Devora-me, ou…

te decifro.
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Quem foi que inventou o pecado ?José Saramago, no documentário José e Pilar

Viajar é fatal para o preconceito, a intolerância e as ideias limitadas; só por isso, muitas pessoas precisam muito viajar. – Mark Twain

A distância mais curta entre dois pontos é a corrupção.Anônimo, ouvido no Mercado Central de BÊAGÁ

Todos nós somos culpados de tudo. Fiódor Mikhailovich Dostoiévski

O mesmo de ontem, mas… diferente.Darlan M Cunha

Chegará o dia em que teremos vergonha de sermos honestos. Ruy Barbosa

Nasce um otário a cada minuto.P. T. Barnum

por independência completa, queremos obviamente dizer independência econômica, financeira, jurídica, militar e cultural completa, e liberdade em todos os assuntos. Ser privado de independência em qualquer um destes itens equivale a privar a nação e o país de toda a sua independência. – Kamal Atatürk, fundador da República turca (1923), e seu primeiro presidente.

De vez em quando um homem inocente é escolhido para a legislatura.Kin Hubbard

Se esta rua fosse minha eu mandava ladrilhar…Domínio Público

Afinal, se a terra se move, é Deus quem a move ?Stephen Hawking, físico

Um homem e uma mulher. Nada mais. Algo mais ?Anônimo, ouvido no Mercado Central de BÊAGÁ

Why I froze and smiled during my sexual assault. (A neurological explanation). – Jenny Lee Corvo

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Não conceder de forma alguma, em tempo algum, em lugar nenhum, e sob nenhuma dúvida, promessa, premissa ou até tortura, que os homens e as mulheres contem por ti a tua história, tuas memórias, não, deixe que os muitos nichos dentro de ti revelem tudo, gravem na casca e no fundo os infortúnios, duros, defendam as luzes e as cruzes que te fazem ser o que és, assim, conceda-te aos teus nichos, aos teus demônios, teus totens e tabus, dando-lhes voz para que só eles contem e recontem os amiúdes da tua trajetória.

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Foto e texto final: Darlan M Cunha

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Cidades – vias anchas e estreitas

Exposição Ai Wei Wei. CCBB, Belo Horizonte, abril 2019
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A cidade deve advogar mais espaço, querendo cada vez mais largura, altura e fundura e, principalmente, dentro deste acréscimo, ela quer ternura. Que notícias você dará a ela no dia de hoje ? certamente será algo macio como uma duna, um seio, uma veia, uma senda de seda, o pouso do sol da manhã sobre o gramado, certamente que isto virá de você e de muitos outros e outras que ligam seus pontos aos nós da aldeia grande ou pequena, pois assim asseguram que a teia fique forte e aberta a acréscimos, mas não a todo tipo de. É preciso cuidar do que se ergue, do que inventamos para os dias, cuidar das veias abertas do acampamento dentro do qual as pessoas amam e desandam, acordam e concordam ou discordam, preferencialmente, até de si mesmas, porque o embate interior é mesmo vital, mas ainda escasso. Só resta ir – sin perder la ternura.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Os Amantes. ROBERTA SÁ, PAULO MIKLOS & DEMÔNIOS DA GAROA & LUIZ AYRÃO cantam. (SYDNEY DA CONCEIÇÃO, LOURENÇO & AUGUSTO CÉSAR, autores). VÍDEO: https://www.youtube.com/watch?v=ZzPwlXezIkw

Monstrópoles Suicidades Cidades Vilas Aldeias Quilombos Vestígios Arqueologia Nada… e antes do Nada

Rua Luiz Gonzaga, BELO HORIZONTE
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As cidades têm ombros, pernas e pés, seu cérebro obra em conformidade com cada novo dia, porque cada novo dia trará novas atitudes, ainda que as mesmas, algo será levemente modificado, a cidade és tu, tua música sem saída, em geral , é música em ré sustenido, pelo que urgentemente é preciso melhorar, espantar este ciclo de infelicidade que finge ser feliz. As cidades, grandes e pequenas, atuam conforme o rumo que dás a elas. A cidade homenageia seus artistas, e também destaca os pioneiros que a ergueram, benfeitores e benfeitoras que até se descuidaram de si, e entraram de vez nas ruas, becos, passarelas, alamedas, creches, escolas, luzes e cruzes nos monturos da aldeia, que o amanhã é agora – segundo os crédulos.

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Segundo os que creem que a Razão revidará e entrará nos eixos, a cidade não será o túmulo das civilizações, não, sim, os esquimós continuarão na Groenlândia, no Ártico e na Antártida, e não virão vender bugingangas nas ruas do formigueiro, vender meio litro de sangue nas clínicas especializadas S/A., não, nenhum pequeno agricultor com a família deixará seu ermo, para que a Grande Aranha a receba, e algo muito ruim logo rondará, e o modo de vida de toda a família mudará por completo em pouco tempo, de tal forma que até um obtuso sabe disso.

Tornei-me um ralo, um escovão desgastado, inútil, oui, Mademoiselle, yes, Ladies and Gentlemans, eu também me tornei em algo que eu não quero, em algo muito menos do que o mínimo divisor comum. Lembras das aulas de matemágica ? Não ? Queres teus calcanhares e cotovelos sendo sempre ralados, queres isto para os teus, para os do Outro ? Relaxe e sorria, como faz este meu amigo aí da foto que fiz dele na oficina. Que vá pro diabo este mundo, que eu não me chamo Raimundo ! – rimos, antes, durante e depois de voltar ao batente, devemos conviver com rugas, celulite, bronquite, AVC, astigmatismo, dementia praecox, pústulas, vaginite, artrite, patologias cárdiovasculares, depressão, psicose, mas todos querem é beber e comer o que bem ou mal lhes aprouver, entre uma bandagem e outra, maníacos-depressivos, o mundo é só ribalta, como escreveu o pobre Schopenhauer, amigo de Goethe, em O Mundo Como Vontade e Representação. Vamos melhorar, povo, o Mundo em tuas mãos ou pés.

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Pois é, meu prédio, enfim, será reformado, ora, é mesmo de não se crer que nalgum lugar haja gente insatisfeita. Vamos, à frente, as crianças, antes que o instinto de clareza lhes fuja, porque os adultos ainda não conseguiram enevoar de todo a sua cabecinha.

Texto e fotos: Darlan M Cunha

Sala de reboco. LUIZ GONZAGA canta e toca (LUIZ GONZAGA // ZÉ MARCOLINO, autores) : https://www.youtube.com/watch?v=UtpI8eB_2Gw

As cidades – calmas ou opressas, o anonimato e a incessante busca

Igrejinha do Ó >>> SABARÁ, MG, BRASIL
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As cidades são ciumentas, cientes de si, dão uma vaca para entrarem numa disputa, e até mesmo uma vacaria inteira para se fazerem entender, serem admiradas, quando não são execradas por terem um pescoço alto, pelas suas siglas de nariz arrebitado, ó, as cidades vivem o seu cotidiano, necessitam do que as outras lhe enviam, depende do que a elas ela própria vende e/ou ensina, e no meio disso tudo que possa então haver um convite aqui, e outro ali – elementar – as cidades são funis.
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Dinamismo ou a Mãe-Pressa
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Todos sabem que as cidades são funis, e assim é que os dias fazem labirintos, constroem telhados, temas para jovens enamorados, as cidades são a paixão de todos, em que pese serem estafantes, o metrô está atrasado, atrasados estão os ônibus coletivos, atrasadas, as pessoas que não veem a hora de chegar em casa, sempre atarefadas, mas com uma saudade imensa dentro de si, algo que não se localiza ao certo, uma saudade crescente, a gente ama alguma coisa, sempre, ou não sobrevive, não subvive, não vive.
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Ameno
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Sempre haverá para onde ir, onde colocar as pernas para cima, onde encontrar alguém com dois sorrisos em cada canto da boca, astrolábios, sempre haverá algum pequeno restaurante, sossegado como os olhos de tua mãe, honesto como a brisa que sopra nos calos do teu pai, pode acreditar que há lugares os quais nunca imaginaste, vamos, deixa de preguiça, leia meus textos, melhor digo:,não, não cometa este desatino, porque há possibilidades ene vezes melhores na tua própria rua. Lembra-te que sempre haverá aonde ir. Com sol e chuva, você sonhava…
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Fotos e texto : Darlan M Cunha // Antje

Cidades – as coisas acontecem é na rua

Palhaço // payaso // clown // farceur // pagliaccio // клоун (bairro Buritis, BÊAGÁ)
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As cidades são como os insetos de múltiplas cores, voos de 360º, multidões, os humanos assemelhando-se a insetos, de tantos num mesmo lugar, daí que é comum dizer-se que a grande cidade é um formigueiro, do qual há cada vez mais formigas tentando fugir de tal sufoco, pressões incessantes, mas ela, de fato, encanta, e assim as formigas vão adiando a mudança, gozando dos mil ímãs que este circo-prisão oferece. A cidade tem ene palhaços cuspindo fogo nos cruzamentos de ruas e avenidas, tem liquidações [inclusive de gente], atrativos de graça, todos os dias ela se levanta ainda antes do primeiro minuto seu, logo estende seu manto multicor e multitudinário, no qual embarcas após o pão com manteiga e o café com leite, ou algo mais diligente como brioches, ovos duros, laranjada com mel, queijo, pães seletos, requeijão cremoso, presunto fatiado, mostarda e azeite, ou apenas uma omelete com a qual segurar-se nas horas primeiras dentro da Grande Concha, ou sem nada de nada na boca (¿cómo un niño frente a Dios?), a não ser o delírio que a fome e a sede dão aos escolhidos. Mas eis que a cidade é isso, isto é que é sentir-se vivo. O que seríamos, nós, os fabricantes de ácido fórmico, se não fossem as cidades ? Procuro o amor nos Classificados, amor puro, sou carente de uma conversa ao pé do ouvido, uns puxões de orelhas, sim, o amor é lindo, o amor é índio, mas o amor, senhoras e senhores, não tem futuro, e assim é que, enquanto há tempo, tu também precisas tomar juízo, construir um lar – porque o amor assim exige.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Respire fundo. WALTER FRANCO canta e toca (autor): https://www.youtube.com/watch?v=OBQajooNkOI&t=497s

Cidades – tijolo por tijolo num desenho ilógico

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Da antiquérrima cidade de Ur, na Mesopotâmia, passando por Ulm (onde nasceu Einstein, na Alemanha), passando pelo Rio Urubamba, no Peru, até chegar à tua cidade, que talvez já seja também cidade fantasma, como tantas outras mundo afora, embora com repartições públicas, igrejas, ginásios e cartórios, elas parecem cidades fantasmas, porque só há mortos enquanto convivência cotidiana, e por isso as cidades tornam-se ostras (daí a palavra ostracismo, vinda do idioma grego, devido a que na época grega clássica, os incômodos ou indesejáveis, como certos políticos, agitadores culturais e generais, eram banidos de Atenas, e tinham de se mudar, cumprir seu ostracismo.

Mas em muitas cidades ainda é possível ouvir gritos de amor fazendo residência aqui e ali e acolá e além-lá da praça, num barracão ou numa mansão, o amor na via pública (mas não reduzas a tua visão sobre o que ele é), eis a superintendente em informática, emaranhada com ene terabytes, eis outro artesão cumprindo-se como tal ao fazer uma nova peça, eis a doceira levando seus petiscos ao mercado, puro amor.

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Foto: Antje. Texto: Darlan M Cunha

Quem sabe isso quer dizer amor. MILTON canta (Milton e Lô): https://www.youtube.com/watch?v=oX2tbUm5Iig

surtos

Lugar de surtos, derrotas, também de revivência. Está tudo aí.
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Ada Salas é uma poetisa espanhola de escrita delicada, curta, ciente de que metáforas em excesso, varejo e atacado, sujam um texto. Encontrei-a por mim mesmo, há anos, e fiquei, de forma a visitá-la de quando em vez. Seus livros recebem títulos de constância suave, e algo enigmáticos: Lugar da Derrota, Variações em Branco, A Sede, Isto não é o Silêncio, entre outros. Um poema:

A qué región me llegaré a buscarte
ahora que reposas a mi lado
en forma de deseo
hombre
cuya belleza apenas
conocía. Cada día me ciñe
su cilicio de ausencia.
Me has herido de vida desde toda
tu muerte

y no hay sueño bastante a tu vacío.

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@2 Um lugar de derrotas, mantidas como se fossem vitórias é este, a cidade, com seus troféus de estrume, barro, gesso, capim, por fim, só palavreados, é este o lugar onde todas peças do tabuleiro fingem ignorar as outras, embora interligadas, sem outro modo de viverem sua alegria, sua angústia, seu ritmo cada vez mais infrene. ?A qué región me llegaré a buscarte? Onde procurar o tono exato, a cor mais em conta para a tela que para nós ambos preparo, um visgo que fixe melhor na superfície e no fundo o intento meu ?

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Poemas de ADA SALAS (Espanha, 1965 – ) : http://aullidolit.com/ada-salas-poemas/

@2: jardim, cinzas

miríade
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Migo, ajudante de técnico eletricista
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Mais de quarenta anos depois de publicado, este poema do Eduardo Alves da Costa (1936 – ), ainda avisa aos ene esquecidos sobre algumas passagens estreitas vividas pelo país. Em frente. Lembro-me com as mesmas cores, os mesmos timbres, mas já não a mesma fortíssima apreensão que eu via no rosto dos pais e das mães, avós e avôs temerosos diante de tudo e de todos os mil e um dedos-duros e afins. Um poema ainda cheio de raios de sol. O autor tem vários trabalhos publicados, como Salamargo, Os Sobreviventes, Os meninos da Pátria, Memórias de um assobiador (juvenil)

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(…) Trecho do poema NO CAMINHO, COM MAIAKÓVSKI (EDUARDO ALVES DA COSTA, autor):

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada. (…)

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Foto e texto: Darlan M Cunha.

OBS: O título desta postagem veio do nome do livro Jardim, Cinzas, do poeta Danilo Kis (Sérvia, 1936-89)

No caminho, com Maiakóvski. Eduardo Alves da Costa (Niterói, 1936 – ) https://pt.wikipedia.org/wiki/Eduardo_Alves_da_Costa

Wave (Fantastic recording. Oscar Peterson plays the piano, Claus Ogerman Orchestra). Music of TOM JOBIM: https://www.youtube.com/watch?v=f44qgQA1B-g