e nas mulheres que em tantos lugares do mundo caminham quilômetros para buscar água.

 

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Texto: Darlan M Cunha

sabor a mi

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panela de pedra-sabão ainda por ser “curada” para o uso cotidiário

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     Insetos no piano, o tabuleiro de damas soltando vivas à incoerência, formigas no polo sul e beija-flores no polo norte, um pé virado para trás, vigiando as pegadas. Foi assim que ele ficou depois de algum tempo consigo mesmo – aloucado, como se tivesse sofrido uma trepanação mal sucedida, ou se a conta bancária tivesse sido invadida, via homebanking, mas sem clarear nada sobre o assunto. Afinal, em se tratando da própria via crucis, nem sempre a melhor atitude pode ser a de pôr a boca na orquestra, em especial, no trombone ou no baixo-tuba.

     O primo Haroldo Dente Azul sabe disso (a Dinamarca teve monarca com esse nome e essa alcunha), uzeiro e vezeiro em transgredir o novo e o arcaico, inventa todo tipo de instrumento musical, pás para desovar a terra, sentindo seus impulsos, cava e escava feito dentista na lida. E assim ele põe boca de trompete nos bandolins, perna de violoncelo nos violões, réstias de alho e de cebola nos címbalos, bolas de algodão no interior de bumbos e taróis, além de dar nó nas flautas transversas, de modo que o ré bemol e o sol sustenido ficam alterados, enfim, uma rareza. Leio com ele Memórias Não Ditas de Brás Cubas, e de outros que o mundo certamente tem e esconde. Memórias sem futuro, mas é preciso ir a elas, ou nunca saberemos um pouco de nada.

     Nada como uma segunda-feira radiosa, jubilante, com dois pesos e três medidas.

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foto e texto: Darlan M Cunha

…3…2…1

Contagem regressiva 3

contagem regressiva // put your hands up

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       O povo sempre acha ou faz motivos para se mexer, e para se aquietar nesse tempo de isolamento, de individualismo sem paralelo, teleguiado cada vez mais. As pessoas estão apegadas de tal forma à tela, que não se dão conta de quem vai ao seu lado num ônibus, não sentem quem está à frente e atrás de si numa fila, não percebem a contagem regressiva que de fato interessa, a qual se aproxima do fim, em progressão geométrica. Com isso em mente, ouço a música começaria tudo outra vez, se preciso fosse…*

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foto e texto: Darlan M Cunha

Louvaminhas numa quinta-feira

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calos da terra

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Louvados sejam o sal e a cal que tudo demandam em prol de ti

louvados sejam os trevos que nos enchem os nervos

com canseiras maiores do que pode a cama absorver e comutar

louvemos os aríetes com que derrubarmos demências na forma de muros

embora que por algum tempo os muros nos salvem do Outro

nos salvem de nos revelarmos de todo a nós mesmos

louvados sejam o prumo para a construção e o arroz ao lado do feijão

a boca cheia de tufões ou de formigas senão de vontades esquecidas

mas tanto no céu da boca quanto no céu divino o que há de fato

escapa à compreensão cabal do nome e do sobrenome cada vez mais

sem escala própria sem identidade sem aquilo que é ainda pior

de não se ter à mão: a intimidade e a vontade própria e consciente para agir

tornando padrão o exato necessário ao teu chão – o sim e o não.

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cozinha, foto e poema: Darlan M Cunha

não responda não pergunte*

Av. Prof. Mário Werneck... Buritis, BH

O cerebelo da Era Lula // Temer no Museu do Futuro

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       O cerebelo age sobre os movimentos ou reflexos voluntários, coordena a postura corporal, responsável pelo tono muscular, etc. Pois bem, dizem que o governo – o qual está sendo julgado neste momento, no Congresso Nacional, ou não, porque há os que advogam uma abstenção de voto – está em perigo, pois é isso mesmo o que acontece com quem anda em más companhias.

       Eu também cometi esse engano, ene vezes, esquecido dos conselhos da mamãe Maria José, conselhos de toda mãe: – “Filho, fique longe dessa gente, dessas más companhias. Procure um ofício, mude-se de cidade, vá morar com seus avós maternos ou paternos”, dizia-me a mãezinha, hoje com 85 anos, mas tudo em vão, pois o Mal é um ímã poderoso, capaz de cegar até certos governos, tornando-os desgovernos. Só rindo, chorando.

       Como diz a canção do ilustre compositor Walter Franco, “é a cabeça, irmão”, e essa outra também do próprio: “não pergunte, não responda”.

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foto e texto: Darlan M Cunha

(bairro Buritis, Belo Horizonte, MG)

Minha Lenda, escritório

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     O escritório abre às sete, às vezes, às oito, senão às dez. Importar e exportar ideias de ganhos e perdas, que um não vive sem o outro, muito embora que, de acordo com uma canção, o sol não pode viver perto da lua. Música é música, negócios à parte, ganhar é o que há, viver é para ganhadores, é o mote sob o qual trabalha o escritório. Faça-nos uma visita, ainda que só para o cafezinho.

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foto e texto: Darlan M Cunha

AQUI, uma espetacular interpretação do UAKTI, tocando Águas de Março (Tom Jobim): https://www.youtube.com/watch?v=YtFs4emQixk

 

teclado

teclado

     Seja pisando em ovos, nas nuvens, no barro, em cacos de vidro, em brasas nas festas de são joão ou de são pedro ou do diabo, em cédulas falsas ou originais, nas palavras e nos atos da oposição, nas memórias pessoais e gerais, nas oportunidades (dizem que não voltam as boas oportunidades perdidas, das quais muitas vezes só mil tempos depois a pessoa se dá conta do que deixou escapar, por soberba, ignorância, apatia), o caminho se dá a ver, entre favos e favas, alguma trilha mostra as pernas, põe luz verde no indicador, grita por trás de um rochedo, cabendo a cada um/uma ir de vez, de ponta-cabeça, de xuá, seja lá, fazendo razia como um falcão ou um jato de guerra (já titubeei tantas vezes, que estou desacreditado até mesmo entre as pedras, pedras que tantos versos me ocuparam). Melhor mesmo é meter-se no teclado do piano, entrar no domingo, no feriado, nas férias, na aposentadoria, na morte em vida severina.

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foto e texto: Darlan M Cunha

vietato lamentarsi

 

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     Pois é, de grão em grão se vai longe, até que alguém dá um murro na mesa ou chuta o balde, dando nome aos bois e às vacas. O papa Chico é também um humorista sutil, ou um sátírico com palavras de algodão, mas com espinhos dentro. Mudando de assunto, ou seja, deixando de lado os muros de lamentações mundo afora, pelos seios e pênis de silicone, pelas torneiras que não vazam senão ar, saleiros com sal umidificado dentro dele (arroz cru nele), e mil outros entraves cotidiários aos quais todos estão sujeitos, o mundo vai em frente, e uma amiga minha diz que gosta de ficar pensando sobre que cara fariam, por exemplo, os da Idade Média diante do pouso de um jato de guerra, com seus decibéis e sua beleza esguia nos arredores das aldeias, espantando pastores e ovelhas e salteadores, todos caídos de joelhos diante do Novo Senhor, ou fazendo ‘razias’ sobre legiões romanas e sobre os soldados dos gloriosos Carlos Magno e Gêngis Cão, quando não sobre o castelo de Ivan IV, o Terrível, de madrugada, porque era de madrugada que ele ia rezar, e após as matinas diárias às quais seu remorso e sua loucura não o deixavam faltar, ele descia aos porões do próprio inferno, para infringir em pessoa torturas inenarráveis aos presos. A amiga tem bom gosto, tem o senso do tétrico que ela tenta verter para a sátira.

     Parodiando Guimarães Rosa (Minas são muitas), se vê que o mundo tem muitos ecos.

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imagem de La Stampa (Itália)    

texto de Darlan M Cunha