ALGUÉM & ALGUÉM

ALGUÉM SUOU O TEU NOME

E se dêem por satisfeitos se café houver após horas e horas de samba em sol e ré, e que não se abatam pelo fato de, só depois de tais peripécias em lá e fá, saberem com quem foram ao paraíso, ou, segundo a canção, “com que roupa”.

Ah, o amor é lindo”, dizem os traumatizados, filósofos e outros alcoólatras e drogados de todo tipo; dizem e repetem que o amor é lindo, mas nada dizem da carga fenomenal do desamor que carregam consigo, o que os torna ladinos, sorumbáticos, pequenos sarcásticos. Afinal, quem fica mais de um tempo de jogo com perdedores, ecos de fraqueza em cada mutismo e em cada palavra ? Nem mesmo as tipas e os pegajosos contumazes. Verdade é que são teimosos os cegos, e pegajosas as tipas, e se acham capazes de te arrastar.

E se dêem por satisfeitos se carnaval ainda houver quando for imenso o peso na cabeça, quando a rua lhes parecer despropositada no tamanho, nas cores e odores, enfim, quando só tiverem a si mesmos por momo ou princesa decaída.

(DMC)

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Foto: Jussara. R – FLICKR

HISTÓRIA DA CAMA

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Conta-se que a cama é fruto de desculpa esfarrapada, para uns; para outros, um imperativo do corpo, mais do que da mente. Mas de qual tipo se fala, se há camas de solteiro e de casado ? para um só dia e para mais longas estadias ? camas chamadas de maca, cuja estrutura pode ser para hospital em tempo de paz, ou modificadas para tempos de guerra ?

De qual delas se fala ? Sabe-se que a igreja condena este apetrecho cotidiano, por julgá-lo receptor da volúpia, sicário da preguiça, antinomia e sinonímia capazes de reger o mundo de tantos, senão o de todos… sim, este arrazoado é antigo, é de antes do tempo em que nas cavernas o cocô dos morcegos forrava o imaginário dos bípedes que sobre ele estendiam palhas e couros para dormir, comer, beber, guerrear, grunhir, jogar, fornicar e jogar (jogar é antigo, tem mil tempos mais que o seu nome latino Homo ludens), mas não se sabe quando o Homem começou a e deixou de sorrir.

Da antropologia e do alfabeto se sabe algo a respeito do por quê vieram como necessidades do Homem, mas o mesmo não se pode dizer da inútil paisagem forjada pela psicologia clínica quando, por exemplo, intenta explicar o bélico em cada um e em todos os humanos, a tendência ao belo… e outras tangências e outras “histórias das infâmias universais”. *

A cama, senhoras e senhores, ainda que seja a mais coerente sensação dentre as vossas divagações e o mais protelado dos segredos, precisa que se lhe feche de vez em quando as pernas, que se lhe dê de ombros de quando em vez, como o fazemos com uma canção ou um livro que se deixa de lado por algum tempo, devido ao uso contínuo ou ao fato de não se concordar mais com ele, quando não pelo fato de algo melhor ter surgido.

A cama é espera, duna e nuvem, certeza de palpitações das duas inenarráveis algazarras que sobre nós arremetem com o seu inexorável domínio (lembro-me dos poemas Congresso dos Ventos e Colóquio dos Violentos*): as antípodas irmãs gêmeas: sexo e morte. Estuda-se até a exaustão a libido, mas é como no futebol: quem entende mesmo de futebol é só a bola. A bola. A libido não é jogo só para se beber, comer, guerrear, grunhir, fornicar e dormir, e não será na cama que terás a resposta, se é que resposta plausível

há, e se é que procuras alguma. Quando se inventará e se inventariará mesmo o Riso ? Resolverá algo o Riso ? Será vendido a quanto o Riso ?

foto e texto: DMC
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*: JORGE LUÍS BORGES. História Universal da Infãmia.
*: JOAQUIM CARDOZO. Poesias Completas.

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