Textos duros: luz & mistério* – 4

Bairro Buritis // BH >>> Cidade dentro de cidade
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FRASES – HÉLIO PELLEGRINO – (Psicanalista. MG, Brasil)

Humor é uma vingança contra o destino, a vingança contra a injustiça, a vingança contra o opressor  //   É uma saída através do riso  //  Todo humor, no fundo, é bondade. O humor transforma-se num exercício de liberdade, e dissolve o rancor  //  O poeta é uma caixa de ressonância, concha acústica, orelha enorme, uma parabólica aferindo – e conferindo – as sílabas dos tempos que estão por vir  //  O tempo passa depressa porque nos distraímos de sua passagem, temerosos de perceber que somos nós que passamos. 

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O INOMINÁVEL – SAMUEL BECKETT — (Nobel de 1969. Irlanda)

Agora não tenho mais do que uma perna, tendo rejuvenescido, ao que parece. Isso faz parte do programa.Tendo me colocado em artigo de morte, em gangrena senil, tiram-me uma perna e epa, eis-me de novo de pé e andando por toda parte, como um jovem, em busca de um esconderijo.

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VIGIAR E PUNIR — MICHEL FOUCAULT – (Filósofo, França)

A certeza de ser punido deve desviar o homem do crime e não mais o abominável teatro; a mecânica exemplar da punição muda as engrenagens. Por essa razão, a justiça não mais assume publicamente a parte da violência que está ligada a seu exercício // Quase sem tocar o corpo, a guilhotina suprime a vida, tal como a prisão suprime a liberdade, ou a multa tira os bens // Apresentamos exemplo de suplício e de utilização do tempo. Eles não sancionam os mesmos crimes, não punem o mesmo gênero de delinquentes. Mas definem bem, cada um deles, um certo estilo penal. Menos de um século medeia entre ambos. // Desapareceu o corpo supliciado, esquartejado, amputado, marcado simbolicamente no rosto ou no ombro, exposto vivo ou morto, dado como espetáculo. Desapareceu o corpo como alvo principal da repreensão penal.

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ALEXANDRE LACASSAGNE – França – “A sociedade tem os criminosos que merece.

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Imagem: Darlan M Cunha

VINCENT (Starry, starry night) >>> DON MCLEAN >>> (EUA): https://www.youtube.com/results?search_query=vincent+starry+starry+night

cotidiano 4

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     Rabiscar os rostos da aldeia, de sua santíssima trindade, pode parecer heresia – porém, como é que algo ou atitude pode se parecer com aquilo que já não existe ? Salvo engano, nada mais, em lugar nenhum do mundo vasto mundo é heresia. Degolar caules frescos é corriqueiro (imagino-me de joelhos, sem garganta com que validar quem a mãe cingiu de desvelos). Não, nada aqui escrito é para desfile de tropas. Tudo. Ir às ruas é abandonar o medo ou repintar de nervos as esquinas, tornando-as cordas esticadas como uma linha untada com cerol ? É a cabeça, irmão. Tudo é teu, credor de tudo, as ovelhas no cercado, dizem os textos sagrados. Enquanto esperas, reler o Decamerão, o Dicionário do Diabo.

     Rabiscar os pilares da santíssima trindade da aldeia – amor amor amor – não dá fim a ela, só o fogo nos pastos urbanos, o rural trespassado pelas queimaduras do cotidiano, ó, neves da caatinga e águas do Atacama, o ministro fará cair véus, assombros que o Nunca nunca imaginou, ó, a realidade trocará a tua pele tantas vezes quanto o fazem as cobras, e o grito que contivestes será enfim julgado apto por ele que porá de vez sobre os ombros teus a cátedra ministerial belzebuana. Tudo será teu que sou o teu credor invisível.

     As cidades invisíveis existem, de fato e de direito, mas até elas começam a cercar-se de todos os meios, cientes dos gases em ebulição, frases de efeito, palavras sem palavra, as suicidades e monstrópoles de carne e ossos serviram de noção às cidades invisíveis, mas foi em vão, que o invisível já está em debandada. Carona para onde, se não há onde, se nenhuma alusão vai até onde queres ir, se nenhum caminho tem força centrípeta forte o bastante para jogar-nos para fora do curtume ?

Viver, e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e cantar…

 

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Foto e texto: Darlan M Cunha

Música: Gonzaguinha. O que é, o que é ? – https://www.youtube.com/watch?v=2iMOXqKTh34

Os tempos não mudam de todo… fingem.

pelourinho

doce chibata, amado pelourinho, santo capitão-do-mato, gentil patrão

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     Até mesmo em Belo Horizonte, cidade quase pacata, se comparada a muitas outras, usar os coletivos tornou-se uma fonte de apreensão e de desprazer, principalmente se você não tem paciência larga, se tem o estopim curto, daqueles que ficam bem perto do barril de pólvora. É o meu caso essa tipologia pessoal e intranferível, mas não intransferível como um cartão de banco, uma URL, uma senha, ou o RG – embora cada vez mais tudo esteja tornando-se vulnerável. Eu disse “quase”. Hackers e piolhos.

     A quantidade de caronas nos ônibus, ou seja, aqueles ônibus que carregam as pessoas através das veias da cidade, é simplesmente de pasmar. Entram, ficam de pé ao lado do motorista, ou assentam-se no lugar onde os idosos põem os pés, quando não se sentam nas poltronas a estes dedicadas, não perdem tempo em cumprimentar ninguém, vários deles com roupas de “grife”, feitas no Paraguai, e seguem conversando, como se tivessem nas mãos o futuro da cidade e do mundo. Talvez até já estejam neste patamar, ou quase. Eu disse “quase”. Não se dignam a olhar para os parvos que estejam ao lado, à frente ou na parte de trás do comboio, certamente porque se sabem distantes,  alijados das benesses do establishment. Assim, parece que cabe a nós trazê-los para a luz, mas não contem comigo, tenho repolhos e tomates para cuidar, lagartas feitoras de seda, totens e tabus, fantasmas, etc. Além disso, preciso ler psicanálise, neurologia, sociologia, música, prosa e poesia, enfim, continuar a aprender a ler e escrever. Êpa !, a panela de pressão está apitando (e este “apitando” serve também como alusão aos fatos sociais).

     Essa postagem me fez lembrar de um poema que é, com justiça, tão famoso: um texto do poeta Eduardo Alves da Costa, de nome No caminho com Maiakóvski, um texto que vai fundo, décadas após escrito, ele ainda bate contra o marasmo, a vontade bamba, o que dá espaço para tipos como os caronas acima citados.

Foto e crônica: Darlan M Cunha

PALIAVANA4: https://paliavana4.blogspot.com

POEM HUNTER: https://members.poemhunter.com/members/club/profile.asp?member=5647848

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     Trecho do poema de Eduardo Alves da Costa (1936 – ), escrito na década de 60. Pseudônimo: Diana Gonçalves. Trazido do RECANTO DAS LETRAS: http://www.recantodasletras.com.br/poesias/5655034

NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

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teor de fogo

os cantos, os atos

os cantos, os atos

 

Quando se morde a língua, nota-se a fragilidade humana, porque durante dias a pessoa mal pode beber água, às vezes, o corte infecciona, que a boca, mesmo lavada e escovada, tem, por natural, muita microbiologia nela.

Mudando de assunto, cortar a língua de alguém é sonho recorrente em todo mundo. Na terra dos outros (não tenho terra de nascença, não sou de estado nem de país nenhum) há um ditado que diz que “quem fala muito, dá bom dia a cavalo”, sendo que “cavalo”, neste caso, é gente grosseira, que nem merece um bom dia.

No meio do mato a gente ainda vê coisas distantes e próximas – as mãos decepadas do futuro, pés só ossos.

Foto e texto: Darlan M Cunha