@2: jardim, cinzas

miríade
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Migo, ajudante de técnico eletricista
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Mais de quarenta anos depois de publicado, este poema do Eduardo Alves da Costa (1936 – ), ainda avisa aos ene esquecidos sobre algumas passagens estreitas vividas pelo país. Em frente. Lembro-me com as mesmas cores, os mesmos timbres, mas já não a mesma fortíssima apreensão que eu via no rosto dos pais e das mães, avós e avôs temerosos diante de tudo e de todos os mil e um dedos-duros e afins. Um poema ainda cheio de raios de sol. O autor tem vários trabalhos publicados, como Salamargo, Os Sobreviventes, Os meninos da Pátria, Memórias de um assobiador (juvenil)

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(…) Trecho do poema NO CAMINHO, COM MAIAKÓVSKI (EDUARDO ALVES DA COSTA, autor):

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada. (…)

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Foto e texto: Darlan M Cunha.

OBS: O título desta postagem veio do nome do livro Jardim, Cinzas, do poeta Danilo Kis (Sérvia, 1936-89)

No caminho, com Maiakóvski. Eduardo Alves da Costa (Niterói, 1936 – ) https://pt.wikipedia.org/wiki/Eduardo_Alves_da_Costa

Wave (Fantastic recording. Oscar Peterson plays the piano, Claus Ogerman Orchestra). Music of TOM JOBIM: https://www.youtube.com/watch?v=f44qgQA1B-g

afago, 2

Deu “mão boba” nos biscoitos da Vovó
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Tempos depois do fato, / retornou, em silêncio, sentou-se / disse Oi, bebeu água, deitou-se / e dormiu, e ela chorou / enquanto lhe tirava os sapatos / chorou águas de dor, seu penhor / chorou de alegria, / sua esquecida mania.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Insensatez (Tom Jobim / Vinícius de Moraes). JOÃO GILBERTO : https://www.youtube.com/watch?v=Ue-PwwLiDyU&list=PL2_0pgowArup8H_BUN5ODObDqGfXT_4yn

mão, 5

Farinha de mandioca (Mercado Municipal de Medina, MG – cidade na qual nasci)

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Quando uma pessoa fica muito tempo sem ir ao lugar onde nasceu, o que sucede é que algo ao mesmo tempo doce e fortemente melancólico surge das várias profundezas da memória – estava nalguma gaveta da memória – e a gente fica como que paralisado, longe dos decibéis da grande cidade, anda-se pelas ruas, seu calçamento, suas casas, algumas delas geminadas, entra-se num bar, vai-se ao mercado comer algo típico da região – frutas e frutos, por exemplo, enfim, você está numa realidade que ao mesmo tempo em que ela é sua, também não é. Voltar para casa, dias ou semanas depois, algo assim confuso, e algo iluminado, ou volta-se conversando sozinha, rindo e chorando sozinha. A propósito, eu coloquei a música do Tom Jobim porque ela cabe muito bem aqui, porque fala de comida, de passarinho, pedra de atiradeira (bodoque), de chuva, pau, pedra, toco, estrepe, prego, sapo, rã, luz da manhã, conversa ribeira, marcha estradeira, matintapereira (uma lenda)…

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Águas de março. TOM JOBIM. : https://www.youtube.com/watch?v=BhlNHxh3Z5E

Darlan visita Ai Wei Wei, n. 10

elos


madeira brasileira

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Quando eu nasci, Carlos, esteve e está comigo, mais que um anjo, algo para além-lá do Inexplicável. Lembro-me de estar coçando o bilauzinho, após o farto colostro, e de ficar observando aquele bando de imbecis no meu entorno, e fiquei pensando ‘quero voltar para a caverna’, mas obviamente tal feito não é possível, e ali fiquei nas minhas altas considerações metafísicas, com total desdém por aqueles paparicos, a cerveja rodando, a cachacinha, os salgados tradicionais mesmo em casa financeiramente modesta. Ainda estou de pé, ó itabirano, mais ou menos de pé, entanto lutamos, como está no poema O Lutador: “A luta mais vã é a luta com palavras. Entanto lutamos.” Bom, vamos ao que o dia nos oferecer, estou sempre arado, faminto, doido de sede e fome, e todo dia é de luta entre o mal e o bem, dia de deus e do diabo na terra do sol.*

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Darlan M Cunha

ANTONIO CARLOS BRASILEIRO DE ALMEIDA JOBIM. “WAVE”. https://www.youtube.com/watch?v=f44qgQA1B-g

Memória ou a insustentável rudeza de ver

A casa, hoje, na qual nasci. Rua Olegário Maciel, MEDINA, MG

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Alguns anos vivi em Itabira / principalmente nasci em Itabira. >>> [DRUMMOND]

Flutusituações é uma palavra inventada que nos dá conta das ene situações flutuantes que a todos nós, durante todo o tempo, assolam. Afinal, mutação é sinônimo de vida – a montanha vira pó. Mesmo zanzando um pouco por aí, eu nunca tinha ido à cidade onde nasci – Medina – no Vale do Jequitinhonha, MG. O Jequitinhonha é rio chave de toda a região. Pois é, há oito anos, uma grande amiga e conterrânea convidou-me para passar uns tempos na casa situada na cidade, e na casa da roça de uma família grande e muito unida. Eu não conhecia bulufas do primeiro ar que ingeri, porém, tomei vergonha e fui, e naturalmente fiz muitas fotos, sendo que uma delas é essa aí acima, cuja visão me deu a sensação de não estar em lugar algum, talvez até em transe, ou mesmo morto, já não havia coração para uma taquicardia ou bradicardia, nada, eu não existia, e fiquei mais pasmo ainda por já estar ciente de que o terreno fora invadido, até ergueram uma casa, etc. Não tinha nenhuma memória de lá, de onde mãe e pai foram para a cidade vizinha de Joaíma [o título deste site ou blog UAÍMA veio deste nome Joaíma / Joahima, que era o chefe ou o tucháua da tribo dos Botocudos que habitavam essa região dominada pelos portugueses – mas esta é outra bela, longa e nunca enfadonha história]. Digo que voltei de lá com outros ventos nos olhos, outras atenções no peito, outras considerações nos dedos dos pés, os cabelos crescendo rápido, pensei até ter sentido o peso da primeira fralda. Meu lar em frangalhos, nasci pelas mãos de parteira – Dona Matilde [minha mãe, enquanto escrevo, me deu o nome dela que, naturalmente, faz parte de mim]. Minha casa em ruínas, ó, a vida é mesmo o espelho exato da imensa algazarra que o tempo nos faz.

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Darlan M Cunha

O dia em tom solar, TOM JOBIM, em casa, toca e canta Sabiá. : https://www.youtube.com/watch?v=GKIhg5gAFLo

O pequeno mentecapto*

Universidade UNI-BH — um dos laboratórios >>> [clique na foto e leia o poema no anverso]

SONHO e DELÍRIO: OLHAI OS DELÍRIOS DA ALDEIA

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@1

Quando eu nasci, ouvi: Vixe, qui minino feio, Santa Filomena ! Puro drama rindo-se à custa do novato, mas após eu beber colostro, a mãe disse: – Não liga, filhinho, são as invejosas de plantão, sabem que você é lindinho. Pois bem, mãe é mãe, é pão sovado, salgado, é doce de não haver doce igual (assim, carrega água na peneira para ela, sem desperdiçar uma gota, ou te haverás comigo, o Diabo em pessoa). E depois do que ela falou eu caí na real, e botei para quebrar, tudo fucei com a maldade na bile, investi em mim, que já era líndio, e hoje sou um espanto imune a quebranto. Mas eu ficava ainda mais solar era quando minha mãe me vestia de marinheiro, com direito a um gorro e a palavrões (estes, por conta própria), iguais aos que se ouve num convés, lá onde tudo acontece, o convés é a rua dos navios, e é por isso que se diz que roupa suja se lava é na rua. Voltando à minha efígie, já cunhada para uma coleção de moedas de ouro, para colecionadoras e colecionadores, lembro-me da canção cubana, alfinetando: Soy feliz // soy un hombre feliz // y quiero que me perdonen por ese día // los muertos de mi felicidad.*

@2

Reli trechos dos dois primeiros livros – A Mãe e o Filho da Mãe (1966), e O Menino e o Pinto do Menino (1967) – do mineiro Wander Pirolli (1931-2006), um dos fundadores do jornal Hoje em Dia. Raramente releio, com exceção a meus livros, de Lavoura Arcaica (Raduan Nassar) e do Dom Quixote (Miguel de Cervantes Saavedra, 1547-1616). Na semana anterior, relera umas páginas de O Grande Mentecapto, rindo de cair, é de fazer a pessoa querer mudar-se para Ouro Preto, Mariana e adjacências, para talvez sentir no todo este livro maluco e engraçado, imaginando o personagem principal, o parvo Geraldo Viramundo, e o temível Montalvão, o manda-chuva nos bordéis sobre aquelas pedras inconfidentes. Então, ficamos assim: enquanto e onde houver gargalhadas, estaremos lá, todos salvos. Ave, Darlan, os que vão gargalhar te saúdam !

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Darlan M Cunha

OLHA, MARIA (Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Chico Buarque). Milton Nascimento canta, Tom Jobim, ao piano: https://www.youtube.com/watch?v=oJ3gLQFarig

é um sapo é uma rã é um resto de mato é o sol da manhã é um belo horizonte… e desolação, Tom.

Estou titubeante, mas acho que estes traços são de Dona ISABEL MENDES DA CUNHA (1924- 2012), ceramista natural do Vale do Jequitinhonha, MG. Prêmio UNESCO DE ARTESANATO, 1º lugar. >>> {Clique na foto]

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No domingo passado tive dois baques assaz profundos: o amigo canário Milton Sentimento morreu, após quase uma década e meia de bela cantoria. Depois de enterrá-lo no jardim do condomínio, fui logo aos textos, fotos, mensagens, e qual não foi a minha taquicardia ao notar que o PC estava pedindo senha para dar entrada, mas eu e vocês, com mil e uma senhas e códigos, é impossível (para mim, lembrar-me), mas consegui, para logo depois notar que tinha perdido todos os meus livros, um deles a ser publicado ainda no primeiro semestre, e outro para concurso nacional. As fotos desapareceram, mais de 1000, mas depois me lembrei do smartphone, do Drive no PC, estas eu as tenho. Acho que, distraído, embora ligado demais no trabalho, autorizei uma mudança de status, no que diz respeito a voltar no tempo, etc, e já que não usava um pen drive, fiquei órfão, pai órfão. A desolação é total, por anos de trabalho, milhares de livros lidos, viagens, escolas, pessoas maravilhosas e outras nem tanto, nem centavo, mas… em frente, que atrás vem gente. Perdi meus livros escritos em avião, em carroça puxada por burro, em parques, ônibus, em casa, no mercado central, durante algum show, ideias vindas durante alguma palestra, uma discussão, enquanto preparava almoços, ou durante o banho. Meus CAROS e minhas QUERIDAS, cuidem-se, pois, deste tipo de distração, de erro, de dúvidas… que não os/as quero ver desolado/as.

 

DARLAN M CUNHA

NELSON CAVAQUINHO canta e toca O sol nascerá (CARTOLA // ELTON MEDEIROS): https://www.youtube.com/watch?v=rgcTGJQNNe8

OBSERVAÇÃO: A foto desta postagem eu a fiz a partir da capa de CD com trabalho da Déa Trancoso, enviado a mim, já faz tempo, pela minha amiga KEILA TAVARES, mineira residente em Goiás.  o CD é o Tum Tum Tum.

Ar

As medidas do som no Tom

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     Tive esse disco (doei), e essa foto é a de maior personalidade que já vi de um músico em ação: pernas esticadas, coração tranquilo no vento vadio, consciente de que as rosas falam (às vezes, não), de que é doce morrer no mar, enfim, é um resumo quase completo da pergunta ancestral pois é, pra quê ?, tão antiga quanto a primeira das perguntas.

     Essa foto foi feita talvez com alguma rolleyflex, senão pelos olhos de algum passarim porventura naqueles momentos sobrevoando o Corcovado, Ipanema e outras dádivas. Bem se vê que não estava chovendo na roseira, que o tempo estava bem mais para água de beber, nada de desafinado, chega de saudade, de insensatez, o que se quer pode não estar longe daqui, de mim e de ti. Se estiver longe, fiat lux / faça-se luz, faça-se um samba no avião rumo a Pasárgada ou ao além-lá dos nove círculos infernais da Divina Comédia.

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Coleção MÚSICA POPULAR BRASILEIRA, idealizada por MARCUS PEREIRA, a partir de 1973. MARCUS faleceu em 1981.

Foto no blog RONALDO EVANGELISTA: https://ronaldoevangelista.wordpress.com/category/flauta/

Texto: DARLAN M CUNHA.

OBS.: Todas as alusões musicais que inseri nesse texto estão nas Tags e nas Categorias.