A Lei da Princesa Isabel não passou por aqui… ainda não, parece que não.

Pois é…

@1. Apanágios diversos (Não te percas de todo, não me culpes de nada, só de tudo).DMC

Lembra: Todo dia “ele” faz tudo sempre igual (quase todo dia, sem exageros), lembra que todo dia é dia de viver, você deve rezar pela xepa da feira e dizer que tudo tem melhorado, você merece, Marina, serena Carina, você se pintou, Deus e o Diabo na Terra do Sol, Pois é… pra que ?, eu não sei se vou te amar, amar no tempo do cólera ou da cólera, mas, pra não dizer que não falei de flores, ou cicatrizes, lembra que amigo é pra essas coisas, e que viajar é mais, encontrar a rosa e o espinho, lembra que o mundo é um moinho, Hay Gobierno? Soy contra?, repita: amigo é coisa pra se guardar, o deserto é logo ali o encontro marcado, a casa do atrapalhado Geraldo Viramundo, a conta chegou, e outra, o mundo é um moinho, aí estás sentado à beira do caminho, águas de março ou sol de primavera, Imagine, the fool on the hill, o sol não pode viver perto da lua, canto lunar, vou-me embora pra Pasárgada, lá eu sou amigo do rei, melhor dizer (e cumprir): vou-me embora para dentro de mim.

Jacas

@2. Clareira na noite / deserta procissão / nas portas da Arquidiocese (Fernando Brant & Tavinho Moura)*

Finja que estás na roça, que uma jaqueira convida, mangueiras cheirosas convidam, vacas aqui e ali, bois no bem bom do pasto, céu e estrume, biscoito frito, calma, nada de endoidar antes da hora, que ainda tem o bom suplício de se montar num cavalo, cachoeira é logo ali, convida, celular no lixo, per favore, finja que estás na mataria, no matagal, és de fato animal, o sossego ainda existe, mas só no imaginário, pensar cansa, viver dói, mói, mas, fazer o quê, senão viver ?, ponha o bornal e vá catar flores e gabirobas, volte logo para o almoço de pele de porco estalando, angu, couve rasgada nas mãos, frango ensopado nos caldeirões, batata doce, linguiça, cará com mel de abelha, banana da terra assada na chapa, banana dedo de moça, uma cachacinha para se lamber os beiços e leitoa assada, ora pro nobis, viola, todo mundo descalço, pés no chão batido, licor de jaboticada, Ê Minas, não é hora de partir, não, Calma, ninguém está te mandando embora, ora essa, essa aqui é uma terra hospitaleira, mas, lembra: todo mineiro é conspirador, por favor, mais umas lascas desta perdição de leitoa assada com maçã na boca, sim, estás de fato na roça, olhai os delírios do campo.

Darlan M Cunha

TAVINHO MOURA & FERNANDO BRANT: Beco do Mota: https://www.youtube.com/watch?v=b1WmqPQkwHc

as cidades, 4

construção

Há cidades que vivem no ar, iludem de forma cabal; outras há que imitam um jogo de sombras, ou seja, elas também, assim como as outras, imitam a si mesmas, e há cidades dentro da cidade, de tal forma que fazem um mosaico, e os moradores só conhecem aquela parte na qual transitam todos os dias, assobiando e chupando cana, ou coisa que o valha. Cidades com mil tons, mil brilhos, rios de suor, o cansaço e o medo à venda em cada esquina, mas sempre há festa em algum lugar, uma catarse é necessária para que se consiga ir em frente. As cidades estão sempre em construção, mesmo quando demolidas, para que uma nova cirurgia plástica entre em cena. “E se acabou no chão feito um pacote flácido.“*

Darlan M Cunha

Diário ou notas sobre um dia

Barreiro – BH
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@1

Vieram-me de repente títulos de outrens para essa foto, por exemplo: O Nascimento da Tragédia, de Friedrich W. Nietzsche, A Tempestade, de William Shakespeare, Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, Ulisses, de James Joyce, Umma, de Darlan M Cunha, e Os Ratos, do psicanalista gaúcho Dyonélio Machado, mas optei por ficar com este aí acima, e passar o dia por aqui mesmo, no Barreiro de Baixo, BH, assuntando, pensando bobagens típicas de adultos ou pensando grande como as crianças, pois ainda tenho uma aqui dentro, enchendo o saco, não dá sossego, hehe…

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Cadê Você ??? Quem te viu, quem te vê.
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Um de Maio

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Esse dia não escapará de ser prato raso, vazio, trincado e depois feito em cacos, esse dia não escapará. A aldeia amanheceu com a glosa presa, quer sair de si  no feriado, todo dia ela procura vãos, mas não há vãos, caminante, no hay camino nas aldeias miúdas, talvez com mais força ou violência nas monstrópoles vistas nas telas, estas ex vedetes, ex isso e ex aquilo, que hoje arrastam a bunda, o clitóris e os seios nos ângulos incertos dos dias em decadência – alguns há muito tempo já avisavam –, e assim o forte refrão vai lambendo as paredes da aldeia: Esse dia não terminará senão com o fundo na lama, a cara em cacos, esse tempo virótico veio para ficar até quando quiser, mas logo que ele se for a funilaria voltará, a velha pandemia do ódio sairá de dentro das locas onde se escondeu o possível, enfim, as mesmas indecências, pândegas, estricninas, nuvens negras, conversas abstrusas, o absconso tomará a palavra, outras mundanas governarão os açudes, letras de câmbio serão salvas por conluios celestiais, convescotes homologatórios, e é claro que para essa festividade muitos arautos do voto popular não faltarão. Esse dia – dito do trabalho ou do trabalhador – logo terá a vez de ser um mês assim ou assado, maio aberto ou lacrado a ene impropérios, aos ditos cainhos, ministérios divididos entre deus e o diabo. Um mendigo morador de todas as incertezas me disse que “o que é bom permanece… pouco”. Serei mais atento ou mais razoável, hei de crer mais nas gentes, nas calvas e nos pentes, nos banguelos e nos dentes, nos sadios e nos dementes principalmente. O Dia Primeiro de Maio nós o devemos às Mulheres dos EUA, sem tirar e nem pôr (séc. 19). Ânimo ou nada.

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Fotos e texto: Darlan M Cunha

WALTER FRANCO. Nasça. https://www.youtube.com/watch?v=YS7I32k9nBk

Textos duros: luz & mistério* – 4

Bairro Buritis // BH >>> Cidade dentro de cidade
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FRASES – HÉLIO PELLEGRINO – (Psicanalista. MG, Brasil)

Humor é uma vingança contra o destino, a vingança contra a injustiça, a vingança contra o opressor  //   É uma saída através do riso  //  Todo humor, no fundo, é bondade. O humor transforma-se num exercício de liberdade, e dissolve o rancor  //  O poeta é uma caixa de ressonância, concha acústica, orelha enorme, uma parabólica aferindo – e conferindo – as sílabas dos tempos que estão por vir  //  O tempo passa depressa porque nos distraímos de sua passagem, temerosos de perceber que somos nós que passamos. 

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O INOMINÁVEL – SAMUEL BECKETT — (Nobel de 1969. Irlanda)

Agora não tenho mais do que uma perna, tendo rejuvenescido, ao que parece. Isso faz parte do programa.Tendo me colocado em artigo de morte, em gangrena senil, tiram-me uma perna e epa, eis-me de novo de pé e andando por toda parte, como um jovem, em busca de um esconderijo.

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VIGIAR E PUNIR — MICHEL FOUCAULT – (Filósofo, França)

A certeza de ser punido deve desviar o homem do crime e não mais o abominável teatro; a mecânica exemplar da punição muda as engrenagens. Por essa razão, a justiça não mais assume publicamente a parte da violência que está ligada a seu exercício // Quase sem tocar o corpo, a guilhotina suprime a vida, tal como a prisão suprime a liberdade, ou a multa tira os bens // Apresentamos exemplo de suplício e de utilização do tempo. Eles não sancionam os mesmos crimes, não punem o mesmo gênero de delinquentes. Mas definem bem, cada um deles, um certo estilo penal. Menos de um século medeia entre ambos. // Desapareceu o corpo supliciado, esquartejado, amputado, marcado simbolicamente no rosto ou no ombro, exposto vivo ou morto, dado como espetáculo. Desapareceu o corpo como alvo principal da repreensão penal.

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ALEXANDRE LACASSAGNE – França – “A sociedade tem os criminosos que merece.

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Imagem: Darlan M Cunha

VINCENT (Starry, starry night) >>> DON MCLEAN >>> (EUA): https://www.youtube.com/results?search_query=vincent+starry+starry+night

Ar

As medidas do som no Tom

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     Tive esse disco (doei), e essa foto é a de maior personalidade que já vi de um músico em ação: pernas esticadas, coração tranquilo no vento vadio, consciente de que as rosas falam (às vezes, não), de que é doce morrer no mar, enfim, é um resumo quase completo da pergunta ancestral pois é, pra quê ?, tão antiga quanto a primeira das perguntas.

     Essa foto foi feita talvez com alguma rolleyflex, senão pelos olhos de algum passarim porventura naqueles momentos sobrevoando o Corcovado, Ipanema e outras dádivas. Bem se vê que não estava chovendo na roseira, que o tempo estava bem mais para água de beber, nada de desafinado, chega de saudade, de insensatez, o que se quer pode não estar longe daqui, de mim e de ti. Se estiver longe, fiat lux / faça-se luz, faça-se um samba no avião rumo a Pasárgada ou ao além-lá dos nove círculos infernais da Divina Comédia.

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Coleção MÚSICA POPULAR BRASILEIRA, idealizada por MARCUS PEREIRA, a partir de 1973. MARCUS faleceu em 1981.

Foto no blog RONALDO EVANGELISTA: https://ronaldoevangelista.wordpress.com/category/flauta/

Texto: DARLAN M CUNHA.

OBS.: Todas as alusões musicais que inseri nesse texto estão nas Tags e nas Categorias.

 

 

cotidiano 4

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     Rabiscar os rostos da aldeia, de sua santíssima trindade, pode parecer heresia – porém, como é que algo ou atitude pode se parecer com aquilo que já não existe ? Salvo engano, nada mais, em lugar nenhum do mundo vasto mundo é heresia. Degolar caules frescos é corriqueiro (imagino-me de joelhos, sem garganta com que validar quem a mãe cingiu de desvelos). Não, nada aqui escrito é para desfile de tropas. Tudo. Ir às ruas é abandonar o medo ou repintar de nervos as esquinas, tornando-as cordas esticadas como uma linha untada com cerol ? É a cabeça, irmão. Tudo é teu, credor de tudo, as ovelhas no cercado, dizem os textos sagrados. Enquanto esperas, reler o Decamerão, o Dicionário do Diabo.

     Rabiscar os pilares da santíssima trindade da aldeia – amor amor amor – não dá fim a ela, só o fogo nos pastos urbanos, o rural trespassado pelas queimaduras do cotidiano, ó, neves da caatinga e águas do Atacama, o ministro fará cair véus, assombros que o Nunca nunca imaginou, ó, a realidade trocará a tua pele tantas vezes quanto o fazem as cobras, e o grito que contivestes será enfim julgado apto por ele que porá de vez sobre os ombros teus a cátedra ministerial belzebuana. Tudo será teu que sou o teu credor invisível.

     As cidades invisíveis existem, de fato e de direito, mas até elas começam a cercar-se de todos os meios, cientes dos gases em ebulição, frases de efeito, palavras sem palavra, as suicidades e monstrópoles de carne e ossos serviram de noção às cidades invisíveis, mas foi em vão, que o invisível já está em debandada. Carona para onde, se não há onde, se nenhuma alusão vai até onde queres ir, se nenhum caminho tem força centrípeta forte o bastante para jogar-nos para fora do curtume ?

Viver, e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e cantar…

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Música: Gonzaguinha. O que é, o que é ? – https://www.youtube.com/watch?v=2iMOXqKTh34