acrobata (todos nós)

acrobata

os nós das ruas

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     Hoje é aniversário do quem e do que não existe, e parece-me que sou o único conviva, pelo menos o único até agora a comparecer ao ato; talvez haja bufê caprichado, com as últimas da novela das oito, ou alguma frase da novela das nove, um conto sobre futebol talvez seja lido, alguém dirá algo sobre estrela de cinco pontas e candelabros de sete e de nove pontas, senão de mais; outro entusiasta dirá que a barragem destruída já está de pé, redesenhada revista reprocessada regulamentada em papel cuchê e coisas e tais. Quero é outro tipo de vinho com estricnina, cansado de lesmas, bagaços de leis, alusões ao bom e ao melhor, liquidações a granel, no varejo e no atacado (vendo mãe e pai, mulher, filhas imprestáveis, filhos e enteados parasitas, a bandeja de prata de minha avó materna, e o chicote de couro cru com cabo de prata e marfim, muito usado pelo meu avô paterno (“Vais ter com mulheres ? Não esqueças o chicote” – Nietzsche escreveu no Assim Falava Zaratustra. Mas não se vejam com esse mesmo tipo de pensamento, nem com aquele tipo de atuação).

     Todo dia é aniversário do Diabo, e ele sou eu, em muitas medidas – foi o que disse  teresa batista, cansada de guerras e de outras inclemências.

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Foto e sátira: Darlan M Cunha

uma casa de pernetas, daltônicos, gagos, lábios leporinos, fans de rock proagres- sivo, estudiosos de minhocas e do bicho-da-seda, duetos do globo da morte – a rua

a luta

Ó vida, margarida !

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Eu quero é botar meu bloco na rua
gingar, pra dar e vender*

     Numa das muitas vezes em que passei pela avenida Nossa Senhora do Carmo, BH, um pouco desviado da minha rota mais comum para casa, deparei-me com esta cena, nem digo espetáculo. Todos já viram este cenário, palco, luta de gente botando seu bloco, seu oco nas ruas, até porque é preciso estar atento e forte. É a cabeça, irmão.

     Assim como a rua é uma casa muito engraçada, também é memória de panos negros, de painéis de cabeça para baixo, um grito parado no ar, e logo ali num bar as conjecturas, as filosofias de mal casados, descasadas, separadas, amaziados, desquitados, roedores de unhas (onicofagia), e por aí vai este longo rosário de sapatos cheios de pedrinhas que a suicidade comporta.

     Eu também quero botar meu ovo na rua.

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foto e texto: Darlan M Cunha

VISITE: https://www.poemhunter.com/darlan-m-cunha/

refrão

Fiada de carretéis. Iberê Camargo.

Fiada de carretéis. Iberê Camargo.

       Ganhar a vida é o mais antigo refrão – parte terra, parte água -, mas se o ar exigido para se dizer tal frase monumental é pouco, é o suficiente para abrir os olhos de todos, pelo menos os olhos e os ouvidos de quem tenha ou queira ter tino sagaz. Ou nada de bom virá. Os fenícios, os persas, os nabateus, enfim, povos de fato muito antigos, com certeza tinham essa mesma percepção, pelo que o meu vizinho à esquerda diz que pouco mudou no que diz respeito a isso, à luta pela sobrevivência, ou seja, apenas são outros os métodos rumo à sobrevivência, sempre a qualquer custo, isto é instintivo. A Natureza parece dizer constantemente: Precisas de mim, escavar será a tua graça, teu dom maior e irremissível seja a inquietude. E assim o Homem se soube um tipo que exigiria mundos e fundos de si mesmo, larga e sangrenta trajetória até sentir-se domador, feitor de colheitas de intrigas, lavouras de ódio, até chegar à Era na qual ninguém parece dizer ao outro nada mais do que se dizia antes: Esse é meu, esse é teu. Por enquanto, fiquemos cada qual com esse tipo de posse.  À frente, veremos.

 

Texto: Darlan M Cunha