onírico 2

Pés não são asas

O paciente alegou inquietação a respeito de um sonho recorrente: os pés sempre parados, descalços ou calçados, sujos ou limpos, femininos ou masculinos, às vezes, parece-lhe que a mesma criatura tem um pé feminino, e o outro é masculino – de modo que o imaginário voa até dar com algum obstáculo enevoado, duro, sem se mostrar, e o sonho ou pesadelo acaba em suor, ânsia de ir-se à rua na madrugada, nada de clonazepam ou de familiares deste, prefere vodka com água de coco, sentar-se no sofá, só o silêncio provedor, silêncio amigo, e nenhuma pergunta, até porque há tantas que nenhuma tem primazia. Achava que sonhar, tendo os pés num mesmo lugar, significava o chamado do azar, se não da morte à porta (o óbvio costuma ser difícil, anula a Razão), é preciso um par de asas, e acrescentou que um trecho aparece no sono, no mundo do deus Hipnos: Enquanto a chama arder...

Darlan M Cunha

Beto Guedes & Djavan. Amor de Índio. : https://www.youtube.com/watch?v=Fe_nLBD9Hh4

simplesmente

Ah… de ACARAJÉ (PRAIA DO FORTE, MATA DE SÃO JOÃO – BAHIA)

Há muito não vais ao mar / sentes que algo te chama, / és das montanhas, e o grande azul te invoca, / batendo com suas pedras de sal na tua cabeça, / esfregando as moedas da ânsia em tuas pernas e braços / sentes que deves ir a outros tipos de ondas.

PROJETO TAMAR – PARIA DO FORTE, BAHIA

Teu mar atual é o de nadar / em noitícias ? Há muito tempo és noctívago / teu bar é a saleta de memórias, cinzas, / alguma tela torta na parede / o sofá é o teu oceano, claro / é preciso ir a algum lugar / trabalhar cansa, lavorare stanca – diz uma turista, / deves partir, amanhã.

RAY VIANNA. Escultura “ODOYÁ”. PRAIA de SANTANA. RIO VERMELHO, SALVADOR, BAHIA. (Mesmo desatento que estava no momento, de repente, pressenti, e fiz a foto).

Disseram para não colocar nenhuma palavra na boca da ficção, estupefato, amargou no aparelho digestivo certas lições que diluem o raciocínio que porventura ainda se tenha, e foi devido a isso que a estupefação, o desânimo e por último o desespero subiram no seu costado, esporas e chicote, tinham avisado para não se endividar com a clareza, não fazer nenhuma frase na terra da ficção, em vão, que ser humano é ser ficção, delírio e delíquio, relíquias malditas e benditas, poço fundo e areal viscoso é o humano, erros e seus ecos, o riso na boca de cada poro, desgraças mil graças, foi dito para cortar a língua da palavra, fechar o caminho a cada palavra que ouse ser lavra, palavra, notícia, nuvem, pó… em vão, pois ser Ser Humano é plantar verde para colher maduro. Uai, Ó Xente, Barbaridade Chê !

Darlan M Cunha

CHICO BUARQUE / ROBERTO MENESCAL. BYE BYE BRASIL: https://www.youtube.com/watch?v=5oYLRRo8sTY

FRANK SINATRA. MY WAY. : https://www.youtube.com/watch?v=LQzFT71LCuc

modos

RELÓGIO-CARANGUEJO NO MUNDO NO PAÍS CARANGUEJO. Bar do VALTINHO – MEDINA, MG

***

Às vezes, quase sempre, a humanidade mostra quem ela é de fato, o que ou o quanto ela quer e/ou pode, até porque, como diz o povão, na sua insígne escuridão, querer não é poder, mas ninguém segue este conceito ou preceito, vai mais além, e torna as coisas ainda mais difíceis, um sapo difícil de ser engolido. Só rindo, depois, chorar. Neste satírico relógio aí acima, num bar da cidade onde nasci, Medina, no Vale do rio Jequitinhonha, MG, essa beleza dá um tapa de luva e um chute venenoso na bunda da Showciedade. Só rindo, sem chorar, a não ser chorar de rir, de tamanha cegueira cotidiária (não te lembras do José Saramago, no Ensaio sobre a Cegueira ?), de tantos caranguejos danando-se intra e extramuros, eis que nas ruas, nos lares e escritórios não há lugar em que a santa e pagã estupidez não tenha vez de primazia, ó agonia.

Calma, garota, calma, rapaz, vai dar tudo certo, tudo vai bem, tudo legal, cerveja, samba, e amanhã, seo Zé, se acabarem com o teu carnaval ?, diz a canção Comportamento Geral, do saudoso Gonzaguinha, que morou aqui na Pampulha. Mas, vamos que vamos, Uai, ainda que no rastro ou no dizer da plebe ignara, da súcia mefistofélica, da ralé social, dos párias (uma das castas da Índia, bem rente ao chão). Vâmo qui vâmo, coroados e coroadas, à sempre-viva, sempre rindo, ó vidinha obscura é este enredo pela metade, e quase tudo se torna ou fica no dandismo, feminismo, machismo, e mil outros ismos, e no domingo aquela galinhada e aquela macarronada, segunda-feira é só outro dia – sábias palavras. Bom, vou cuidar da minha horta, porque plantar jardim só nos dá a feroz inveja alheia, o Cão nosso de todo o sempre; então, nada de pôr a barba de molho ou de esquentar sofá, abrindo a geladeira, o mundo é vasto mundo, mesmo ou ainda se mais pegando fogo:

REGIÃO do bairro ESTRELA DALVA, VISTA A PARTIR DO APÊ no bairro BURITIS, BELO HORIZONTE.

Nada como uma noite diferente, a qual talvez seja capaz de nos fazer pensar de um modo diferente a respeito de tantos fatos a dois palmos do nariz, que passam despercebidos. Neste fogaréu aí acima, felizmente, ninguém se feriu. Fiz a foto, e continuei a fazer o que sei: pensar, e então, que a ação sugerida no verbo agir só venha em função disso: pensar. Calma, boa gente, tem coisa boa para essa tua sexta-feira, dia 14:

E MAIS NÃO E DIGA… BENVINDOS, AMIGAS & AMIGOS.

Darlan M Cunha

ELZA SOARES canta COMPORTAMENTO GERAL (GONZAGUINHA): https://www.youtube.com/watch?v=Ttn6V_r3D9Y

então ?

“COM QUE ROUPA ?” (NOEL ROSA)

AULA MAGNA DA DÚVIDA

*

Aonde vai essa vontade tonta, seriedade tanta ?

Para onde, caro, essa cara nada amorfa,

signos de alegria, mistério e, talvez, de mofa ?

Para onde vai esta ânsia de instância veloz,

se não para fora do dia comum e da noite feroz ?

Aonde vais com tanta saudade nos ombros ?

Até onde levarás essa tamanha maldade ?

Para que correr atrás de assentos e ventos,

para votar ou saudar outros tetos sem alentos ?

Ao que irás neste dia de nebulosa porfia,

e a quem irás servir a foice ou a pá da aleivosia ?

Diga, como Satã: Irei mais para dentro de mim.

Diga, como digo eu, e não ao feitio de Salomão,

de César, de Alexandre, do vate de um olho só,

do monge russo ou do maneta de Alcalá de Henares.

Diga e aja como o Visgo ou o Inerente

o Inevitável o Uno o Móvel de Todas as Ânsias:

– Para onde vou nem o Amanhã saberá.

***

Darlan M Cunha

MPB-4. Canto dos Homens.: https://www.youtube.com/watch?v=cJ_RullMXL8

rede(s)

COISAS DA CASA, DE CASA

Um homem e um anzol, mas onde o peixe que virá ou não virá entre o altercado das ondas, ou no silêncio de uma água lisa feito vidro ? Joga o homem suas iscas sobre o peixe, isso porque o homem, por se achar sapiens, é também celeiro de truques; isso porque o homem, por sagaz, outras ilusões ou espertezas inventa, e joga sobre o peixe uma fieira de anzóis, ou joga a rede ou joga na água uma bomba, e joga também sobre outros homens outras mil bombas, pelo que os peixes e as algas simplesmente morrem, eis a plástica prática dos dias: ene motores de popa, sonares, radares, mas há os atrasados no Tempo, sim, certos índios amazônicos tonteiam os peixes com um narcótico extraído de uma planta ou cipó de nome timbó, mas os peixes também se fizeram cada vez mais espertos contra o faminto lá em cima, e se unem, avisam, sempre atentos, enquanto comem uns aos outros. Ó vida de lutas sem fim !

A TRISAVÓ E AS PROVAS CABAIS DO CRIME BÁRBARO, HEDIONDO.

Darlan M Cunha

DORIVAL CAIMMY. O Bem do Mar.: https://www.youtube.com/watch?v=W9iiFNNOAwE

materno

BRISA NA VIDA…

Fluxo

Nasci antes dela / mas nos mesmos termos vivemos / as pausas e os cansaços. / Sou mais velho do que a Mãe, / e se muitas foram as vezes em que a deixei / no solo do desespero, / muitas vezes também levei água e sol / na peneira, na carreira, / mas chegava, intacto, / os poros em dia com a presteza filial. / Bem ou mal, ainda dou a ela / o meu diário, sacro ou hilário, é meu, / que ao seu redor espalho / feito um camponês com seu milho e seu alho, / uma médica com o seu colar de vida / bem distribuída (eis que, recuperados, os pacientes retornam / ao fado diário, à luta mais dura na crista de outra água / profunda, porque ainda e sempre funda é a trilha).

Meus dias são anteriores aos de minha Mãe, / os dias escavados na fome e na sede, sem bula e sem rede, / tendo por água uns filetes de fel; / por pão, amores dissolutos,  / assados na cal virgem, enfim, / um jovem que roçou as paredes / da poesia, no chão do medo e no teto do riso, / quase em vão, o coração duro, / as veias inchadas demais para ser paciente. / Sou mais antigo do que o dilúvio e do que as dúvidas / sobre o dilúvio, sou anterior à Minha e à tua Mãe, / e se mais me faço andar por trilhas / nunca antes vistas, é que o mundo / só usa os mesmos caminhos, / as mesmas antíteses: preto e branco, bom e ruim, quente e frio, / são poucos caminhos, e isto precisa ser melhorado, / até porque é preciso arcar com os pesos e medidas.

Sou, portanto, mais etéreo do que a morte, anterior a mim mesmo. Tu também és o avesso.

Darlan M Cunha

Dorival Caymmi. Das Rosas. : https://www.youtube.com/watch?v=xiPGU3BaS6A