tempos de um verbo

CONVERSA COM LÊLÊ (+)

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O ex melhor amigo do Homem (sangue, suor e lágrimas)

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O atual melhor amigo do Homem (desconfie)

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O mundo é mutação, de forma que o melhor é não seguir de todo os ventos. Nunca tive gato, cão, maritaca, coelho, mico, lagarto, cobra, passarinho, ave, enfim, mascote, e me arrepio só de pensar que há quem os tenha na própria cama, cheia de mimos e pura teimosia, com a ilusão de fugir do mundo, ao mesmo tempo em que fustiga o humor do parceiro ou da parceira. Não vai longe, não, o tempo em que um cachorro – vira-lata ou pedigree, era o melhor escudeiro, conselheiro e amigo de toda hora; mas, reviravoltas na composição da showciedade, levaram-no a uma posição de inferioridade, de quase esquecimento, jaz por aí, em qualquer lugar, ainda com lugar nalgum museu, os olhos fixos até onde possa ter o que pressentir, orgulhosamente sentado sobre sua bunda, ao lado de algum aventureiro, descobridor, um herói disso ou daquilo. Há tantos casos mundo afora dando conta da fidelidade, da coragem, da intuição canina, que nem é bom começar a falar.

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Fotos e texto: Darlan M Cunha

optar

Paredão ou Luz (Cachoeira da SAMSA. Rio Acima. MG, Brasil)

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Darlanianas

no Dia Mundial das Livrarias

@1.

O rubor chegou e ficou de pé, imprensado contra a parede e contra si mesmo, teve que ouvir frase lapidar, depois dela ouviu prédicas, ladainhas, sermões hiper admoestadores e, por fim, ouvir uma caudal de nome discurso, porque o rubor é indefeso diante de certos fatos. Sua reação é involuntária, sobe e esquenta as faces, às vezes, ele até chora e solta pontapés e palavrões para todos os lados, coerente e incoerente consigo mesmo, pelo que fez e não fez – está vivo, suando frio, mastigando erros e acertos, projetos inconclusos, rios de dúvidas e tristeza, querendo bem longe de si certo tipo de mundo.

@2.

Hoje é dia de temor na aldeia a qual nas sextas-feiras – dia treze ou não – é vigiada com mais minúcias ainda, talvez nada aconteça, como de outras vezes, mas já no início da madrugada soou o alarme, pois uma criança, ou algo parecido, foi vista na ala norte, e logo, horrorizado, o povo notou-a sem rosto, locomovendo-se como se o tivesse, a aldeia se fez de joelhos, seu antigo costume de dar-se de joelhos – menos eu e outros, resolvidos a não darmos fim a tal expiação e bulício, porque talvez o melhor seja rever como é que o povo paga pelo que faz a si mesmo a cada giro da ampulheta.

@3.

Continuando sua explanação, seu delírio momentâneo, ela disse que “homem de roupão é o máximo, vi na tevê” – disse, e eu fiquei na minha, calado que nem um bode ressabiado, tarado com vontade doida de esganar homem roupão cipreste barco arco reflexo e arco e flecha também esganar gato cachorro bolsa de valores incendiar presídios igrejas fóruns quartéis & mil réis, dar sumiço nos pobres parasitas vadias matar todas as baratas a chineladas pulgas e piolhos, enfim, eu fiquei alucinado com aquela ingênua confissão, e foi então que me percebi muito doente, sim, um pré paciente já nos últimos gorgolejos da Razão, tragada por um egoísmo só visto no seio das piores causas, no meio de ruas mais abandonadas e confusas do que certas mentes, eu me notei sem prumo, perdido no meio da aldeia quanto nas veias da casa.

@4.

Temeroso, ao extremo de suar em bicas, levado a custo por gente amiga ao cadafalso – foi assim que ele se referiu ao consultório do urologista, fazendo pilhéria para ver se se relaxava um pouco, pois era preciso, e alguém disse o de sempre: Ó, vai ser bem rápido e indolor – no que aquele paciente com hora marcada não acreditou. Mas foram, sentaram-se dentro do silêncio branco, até que seu nome foi citado, pareceu muito distante, e foi para o exame, de onde voltou radiante, porque nada de câncer prostático, a sua neoplasia é benigna, ou seja, é melhor do que o Mundo. Benigna. Fomos às cervejas. Amigo é pra essas coisas, para a hora difícil.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

MPB_4. Amigo é pra essas coisas (autores: Sílvio Silva – Aldir Blanc): https://www.youtube.com/watch?v=lhi7YIfuwmQ

Ó

Sinta o clima

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Serei breve e sutil. Este aí parece sem inquietações palpáveis, sem anomalias anatômicas, sem hora, sem eira nem beira, mora numa roça da cidade onde nasci – Medina, MG, da qual já falei aqui. Como se vê, a pressa não é o seu forte, nem mesmo para caçar, já que se alimenta à farta no quintal de terra batida, como é de se esperar de uma roça que se preze. Certa vez ele me disse, entre um naco e outro de leitoa, assada como manda o figurino – no rolete -, e uma branquinha, disse que estava amando, e o nome dela “é Júlia”, mas ela não sabia, falou, e eu respondi: Vá fundo, irei aos funerais, e foi o bastante para o gatoboy desandar a choramingar feito um cachorrinho. Ressabiado, até se esqueceu do que estava comendo, após o jato de água fria (muy amigo), e se foi com palavrões felinos e enigmas dos telhados, foi-se para o calor do forno curtir ressaca e dor de cotovelo. Continuei na minha leitoa a pururuca. Fui sutil e breve como um cometa, tal e qual prometi.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

a câmera= vida ou tempo, frente e verso

Revivida pelo artesão Zauss – bairro Santa Cruz, Belo Horizonte, MG.

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Na estrada das areias de ouro *

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Numa foto recente os ídolos cheios de cãs e rugas, quase irreconhecíveis, irreversível é o imponderável pondo a mesa, e há quem perca a coragem de ir ao espelho, de se ver como uma anamorfose, uma imagem distorcida que talvez já seja a sua realidade não percebida, mas quem inventou o pavor não fui eu. Para alguns, pouco importa viver com rugas, hérnia, tremores, catarata, rinite, conjuntivite, diabetes, insuficiência renal, disritmia, alta PA, obesidade, impotência sexual, ai. Noutros, o que mais lhes dá nos nervos é o fato de não saberem o que foi feito daquilo que não fizeram, dos trevos que encontraram e não entraram, e hoje acordaram de analisar o Tempo, o que fizeram ou não fizeram dele os ídolos e os fãs que já deixaram as motos, as passeatas e bandanas, comem e bebem pouco, pois o tempo avisa dos riscos, mas a música continua, e assim é que quando ouves alguma daquelas joias, reentras na estrada, e tome ponta-cabeça em beiras de estradas, vilarejos, amor de uns dias, vidas de um dia, e tome estrada, lá onde não se fica velho, engano, fake news, querem nos enganar, desconfie dos baratos, de deus e do diabo, tudo, já ponho o viés de volta na estrada, caminhos de pedra & seda, risco de perdas & danos – como convém. Vamos, o mundo está farto de toc, balcões, refrigerantes, igrejas e refugiados. Eu quase me esquecia de uma vítima da Grande Gastronomia, o glúten, mais antigo do que o primeiro cozinheiro. Ora, direis, és mesmo um tipo para se odiar. Não tens o que fazer, a não ser satirizar ? Tenho, sim. Por exemplo: ainda hoje, cuidarei de uma pequena cirurgia a ser feita na minha mãe, Dona Maria. O Mundo pode ser pétala e sépala, Mãe é Mãe, ou seja, é um universo à parte.

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Texto e foto: Darlan M Cunha

A Horse With No Name >>> Ventura Highway. AMERICA : https://www.youtube.com/watch?v=4N-OiKzZjws >>> https://www.youtube.com/watch?v=4N-OiKzZjws

ELOMAR FIGUEIRA MELO. Na estrada das areias de ouro: https://www.youtube.com/watch?v=5XO2bqGY5rY

Acharás a bola, talvez, o rumo de casa

suor

Somorra & Godoma

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@1.

Eis a esquina onde a Comédia foi agredida e escorraçada feito uma cadela já bêbada, vândala; mas não te assustes, porque daqui se pode sair quando nos últimos estertores, após uma sova severa, exemplar, eis a libidinosa Filosofia, após levar uma curra corretiva, por assim dizer, nesta rotatória o mundo de muitas opções ruiu diante da voracidade de uns poucos, tantos e tantas, elos são feitos e desfeitos num vu, num mesmo protesto, pelo que se depreende que toda esquina, parece, tornou-se prejudicial à saúde; mas, sem perigos à vista, sem estupores, sem a caligrafia moldando o verbo “ir”, em que se resumiria o Homo sapiens sapiens (título dado por ele mesmo) ? Não sendo de Pasárgada, vou para minhas casas sempre invejadas e invadidas: Somorra e Godoma.

@2.

Quero para mim o que não desejo para o Outro, desculpe-me o ego, mas é que sem tormentas ninguém sabe que existe algo de nuvem sobre o plano geral, e assim assumo todas as negras embalagens do céu – fico com todas elas, caro Senhor Vendeiro, que o Povo não as merece, que o Amor não padeça delas. Fico com o breu áspero desta neblina, daquela cerração, destes cúmulos e destes cirros, todos, que o dia de céu limpo, enfim, chegou. |Dou-vos.

VIAJAR É MAIS QUE O QUE HÁ ENTRE MUROS & PAREDES, FOSSOS, PONTES PARTIDAS, TOSSE REUMÁTICA, DOR DE AMOR. ESCUTE ESTA CANÇÃO.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

AMERICA. VENTURA HIGHWAY : https://www.youtube.com/results?search_query=america+ventura+highway

Só se enxerga assim ?

Anonimato numa época de Privacidade morta.
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Não te sentes parecido ou parecida com um centauro, uma medusa ou uma sereia, enfim, com as infinitas impossibilidades do Nada ? A última notícia que se tem é a de que não foi possível localizar o que se procura, o impasse continua, então, se o mistério não toma forma suficiente para ser deletado, nada de ovo no front, de vida nova.

E tu como te sentes entre o sobe e desce das escadas, quando não sob a insistente mensagem chamando, enquanto atravessas uma perigosa via de acesso ao atropelamento ? Atenda !

Em Lisboa, começa hoje, 4, um encontro internacional: WEB SUMMIT. Talvez decida-se o preço dos nossos curativos, o improvável do pão. É pau, é pedra, é o sim no caminho, ou não ?

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Foto e texto: Darlan M Cunha

mundo

ovo óvulo oval ovóide – Ovação, começo do mundo
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O que se sabe da história do ovo ? Não, nada de brincar com a cansativa pergunta sobre o que terá vindo primeiro ao mundo: ovo ou galinha. Mistério que ao cemistério vai.

Calma, deixe a cebola suar, depois, desfrute, até porque o mundo demorou a ser o que ele é hoje, e ainda assim o eixo dele continua inclinado e, igual aos seres que o habitam, é de se desconfiar dele(s). Aproveite o dia, com alardes, vocais intempestivos, mas adivinhe qual é a cor do púbis da mulher do Diabo, dos sovacos de suas concubinas, dos cílios e unhas de suas filhas. Adivinha quem irá para o trono, hoje, porque amanhã outro caminho será, um novo rio te banhará.

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Foto e texto: Darlan M Cunha

solitude

EDWARD HOPPER (USA) – Night-shadows, 1921
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A EDUCAÇÃO PELA PEDRADA

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Incógnita durante o voo

uma pedra caiu no quarteirão

vizinho, logo

duas e mais pedras retornaram

reabrindo o vínculo de parábolas,

o círculo de fogo pulverizando tudo

de forma que em breve faltará pedra

e a educação pela pedrada

ficará em maus lençóis, vazios.

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Poema: Darlan M Cunha