cotidiano 2

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       O verbo murar está na moda, muito embora sempre tenha deixado suas pegadas na história, como os fossos e as pontes levadiças dos castelos medievais, a suicidade de três risíveis donos, a muralha da China, a muralha de Trajano e muitas outras barreiras ainda mais antigas, bem como as fortalezas japonesas da era dos samurais, nas quais, mesmo se o inimigo conseguisse entrar, após ene peripécias, dificilmente sairiam vivos dos labirintos e seus truques contra invasores. No tempo do homem das cavernas, é de se pensar que os morcegos tenham sido treinados para cuidar do sono dos inquilinos do momento, abrindo seu sonar ainda primitivo, gritando feito malucos, caso alguma tribo tentasse invadir a toca de seus amos, e assim por diante (depois o som dos morcegos tornar-se-ia inaudível a nós). Sabemos que os muros sempre tiveram simpatizantes, por esta ou por aquela razão. Pensando nisso, cada qual constrói para si e, muitas vezes, contra si, verdadeiros baluartes, dos quais nunca mais escapam. Beco sem saída é coisa de gente, é um ovo muito antigo. Ah: os castores, entre outros prevenidos, constroem fortalezas ou barragens, modificando rios, pelo que não estamos sozinhos no afã de construir muralhas muros paredes grades cercas redes labirintos becos abismos e túneis de fuga. Muro, no melhor dicionário de um idioma inexistente, significa ilusão de segurança. Tanto é que todos os dias muitos veem cair o grande muro que os separa da demência total: o emprego. E agora, José ? Há muitas obras sobre tal assunto, mas essa crônica me basta. Entre les Murs. Border Walls. Murs, voyage le long des barricades. Os Muros que nos Dividem. The Wall. Wall Street. Father and Son... De uma forma ou de outra, todo conceito tem germe mural.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Duas imagens trazidas da INTERNET:  mundo geografia  //  pre.univesp.br

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Say no to tobacco [trash]? As campanhas mentem, pois o cigarro é soberano, ícone. Queimem dinheiro, mas não culpem o glúten pelos males cotidiários… hehehe, y hasta la vista

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EM CERTOS ASSUNTOS, RIR É O PIOR REMÉDIO, MAS… VAMOS LÁ !

Eu fumo e bebo e faço libidinagens e meto as mãos nos caixas desprevenidos e toco fogo nos adros (a madrugada nos torna descuidados com a fogueira amiga) e faço músicas de protesto e me desligo de entubados deixados ao seu bel-prazer e uso palavrões antes e depois de cada frase e urino nas pias, sim, mas ainda me faltam outras rotas para chegar à rota da seda

(You say yes  //  You say no … You say goodbay // Y say hello…)*

(Lucy in the sky with diamonds)* 

BEATLES

olha // looks

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Windows of buildings

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     Senhoras e senhores, o sarcófago está pronto. Urge ocupar cada qual seu lugar e cantar para espantar os males, como se diz – essa cova em que estás, com palmos medida– cantar o sismo e a cisma diária que o condomínio-esquife oferece aos seus ilustres anônimos, toda a poesia e toda a heresia do mundo habitam esse túmulo, a sátira, o sexo furtivo, o maldito fator de gente fritando sardinhas no 402, rock pesado no 901, beijos e tapas no 1002, no 204 e no 604, alguém pendurado/a no blá blá blá do telefone esqueceu uma janela aberta no 800, e a criança fugiu.

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Imagem: GettyImages. Arnd Dewald

Texto: Darlan M Cunha

um tiro no pé // tiro na literatura // nos guizos no rabo do cão // tiro pela culatra

 

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an old, sick guitarman // work in progress

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I don’t believe in zimmerman (John Lennon)

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          Há uma cançãozinha que diz eu avisei, eu avisei, se você anda errado você vai cair é nas malhas da lei. Em muitos casos, em todos os lugares do mundo, o fato é que há ondas que insistem em se manterem com a crista intacta, quase intacta, com uma pequena ajuda dos amigos, porque são muitos os que mamam na zebra e adornam estátuas tornadas totem e tabu, sentindo no fundo o braço da guitarra, em ré, e é por isso mesmo que tudo fazem para que o morto continue vivo, até porque certos mortos são amados por tipos populares os mais díspares: professores, jornalistas, etc.

          Eu também avisava, bem antes do anúncio no dia 13 de junho de 2007, em Oviedo, Espanha, na entrega do internacional Prêmio Príncipe de Astúrias. Mas onde estavas tu neste dia já sem nome e sem data ? Eu sei onde eu NÃO estava. Bom, o melhor é beber algo e tocar viola, ciente de que a resposta – the answer my friend – a resposta a tantas dúvidas não está em vento nenhum, em nenhuma boca certas questões encontram resposta, e não merecem nenhum crédito os que se acham filhos de Éolo (deus do vento na grécia antiga). Eu vou para a casa do Elomar; antes, uma passada na eterna moradia do Caymmi. “O mar, quando quebra na praia, é bonito, é bonito.”

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Fotos e texto: Darlan M Cunha

cabeças

The Great Heads - by Trey Ratcliff

The Great Heads – photo by Trey Ratcliff

Cabeça 1

Tenho um amigo que me diz com ar de velada amargura que ele tem feridas que nunca se fecharão de todo, são pétalas abrindo-se cada vez mais, indo ao chão, sem solução. Embora sejamos amigos de longa data, tenhamos viajado, estudado juntos, nunca lhe perguntei de chofre acerca de tais agruras, embora possa perceber algo pelas frestas, o bastante para ficar calado diante de sua batalha interior. Talvez sejam feridas de antes de termos conhecido um ao outro, que na infância e na puberdade a gente toma pancadas definitivas para a formação psicológica. Umas viram pesadelo de todo o sempre.

Cabeça 2

Meu tio Antônio, cujo nome a família abrevia, e é pronunciado como se a gente fosse dizer ton-alidade, ton-elero, tôn-ica, e não to-nalidade, numa espécie de silabação maravilhosa, quebrando regras, ou sei lá o quê, é uma pessoa que estimo. A gente pronuncia como se fosse o “on” inglês. É isso exatamente, e eu nunca ouvi uma pronúncia assim, em lugar nenhum, em nenhum dos idiomas dos quais tenho alguma noção. Ton-alidade, pronunciada bem assim, com a primeira sílaba deturpada, e não como Tom, de Tom Jobim. Há uma diferença incrível, uma sutileza danada aí, porque a fala TEM de ser anasalada rumo à letra “n”, mas sem duplicar o “o”, dita seca ou suavemente. Desde sempre minha família chama assim a esta pessoa bondosa ao extremo – pai, avô e bisavô, sempre sorridente este irmão de minha mãe. Pois é, sempre de camisa branca, de mangas compridas, calça e sapatos pretos, religioso, dado a andar horas pelos descampados, mesmo aposentado, trabalha como vigia, ele tem o curioso e antigo hábito de sentar-se de cócoras, como é comum entre os vietnamitas, por exemplo, povo antigo, sem melindres, até porque nem existia cadeira. Quem não está acostumado a ficar de cócoras, calmamente fumando ou jogando conversa fora, pode desistir de imitá-los, pois em poucos minutos você se levanta com dificuldade, porque na tal posição não dá para ficar jogando nada fora – nem conversa e nem fumaça de cigarro. Rir nesta posição é difícil.

Cabeça 3

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O que é o amor, senão contidas
incertezas, vieses de que lua e sol
podem olhar-se no deserto, de frente,
sem de todo se fazerem dementes ?

O que é o amor, senão gavetas
com velhas joias da fala, olvidadas ?
Se amar é carência alimentar, assunto
subliminar, cabe medir se o Homem
pode sobreviver ao que cria.

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Texto: Darlan M Cunha
Fotografias de // photos by Trey Ratcliff:

https://www.google.com.br/search?q=trey+ratcliff+burning+man&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ei=5lHWVNPaHcKnNpCsgegN&ved=0CB4QsAQ&biw=1525&bih=777&dpr=0.9