senhas / passwords

pausa

O ASSOMBROSO MUNDO DA MÃE SENHA

Somos filhos da Senha, tudo tem de ser conferido, ou a aba, o segredo não se abrirá, bastando alguns cliques, ou nada feito, teus cabelos ficarão crispados de raiva, tuas unhas apertando a superfície mais próxima, som de fúria, as páginas são rinhas trocando de senhas, mas o dique vaza, para o desespero sentado numa cozinha pequena, tudo em silêncio, menos o vizinho barulhento, isso vai mal, creia, senhas são seguranças vestidas com tecidos transparentes, são necessárias, mas ainda servem pouco sob o ataque de uma curra informática, sim, tu és filha da Mãe Senha, todos são filhos dessa mesma mãe, portanto, todos têm N irmãos e irmãs avaliadas e avariadas. Não há saída. No way.

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THE AMAZING WORLD OF THE MOTHER PASSWORD

We are children of the Password, everything must be checked, or the flap, the secret will not open, just a few clicks, or nothing done, your hair will be crisp with rage, your nails clenching the nearest surface, sound of fury, the pages are puzzles changing passwords, but the dam leaks, to your despair sitting in a small kitchen, all silent but the noisy neighbor, this is going badly, believe me, passwords are security guards dressed in transparent fabrics, they are necessary, but still serve little purpose under the onslaught of a computer curse, yes, you are the daughter of Mother Password, everyone is a child of that same mother, so everyone has N brothers and sisters assessed and broken down. There is no way out. No way.

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Amadas e Caros, vamos à macarronada do sábado, que a feijoada fique para o domingo:

SÁBADO: MACARRONADA — DOMINGO: FEIJOADA
  • Darlan M Cunha

rumos

O Mundo é isso: formas & normas.

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Darlaniana

Num dia do qual já não me recordo de nada do que ele foi, quase nada, um pouco aqui e ali, vivi algo até então inusitado para mim, qual seja: a primeira tomada de consciência de que eu, mais do que a barata na qual Gregor Samsa se viu transformado, ao acordar, eu me vi sem nenhuma forma e, mais gratificante, sem nenhuma norma – isso porque, rebelde pela própria natureza, já não morria de amores para entrar em fila, bater contingêngia tal ou tal, ajoelhar-me diante de algum senhor de anéis, nozes e vozes, não, nada disso, e assim eu me vi saído dos 99% de liberdade, para chegar ao Todo. Cá estou, não sei onde, cá estou, bem mal, porque sozinho.

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On a day when I no longer remember anything of what he was, almost nothing, a little here and there, I experienced something until then unusual for me, which was the first realization that I, more than the cockroach into which Gregor Samsa found himself transformed, upon waking up, I found myself without any form and, more gratifyingly, without any norm – this because, rebellious by nature, I was no longer dying to get in line, to beat contingency such and such, to kneel before some lord of rings, nuts and voices, no, none of that, and so I found myself leaving the 99% of freedom, to arrive at the All. Here I am, I don’t know where, here I am, quite badly, because alone.

Darlan M Cunha

GUANTANAMERA (Joseito Fernández / Héctor Angulo). Cerca de 75 cubanos em redor do mundo cantando e tocando Guantanamera. https://www.youtube.com/results?search_query=guantanamera+playing+for+change

POST 1017: o melhor abrigo, e o ex melhor amigo do Homem – e conto final.

O Cara
Ex amigo número um na preferência popular, outro que perdeu para a Máquina. VEJA A CARA DE DESOLAÇÃO. (Não me lembro exatamente em que ano desenhei este cão, acho que em 2013).

@1.

Amigo é pra essas coisas * (Aldir Blanc – Sílvio Silva)

O nome é smartphone, de preferência, com ph, em Portugal é telemóvel, noutros lugares, tanto entre caninos quanto entre muares e semi-humanos e humanos demasiado inumanos,, o nome é celular, ou seja, o dono das bocas e ouvidos, inclusive dos ouvidos moucos, o dono do pedaço, a toda momento e em todo lugar, mestre em administrar as tolices humanas, armazeno seus erros, conceitos chulos e até mesmo risíveis, ou seja, suas conversas ao pé do ouvido, os humanos são uma despensa cheia de vazios, sou uma célula carregada no bolso traseiro, suplicam por um puxão dos ladrões e das ladras, e há quem tenha piedade de tais descuidados.

Mamma mia, onde está a bendita dentadura, se não outra vez no sofá, no copo com água, ou no tapete ? O dia está aí, é preciso fingir que se vai resolvê-lo, este filho da mão pressa, filho com mão pesada, mas para tentar acompanhá-lo só há uma oportunidade, em vão, porque nada pode acompanhar um dia em 100% de sua atuação no palco que ele mesmo monta e desmonta com a ajuda dos humanos demasiado inumanos, todos eles com dez carteiras, senhas, cartões ou balões de oxigênio, ele é o cara que administra o Absurdo estoque de dotes, é preciso vender a alma ao Diabo, como fez o Doutor Fausto, no livro do Johann Wolfgang Goethe. Isso tudo é de vocês, cidadão e cidadã, anões famintos de tudo, que não podem ver luzes, pedras vagalumes sépias e polvos são sinônimos de luz. Também querem ter asas ? Ora, sou eu suas asas, o dono de sua coleira: sou o celular, aquele que os ajuda a encontrar uma rua, um restaurante, um hospital, horários de ônibus, do banco, do posto e da mercearia, chamar um táxi ou um garoto de programa, marcar dentista, comprar via teclado. Se vai de férias, deixe o marido em casa, a mulher tricotando. Sou O Cara, o dono de sua coleira multicor. La vie en rose.

@2.

Friend is for these things* (Aldir Blanc – Sílvio Silva)

The name is smartphone, preferably with ph, in Portugal is cell phone, in other places, both among canines and among muares and half-human and human too inhuman, the name is mobile, ie the owner of the mouths and ears, including deaf ears, the owner of the piece, at all times and everywhere, Master in managing human foolishness, I store your mistakes, pimping and even laughable concepts, that is, your conversations by the ear, humans are a pantry full of emptiness, I am the cell loaded in the back pocket, they beg for a tug from thieves and robbers, and there are still those who have pity on such carelessness.

Mamma mia, where is the blessed dentures, if not again on the sofa, the glass with water, or the carpet ? The day is there, you have to pretend you’re going to solve it, this son of a hurry hand, son with a heavy hand, but to try to accompany him there’s only one chance, in vain, because nothing can accompany a day in 100% of his performance on stage that he himself assembles and disassembles, Counting on us, the humans too inhuman, all with ten wallets, passwords, cards or oxygen balloons, he is the guy, he manages the Absurd stock of gifts, you have to sell your soul to the Devil, as Doctor Faust did in Johann Wolfgang Goethe’s book. This is all from you, citizen and citizen, dwarves hungry for everything, who can not see lights, stones, sepia, octopuses are synonymous with light. Do you also want to have wings? Well, I am your wings, the owner of your collar: your cell phone, the one that helps you on a street, a restaurant, a hospital, bus schedule, bank schedule, grocery store, call a cab or a program boy, book a dentist, buy via keyboard, go on vacation: leave your husband at home, leave your wife knitting… hehe, I am The Man, the owner of your multicolor collar. La vie en rose.

Darlan M Cunha

janelas / windows

Novo e persistente ensaio sobre a cegueira

A boca das cavernas era a janela de onde se via a caça, o inimigo furtivo. O medo chegou com a religião que fez dele um sistema, o qualificou como pai e mãe da insônia geral.

As janelas são a casa, mas em várias sociedades elas mal existem, só uma portinha. Lá fora, contradições: seus beirais sem contos de fadas, a janela é refúgio, mas o silêncio continuado pode ser sinal de perigo, a pessoa pode ver o que já não existe, ou o que nunca existiu.

Sabará, MG. “Namoradeira.”

Da janela frontal, da lateral ou da dos fundos, os dias nos comovem, ou já pouco importam.

Darlan M Cunha

LÔ BORGES. Da janela lateral. Patrocínio Laboratórios HERMES PARDINI. https://www.youtube.com/watch?v=I7B8yNYDXxk

as visitas, 1

E por que não visitar os Humanos ?

Não me lembro quando fui ao mar pela primeira vez, e nem quando estive noutra galáxia pela primeira vez, tampouco me recordo daquele dia em que o mundo não se acabou, acho que sequer me lembro da primeira sopa e das primeiras lágrimas na prisão, ao lado do amigo, na Sibéria, mas nada disso tem muita importância, pois o dia de hoje está chamando e, isto, sim, é importante.

Darlan M Cunha

optar

Paredão ou Luz (Cachoeira da SAMSA. Rio Acima. MG, Brasil)

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Darlanianas

no Dia Mundial das Livrarias

@1.

O rubor chegou e ficou de pé, imprensado contra a parede e contra si mesmo, teve que ouvir frase lapidar, depois dela ouviu prédicas, ladainhas, sermões hiper admoestadores e, por fim, ouvir uma caudal de nome discurso, porque o rubor é indefeso diante de certos fatos. Sua reação é involuntária, sobe e esquenta as faces, às vezes, ele até chora e solta pontapés e palavrões para todos os lados, coerente e incoerente consigo mesmo, pelo que fez e não fez – está vivo, suando frio, mastigando erros e acertos, projetos inconclusos, rios de dúvidas e tristeza, querendo bem longe de si certo tipo de mundo.

@2.

Hoje é dia de temor na aldeia a qual nas sextas-feiras – dia treze ou não – é vigiada com mais minúcias ainda, talvez nada aconteça, como de outras vezes, mas já no início da madrugada soou o alarme, pois uma criança, ou algo parecido, foi vista na ala norte, e logo, horrorizado, o povo notou-a sem rosto, locomovendo-se como se o tivesse, a aldeia se fez de joelhos, seu antigo costume de dar-se de joelhos – menos eu e outros, resolvidos a não darmos fim a tal expiação e bulício, porque talvez o melhor seja rever como é que o povo paga pelo que faz a si mesmo a cada giro da ampulheta.

@3.

Continuando sua explanação, seu delírio momentâneo, ela disse que “homem de roupão é o máximo, vi na tevê” – disse, e eu fiquei na minha, calado que nem um bode ressabiado, tarado com vontade doida de esganar homem roupão cipreste barco arco reflexo e arco e flecha também esganar gato cachorro bolsa de valores incendiar presídios igrejas fóruns quartéis & mil réis, dar sumiço nos pobres parasitas vadias matar todas as baratas a chineladas pulgas e piolhos, enfim, eu fiquei alucinado com aquela ingênua confissão, e foi então que me percebi muito doente, sim, um pré paciente já nos últimos gorgolejos da Razão, tragada por um egoísmo só visto no seio das piores causas, no meio de ruas mais abandonadas e confusas do que certas mentes, eu me notei sem prumo, perdido no meio da aldeia quanto nas veias da casa.

@4.

Temeroso, ao extremo de suar em bicas, levado a custo por gente amiga ao cadafalso – foi assim que ele se referiu ao consultório do urologista, fazendo pilhéria para ver se se relaxava um pouco, pois era preciso, e alguém disse o de sempre: Ó, vai ser bem rápido e indolor – no que aquele paciente com hora marcada não acreditou. Mas foram, sentaram-se dentro do silêncio branco, até que seu nome foi citado, pareceu muito distante, e foi para o exame, de onde voltou radiante, porque nada de câncer prostático, a sua neoplasia é benigna, ou seja, é melhor do que o Mundo. Benigna. Fomos às cervejas. Amigo é pra essas coisas, para a hora difícil.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

MPB_4. Amigo é pra essas coisas (autores: Sílvio Silva – Aldir Blanc): https://www.youtube.com/watch?v=lhi7YIfuwmQ