elementos

Lagoa da Pampulha 1

Lagoa da Pampulha, BELO HORIZONTE, MG

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       Em agosto, o vento dá as caras por aqui, e ainda que não mate, cresta os rostos e dá asas aos anúncios, às placas de trânsito e às saias. As mãos, por terem pouca irrigação, sofrem suas picadas. Mas o que é o vento natural diante dos ventos sociais, quase nunca de bem com a saúde do cotidiano ? Lembro-me do poema Congresso dos Ventos:

 

Na várzea extensa do Capibaribe, em pleno mês de agosto

Reuniram-se em congresso todos os ventos do mundo;

Àquela planície clara, feita de luz aberta na luz e de amplidão cingida,

Onde o grande céu se encurva sobre verdes e verdes, sobre lentos telhados, […]*

 

       Em agosto, que a vida seja leve, que as vítimas não saibam de nada, comentários se abram (como é difícil deixar umas palavras, talvez porque falar cansa, escrever dói – é o que parece). Em agosto, não se ouça a palavra julho, talvez seja melhor citar setembro, o amanhã, mas um sambista diz que meu tempo é hoje.*

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foto e texto: Darlan M Cunha

olongocorredordoaprendizado

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Mercado 1

Mercado Central de Belo Horizonte (1929), MG, Brasil

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     Um dos livros através dos quais iniciei o aprendizado do idioma russo (33 letras) foi o da professora Nina Potapova, isso há décadas, numa representação cultural da Rússia, em BH, que ficava no edifício Rembrandt, na Rua São Paulo, região central. Lembro-me de ter ganho um relógio, num concurso feito pela modesta mas diligente instituição, e de tê-lo dado de presente à minha irmã Telma. O tempo fez o que sabe fazer, condenado a si mesmo, o espaço contraiu-se, para uns tantos, expandiu-se para o quase nenhum, mas eu continuo, o idioma russo continua (cinco ou seis idiomas sobreviverão), tu continuas, e enquanto não se descasca de todo a trama mundial, vamos ao mercado, ao lugar onde, segundo o poema do Bertolt Brecht:

Para ganhar o pão, cada manhã

vou ao mercado onde se compram mentiras.

Cheio de esperança

ponho-me na fila dos vendedores.

(BERTOLT BRECHT. Antologia Poética. Poema “Hollywood”)

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foto e crônica: Darlan M Cunha

lendas & cidades

city-solutions-infinity-pool-790 - National Geographic Magazine

FÁBULA

O vulcão veio andando até cansar-se e pousar sobre seus pés e suas mãos a boca cansada de mares, e assim ficou, pelo que aves, répteis e insetos moram lá, e um só bicho homem, o que faz pensar que por lá nenhuma humanidade prosperará – a não ser que se case com pedra ou salamandra o bicho homem, e de novo se engane com o que sabe: fábulas, lendas.

Texto: Darlan M Cunha                                                                                                          Foto: IMOTION IMAGES

BÊAGÁ, 115 anos (12-12-2012)

Mineirinho // Pampulha

Mineirinho // Pampulha

Desde sempre estou pensando que entre o sonho e a realidade há algo que não percebi, algum fio que não sei qual, pois não o teci, não o remendei, não dei e nem desatei nenhum de seus possíveis nós; mas sei que existe alguma coisa entre a realidade do sonho geral, e um sonho que morde a cauda da minha própria realidade, e esta inundação de perplexidade é o que permeia todo o meu existir.

Foto e texto: Darlan M Cunha

síndrome de fevereiro

caverna do forró - Lagoa Santa, MG

caverna do forró - Lagoa Santa, MG

 
SINDROME DE FEVEREIRO
 
 
os pés inquietos de fevereiro reviram-se
na lama que os cobre, que é tempo
é tempo de chuva, do que restou dela
em dezembro e janeiro, a cólica feroz
das nuvens nos pés de fevereiro, eis
o assunto do dia nos jornais, mas
outros assuntos logo serão a bola
da vez, porque já é de novo fevereiro,
e só algumas pessoas dão por exato
conta disso: que os cabelos já não são
os mesmos do fevereiro passado,
mais calmos estando talvez
os dedos das mãos, menos motivos
talvez para sorrir tendo as criaturas
da noite e do dia, insones e dorminhocos,
todos tendo nos ombros os fevereiros
que fizeram por merecer, a canção diz:
“não viemos por teu pranto”, então, resta ir
aos vinte e nove dias deste mês (que há
os de vinte e oito), e abrir-lhe o leque,
porque fevereiro é a época dos pés
soltarem de um jeito único a sua mania,
sua ânsia anual por folia, que os pés,
em fevereiro, são reis melódicos: adeus,
bigodes da seriedade; adeus, sutiãs
e outras barbaridades de todas as ©idades!

Foto e poema: Darlan M Cunha