acrobata (todos nós)

acrobata

os nós das ruas

***

     Hoje é aniversário do quem e do que não existe, e parece-me que sou o único conviva, pelo menos o único até agora a comparecer ao ato; talvez haja bufê caprichado, com as últimas da novela das oito, ou alguma frase da novela das nove, um conto sobre futebol talvez seja lido, alguém dirá algo sobre estrela de cinco pontas e candelabros de sete e de nove pontas, senão de mais; outro entusiasta dirá que a barragem destruída já está de pé, redesenhada revista reprocessada regulamentada em papel cuchê e coisas e tais. Quero é outro tipo de vinho com estricnina, cansado de lesmas, bagaços de leis, alusões ao bom e ao melhor, liquidações a granel, no varejo e no atacado (vendo mãe e pai, mulher, filhas imprestáveis, filhos e enteados parasitas, a bandeja de prata de minha avó materna, e o chicote de couro cru com cabo de prata e marfim, muito usado pelo meu avô paterno (“Vais ter com mulheres ? Não esqueças o chicote” – Nietzsche escreveu no Assim Falava Zaratustra. Mas não se vejam com esse mesmo tipo de pensamento, nem com aquele tipo de atuação).

     Todo dia é aniversário do Diabo, e ele sou eu, em muitas medidas – foi o que disse  teresa batista, cansada de guerras e de outras inclemências.

***

Foto e sátira: Darlan M Cunha

babel moderna – 5

dsc01636

voar, voar, voar // soltar penas de pássaros no ar (Paulinho Pedra Azul, MG)

*

      Aqui, em babel, é onde uns dançam, outros cantam, outros comem, outros não comem e não bebem, onde muitos infelizes iam cada vez mais aos braços de pastores, de bispos, de chantagistas da bolsa de valores, mãozinha nas coxas da criança, e por isso mesmo foram mortos, tivessem sido pais-de-santo ou pais do diabo, tiveram o fim merecido por enganar pensionistas do INSS.

     Aqui, em babel-salvador, e noutras aldeias desgostosas por verem este nome simples de aldeia ser mal misturado, aqui se esguicha ansiedade nos jardins e hortas, muitos morrem atropelados, enquanto outros acham que encontram a si mesmos quando medem forças e fraquezas num motel; outros há que fogem da polícia, polícia a qual foge dos magistrados, e estes nem sempre dormem em paz. Mulher leviana em casa, homem sujo dentro das quatro linhas da casa, é assim que as coisas acontecem em babel horizonte (o rio morreu já faz muito tempo), sabem que roupa suja se lava é na rua, e aqui a rua é O Cara, o espetáculo cotidiário sobre o qual as pendências jurídicas não têm nenhum valor.

     Aqui, em babel do sul marravilha, é proibido fumar, gritar durante cirurgia (mesmo sob anestesia), e durante o coito, é proibido dar esmola (barbaridade, chê, manézinho), bem como pendurar roupas nas janelas dos apertamentos. Lembro-me do livro Os Ratos, do psiquiatra Dionélio Machado, médico-craque.

     Na grande babel do amazonas land e na babel tocantins (palmas para quem as mereça), em todo este pequeno território, e em todos os outros, é preciso saber por que é que se diz que as coisas andam de mal a pior, segundo uns; mas, segundo outros, as coisas não poderiam estar melhor, ou seja, as antíteses de sempre: quando um chora, o outro ri. Babel é isso, e mais.

*

foto e texto: Darlan M Cunha

arte mural: GUD (Belo Horizonte, MG) >>> fone: 9-8721-1025